Era manhã de quinta-feira. Katarina agora estava escolhendo sementes para plantar em sua fazenda. Já havia se passado dois dias em que Lewis apresentou para ela a Vila Pelicanos, mas não concordava exatamente com a visão do velho de que haviam muitas pessoas amáveis.

Talvez ela só não havia conhecido elas.

Não é como se todos os moradores estivessem a tratando mal, mas muitos ali faziam ela torcer o nariz. Alex por exemplo, um rapaz musculoso e que se achava o máximo logo a secou de cima a baixo, fazendo comentários indiscretos. Ela gostava de ser paquerada, mas aquilo havia sido muito do nada, certo?

Em contrapartida, algumas pessoas a ajudaram a se situar melhor em como funcionariam as coisas para ela: compraria as sementes na loja do Pierre, faria suas refeições aos fins de semana no Saloon do Gus — afinal, seria uma ótima oportunidade para conhecer mais pessoas.

Ela até mesmo descobriu que havia uma praia naquela cidadezinha. Não era muito extensa, mas com certeza era muito agradável sentir a brisa do mar em seu rosto.

Já que era primavera, estava escolhendo as melhores sementes para essa estação quando viu uma garota de cabelos roxos saindo da porta dos fundos do Armazém, discutindo com Pierre.

- Pai! Eu já te disse que não quero mais tocar nesse assunto — ela fechou a cara, emburrada, andando a passos largos.

- Abigail, você não pode ser tão mimada assim! Eu estou apenas tentando conversar com você! — Pierre respondeu, indignado.

- Eu já disse chega! — a garota gritou, e logo se assustou ao perceber que a nova fazendeira estava presente na loja do pai. Ela pareceu se irritar mais ainda esse fato e chegou perto de Katarina

- Tá olhando o quê? Eu nunca te vi por aqui. Cuida da sua vida — Abigail falou rápido, irritada.

Katarina achou que o nervosismo da garota a impediu de perceber que havia saído sem deixar Kat ao menos responder qualquer coisa.

A fazendeira suspirou e voltou a procurar as sementes, ignorando a situação, mas logo foi interrompida por Pierre, que se aproximou dela.

- Sinto muito por isso, eu não tenho sido tão presente na vida da minha filha e acho que ela está tentando se rebelar de alguma forma para chamar minha atenção... — o homem suspirou, franzindo a testa — Por favor só ignore, isso não vai acontecer de novo.

- Imagina! Tô acostumada a ter brigas com meu irmão, sei como pode ser um pouco estressante a vida em família — Katarina sorriu para ele, o tranquilizando.

A expressão dele mudou de tensão para alívio. Provavelmente estava com medo de perder uma potencial cliente.

- Enfim.. você está procurando sementes da estação, certo? Tenho algumas boas recomendações pra você! — ele disse, mudando de assunto e sorrindo

- Eu adoraria uma ajuda — ela sorriu de volta.

Depois de um tempo, ela saiu da loja satisfeita. Havia encomendado as sementes e elas chegariam em breve na Fazenda Amanhecer. Seria muito trabalhoso carregar tantas sementes assim nas mãos.

Estava tão distraída que nem percebeu o garoto alto na sua frente, mexendo no celular. Os dois acabaram se trombando.

- Opa — Katarina disse, envergonhada. Legal, já cheguei pagando mico, pensou.

- Er.. você se machucou? — Ele ajudou a fazendeira a se levantar. Ela logo se recompôs e os dois puderam se falar melhor.

- Não, tá tudo bem, sério! — ela disse, ainda envergonhada consigo mesma.

- Eu sou o Sam, você é a fazendeira nova né? Te vi conversando com o prefeito há uns dias. Tá gostando da Vila Pelicanos? — ele respondeu alegremente. A energia dele era realmente bastante positiva.

- Estou tentando me adaptar, mas confesso que está sendo um pouco difícil. Vim da cidade, o ritmo era mais acelerado... de um jeito ruim. — ela suspirou.

- Fugindo da cidade, huh? De vez em quando dou uns rolês na cidade de Zuzu aqui perto. É bem maneiro. Mas deve ser meio complicado viver numa cidade movimentada... eu meio que me acostumei com a calmaria daqui — ele disse, se apoiando no muro de trás do Saloon, que ficava em frente do Armazém.

