Entre Grades e Destinos

31 O Começo do Nosso "Sempre"



​A manhã de quarta-feira nasceu com o céu limpo em Nova York, deixando para trás qualquer vestígio da tempestade da noite anterior. No quarto principal, Ashley começou a despertar vagamente, não pelo despertador, mas pelo som abafado de vozes e risadas baixas vindas do corredor.

​Curiosa, ela se espreguiçou, sentindo uma leveza no peito que há muito tempo não experimentava. Ela se levantou da cama, vestiu um robe de seda rosa-quartzo sobre o pijama e caminhou descalça em direção à cozinha.

​Ao cruzar o arco de entrada, deparou-se com uma cena que a fez parar e sorrir. Matteo e Sofia estavam de pé junto ao balcão, conversando de forma extremamente animada sobre os últimos acontecimentos e relembrando algumas histórias de Nova York. Matteo já estava perfeitamente arrumado, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços, enquanto Sofia gesticulava com uma caneca na mão.

​Ao notar a presença de Ashley, o olhar de Matteo se iluminou. Ele pegou uma xícara de porcelana que acabara de servir com café fresco e caminhou até ela, estendendo-a com um sorriso caloroso.

​— Bom dia, flor do dia — Matteo disse, a voz grave soando mansa no início da manhã. — Pensei em te acordar, mas você parecia estar em um sono tão profundo que achei melhor deixar você descansar.

​Ashley pegou a xícara, sentindo o calor do café aquecer suas mãos, e olhou em volta, notando o silêncio no resto do apartamento.

​— Bom dia... — ela respondeu com a voz ainda meio rouca pelo sono. — Cadê o Pietro? Ele já foi?

​— Já sim. Eu fiz questão de levá-lo de carro para a faculdade hoje cedo — Matteo explicou, orgulhoso. Ele olhou para o relógio de pulso e soltou um leve suspiro. — E agora que você já acordou e sei que está bem, eu preciso correr para o escritório. Tenho uma pilha de documentos confidenciais sobre as antigas rotas internacionais que preciso entregar pessoalmente ao diretor do FBI hoje de manhã.

​Matteo deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles. Ele inclinou o corpo e depositou um beijo carinhoso e demorado na testa de Ashley.

​— Tenha um bom dia na clínica. A gente se fala mais tarde — ele sussurrou, antes de caminhar até o hall de entrada, pegar o seu sobretudo escuro e sair, fechando a porta com um clique suave.

​Assim que a porta se fechou, Sofia deu um gole em seu café, encostou-se no balcão e abriu um sorriso enorme, daqueles de orelha a orelha.

​— Amiga... se eu fosse você, não deixaria esse homem escapar de novo por nada desse mundo — Sofia provocou, os olhos brilhando.

​Ashley caminhou até a mesa, sentando-se e rindo do entusiasmo da amiga.

​— O que foi, Sofi? Ele só me deu um café e um beijo na testa.

​— Ah, me poupa, Ashley! Você precisava ver o jeito que ele falou de você enquanto o Pietro estava se arrumando — Sofia revelou, aproximando-se com uma expressão mais terna. — Ele me disse, com todas as letras, que ainda te ama muito. Que o tempo e a distância não mudaram nada do que ele sente. E ele me garantiu que vai fazer absolutamente tudo o que estiver ao alcance dele para reconquistar a sua confiança e te fazer feliz. O homem está caidinho, igualzinho há dezoito anos.

​Ashley olhou para o líquido escuro dentro da xícara, sentindo o coração acelerar. As palavras de Sofia ecoaram como uma promessa de que o futuro poderia, finalmente, ser diferente do passado.

​À noite, o apartamento do Upper West Side exalava paz. Ashley e Pietro estavam jogados de forma descontraída no sofá da sala, dividindo um balde de pipoca enquanto assistiam a um programa de comédia na TV, rindo alto de uma piada boba.

​De repente, três batidas firmes na porta cortaram o som da televisão.

​— Sou eu! Matteo! — a voz dele ecoou do lado de fora.

​— Entra, Matteo! Está aberta! — Ashley gritou de volta, ajeitando-se no sofá com um sorriso instantâneo.

​A porta se abriu e Matteo entrou, trazendo consigo o frescor da noite de Nova York. Ele viu os dois rindo e, sem pensar duas vezes, desfez a sua habitual postura rígida de agente federal; ele caminhou até o sofá e se jogou exatamente no meio deles, fazendo a pipoca pular de leve no balde e arrancando um protesto divertido de Ashley.

