​Os meses haviam corrido céleres pelo interior do Vermont. O pequeno Pietro completara seu primeiro ano de vida, e a cada dia que passava, a dúvida que restava no peito de Damon Blake se dissipava por completo. O menino era o clone exato de Matteo: a mesma intensidade no olhar escuro, o formato marcante do maxilar e os cabelos negros como a noite. Damon passara aquele ano inteiro nas sombras, fingindo gerenciar o galpão de contrabando da família, mas sua verdadeira obsessão havia se tornado a rotina da Dra. Ashley Park.

​Ele a vigiava de longe. Observava quando ela saía da charmosa casa térrea que havia comprado recentemente no centro da cidade — uma aquisição necessária para facilitar sua rotina de trabalho, já que a fazenda dos Miller ficava muito distante do consultório. Naquela dinâmica, Sofia passava os dias na nova casa cuidando de Pietro enquanto Ashley atendia seus pacientes. De tanto seguir a loira, algo doentio começou a florescer no peito de Damon. O ódio inicial e o desprezo transformaram-se em um desejo avassalador, misturado a uma posse possessiva que ele tentava justificar como carinho, talvez amor. Ele queria Ashley. E usaria a maior fraqueza dela para tê-la.

​Naquela manhã, Ashley estava sentada em sua mesa no consultório, anotando a evolução clínica de um paciente no notebook. O ambiente estava silencioso até que o som do trinco da porta a fez erguer os olhos.

​Damon entrou, fechando a porta com um clique suave atrás de si. Ele usava um casaco de lã escura de corte impecável. Tinha a mesma beleza magnética e agressiva de Matteo, os mesmos traços marcantes, mas seus olhos exalavam uma frieza calculista e perversa.

​— Bom dia, Dra. Park — ele disse, com um sorriso de canto que fez a espinha de Ashley congelar.

​Ashley levantou-se da cadeira em um sobressalto, o coração batendo na garganta. O pânico a dominou instantaneamente, trazendo de volta o terror do dia em que Ricardo a ameaçara.

​— Damon... — ela murmurou, com a voz trêmula, dando um passo para trás. — O que você está fazendo aqui? Eu fiz o que o seu pai mandou! Eu sumi de Nova York, eu cortei o contato com o Matteo, eu me afastei de tudo! Eu só quero paz, por favor, vá embora!

​Damon não respondeu de imediato. Ele avançou pelo consultório com passos lentos e predatórios. Antes que Ashley pudesse contornar a mesa para fugir, ele a encurralou contra a parede de madeira clara. Damon apoiou as duas mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a no espaço estreito entre seu corpo e a estrutura. O perfume caro dele invadiu os sentidos de Ashley, sufocando-a.

​— Você achou mesmo que o seu segredo ficaria escondido nas montanhas para sempre, loira? — Damon sussurrou, aproximando o rosto do dela, os olhos escuros brilhando com uma satisfação cruel. — Eu vi o menino. O pequeno Pietro. No aniversário de um ano dele, na semana passada. Ele é o clone do meu irmão, Ashley. Você não pode negar. Aquele bebê é um Blake.

​Ashley sentiu as lágrimas de puro desespero queimarem seus olhos. Ela tentou empurrar o peito firme dele com as mãos trêmulas.

​— Não... ele não é! Por favor, deixa o meu filho em paz! Ele é só meu!

​— Cale a boca e escute — Damon sibilou, a voz caindo para um tom perigosamente macio. — Se o meu pai, o Ricardo, descobrir a existência daquele garoto, você sabe exatamente o que vai acontecer. Ele vai mandar os soldados entrarem na sua casinha nova, vão arrancar o Pietro dos seus braços e você nunca mais vai ver o seu filho. O velho vai criar o neto dentro da máfia, para ser o próximo carrasco da família. Você quer isso?

​— Não! Pelo amor de Deus, não faça isso! — ela implorou, soluçando, o corpo inteiro tremendo sob a pressão dele.

​— É aí que eu entro — Damon sorriu, aproximando seus lábios do ouvido dela, a respiração quente fazendo-a arrepiar-se de pavor. — Eu não vou contar para o Ricardo. Eu sei que se eu contar, o velho veta qualquer plano meu e toma o menino para ele. Mas eu quero o menino. E quero você. Então, aqui está o meu acordo: a partir de hoje, você vai me apresentar para a cidade, para os seus amigos e, no futuro, para o Pietro, como o pai dele. Nós vamos ser uma família, Ashley. Você vai ser minha. Se você aceitar, eu protejo você e o garoto do meu pai. Se recusar... eu ligo para Nova York agora mesmo e entrego a cabeça do bastardo.

