Entre Gemadas e Batons
1 Entre batons
A praça central de Frigis parecia um cartão-postal meticulosamente pintado. Luzes amareladas pulsavam entre as barracas de madeira, e o aroma denso de açúcar queimado e canela da gemada flutuava no ar, travando uma batalha contra o frio cortante da noite. Loid Forger caminhava com uma rigidez que tentava disfarçar sob o sobretudo elegante. Ele segurava o copo de gemada com as pontas dos dedos enluvados, monitorando o perímetro por puro instinto, mas sua verdadeira atenção estava voltada para o lado. Yor não apenas caminhava; ela flutuava em um entusiasmo perigosamente desinibido.
— Ahh, essa é a quinta... ou a sexta? — murmurou ela, tentando contar nos dedos, com o rosto corado e o sorriso solto.
Loid suspirou.
— Você devia parar, Yor. Gemada é mais forte do que parece.
— Mas tá tão gostosa, Loid! E é doce... igual a você.
Ele quase engasgou.
“Igual a mim?!”
Antes que conseguisse responder, Yor o puxou pela mão e o levou até uma viela lateral, menos movimentada.
A neve se acumulava nas bordas dos telhados, e as luzes do festival piscavam ao longe, criando uma atmosfera estranhamente íntima. Loid sentiu o coração acelerar."Isso "Isso não parece parte da missão. "
— Yor... o que está fazendo?
Ela se virou devagar, os olhos brilhando de modo hipnotizante. O batom que ele havia comprado mais cedo — um tom rosado delicado — agora destacava o sorriso suave dela.
— Loid... — ela começou, a voz oscilando entre o sussurro e o desabafo. Ela desviou o olhar para os próprios pés, onde a neve começava a cobrir o couro de suas botas. — Você acha que eu sou bonita?
A pergunta pairou no ar gélido, pegando Loid totalmente desprevenido.
— Bonita? — repetiu ele, tentando processar.
Ele tentou buscar uma resposta lógica, uma frase pronta do manual de etiqueta de Westalis, mas as palavras pareceram congelar em sua garganta.
Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.
— É que... — ela continuou, e o brilho nos olhos dela não era apenas pelo álcool, era uma fragilidade que ele raramente via. — Às vezes eu penso que você só me vê como uma peça de um quebra-cabeça. Uma esposa de fachada para manter as aparências. Eu... eu sou alguém de verdade para você, Loid?
A frase atingiu Loid como um golpe invisível.
A mulher à sua frente — a mesma que enfrentava assassinos sem piscar — tremia, vulnerável. Ele deu um passo à frente, a voz mais baixa, sincera:
— Yor... você é muito mais do que imagina.
— Você é forte, gentil... e quando sorri assim... é impossível não notar.
Ela o olhou, surpresa — e, antes que ele pudesse dizer mais, se inclinou impulsivamente e o beijou.
O primeiro toque foi um choque térmico: o calor febril dos lábios dela contra a pele gelada dele. Foi desajeitado, um encontro de hesitação e urgência. Mas quando Yor se inclinou mais, o mundo ao redor — o festival, o dever, as mentiras — simplesmente se dissolveu em um borrão de luzes distantes.
Loid sentiu o sabor doce e persistente da gemada, mas foi a textura do batom rosado que o ancorou ali. Era macio, real e proibido. Quando se afastaram, o silêncio do beco era quebrado apenas pela respiração pesada de ambos. Loid levou os dedos aos lábios, sentindo a umidade do batom. No reflexo de uma vitrine próxima, ele viu as manchas rosadas em sua gola e bochecha. O maior espião de Westalis, um homem capaz de derrubar governos, estava ali, paralisado e marcado pela honestidade de um beijo.
Yor tampou o rosto com as mãos.
— A-ah! Eu... eu não devia ter feito isso! Desculpa! Eu tô bêbada... eu beijei o meu chefe... digo, marido! Aí não, piorou!
Loid, ainda atordoado, levou os dedos aos lábios. O batom rosado deixará uma marca visível — e o coração dele batia tão alto que parecia ecoar no beco.
— Não... não precisa se desculpar... — murmurou.
Ela o encarou, os olhos marejados.
— Não...?
Ele sorriu, quase sem perceber, e se inclinou de volta.
— Não.
O beijo seguinte foi mais lento.
Um toque terno, controlado — mas real. E, por um instante, ele não era o espião Twilight, nem ela a assassina Thorn Princess. Eram apenas Loid e Yor, tropeçando em algo chamado amor. E, quando se afastou, o sorriso dela tremia, mas os olhos brilhavam.
— Loid... — ela sussurrou, e então riu baixinho. — Você tá todo rosa...
Ele olhou o reflexo em uma janela próxima e viu as marcas de batom espalhadas pelo rosto e pela gola.
Perfeito.
O maior espião de Westalis, derrotado por um batom rosado e uma esposa bêbada.
Ela riu de novo, encostando a testa na dele.
— Desculpa... eu acho que beijei você demais...
Ele respondeu, rouco:
— Eu não acho.
Ela piscou. E, antes que pudesse reagir, ele roubou outro beijo.
Depois, mais um. E outro — breve, suave, como se o frio do ar e o calor deles brigassem por espaço.
Yor riu, encostando a testa no ombro dele.
— Desculpa de novo...
— Não se atreva a pedir desculpas por isso.
Quando enfim se afastaram, Yor sorriu sonolenta.
— Loid... acho que gosto da gemada daqui...
— Acho que eu também... — respondeu ele, sorrindo, antes que ela desabasse contra o peito dele, adormecendo.
Pouco depois, ele a carregava de volta para a praça, tentando ajeitar o cabelo dela e, desesperadamente, limpar as manchas de batom do rosto com um lenço.
Anya o avistou de longe, saindo do carrossel, e acenou com um sorriso.
— Papai! Mamãe tá dormindo? — a voz de Anya cortou o transe de Loid como um despertador indesejado.
Loid pigarreou, ajeitando o peso de Yor em seus braços com uma agilidade nervosa. Ele tentou, inutilmente, usar o ombro para esconder as marcas no rosto.
— Apenas... cansada — ele respondeu, a voz uma oitava mais alta que o normal. — A gemada de Frigis é... potente.
Anya inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma sabedoria que nenhuma criança de seis anos deveria ter. “Papai está pensando em batom...”, ela pensou, soltando um risinho travesso que fez Loid desejar que a neve o engolisse ali mesmo.
— Hehe... acho que o papai gosta de gemada também!
Loid tossiu, vermelho até as orelhas. Yor, meio acordando no colo dele, murmurou sonolenta:
— Loid... não conta para ninguém... mas você beija muito bem...
Ele congelou. Anya arregalou os olhos.
"Hein?!"
E foi assim que, entre neve, risadas e gemadas, a família Forger terminou mais um dia de férias — com corações acelerados, rostos corados e um segredo que ninguém nunca ousaria comentar em voz alta
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