​O som do trânsito de Nova York parecia abafado pelas paredes finas do pequeno apartamento no Brooklyn. Ashley Park encarava a tela do notebook com os olhos arregalados, a respiração presa na garganta. O logotipo oficial do Departamento de Correções do Estado brilhava no topo da mensagem.

​De: Departamento de Recursos Humanos – Complexo Penitenciário de Rikers Island

Para: Ashley Park

Assunto: Convocação e Aprovação de Estágio Profissionalizante

​Prezada Srta. Park, informamos que sua candidatura ao programa de reinserção social foi aceita. Apresente-se amanhã, às 08h00, no setor administrativo para a assinatura do contrato e início das avaliações clínicas...

​Ashley soltou o ar de uma vez, levando as mãos trêmulas à boca. Era real. O governo havia pago seus estudos, e agora ela tinha a chance — e a obrigação — de provar que cada centavo investido naquela órfã valera a pena.

​A porta do apartamento se abriu com um estrondo, e Sofia Fernandes entrou, carregando duas sacolas de supermercado e chutando os sapatos para os lados. Sofia dividia o aluguel, as contas e os dramas da vida adulta com Ashley desde o primeiro ano da faculdade.

​— Menina, você não sabe o caos que está o metrô hoje! — Sofia reclamou, jogando as sacolas na bancada da cozinha americana. Ela olhou para Ashley e franziu a testa, notando a palidez da amiga. — Ei, que cara é essa? Parece que viu um fantasma. Ou pior... a fatura do cartão de crédito.

​Ashley girou a cadeira de escritório, um sorriso nervoso surgindo em seus lábios.

​— Eu consegui, Sofi. O e-mail chegou.

​Sofia congelou por um segundo, os olhos brilhando de empolgação.

​— Não brinca! A vaga na clínica do centro?

​— Não... — Ashley engoliu em seco. — A vaga de estágio e emprego integrado. Em Rikers Island.

​O sorriso de Sofia sumiu instantaneamente. Ela cruzou os braços, a expressão mudando para uma mistura de choque e preocupação.

​— Rikers Island? Ashley, você enlouqueceu? Aquilo não é um hospital de custódia bonitinho, é um dos presídios mais perigosos do país! Você acabou de pegar o seu diploma, mal sabe se defender de um assalto na rua e vai se trancar em uma sala com criminosos de alta periculosidade? É perigoso demais!

​— Eu sei que é perigoso, Sofi — Ashley levantou-se, a voz firme, embora o coração batesse rápido. — Mas você sabe como funciona. Eu estudei com dinheiro do governo. Se eu recusar uma convocação direta do sistema prisional para o programa de metas deles, posso perder minhas referências para o mercado. Eu preciso mostrar o meu valor. Eu vim do nada, não posso me dar ao luxo de escolher o emprego perfeito.

​Sofia suspirou, o instinto protetor cedendo diante da determinação inabalável da amiga. Ela caminhou até Ashley e segurou seus ombros.

​— Você é a pessoa mais teimosa que eu conheço. E a mais corajosa também. Mas me promete que vai tomar cuidado? Promete que se sentir um milímetro de perigo, você corre?

​Ashley sorriu, sentindo os olhos marejarem de leve, e abraçou a amiga.

​— Eu prometo. Vai dar tudo certo.

​— Bem... se você quer tanto tentar, boa sorte. Vou preparar um café forte, porque você vai precisar dormir cedo hoje.

​No dia seguinte, o cenário era completamente diferente. O cheiro de café e o calor do apartamento foram substituídos pelo aroma de desinfetante industrial e pelo som metálico de trincos e portões pesados se fechando. Ashley vestia um terno cinza discreto, os cabelos castanhos presos em um coque alinhado.

​Ela foi escoltada até a sala do Delegado-Chefe da segurança, Edward Vance. O homem, um veterano de cabelos grisalhos e olhar endurecido pelos anos de profissão, indicou a cadeira à frente de sua mesa de carvalho.

​— Sente-se, Srta. Park — Vance disse, analisando o currículo dela antes de assinar uma pilha de papéis. — Suas notas na faculdade são impressionantes. Mas o papel aceita tudo. Aqui dentro, a teoria é outra. Os homens que você vai atender são manipuladores natos. Eles usam psicólogos como ferramentas para conseguir a liberdade.

​— Estou ciente dos riscos, Delegado Vance. E estou preparada para manter o distanciamento profissional — Ashley respondeu, mantendo a voz firme e a postura ereta, sem demonstrar o nervosismo que revirava seu estômago.

​— Veremos. Siga-me.

​Vance a conduziu por um corredor cinzento até a ala administrativa do bloco de segurança máxima. Ele abriu uma porta pesada que dava para uma sala retangular. No centro, havia uma mesa de metal parafusada ao chão e duas cadeiras. Havia uma grande janela de vidro espelhado em uma das paredes.

