A praça central de Frigis parecia um cartão-postal meticulosamente pintado. Luzes amareladas pulsavam entre as barracas de madeira, e o aroma denso de açúcar queimado e canela da gemada flutuava no ar, travando uma batalha contra o frio cortante da noite. Loid Forger caminhava com uma rigidez que tentava disfarçar sob o sobretudo elegante. Ele segurava o copo de gemada com as pontas dos dedos enluvados, monitorando o perímetro por puro instinto, mas sua verdadeira atenção estava voltada para o lado. Yor não apenas caminhava; ela flutuava em um entusiasmo perigosamente desinibido.

— Ahh, essa é a quinta... ou a sexta? — murmurou ela, tentando contar nos dedos, com o rosto corado e o sorriso solto.

Loid suspirou.

— Você devia parar, Yor. Gemada é mais forte do que parece.

— Mas tá tão gostosa, Loid! E é doce... igual a você.

Ele quase engasgou.

“Igual a mim?!”

Antes que conseguisse responder, Yor o puxou pela mão e o levou até uma viela lateral, menos movimentada.

A neve se acumulava nas bordas dos telhados, e as luzes do festival piscavam ao longe, criando uma atmosfera estranhamente íntima. Loid sentiu o coração acelerar."Isso "Isso não parece parte da missão. "

— Yor... o que está fazendo?

Ela se virou devagar, os olhos brilhando de modo hipnotizante. O batom que ele havia comprado mais cedo — um tom rosado delicado — agora destacava o sorriso suave dela.

— Loid... — ela começou, a voz oscilando entre o sussurro e o desabafo. Ela desviou o olhar para os próprios pés, onde a neve começava a cobrir o couro de suas botas. — Você acha que eu sou bonita?

A pergunta pairou no ar gélido, pegando Loid totalmente desprevenido.

— Bonita? — repetiu ele, tentando processar.

Ele tentou buscar uma resposta lógica, uma frase pronta do manual de etiqueta de Westalis, mas as palavras pareceram congelar em sua garganta.

Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.

— É que... — ela continuou, e o brilho nos olhos dela não era apenas pelo álcool, era uma fragilidade que ele raramente via. — Às vezes eu penso que você só me vê como uma peça de um quebra-cabeça. Uma esposa de fachada para manter as aparências. Eu... eu sou alguém de verdade para você, Loid?

A frase atingiu Loid como um golpe invisível.

A mulher à sua frente — a mesma que enfrentava assassinos sem piscar — tremia, vulnerável. Ele deu um passo à frente, a voz mais baixa, sincera:

— Yor... você é muito mais do que imagina.

— Você é forte, gentil... e quando sorri assim... é impossível não notar.

Ela o olhou, surpresa — e, antes que ele pudesse dizer mais, se inclinou impulsivamente e o beijou.

O primeiro toque foi um choque térmico: o calor febril dos lábios dela contra a pele gelada dele. Foi desajeitado, um encontro de hesitação e urgência. Mas quando Yor se inclinou mais, o mundo ao redor — o festival, o dever, as mentiras — simplesmente se dissolveu em um borrão de luzes distantes.

Loid sentiu o sabor doce e persistente da gemada, mas foi a textura do batom rosado que o ancorou ali. Era macio, real e proibido. Quando se afastaram, o silêncio do beco era quebrado apenas pela respiração pesada de ambos. Loid levou os dedos aos lábios, sentindo a umidade do batom. No reflexo de uma vitrine próxima, ele viu as manchas rosadas em sua gola e bochecha. O maior espião de Westalis, um homem capaz de derrubar governos, estava ali, paralisado e marcado pela honestidade de um beijo.

Yor tampou o rosto com as mãos.

— A-ah! Eu... eu não devia ter feito isso! Desculpa! Eu tô bêbada... eu beijei o meu chefe... digo, marido! Aí não, piorou!

Loid, ainda atordoado, levou os dedos aos lábios. O batom rosado deixará uma marca visível — e o coração dele batia tão alto que parecia ecoar no beco.

— Não... não precisa se desculpar... — murmurou.

Ela o encarou, os olhos marejados.

— Não...?

Ele sorriu, quase sem perceber, e se inclinou de volta.

— Não.

O beijo seguinte foi mais lento.

Um toque terno, controlado — mas real. E, por um instante, ele não era o espião Twilight, nem ela a assassina Thorn Princess. Eram apenas Loid e Yor, tropeçando em algo chamado amor. E, quando se afastou, o sorriso dela tremia, mas os olhos brilhavam.

— Loid... — ela sussurrou, e então riu baixinho. — Você tá todo rosa...

Ele olhou o reflexo em uma janela próxima e viu as marcas de batom espalhadas pelo rosto e pela gola.

Perfeito.

O maior espião de Westalis, derrotado por um batom rosado e uma esposa bêbada.

Ela riu de novo, encostando a testa na dele.

— Desculpa... eu acho que beijei você demais...

Ele respondeu, rouco:

— Eu não acho.

Ela piscou. E, antes que pudesse reagir, ele roubou outro beijo.

Depois, mais um. E outro — breve, suave, como se o frio do ar e o calor deles brigassem por espaço.

Yor riu, encostando a testa no ombro dele.

— Desculpa de novo...

— Não se atreva a pedir desculpas por isso.

Quando enfim se afastaram, Yor sorriu sonolenta.

— Loid... acho que gosto da gemada daqui...

— Acho que eu também... — respondeu ele, sorrindo, antes que ela desabasse contra o peito dele, adormecendo.

Pouco depois, ele a carregava de volta para a praça, tentando ajeitar o cabelo dela e, desesperadamente, limpar as manchas de batom do rosto com um lenço.

Anya o avistou de longe, saindo do carrossel, e acenou com um sorriso.

— Papai! Mamãe tá dormindo? — a voz de Anya cortou o transe de Loid como um despertador indesejado.

Loid pigarreou, ajeitando o peso de Yor em seus braços com uma agilidade nervosa. Ele tentou, inutilmente, usar o ombro para esconder as marcas no rosto.

— Apenas... cansada — ele respondeu, a voz uma oitava mais alta que o normal. — A gemada de Frigis é... potente.

Anya inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma sabedoria que nenhuma criança de seis anos deveria ter. “Papai está pensando em batom...”, ela pensou, soltando um risinho travesso que fez Loid desejar que a neve o engolisse ali mesmo.

— Hehe... acho que o papai gosta de gemada também!

Loid tossiu, vermelho até as orelhas. Yor, meio acordando no colo dele, murmurou sonolenta:

— Loid... não conta para ninguém... mas você beija muito bem...

Ele congelou. Anya arregalou os olhos.

"Hein?!"

E foi assim que, entre neve, risadas e gemadas, a família Forger terminou mais um dia de férias — com corações acelerados, rostos corados e um segredo que ninguém nunca ousaria comentar em voz alta