Entre Grades e Destinos
19 O Jogo do Predador
A noite no Vermont havia trazido uma tempestade de neve silenciosa, cobrindo as ruas da pequena cidade com um manto branco e gelado. Dentro da nova casinha de Ashley, o ambiente era o oposto: a lareira estalava baixinho, e o som abafado de um filme qualquer na televisão servia de fundo para o silêncio da casa. O pequeno Pietro já estava trancado em seu quarto, dormindo o sono pesado e inocente dos bebês de um ano.
Ashley estava sentada no sofá, enrolada em um cobertor, com os olhos fixos na TV, mas a mente longe. Cada sombra que se movia pela janela a fazia saltar. Viver sob a teia de chantagem de Damon Blake era como caminhar em um campo minado.
O som repentino e firme de três batidas na porta da frente cortou o silêncio como um estalo.
O coração de Ashley deu um salto. Ela se levantou devagar, deixando o cobertor de lado, e caminhou até a entrada. Ao espiar pelo olho-mudo, seu estômago revirou. Era ele.
Ela destrancou a porta, abrindo apenas uma fresta, mantendo o corpo como uma barreira. Damon estava parado ali, com os ombros salpicados de neve. Ele usava um sobretudo escuro elegante e, nos braços, carregava um enorme buquê de rosas vermelhas de estufa e uma cesta de vime sofisticada, recheada com uma garrafa de vinho caro e aperitivos finos.
— Damon... o que você está fazendo aqui a essa hora? — Ashley perguntou, a voz saindo em um sussurro tenso, com medo de acordar o filho. — Por favor, vá embora. Nós não combinamos nada para hoje.
Damon não respondeu com palavras. Com um sorriso de canto, magnético e perigoso, ele simplesmente deu um passo à frente e colocou firmemente a ponta de seu sapato de couro entre a porta e o batente, impedindo que ela a fechasse.
— Isso são modos de receber o pai do seu filho, loira? — ele ironizou, a voz grave ecoando macia.
Com uma pressão sutil, mas irresistível, Damon empurrou a porta com o ombro, forçando a entrada. Ashley foi obrigada a recuar. Sem pedir licença, ele caminhou até a sala de estar, colocou a cesta e as flores sobre a mesa de jantar e, em seguida, retirou o sobretudo molhado de neve, jogando-o de qualquer jeito sobre uma cadeira. Com a audácia de quem se sentia dono do lugar, ele se jogou no sofá de Ashley, esticando os braços longos pelo encosto.
Ashley respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para conter o tremor de raiva e medo que ameaçava dominá-la. Ela sabia que não podia confrontá-lo diretamente; precisava jogar o jogo dele para manter Pietro seguro.
Ela caminhou até a cozinha em silêncio. Pegou uma bandeja de prata, organizou os queijos, os bombons e os aperitivos que ele trouxera, e abriu a garrafa de vinho. Voltou para a sala, colocando a bandeja na mesinha de centro junto com duas taças de cristal.
Em seguida, Ashley sentou-se no sofá. Mas ela fez questão de se encostar no braço oposto do estofado, deixando a maior distância possível entre ela e o homem.
Damon soltou uma risada baixa, achando graça da defensiva dela. Ele se inclinou para a frente, serviu as duas taças com o líquido rubi e, em vez de continuar onde estava, arrastou-se pelo sofá até sentar-se bem próximo a ela, eliminando qualquer espaço pessoal. Seus joelhos quase se tocavam. Ele estendeu uma das taças na direção dela.
— Para você, doutora. Relaxe um pouco. Eu não mordo... a menos que você peça — ele provocou, os olhos escuros fixos nela.
Ashley aceitou a taça apenas para manter as mãos ocupadas e não demonstrar o quanto tremia.
— O que você quer, Damon? — ela perguntou, olhando para o vinho, evitando o contato visual.
Damon deu um gole em sua bebida, recostando-se mais perto dela, o perfume dele preenchendo o espaço. Sua expressão, antes puramente sarcástica, suavizou-se para algo que lembrava uma admiração quase genuína.