- Eu até gosto de movimento, mas eu estava em um lugar em que não me sentia confortável. Eu trabalhava na Joja, sabe? Uma empresa mercenária que praticamente escraviza os funcionários — Kat levantou as sobrancelhas, assombrada com as próprias lembranças.

- Joja? Eles tem um supermercado aqui. Eu trabalho meio período lá... mas cara, é uma droga — Sam fez uma careta — Eu tô lá mais por pressão da minha mãe, sabe? Enquanto não arrumo emprego melhor...

- Te entendo. Estar na Joja nunca foi um sonho meu... na verdade era uma necessidade pra pagar as contas — Katarina disse com um certo pesar — mas agora eu estou trabalhando na fazenda que pertencia ao meu avô.

Sam pareceu um pouco pensativo com a reação de Katarina sobre seu antigo trabalho, mas se manteve positivo.

- Ah, então aquela grande fazenda voltou a funcionar? — ele comentou, curioso — Boa sorte pra você... Como você se chama mesmo?

- Katarina — ela respondeu com um sorriso no rosto.

- Bom, boa sorte Katarina. Eu já estive lá algumas vezes, visitando. É um lugar imenso, mas estava totalmente largado às traças. Admiro sua coragem — ele levou a mão ao pescoço, um pouco envergonhado. Estava se sentindo bastante preguiçoso em comparação a ela.

- Com o tempo as coisas vão se ajeitando! — ela olhou para o relógio de pulso — Caramba, tô atrasada pra cuidar de alguns afazeres na fazenda! Mas o papo foi muito legal, Sam. A gente se vê.

- Claro! A gente se vê por aí. — ele acenou e a observou ir embora. Ele sorriu para si mesmo, pensando em formas bobas de impressioná-la futuramente.

Chegando na fazenda, Katarina cumpria seus afazeres quando um pensamento veio em sua mente.

- Não lembro da última vez que um estranho me deixou tão à vontade. – ela levantou o canto da boca.

Mais tarde, ela passou na carpintaria de Robin para encomendar a construção de um silo. Lá ela conheceu Maru e Demetrius, ela sendo a filha e ele o marido de Robin.

Maru parecia bastante interessada em conversar com Katarina. As duas se deram bem logo de cara, e isso era facilitado pelo fato de Maru ser muito simpática. As duas estavam conversando sobre como a comunidade no vale parecia gostar bastante da vida no campo, quando Maru a interrompeu:

- Claro, claro! Mas você diz isso é porque ainda não conheceu meu irmão — ela balançou a cabeça, rindo.

- Seu irmão? Não são só vocês três aqui? — Katarina perguntou.

- Ah, é que ele geralmente fica no quarto dele... tipo, o dia todo. Por isso não apareceu até agora — a feição de Maru parecia um pouco chateada.

- Seria um prazer conhecer ele — Katarina assentiu, um pouco curiosa sobre o motivo de o irmão dela ser tão recluso.

- Ele é legal. É do tipo de pessoa que só sai quando o sol se põe, mas quando aparece todo mundo nota — a afirmação fez Kat sentir ainda mais curiosidade. Ela gostaria de saber como era esse garoto misterioso.

- Enfim, eu e ele não nos falamos muito. – completou Maru, e as duas mudaram de assunto.

No fim da tarde, Katarina voltou para a casa e preparou seu jantar. Revisou quais seriam suas tarefas do dia seguinte e foi dormir, sem ao menos imaginar que alguém inesperado a visitaria na manhã seguinte.

***

Katarina atendeu às batidas ansiosas na porta de sua casa e arqueou as sobrancelhas quando se deparou com uma Abigail arrependida.

- Er... foi mal por ontem, fazendeira. Eu tava de cabeça quente. — Abigail disse, apressada.

- Ahn... bom dia pra você — Kat estava um pouco atordoada com a visita inesperada — Fique tranquila, sei como é conviver com alguém que não te entende.

Abigail abriu um sorriso. Provavelmente percebeu que encontraria uma nova amiga por ali, e não mais uma pessoa chata e de alma velha.

- Bom, para me redimir eu te pago um almoço no Saloon, sério! Me encontra lá ao meio dia — Abigail afirmou, já se virando para ir embora, o que impressionou Katarina.

- Er.. ok, tudo bem, se não for incômodo pra vo.. — e novamente Abigail foi embora sem deixar com que ela respondesse.

