Entre Grades e Destinos
11 A Visita do Patriarca
A noite na mansão dos Blake foi rompida pelo barulho violento das portas da frente sendo empurradas. Damon entrou no salão principal apoiado em um de seus capangas, com um lenço de linho pressionado contra o maxilar. O sangue já havia manchado o colarinho de sua camisa de grife, e seu rosto exibia o inchaço roxo do soco de Matteo.
Ricardo Blake, que tomava um uísque perto da lareira, levantou-se imediatamente, os olhos semicerrados de fúria. Selina soltou uma exclamação de horror, correndo até o filho mais velho.
— Damon! Meu Deus, o que aconteceu com o seu rosto? — Selina perguntou, tocando o ombro dele com as mãos trêmulas.
Damon afastou o lenço, cuspindo um rastro de sangue no tapete persa. Seus olhos brilhavam com um ódio doentio.
— Foi o seu filho de ouro, Ricardo — Damon cuspiu as palavras, a voz saindo falhada pela dor no maxilar. — O Matteo. Eu o encontrei em uma boate em Manhattan com a porcaria da loirinha. Fui cobrar a lealdade dele à família... e o bastardo me agrediu. E não foi só isso. Ele puxou uma arma no meio do camarote. Apontou para a minha cabeça e jurou que me mataria se eu chegasse perto daquela vadia.
Ricardo jogou o copo de uísque contra os tijolos da lareira, explodindo o vidro em pedaços. O som ecoou como um tiro na sala.
— Ele puxou uma arma para o próprio irmão por causa de uma doutora de esquina? — Ricardo rugiu, a voz tremendo de uma raiva assassina. Ele caminhou até Damon, segurando-o pelo paletó. — Chega. Esse moleque passou dos limites. Está na hora de cortarmos o mal pela raiz. Nós vamos fazer uma visita para a Dra. Park.
Selina olhou para o marido, os olhos frios e calculistas.
— O consultório dela tem câmeras e segurança, Ricardo. Não podemos entrar lá como se fôssemos invadir o galpão de um rival.
— Eu não sou idiota, Selina — Ricardo sibilou, ajeitando o terno. Ele olhou para o capanga de Damon. — Ligue para a recepção daquela clínica agora mesmo. Agende uma consulta particular para amanhã de manhã, no primeiro horário. Use o nome de Richard Marquet. Quero aquela garota sozinha em uma sala comigo.
Na manhã seguinte, o consultório particular da Dra. Ashley Park respirava uma calmaria enganosa. Ashley havia acabado de organizar seus relatórios no notebook quando o interfone tocou.
— Dra. Park? — a voz da recepcionista, Clara, soou pelo aparelho. — O seu paciente das oito horas, o Sr. Richard Marquet, já está aqui. Posso mandar entrar?
— Pode sim, Clara. Obrigada — Ashley respondeu, forçando-se a entrar no modo profissional.
A porta se abriu devagar. Quando o homem cruzou o batente, Ashley sentiu todos os pelos do seu corpo se arrepiarem. Não era um homem comum. Ele era alto, de ombros largos, vestia um sobretudo escuro caríssimo e exalava uma aura de poder, perigo e crueldade absoluta. Suas feições eram assustadoramente parecidas com as de Matteo, mas envelhecidas pelo tempo e endurecidas pelo crime. O instinto de Ashley entrou em alerta máximo na mesma hora; o estômago dela despencou.
Ricardo fechou a porta atrás de si com um clique suave e caminhou lentamente até a poltrona de couro, sentando-se com uma calma que fez o coração de Ashley martelar contra o peito.
— Bom dia, Dra. Park — ele disse, a voz grave e rouca ecoando pela sala.
— Bom dia... Sr. Marquet? — Ashley tentou manter a voz firme, mas seus olhos azuis entregavam a desconfiança. — Em que posso ajudá-lo hoje?
Ricardo deu um sorriso frio, sem um pingo de humor, e tirou as luvas de couro, jogando-as sobre a mesa de Ashley.
— Vamos pular as formalidades, garota. Meu nome não é Richard Marquet. Eu sou Ricardo Blake. O pai do Matteo.
Ashley empalideceu instantaneamente. Suas mãos começaram a tremer sob a mesa. Ela firmou os pés no chão, prestes a se levantar para alcançar a porta ou apertar o botão de emergência.
— Sr. Blake, eu preciso pedir que o senhor saia do meu consultório imediatamente, ou eu vou chamar a segurança...
Antes que ela pudesse terminar a frase ou fazer qualquer movimento para se levantar, Ricardo enfiou a mão por dentro do sobretudo. Com uma velocidade assustadora para a sua idade, ele puxou um revólver de cano curto e o apontou diretamente para o peito de Ashley, a poucos centímetros dela.