— Sabe, Ashley... eu passei os últimos meses te observando andar por essa cidadezinha — ele começou, a voz caindo para um tom íntimo e pensativo. — Eu vi você construindo o seu consultório do nada, vi você andando sozinha, livre, cuidando desse bebê com uma força que eu nunca vi em nenhuma mulher em Nova York. Naquele mundo de onde eu venho, as mulheres são fúteis, só querem dinheiro e joias. Mas você... você é real.
Ele estendeu a mão livre, tentando tocar uma mecha do cabelo loiro dela. Ashley, de forma sutil, inclinou a cabeça para trás, fingindo ajeitar a postura, desviando do toque. Damon percebeu, mas apenas sorriu, continuando:
— Agora eu entendo por que o meu irmão se encantou por você. Entendo por que o Matteo ficou tão imbecil ao ponto de querer largar o império da família, peitar o nosso pai e arriscar a própria vida. Você tem algo que prende um homem, loira. E agora que o Matteo te perdeu por covardia... eu não pretendo cometer o mesmo erro.
A conversa se estendeu por quase uma hora. Damon falava sobre seus planos para o Vermont, sobre como pretendia "prover" para ela e para Pietro, soltando promessas disfarçadas de afeto que, no fundo, eram cercadas pelas correntes da chantagem. Ashley mantinha-se firme, conversando o necessário, usando sua habilidade psicológica para desviar o assunto sempre que o clima ficava tenso demais.
Em duas ocasiões, Damon tentou se inclinar para roubar um beijo de seus lábios, mas ela, com agilidade, virava o rosto no último milésimo de segundo, fazendo com que os lábios dele tocassem apenas a sua bochecha ou a linha do seu maxilar. Ela sorria amarelo, mudando de assunto, oferecendo mais um pedaço de queijo ou comentando sobre o frio da cidade. Damon aceitava a esquiva com um brilho de caçador nos olhos, saboreando a resistência dela.
Por fim, a garrafa de vinho chegou ao fim. Damon olhou para o relógio de pulso e soltou um suspiro, levantando-se do sofá.
— Bem... o dever me chama no porto logo cedo. É hora de ir — ele disse, pegando o sobretudo.
Ashley sentiu um alívio avassalador inundar seu peito. Ela levantou-se rapidamente e o acompanhou até a porta da frente, ansiosa para trancá-la e correr para o quarto de Pietro.
Ela abriu a porta, deixando o ar frio da noite invadir o hall de entrada.
— Obrigada pelas flores, Damon. Boa noite — ela disse, mantendo a voz polida.
Damon vestiu o sobretudo, mas antes de cruzar o batente, ele parou. Com a velocidade e os reflexos que herdara do treinamento da máfia, ele segurou a cintura de Ashley com uma das mãos, puxando o corpo dela contra o seu com força, enquanto a outra mão subiu para a nuca da loira, prendendo os seus cabelos.
Antes que ela pudesse desviar, Damon selou seus lábios nos dela.
O beijo foi intenso, possessivo e cheio da fome que ele vinha acumulando. Ashley, pega de surpresa e temendo que qualquer resistência violenta pudesse estragar o acordo e colocar o filho em risco, acabou cedendo por alguns segundos. Ela permitiu o contato, sentindo o gosto do vinho misturado ao perigo que aquele homem representava. No entanto, o rosto de Matteo piscou em sua mente. Tomada por uma onda de repulsa mista com pânico, ela apoiou as duas mãos no peito de Damon e o empurrou para trás com firmeza, quebrando o beijo e limpando os lábios com as costas da mão de forma instintiva.
Damon cambaleou um passo para trás, pisando na neve da varanda. Em vez de ficar irritado, ele soltou uma gargalhada alta, os olhos brilhando com o triunfo de ter conseguido o que queria.
— Eu disse que você ia acabar cedendo, loira — ele piscou para ela, ajeitando a gola do casaco. — Até o jantar de amanhã. Tchau, querida.
Ele virou as costas e caminhou em direção ao seu carro importado estacionado na calçada, sumindo na escuridão da nevasca.
Ashley bateu a porta com força, girando a chave três vezes. Ela encostou as costas na madeira, deslizando até o chão, o peito subindo e descendo com força enquanto o medo e a angústia a dominavam novamente. A teia de Damon estava se fechando, e ela estava ficando sem ar.
Fale com o autor