Entre Gemadas e Batons
2 Entre Gemadas
O sol atravessava as cortinas do pequeno chalé em Frigis em lâminas finas de luz dourada, espalhando-se pelo quarto como se tivesse medo de acordar o que havia acontecido na noite anterior.
Loid despertou primeiro.
Ficou imóvel por um instante, encarando o teto, como se ainda estivesse avaliando relatórios mentais que não deveriam existir naquela manhã. Ao lado, o travesseiro ainda guardava o leve perfume de Yor.
Ele desviou o olhar.
Um detalhe mínimo chamou sua atenção: um vestígio suave de batom no canto da própria boca.
“Isso é... inadequado.”
A pausa veio antes do resto do pensamento.
“E ainda assim...”
Ele fechou os olhos por um segundo a mais do que deveria.
Batidas leves na porta quebraram o silêncio.
— Loid? Você está acordado? — a voz de Yor veio do outro lado, hesitante.
— Sim. Pode entrar.
A porta se abriu devagar.
Yor entrou segurando duas canecas fumegantes. O cabelo ainda solto caía de maneira despretensiosa sobre os ombros, e o mesmo batom da noite anterior ainda estava ali — discreto demais para ser ignorado.
Ela parou por um segundo ao encontrá-lo acordado.
— Eu fiz café… — disse, como se isso explicasse qualquer coisa.
O ar entre eles ficou mais pesado do que deveria ser naquela manhã simples.
Loid desviou o olhar para a caneca.
— Obrigado.
Mais nada veio de imediato.
O silêncio parecia organizado demais.
Até que ele falou, num tom controlado:
— Sobre ontem…
Yor se apressou um pouco rápido demais.
— Ah… ontem! Eu… eu devo ter exagerado um pouco, não é? Foi… só bebida, eu acho…
Ela riu no final da frase, mas o riso não chegou nos olhos.
Loid observou isso em silêncio.
Ela lembrava.
Ele também.
— Sim. Um incidente pequeno — ele respondeu, entrando no mesmo jogo.
Os dois falaram ao mesmo tempo logo depois, como se a verdade tivesse escapado sem permissão:
— Foi um beijo bonito.
O silêncio que veio depois foi imediato e cruel.
Yor levou a mão ao rosto, vermelha até as orelhas, tentando esconder o próprio constrangimento.
Loid levou a caneca à boca, mesmo sem realmente beber.
Do corredor, uma voz infantil cortou o momento como lâmina suave:
— Papai! Mamãe! Café grátis! Corre antes que acaba!
Anya apareceu na porta com seu gorro rosa e um pãozinho nas mãos, olhando os dois como se estivesse analisando um experimento complexo.
Hmm… mamãe pensando “não devia ter acontecido”… papai pensando “não devia ter parado”… interessante.
— Anya quer gemada no café! — anunciou ela, satisfeita com sua própria conclusão.
Yor engasgou levemente.
Loid quase tossiu junto.
— Isso não é apropriado — ele disse, rápido demais.
— Sim… perigoso para… desenvolvimento — Yor completou.
Anya piscou.
Mentiras sincronizadas. Fascinante.
Mais tarde, a neve já cobria Frigis como um silêncio espesso e contínuo.
Anya corria perto do carrossel, rindo, girando no próprio mundo pequeno.
Os dois ficaram um pouco afastados.
Não era exatamente proximidade. Nem distância.
Algo no meio.
Loid observou a cena por alguns segundos antes de falar, sem encará-la diretamente:
— O batom combinou com você.
Yor piscou, surpresa pela frase fora de lugar.
— Eu acho que manchei sua roupa ontem…
Ele finalmente olhou para ela.
— Não foi um problema.
Uma pausa.
Menor dessa vez.
— Eu não quis tirar.
O vento passou entre eles.
Yor desviou o olhar primeiro, mas sorriu baixo, como se tentasse esconder algo que não cabia na expressão.
— Você fala coisas estranhas às vezes, Loid.
— É uma observação profissional.
Ela riu.
E, sem aviso, os dedos deles se tocaram.
Não foi um gesto planejado. Não foi completo.
Mas também não foi acidental.
E nenhum dos dois se afastou imediatamente.
Ao fundo, Anya girava no carrossel, observando os dois como quem já conhecia o final de uma história antes dela ser escrita.
Família Forger… estranha.
Mas quente demais para ser coincidência.
E naquela manhã de neve, o que começou como missão continuou parecendo outra coisa — algo perigosamente humano.
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