Ashley congelou na cadeira, o ar sumindo totalmente de seus pulmões. Os olhos azuis arregalaram-se em puro pavor.
— Sente-se. E fique de boca fechada se quiser continuar respirando — Ricardo ordenou, a voz gélida, o cano da arma firme. Ele se inclinou para a frente na mesa, os olhos fixos nela como os de uma serpente. — Eu vim te dar um aviso, Dra. Park. Um aviso único e definitivo. Você tem duas opções na sua vida a partir de hoje.
Ele bateu levemente com o cano da arma na borda da mesa de madeira.
— Opção número um: você larga o Matteo hoje. Desaparece da vida dele, muda de cidade, inventa a desculpa que quiser, e continua viva para exercer essa sua profissãozinha ética. Opção número dois: você continua com ele... e você perde tudo. Primeiro, eu acabo com a sua carreira. Faço uma denúncia ao Conselho de Psicologia com as fotos de vocês dois juntos, provo que você transou com o seu paciente e você perde esse diploma que tanto lutou para conseguir. E depois... depois eu tiro as suas pernas.
Ashley soltou um soluço sufocado, as lágrimas de pavor transbordando e rolando pelo seu rosto pálido.
— O quê?... — ela murmurou, a voz falhando.
— Eu ficaria muito feliz em colocar uma mocinha orgulhosa como você em uma cadeira de rodas para o resto da vida, Ashley — Ricardo continuou, o sorriso sádico brilhando em seu rosto. — Imagine só... uma doutora sem pernas, sem diploma e sem dignidade. É isso que acontece com quem tenta roubar o meu herdeiro.
— Sr. Blake, por favor... o Matteo não quer mais essa vida! — Ashley tentou argumentar, a voz embargada pelo choro, os ombros tremendo de pavor. — Ele mudou, ele está estudando, ele quer um futuro legítimo! O senhor não pode fazer isso com o seu próprio filho...
Clack.
O som metálico de Ricardo destravando o cão da arma cortou o ar da sala com a força de uma guilhotina. Ashley encolheu-se na cadeira, fechando os olhos, esperando o pior.
— Não tem como argumentar comigo, garota! — Ricardo sibilou, subindo o tom de voz, os olhos injetados de fúria. — Ou você se afasta dele por bem, ou você morre como uma doutora sem ética e vadia! Você escolhe se prefere o cemitério ou a distância. O Matteo pertence à máfia, e nenhuma garotinha de orfanato vai mudar o destino dos Blake.
Ricardo manteve a arma apontada para ela por mais alguns segundos, saboreando o terror absoluto que havia causado na jovem. Lentamente, ele guardou o revólver de volta no sobretudo, pegou suas luvas de couro e levantou-se da poltrona com total elegância.
Ajeitou o paletó, olhou para Ashley uma última vez com desprezo e caminhou até a porta. Abriu-a calmamente, saindo do consultório como se tivesse apenas participado de uma reunião de negócios comum.
Assim que a porta se fechou, as pernas de Ashley cederam sob a mesa. Ela desabou em um choro convulsivo, cobrindo o rosto com as mãos, soluçando tão alto que o peito doía. O pavor que sentira pelo cano daquela arma e a crueldade das ameaças contra sua vida e sua carreira a deixaram completamente despedaçada.
Ela olhou para o lado e viu seu celular sobre a mesa. A tela de bloqueio acendeu, exibindo a foto que ela e Matteo haviam tirado no Central Park na semana anterior — os dois sorrindo, abraçados, parecendo tão felizes e invencíveis.
— Meu Deus... o que eu faço? — ela sussurrou entre as lágrimas.
Com os dedos trêmulos, Ashley pegou o aparelho. O medo de morrer, o medo de perder o diploma pelo qual sacrificara toda a sua juventude e o terror de ver a violência da família Blake destruir sua vida falaram mais alto. Ela entrou no sistema da clínica e, com o coração sangrando, cancelou todas as suas consultas daquela semana.
Ela passou o resto do dia trancada naquela sala escura, chorando em silêncio, revivendo as palavras de Ricardo em sua mente, pensando no perigo terrível que corria.
Quando a noite finalmente caiu sobre Manhattan, Ashley recolheu suas coisas de forma mecânica. Ela saiu do consultório com o olhar vago e o rosto inchado. Ao chegar na calçada, ela olhou na direção do caminho que a levaria para a cobertura luxuosa de Matteo... mas o medo a fez recuar.
Ela virou as costas e pegou o metrô na direção oposta. Aquela noite ela não iria para os braços do homem que amava. Ela foi para a sua casa, para o seu pequeno e seguro apartamento no Brooklyn, buscando o isolamento para tentar descobrir como salvar a sua própria vida.
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