​Ashley encarou aqueles olhos frios, percebendo a teia doentia em que havia caído. Damon estava usando o próprio sobrinho e a chantagem para forçá-la a um relacionamento. O medo de perder o filho era infinitamente maior do que o seu próprio orgulho.

​— Eu... eu aceito — ela sussurrou, derrotada, fechando os olhos enquanto as lágrimas rolavam. — Eu aceito. Só não machuca o meu bebê.

​Damon soltou uma risada vitoriosa, os olhos fixos nos lábios trêmulos de Ashley. Movido pelo desejo acumulado de um ano de espionagem, ele inclinou a cabeça, prestes a beijá-la à força. Ashley virou o rosto no último segundo, o maxilar tenso de repulsa. Damon parou a centímetros da bochecha dela, cheirou o pescoço da loira e deu um passo para trás, ajeitando o casaco com extrema calma.

​— Ainda não é a hora para isso. Mas você vai aprender a me desejar, loira — ele disse, com uma arrogância assustadora. — Tenha um bom dia, querida. Vejo você e o nosso filho no jantar.

​Damon deu as costas e saiu do consultório, deixando Ashley desabar encostada na parede, chorando convulsivamente, envolvida por um medo que parecia não ter fim.

​No final da tarde, Ashley entrou em sua nova casa no centro da cidade. As mãos ainda tremiam ao trancar a porta. Ao ouvir o barulho, Sofia desceu as escadas correndo, carregando Pietro nos braços. O menino sorriu ao ver a mãe, balançando as mãozinhas gordinhas.

​— Ash! Graças a Deus você chegou, o Pietro estava... — Sofia parou no meio da frase ao ver o rosto inchado e o olhar sem vida da amiga. Ela colocou o menino no cercado da sala e correu até Ashley. — O que aconteceu? Meu Deus, você está em choque!

​Ashley abraçou Sofia com força, desabando em um choro sufocado.

​— O Damon, Sofi... Ele descobriu — Ashley contou, com a voz entrecortada pelo pavor, enquanto as duas sentavam-se no sofá. — Ele entrou no meu consultório. Ele sabe que o Pietro é um Blake. Ele me encurralou... disse que se eu não fingir que ele é o pai do Pietro e não ficar com ele, ele vai contar tudo para o Ricardo para eles me tirarem o bebê. Ele quer me forçar a ser dele, Sofi!

​Sofia sentiu o próprio sangue ferver de indignação e medo, o rosto ficando vermelho de nervosismo. Ela segurou os ombros de Ashley com firmeza.

​— Aquele desgraçado psicopata! Ash, nós temos que fugir de novo, ir para outro estado...

​— Não podemos! Ele gerencia o galpão aqui na cidade, ele tem capangas por toda parte, se nós tentarmos fugir ele percebe na mesma hora e avisa o pai! — Ashley explicou, olhando para o filho que brincava inocentemente no tapete. — Eu tive que aceitar. É o único jeito de manter o Pietro seguro por enquanto.

​Sofia olhou para o pequeno Pietro e depois para a amiga, engolindo o próprio pânico. Ela segurou a mão de Ashley, limpando suas lágrimas.

​— Tudo bem... nós vamos jogar o jogo dele por enquanto. Eu prometo que não vou contar nada a ninguém, Ash. Nós vamos proteger o Pietro juntas. Esse monstro não vai tocar em vocês.

​Enquanto o cerco se fechava no Vermont, em Nova York a engrenagem da destruição continuava a se mover com precisão milimétrica.

​Em seu escritório na Wall Street, Matteo Blake operava em total silêncio. Diante das telas criptografadas, suas mãos voavam pelo teclado. Ele não sabia do nascimento do filho, nem da chantagem de Damon, mas a promessa que fizera ao FBI guiava cada um de seus movimentos.

​Ao longo daquele ano, usando sua posição de Administrador Geral, Matteo vinha desviando quantias colossais das rotas de New Jersey, Miami e dos novos investimentos do Vermont. Com transações fantasmas fracionadas, ele estava esvaziando os cofres da máfia e transferindo tudo para sua conta pessoal secreta e para fundos bloqueados que o FBI usaria como prova de confisco.

​Matteo encostou-se na cadeira de couro, os olhos escuros fixos no progresso das transferências digitais. O império dos Blake estava financeiramente podre por dentro, sustentado apenas por uma ilusão que ele mesmo criara.

​— Só mais um pouco, Ricardo... — Matteo sussurrou para a sala vazia, o rosto rígido como uma escultura de pedra. — Eu estou movendo cada peça desse tabuleiro. E quando chegar a hora de dar o ponto final, eu vou garantir que nenhum de vocês saia vivo desse inferno.

​O tempo estava correndo, e sem saber, Matteo e Damon aceleravam em direção ao mesmo destino no Vermont, onde o segredo de Ashley seria o estopim para a guerra definitiva.