O sol atravessava as cortinas do pequeno chalé em Frigis em lâminas finas de luz dourada, espalhando-se pelo quarto como se tivesse medo de acordar o que havia acontecido na noite anterior.

Loid despertou primeiro.

Ficou imóvel por um instante, encarando o teto, como se ainda estivesse avaliando relatórios mentais que não deveriam existir naquela manhã. Ao lado, o travesseiro ainda guardava o leve perfume de Yor.

Ele desviou o olhar.

Um detalhe mínimo chamou sua atenção: um vestígio suave de batom no canto da própria boca.

“Isso é... inadequado.”

A pausa veio antes do resto do pensamento.

“E ainda assim...”

Ele fechou os olhos por um segundo a mais do que deveria.

Batidas leves na porta quebraram o silêncio.

— Loid? Você está acordado? — a voz de Yor veio do outro lado, hesitante.

— Sim. Pode entrar.

A porta se abriu devagar.

Yor entrou segurando duas canecas fumegantes. O cabelo ainda solto caía de maneira despretensiosa sobre os ombros, e o mesmo batom da noite anterior ainda estava ali — discreto demais para ser ignorado.

Ela parou por um segundo ao encontrá-lo acordado.

— Eu fiz café… — disse, como se isso explicasse qualquer coisa.

O ar entre eles ficou mais pesado do que deveria ser naquela manhã simples.

Loid desviou o olhar para a caneca.

— Obrigado.

Mais nada veio de imediato.

O silêncio parecia organizado demais.

Até que ele falou, num tom controlado:

— Sobre ontem…

Yor se apressou um pouco rápido demais.

— Ah… ontem! Eu… eu devo ter exagerado um pouco, não é? Foi… só bebida, eu acho…

Ela riu no final da frase, mas o riso não chegou nos olhos.

Loid observou isso em silêncio.

Ela lembrava.

Ele também.

— Sim. Um incidente pequeno — ele respondeu, entrando no mesmo jogo.

Os dois falaram ao mesmo tempo logo depois, como se a verdade tivesse escapado sem permissão:

— Foi um beijo bonito.

O silêncio que veio depois foi imediato e cruel.

Yor levou a mão ao rosto, vermelha até as orelhas, tentando esconder o próprio constrangimento.

Loid levou a caneca à boca, mesmo sem realmente beber.

Do corredor, uma voz infantil cortou o momento como lâmina suave:

— Papai! Mamãe! Café grátis! Corre antes que acaba!

Anya apareceu na porta com seu gorro rosa e um pãozinho nas mãos, olhando os dois como se estivesse analisando um experimento complexo.

Hmm… mamãe pensando “não devia ter acontecido”… papai pensando “não devia ter parado”… interessante.

— Anya quer gemada no café! — anunciou ela, satisfeita com sua própria conclusão.

Yor engasgou levemente.

Loid quase tossiu junto.

— Isso não é apropriado — ele disse, rápido demais.

— Sim… perigoso para… desenvolvimento — Yor completou.

Anya piscou.

Mentiras sincronizadas. Fascinante.

Mais tarde, a neve já cobria Frigis como um silêncio espesso e contínuo.

Anya corria perto do carrossel, rindo, girando no próprio mundo pequeno.

Os dois ficaram um pouco afastados.

Não era exatamente proximidade. Nem distância.

Algo no meio.

Loid observou a cena por alguns segundos antes de falar, sem encará-la diretamente:

— O batom combinou com você.

Yor piscou, surpresa pela frase fora de lugar.

— Eu acho que manchei sua roupa ontem…

Ele finalmente olhou para ela.

— Não foi um problema.

Uma pausa.

Menor dessa vez.

— Eu não quis tirar.

O vento passou entre eles.

Yor desviou o olhar primeiro, mas sorriu baixo, como se tentasse esconder algo que não cabia na expressão.

— Você fala coisas estranhas às vezes, Loid.

— É uma observação profissional.

Ela riu.

E, sem aviso, os dedos deles se tocaram.

Não foi um gesto planejado. Não foi completo.

Mas também não foi acidental.

E nenhum dos dois se afastou imediatamente.

Ao fundo, Anya girava no carrossel, observando os dois como quem já conhecia o final de uma história antes dela ser escrita.

Família Forger… estranha.

Mas quente demais para ser coincidência.

E naquela manhã de neve, o que começou como missão continuou parecendo outra coisa — algo perigosamente humano.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.