Entre Grades e Destinos
10 As Sombras do Passado
As luzes neon em tons de roxo e azul cortavam a névoa da boate mais exclusiva de Manhattan. O som dos graves da música eletrônica vibrava pelo chão de vidro, mas no camarote reservado do segundo andar, Matteo e Ashley pareciam estar em seu próprio mundo. Eles bebiam champanhe, riam e trocavam carinhos discretos. Ashley usava um vestido preto justo que contrastava lindamente com seus cabelos loiros soltos, e Matteo, relaxado, usava uma camisa social preta com os primeiros botões abertos. O clima era de pura comemoração e paixão.
No entanto, a bolha de felicidade estourou abruptamente quando a cortina de veludo do camarote foi puxada para o lado com violência.
Parado ali, cercado por dois capangas armados, estava Damon Blake, o irmão mais velho de Matteo. Damon tinha trinta e dois anos, olhos frios e um sorriso cruel que carregava a arrogância típica de quem herdara o pior do pai, Ricardo. Ele vestia um terno caro, mas sua postura exalava deboche.
Matteo travou instantaneamente. O sorriso sumiu de seu rosto e ele se levantou devagar, colocando uma das mãos protetoramente na frente de Ashley.
— Damon — Matteo disse, a voz saindo como um rosnado baixo. — O que você está fazendo aqui? Este setor é privado.
Damon soltou uma risada anasalada, dando um passo à frente e olhando para o irmão de cima a baixo.
— Privado para quem, Matteo? Para um cachorrinho adestrado que virou as costas para a própria família? — Damon atacou, a voz carregada de veneno. — O pai está furioso com você. Mas eu? Eu vim ver com os meus próprios olhos a piada em que você se transformou. Cinco anos na cadeia para sair de lá e virar um covarde que estuda Administração. Você é uma vergonha para o sobrenome Blake.
— Diz o que você quer e some daqui, Damon. Eu não tenho mais nada para falar com você ou com o Ricardo — Matteo respondeu, os punhos cerrados ao lado do corpo, tentando manter o autocontrole.
Damon desviou o olhar escuro para Ashley, analisando-a com nojo e lascívia. Um sorriso perverso cruzou seus lábios.
— Ah, então essa é a famosa doutorinha? A órfã que achou que tirou a sorte grande? — Damon deu um passo na direção de Ashley, que se encolheu de leve, intimidada pelo olhar dele. — Olha só para você, garota... Uma pobretã que achou que ia dar o golpe em um Blake. Você entrou na mente do meu irmão com as suas conversinhas de psicologia, não foi? Mas você não passa de uma vadia oportunista que o sistema jogou em Rikers Island. Você acha que é especial, mas para nós, você é só lixo. Lixo que o meu irmão está usando para passar o tempo antes de voltar para o mundo real.
— Cala a porcaria da boca, Damon! — Matteo rugiu, mas o irmão mais velho não parou.
— Ela sabe que você transa com ela pensando nas rotas que perdeu, Matteo? — Damon continuou, rindo na cara de Ashley, que sentiu as lágrimas de humilhação arderem em seus olhos azuis. — Ela sabe que você é um assassino? Uma órfã de orfanato só serve para uma coisa no nosso mundo, e não é para ser namorada de ninguém...
Damon não conseguiu terminar a frase.
Sem pensar duas vezes, movido por uma fúria cega que nunca havia sentido antes, Matteo avançou. Seu punho direito voou com uma força brutal, atingindo em cheio o maxilar de Damon. O impacto foi tão violento que o irmão mais velho cambaleou para trás, derrubando a mesa de centro de vidro, que se estilhaçou em mil pedaços pelo chão do camarote.
Os dois capangas de Damon menearam as mãos para dentro dos paletós, mas Matteo foi mais rápido. Em um movimento mecânico e veloz, que Ashley nunca tinha visto ele fazer antes, Matteo puxou uma pistola semiautomática preta que levava escondida no cós da calça e apontou diretamente para a cabeça de Damon, que estava caído no chão, sangrando pela boca.
— Matteo, não! — Ashley soltou um grito de pavor, cobrindo a boca com as mãos.
Matteo destravou a arma com um clique seco que ecoou acima da música da boate. Seus olhos estavam completamente negros de ódio, o peito subindo e descendo com força.
— Se você abrir a porcaria da sua boca para falar da minha namorada de novo, Damon, eu juro por Deus que eu estouco o seu cérebro neste chão — Matteo sibilou, a voz fria como o gelo, o cano da arma tremendo de leve pela força da raiva. — Some da minha frente. Agora! Se eu ver a sua cara ou a desses seus vermes perto da Ashley de novo, eu não me importo se você é meu irmão... eu vou te matar. Anda! Sumam daqui!
Damon, limpando o sangue do lábio e olhando para o irmão com um medo real que nunca sentira antes, levantou-se com a ajuda dos capangas.
— Você está morto para nós, Matteo — Damon cuspiu no chão, recuando devagar até sumir pela cortina do camarote.
O silêncio que ficou no camarote era sufocante, quebrado apenas pela respiração arquejante de Matteo, que lentamente guardou a arma de volta na calça. Ashley estava encostada na parede, pálida, os olhos azuis arregalados de choque, encarando o namorado como se estivesse vendo um estranho.