​— Ei! Quase derrubou tudo! — ela reclamou, rindo.

​Matteo não respondeu com palavras. Ele olhou para o filho, enfiou a mão no bolso do paletó e puxou um chaveiro de couro que sustentava uma chave dourada reluzente. Ele estendeu a mão, balançando a chave diante dos olhos de Pietro.

​— O que é isso, pai? — o jovem perguntou, franzindo o cenho, confuso.

​— Lembra do que você sugeriu ontem antes de dormir? Sobre passarmos o verão juntos longe de tudo? — Matteo sorriu de canto, os olhos brilhando de satisfação. — Bom... eu não sou muito de esperar. Eu comprei. É a chave da nossa nova casa de praia nos Hamptons, Pietro. É nossa. Da nossa família.

​Pietro paralisou por um segundo, olhando da chave para o rosto do pai, sem conseguir acreditar na velocidade daquilo. No segundo seguinte, o garoto soltou um grito de comemoração que ecoou por todo o apartamento. Ele avançou sobre Matteo, envolvendo-o em um abraço forte, transbordando uma felicidade pura e legítima.

​— Cara, você é o melhor pai do mundo! Eu não acredito que você fez isso! — Pietro exclamou, afastando-se com um sorriso gigantesco. Ele pegou a chave da mão de Matteo e imediatamente puxou o celular do bolso. — Eu preciso contar isso para os caras da faculdade agora mesmo! Nós vamos ter o melhor verão da história!

​O jovem levantou-se do sofá em um pulo e caminhou rapidamente em direção ao corredor de seu quarto, digitando freneticamente no aparelho e rindo sozinho, deixando os pais a sós na sala.

​Ashley, que assistira a toda a cena com os olhos marejados de emoção, virou o corpo de frente para Matteo no sofá. Ela estendeu a mão devagar, entrelaçando seus dedos aos dele, sentindo o calor da pele do homem que ela tanto amava.

​— Matteo... — ela começou, a voz saindo macia e carregada de uma gratidão profunda. — Você não precisava ter feito isso... Mas muito obrigada. Obrigada por realizar o sonho do nosso filho. Eu nunca vi o Pietro tão feliz em toda a vida dele. Você está sendo um pai maravilhoso.

​Matteo apertou a mão dela com firmeza, virando-se para encará-la bem de perto. Seu olhar era de uma intensidade que desarmava qualquer defesa de Ashley.

​— Eu passei dezoito anos perdendo cada conquista, cada sorriso e cada sonho dele, Ashley — Matteo confessou, a voz rouca de emoção. — Eu tenho muito tempo para recuperar. E a verdade é que eu faria qualquer coisa neste mundo para ver esse sorriso no rosto dele... e no seu. Eu comprei aquela casa para o Pietro, mas comprei principalmente porque eu quero construir novas memórias com você. Memórias limpas, sem medo, sem sombras. Eu amo você, Ashley. Nunca deixei de amar.

​Ashley sentiu as últimas barreiras de seu coração derreterem diante daquela confissão. Ela não precisava mais ir devagar; o tempo de fugir havia acabado. Ela se inclinou para a frente, e Matteo respondeu ao movimento imediatamente.

​Seus lábios se encontraram em um beijo profundo, calmo e repleto de uma saudade que havia durado quinze anos. Era um beijo que carregava a promessa de um recomeço, o fechamento definitivo do ciclo de dor que a máfia Blake havia deixado para trás.

​No meio do corredor, Pietro vinha voltando para a sala para pegar o balde de pipoca quando parou, vendo os pais se beijando no sofá. Em vez de ficar sem graça, um sorriso maduro e imensamente feliz surgiu no rosto do jovem. Ele deu um passo para trás em silêncio, decidindo dar privacidade aos dois, e voltou para o quarto com o coração leve. Ele finalmente tinha uma família de verdade.

​Na sala, quando o beijo terminou, Matteo puxou Ashley para mais perto, envolvendo-a com seus braços longos. Ela deitou a cabeça no peito dele, ouvindo os batimentos calmos e firmes de seu coração, enquanto ele acariciava seus cabelos loiros. Eles se ajeitaram no sofá, abraçadinhos, e continuaram ali, assistindo ao programa de TV na calmaria da noite de Nova York, sabendo que, depois de tanta tempestade, a maré finalmente os havia trazido de volta para casa.

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