​— Esta será a sua sala de atuação — Vance explicou, apontando para os detalhes. — O vidro é blindado e há guardas do outro lado o tempo todo. Agora, preste muita atenção nas regras de segurança.

​Ele caminhou até o lado de dentro da mesa, onde Ashley se sentaria.

​— Abaixo do tampo da mesa, bem aqui onde fica o seu joelho direito, há um botão de emergência. Se o detento fizer qualquer movimento suspeito ou se você se sentir ameaçada, pressione-o. Em três segundos a sala estará cheia de guardas armados.

​Ashley olhou para o botão oculto, engolindo em seco.

​— Entendido.

​— E mais uma coisa — Vance abriu uma gaveta trancada com chave na parede lateral, revelando um compartimento falso. Ali dentro, havia uma pequena pistola semiautomática. — Esta arma fica trancada aqui. Apenas os funcionários de nível técnico têm a senha do compartimento. Espero que nunca precise, mas se o sistema falhar e você precisar se defender... use-a.

​Ele fechou o compartimento e entregou a prancheta com o contrato de estágio para ela.

​— Assine aqui.

​Ashley pegou a caneta. Suas mãos hesitaram por uma fração de segundo, mas ela assinou seu nome com firmeza. Ashley Park. Não havia mais volta.

​Vance pegou a prancheta de volta, olhando-a com um respeito renovado.

​— Muito bem. Você começa amanhã cedo. E já vamos começar testando o seu limite, Srta. Park. Seu primeiro paciente será Matteo Blake.

​O nome ecoou na sala fria como um trovão. Ashley piscou, tentando manter a fachada de calmaria.

​— O filho de Ricardo Blake? — ela perguntou, o tom de voz quase caindo.

​— O próprio — Vance confirmou, cruzando os braços. — Ele está preso há cinco anos. A família Blake tem advogados poderosos e está movendo o céu e a terra para conseguir a condicional dele. O relatório final depende de você. Se ele está regenerado ou se continua sendo o monstro que o pai criou... é você quem vai me dizer. Tenha uma boa noite, psicóloga.

​— Obrigada, senhor. Até amanhã — ela respondeu, saindo da sala com o coração martelando contra o peito. Matteo Blake. O herdeiro da máfia seria seu primeiro teste. Ela respirou fundo nos corredores, repetindo para si mesma que era apenas um paciente.

​Enquanto isso, nas profundezas da ala de segurança máxima, o som de botas pesadas marchando pelo chão de concreto quebrou o silêncio tenso do Bloco C.

​O policial estancou em frente à cela de número 42. Lá dentro, sentado na borda do beliche de concreto, estava Matteo Blake. Mesmo vestindo o macacão bege padrão do presídio, ele mantinha uma postura imponente. Os cabelos escuros estavam desalinhados, e seus olhos claros fixaram-se no guarda com uma frieza que faria qualquer homem recuar.

​O guarda bateu o cassetete nas grades de ferro, fazendo um barulho estridente.

​— Ei, Blake! Acorda para a vida.

​Matteo nem piscou. Ele apenas inclinou a cabeça de leve, a voz saindo grave e controlada:

​— Eu já estou acordado, guarda. O que você quer?

​O policial soltou um riso sarcástico, mas manteve a distância regulamentar.

​— Vim te dar uma boa notícia. Depois de cinco anos mofando aqui dentro, a diretoria resolveu se mexer. Amanhã de manhã vão começar as suas avaliações clínicas para ver se você está preparado para a rua. Condicional.

​Um brilho sutil de satisfação passou pelos olhos de Matteo, mas ele não permitiu que seu rosto demonstrasse nenhuma emoção. Cinco anos esperando por aquele momento. Cinco anos longe dos negócios da família, observando as ordens de seu pai e os conselhos de sua mãe, Selina, chegarem apenas por cartas criptografadas e visitas vigiadas.

​— Quem vai me avaliar? — Matteo perguntou, levantando-se devagar. Ele era alto, de ombros largos, e a prisão só havia tornado seu corpo ainda mais rígido.

​— Uma psicóloga nova. Uma garota recém-saída da faculdade que conseguiu o estágio do governo — o guarda zombou, guardando o cassetete no cinto. — Então, um conselho de amigo, Blake: é bom você se comportar amanhã. Não tente os seus truques de mafioso com a garota. Se ela assinar um laudo dizendo que você é instável, você vai passar o resto da sua juventude trancado nessa cela. Comporte-se para conseguir sair.

​O guarda deu as costas e continuou sua ronda pelo corredor escuro.

​Matteo caminhou até a pequena fresta de janela de sua cela, olhando para o céu escuro de Nova York que se projetava além dos muros de Rikers Island. Um sorriso de canto de lábio, perigoso e calculado, surgiu em seu rosto.

​— Uma recém-formada... — Matteo sussurrou para si mesmo, os olhos semicerrados. — Perfeito. Isso vai ser mais fácil do que eu pensava.

​Ele não sabia, mas o jogo que estava prestes a começar no dia seguinte mudaria as regras para os dois lados da mesa.