— Matteo... — a voz dela saiu trêmula, quase um sussurro. — Por favor... vamos para casa. Agora.
A viagem de carro de volta para o apartamento de Matteo foi mergulhada em um silêncio sepulcral e doloroso. Ashley olhava fixamente pela janela, os braços cruzados, o corpo inteiro tremendo. Matteo tentou tocar a mão dela uma vez, mas ela recuou o braço imediatamente, recusando o contato.
Assim que pisaram dentro da cobertura, a porta mal havia fechado e Ashley explodiu. Ela se virou para ele, com as lágrimas finalmente rolando pelo seu rosto, o peito subindo e descendo pela indignação.
— Uma arma, Matteo?! Você estava armado dentro de uma boate! — ela gritou, a voz falhando pela emoção. — Você mentiu para mim! Você mentiu na minha cara, em cada uma das consultas, em cada noite que passamos juntos nesta cama!
Matteo tirou a jaqueta e tentou se aproximar, com as mãos levantadas em um gesto de paz.
— Ashley, por favor, me escuta...
— Não se aproxime de mim! — ela berrou, dando um passo para trás. — Eu mudei a minha vida por você! Eu quebrei o meu código de ética, eu confiei em você quando todo mundo me disse que você era perigoso! A Sofia me avisou, o delegado me avisou! E hoje eu vejo você puxar uma arma para o seu próprio irmão, agindo como um monstro da máfia! Você voltou para eles, não foi? A briga com o seu pai foi tudo uma encenação! Você continua sendo o herdeiro de Ricardo Blake!
— Chega, Ashley! — Matteo gritou de volta, a voz forte fazendo o apartamento ecoar. Ele parou, respirando fundo, os olhos cheios de uma dor profunda ao ver o medo nos olhos dela. Ele baixou o tom de voz, dando um passo lento. — Olha para mim. Por favor, olha para mim, loira.
Ashley soltou um soluço, limpando o rosto com as costas das mãos, mas sustentou o olhar dele.
— Eu não voltei para a máfia — Matteo disse, cada palavra saindo pausada, sincera e dolorida. — Eu juro pela minha vida, pela sua vida, que eu estou fora daquele mundo. Eu rompi com o meu pai de forma definitiva.
— Então por que você estava andando armado, Matteo? — ela questionou, com a voz embargada. — Cidadãos comuns não andam com pistolas escondidas em boates!
Matteo soltou um suspiro pesado, passando as mãos pelos cabelos bagunçados. Ele caminhou até a mesa, pegou a arma da calça com cuidado e a colocou sobre o balcão da cozinha, longe dela.
— Eu ando armado porque eu conheço o sangue que corre nas veias daquela família, Ashley! — ele explicou, a voz cheia de uma urgência desesperada para fazê-la entender. — O meu pai e o Damon não aceitam um "não" como resposta. Eu roubei milhões de dólares de uma conta fantasma deles para poder começar a minha vida legítima com você. Eu sabia que eles viriam atrás de mim, ou pior... atrás de você. Eu não ando armado para fazer o trabalho da máfia. Eu ando armado para proteger você!
Ashley piscou, o choque da revelação sobre as contas fazendo-a processar as informações devagar.
— Para me proteger? — ela repetiu.
— Sim! — Matteo deu mais um passo, e desta vez ela não recuou. Ele segurou as mãos frias de Ashley entre as suas, olhando no fundo dos olhos azuis dela com uma intensidade avassaladora. — Aquele desgraçado do Damon entrou ali e começou a dizer aquelas barbaridades sobre você. Humilhou o seu passado, te chamou daqueles nomes... Eu perdi a cabeça porque eu não posso tolerar que ninguém falte com o respeito com a mulher que mudou a minha vida. Eu prefiro voltar para Rikers Island pelo resto da minha juventude antes de deixar qualquer um encostar um dedo em você.
Ashley olhou para as mãos de Matteo, sentindo o calor dele desfazer o gelo do seu pânico. A raiva foi se esvaindo, substituída pela compreensão. Ele não havia voltado para o crime; ele estava apenas aterrorizado com a possibilidade de perdê-la para a violência do próprio passado dele.
— Você não pode fazer isso, Matteo... — ela disse baixinho, uma última lágrima caindo pelo seu rosto. — Puxar uma arma... quase matar o seu irmão. Se você atirar em alguém, eles te trancam de novo. E eu não vou aguentar te ver atrás daquele vidro blindado outra vez.
Matteo puxou-a delicadamente para o seu peito, envolvendo-a em um abraço apertado e protetor. Ashley escondeu o rosto no pescoço dele, chorando baixinho enquanto sentia as mãos dele acariciarem suas costas.
— Eu sinto muito, meu amor — Matteo sussurrou contra os cabelos loiros dela. — Eu prometo que vou tomar cuidado. Eu prometo que vou resolver as coisas de outra forma. Mas bota uma coisa nessa sua cabeça linda de psicóloga: eu estou fora da máfia. Eu sou seu. Só seu. E nada no mundo vai me fazer voltar para aquele inferno.
Ashley respirou fundo, sentindo o perfume dele, e apertou os braços ao redor da cintura de Matteo. A discussão havia acabado, o entendimento havia chegado, mas os dois sabiam que as sombras da família Blake ainda não haviam desistido deles.
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