Entre Grades e Destinos
20 O Prazo Final
Mais alguns meses haviam se arrastado, consolidando a rotina sufocante que Damon Blake havia imposto no Vermont. Para os moradores da pacata cidadezinha, ele era o parceiro dedicado da Dra. Park, o homem de negócios que havia assumido as responsabilidades familiares. Damon agora circulava livremente pela casa de Ashley. Ele possuía as chaves, cozinhava o jantar e esperava por ela no final do dia.
O pior golpe para o coração de Ashley, no entanto, veio da inocência do filho. O pequeno Pietro, convivendo diariamente com a presença constante e dominante do tio, havia aprendido a balbuciar suas primeiras palavras. E, sob o olhar vitorioso de Damon, o menino aprendeu a chamá-lo de "pai".
Em uma noite de quinta-feira, Ashley girou a maçaneta e entrou em casa exausta após uma longa jornada de atendimentos no consultório. O aroma de molho de tomate artesanal e manjericão vinha da cozinha, mas a sala estava imersa no silêncio.
Ela caminhou até a sala de estar e parou, o peito apertando diante da cena. Damon estava sentado no sofá, com a cabeça inclinada para trás, dormindo profundamente. Em seu peito largo, o pequeno Pietro, agora com quase um ano e meio, dormia ressonando baixinho, com os bracinhos gordinhos abraçados ao pescoço do tio.
Ashley soltou um suspiro longo e pesado, os olhos fixos nos dois. Era impossível não notar a semelhança física: Damon e Matteo tinham a mesma estrutura óssea, os mesmos cabelos escuros e a mesma beleza marcante. Mas as semelhanças paravam na superfície. Na memória de Ashley, Matteo era carinhoso, protetor e genuíno, mesmo carregando as marcas do passado; seu olhar transmitia uma segurança que a acolhia. Damon, por outro lado, era puro deboche e ameaça velada. Nos últimos meses, ele vinha testando os limites do acordo, agarrando-a contra a vontade nos cantos da casa, distribuindo beijos possessivos em seu pescoço e a deixando constantemente assustada e sob vigília.
O leve barulho dos passos de Ashley fez Damon abrir os olhos. Seus olhos escuros focaram nela e o sorriso de canto surgiu instantaneamente.
— Ah, você chegou, loira — ele sussurrou, a voz arrastada pelo sono.
Com uma delicadeza que só exibia quando lidava com o menino, Damon segurou Pietro, levantou-se do sofá com cuidado e caminhou até o quarto do bebê. Ashley sentou-se no sofá, massageando as têmporas, tentando se preparar mentalmente para o que viria a seguir.
Minutos depois, Damon retornou à sala, fechando a porta do corredor. Ele a viu sentada ali, de cabeça baixa, e caminhou em sua direção. Sem pedir licença, ele se ajoelhou no tapete, bem em frente às pernas de Ashley. Ele segurou um dos tornozelos dela e, com calma, retirou seus sapatos de salto.
— Você trabalha demais, doutora — Damon disse, a voz mansa, começando a massagear os pés dela com movimentos firmes.
Ashley tencionou o corpo, tentando recolher as pernas de forma sutil.
— Não precisa, Damon... eu estou bem, só estou cansada.
— Shh... relaxa — ele ordenou, subindo as mãos pelos tornozelos dela, apertando a pele macia de suas panturrilhas. As carícias, inicialmente terapêuticas, foram se tornando mais ousadas e intencionais, subindo pela linha de suas pernas e fazendo o tecido do vestido dela subir. — Eu cuidei do nosso filho a tarde toda. Eu mereço um pouco de atenção quando você chega em casa, não acha?
Antes que Ashley pudesse formular uma desculpa, Damon se impulsionou para a frente. Ele subiu no sofá, prendendo o corpo de Ashley contra os estofados, ficando completamente por cima dela. Suas mãos subiram para o rosto da loira, prendendo-a ali, e ele a beijou com uma fome avassaladora e impositiva.
Ashley sentiu o pânico sufocá-la. O peso do corpo dele e a invasão de seu espaço pessoal dispararam todos os seus alertas de sobrevivência. Ela começou a empurrar os ombros firmes dele com as duas mãos, virando o rosto para quebrar o contato, a respiração totalmente desregulada.
— Para, Damon! Por favor... para! — ela pediu, a voz saindo em um misto de choro e firmeza. — Eu já disse que não estou pronta para isso! Me deixa levantar!
Ao ouvir a rejeição, o feitiço do carinho fingido se desfez. Damon se levantou de cima dela com um salto, o rosto contraído pelo ódio e pelo orgulho ferido. Ele passou a mão pelos cabelos, encarando-a de cima com os olhos injetados de raiva.
— Até quando, Ashley?! — ele esbravejou, a voz ecoando pelas paredes da sala, embora contida para não acordar o menino. — Eu passei meses jogando o seu joguinho de puritana! Eu cozinho para você, eu protejo você e o bastardo do meu pai, eu sustento a mentira de que sou o pai daquela criança! E tudo o que eu recebo em troca é a porcaria da sua frieza! Você acha que eu sou o quê? O Matteo?
Ashley ajeitou o vestido de forma estabanada, encolhendo-se no canto do sofá, as lágrimas de medo começando a rolar por suas bochechas.
— Damon, por favor...
— Cala a boca! — ele sibilou, apontando o dedo na direção dela, a aura perigosa da máfia Blake emanando por cada poro. — Presta bem atenção, garota. Se você não me aceitar de uma vez por todas, se você continuar me rejeitando como se eu fosse um monstro, eu acabo com você. Eu ligo para o Ricardo amanhã. Eu entrego a existência do Pietro e assisto de camarote o meu pai colocar os soldados dentro desta casa para arrancar o menino de você. E depois eu mesmo garanto que você perca esse diploma de merda e nunca mais consiga emprego nem para limpar banheiros nesta cidade!
O pavor de ter o filho arrancado de seus braços fez Ashley desabar. Ela juntou as mãos, olhando para ele com os olhos suplicantes, o peito subindo e descendo pelo desespero.
— Não... por favor, o Pietro não! Eu imploro, Damon! — ela soluçou, a voz embargada. — Eu só... eu só preciso de tempo! Eu passei por muita coisa, a minha mente está confusa... Eu preciso me acostumar com a ideia de nós dois, me acostumar com você desse jeito. Por favor, me dá um tempo!
Damon cruzou os braços, o maxilar cerrado, analisando o pranto desesperado da mulher à sua frente. A submissão dela inflou o seu ego doentio. Ele deu um longo suspiro, caminhou até a poltrona e pegou sua jaqueta de couro, vestindo-a lentamente.
— Um tempo, é? Tudo bem, loira. Eu vou te dar o seu tempo — ele disse, a voz fria e calculista, com um sorriso cruel retornando aos lábios. — O Pietro faz dois anos daqui a quatro meses. Esse é o seu prazo. No aniversário de dois anos dele, nós vamos oficializar as coisas. Você vai ser minha mulher de verdade, na minha cama, ou o acordo acaba e você perde o moleque. Quatro meses, Ashley. Nem um dia a mais.
Damon caminhou até a porta da frente, abriu-a e olhou para ela uma última vez sobre o ombro.
— Aproveite bem o seu tempo. Porque no aniversário do Pietro, a brincadeira de casinha acaba.
Ele saiu, batendo a porta com força, deixando Ashley inteiramente sozinha no sofá, encolhida, chorando o pranto da mais profunda impotência. O relógio havia começado a correr, e a contagem regressiva para o seu pior pesadelo estava oficialmente aberta.
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