Entre Grades e Destinos
30 A Promessa da Maré
O relógio de parede marcava pouco mais de dez e meia da noite quando as risadas na sala começaram a ceder ao cansaço. Pietro se espreguiçou, levantando-se do tapete com a energia leve de quem finalmente havia tirado um peso enorme das costas. Ele olhou para Matteo e depois para Ashley, os olhos escuros brilhando com uma expectativa nova e madura.
— Bom, os conselhos foram ótimos, mas o "jovem responsável" aqui tem aula de cálculo amanhã cedo — Pietro brincou, ajeitando a camiseta. Ele parou por um momento, olhando para os dois juntos no sofá, e um sorriso de canto surgiu em seus lábios. — Sabe o que eu estava pensando? O verão está chegando. Quem sabe a gente não faz uma viagem em família? Podíamos alugar uma casa de praia nos Hamptons. Só nós três, longe de tudo.
Ashley sentiu o coração se aquecer com a sugestão, olhando para o filho com ternura.
— É uma ideia maravilhosa, querido. Vamos pensar nisso — ela respondeu macio.
Pietro caminhou até ela, inclinou-se e beijou sua testa com carinho. Em seguida, virou-se para Matteo. O jovem não hesitou: deu um passo à frente e envolveu o pai em um abraço forte, apertado, daqueles que enterram de vez qualquer fantasma do passado.
— Boa noite, pai. Até breve — Pietro sussurrou, afastando-se com um sorriso.
— Boa noite, meu filho. Durma bem — Matteo respondeu, a voz ligeiramente embargada pelo impacto daquele abraço que ele esperara por dezoito anos.
O garoto acenou e caminhou pelo corredor, fechando a porta do quarto em seguida.
O silêncio confortável da noite de Manhattan voltou a reinar na sala de estar. Ashley quebrou a inércia levantando-se para recolher os pratos, copos e os restos da caixa de pizza. Ela caminhou até a cozinha americana e começou a organizar as coisas, colocando a louça metodicamente dentro da máquina de lavar.
Matteo se levantou do sofá em silêncio. Ele caminhou até a cozinha e encostou-se no batente da porta, cruzando os braços. Seus olhos escuros não desviavam de Ashley por um único segundo. Ele observou o movimento das mãos dela, o balanço suave de seus cabelos loiros, e a atmosfera entre os dois mudou, tornando-se densa, carregada de uma eletricidade que havia sido sufocada por uma década e meia.
— Ashley — Matteo chamou, a voz saindo grave, mansa e profunda, ecoando no silêncio da cozinha.
Ela parou com um copo na mão, respirando fundo antes de se virar para encará-lo.
— Sim, Matteo?
Matteo deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. A expressão dele era de uma honestidade desarmadora, despida de qualquer uma das armaduras que ele usara nos últimos anos.
— Eu passei quinze anos trancado no meu próprio inferno pessoal, Ashley — ele confessou, os olhos fixos nos dela. — Eu sentia uma dor que parecia arrancar o meu peito todas as vezes que eu lembrava de você no Vermont. Eu sentia raiva, sentia ciúmes, mas, acima de tudo... eu sentia uma falta desesperada de você. Mesmo quando eu achava que você me odiava, que tinha me esquecido nos braços do Damon... o meu coração nunca deixou de pertencer a você. Nem por um único dia. Saber que tudo o que você fez foi para manter o nosso filho vivo... me faz ver o quanto eu fui cego. E o quanto eu ainda te amo.
Ashley ouviu o desabafo sentindo os olhos marejarem. O peso daquelas palavras mexeu com sentimentos que ela achava que estavam enterrados sob o gelo do Vermont. Ela colocou o copo na pia, limpou as mãos no pano de prato e olhou para ele com uma doçura madura, mas firme.
— Matteo... tudo o que nós vivemos foi intenso demais, e o que veio depois foi um trauma que quase me destruiu — ela explicou, a voz mansa, dando um passo sutil para trás para manter a racionalidade. — Eu fico feliz que a verdade tenha aparecido, e ver você com o Pietro hoje curou uma parte da minha alma. Mas nós não somos mais os mesmos de antes. Muita água passou por baixo dessa ponte. Eu acho que... é melhor irem devagar. Não vamos atropelar as coisas. Se tiver de acontecer entre nós dois de novo, vai acontecer. No tempo certo.
Nesse exato momento, um clarão iluminou a janela da sala, seguido pelo estrondo pesado e abafado de um trovão que ecoou pelos prédios de Manhattan. A chuva começou a desabar forte contra o vidro.
Ashley olhou para a janela e depois voltou a olhar para Matteo, deixando um sorriso leve e divertido surgir em seus lábios.
— Bom, parece que o tempo decidiu por nós nas próximas horas — ela brincou, apontando para o corredor. — É melhor você dormir no quarto de hóspedes hoje. Está chovendo demais para você pegar a estrada ou tentar um táxi a essa hora.
Matteo olhou para a tempestade lá fora e depois sorriu de canto para ela, aceitando a trégua com gratidão.
— Eu aceito o convite da dona da casa. Obrigado, Ashley.
Ashley o conduziu pelo corredor até o quarto de hóspedes, que já estava com a cama arrumada com lençóis limpos e perfumados. Ela acendeu a luminária de cabeceira, criando um ambiente acolhedor no quarto.
— Aqui estão as toalhas. Se precisar de algo, o banheiro fica logo em frente — ela disse, parando na porta.
Matteo caminhou até ela. Ele estendeu a mão devagar e, com uma delicadeza extrema, alisou o contorno do rosto dela com as costas dos dedos, sentindo a maciez da pele de Ashley após tantos anos. Ele inclinou o corpo e lhe deu um beijo suave, demorado e carinhoso na bochecha.
— Boa noite, Ashley. Obrigado por hoje — ele sussurrou perto do ouvido dela.
— Boa noite, Matteo — ela respondeu em um fio de voz, sentindo um arrepio familiar correr por sua espinha.
Ashley virou-se e saiu do quarto, fechando a porta e deixando-o sozinho com seus pensamentos. Ela caminhou até o quarto ao lado, o seu próprio refúgio, e trocou de roupa. Ao se deitar na cama de casal, o som da chuva batendo na vidraça servia como trilha sonora para sua mente que insistia em trabalhar.
Ela se virou de lado, puxando as cobertas até os ombros. Seus pensamentos involuntariamente flutuaram para o homem que estava dormindo no quarto ao lado. Lembrou-se do Matteo da prisão, do Matteo da cobertura e, finalmente, do Matteo de hoje, rindo com o filho no tapete da sala. O medo e a mágoa do passado estavam, finalmente, dando espaço para uma paz que ela não sentia há dezoito anos.
Com o rosto relaxado e o coração finalmente tranquilo, Ashley fechou os olhos e, embalada pelo som do temporal e pela proximidade do homem que nunca havia realmente deixado sua alma, acabou pegando no sono.
Fale com o autor