Aquilo havia sido duplamente uma surpresa para a fazendeira. Ela não esperava um pedido de desculpas, e muito menos imaginava que Abigail pagaria um almoço pra ela. O melhor que poderia fazer agora era escolher uma roupa decente e torcer para que o almoço não estivesse envenenado.

Ao meio dia as duas se encontraram no Saloon. A porta do estabelecimento rangeu e um barulho de sino foi ouvido, fazendo Gus se virar e cumprimentar as garotas.

Abigail parecia bem à vontade, vestia uma blusa preta com um colete azulado por cima, além de um laço fofo na cabeça, o que contrastava com sua personalidade difícil.

Já Katarina estava com uma regata preta, calças jeans e uma bota de couro marrom, com um pequeno salto, encantada com a decoração do lugar. Ali, se distraia das inúmeras tarefas no cuidado da fazenda e seus pensamentos se concentravam apenas na comida preparada por Gus. O Saloon era um ambiente muito agradável. Uma música alegre tocava na jukebox que ficava no canto, e as duas se sentaram nos banquinhos de frente ao balcão do Gus.

O homem logo as atendeu com um sorriso no rosto. Ele era extremamente simpático e acolheu Katarina logo de cara, simpatizando com a nova fazendeira.

- Eu também tive que recomeçar uma vez, você vai conseguir! — ele disse outro dia a ela, limpando uma caneca de cerveja.

De algum modo, ela sentia que aquele almoço marcaria algo novo em sua vida. As duas almoçaram espaguete e começaram a conversar sobre a vinda de Katarina ao vale.

- Você trabalhava na Joja, sério? Eu não suportaria — Abigail revirou os olhos.

- Pois é. Eu não suportei por muito tempo também. Estive lá por dois anos — Katarina remexeu seu prato de comida com o garfo.

- Dois anos é tempo suficiente. Eu já teria surtado há muito tempo – ela riu, balançando a cabeça – Não que eu ache legal também a vida no campo, mas parece que você não tinha muita opção — o tom de voz dela era sarcástico, não querendo de fato ofender Kat.

- Eu nunca me imaginei trabalhando na fazenda. Eu já havia visitado meu avô aqui, mas eu era muito pequena e não me lembro de nada. Eu gostava de brincar com os animais, mas é bem diferente quando você é o responsável por tudo. — Katarina voltou a comer do delicioso espaguete preparado por Gus.

- Você se adapta, você parece ser forte. Eu confio em você — Abigal sorriu, simpática.

Katarina se surpreendeu a conhecer esse outro lado da "garota rebelde". Quer dizer então que ela também poderia ser gentil. Isso deixou Katarina curiosa, por um momento. Por que ela e o pai estavam brigando no dia anterior no Armazém?

As duas finalizaram o almoço e decidiram jogar a Jornada do Rei da Pradaria, em uma das máquinas de fliperama do Saloon. Esse era um dos jogos favoritos de Abigail.

Entre risadas, Katarina percebeu que a vida no vale não seria solitária como ela pensava. Ambas estavam muito concentradas quando alguém chegou por trás delas e apoiou as mãos no ombro de cada uma, fazendo-as pular de susto.

- Porra Sam! Que droga, eu tava quase passando de fase. Você adora fazer isso... — Abigail disse bem irritada, dando um soquinho no braço dele. Ele estava rindo bastante, mas logo olhou para a fazendeira, ficando um pouco mais sério.

- Foi mal, eu não resisti. Eu pago a próxima ficha. — ele sorriu, dando um gole em seu refrigerante Joja-Cola.

Os três passaram um bom tempo tentando passar de fase no jogo, mas estava praticamente impossível. Enquanto jogavam, Kat riu ao olhar para Sam todo concentrado, com a pontinha da língua pra fora da boca. Ele parecia divertido e positivo.

Por fim, Katarina precisou ir embora para cuidar da fazenda. Ela agradeceu Abigail pelo almoço e Sam pela ficha e pelas risadas.

Quando sobraram só Abigail e Sam, ela deu um sorriso malicioso na direção dele.

- Qual é, você nem esconde né? — ela deu uma risada e deu um soquinho no braço dele.

- O quê? Esconder o quê? — ele parecia confuso.

- Sério? Eu te conheço Sam, você tá caidinho por ela — Abigail começou a imitar as expressões que ele fazia quando olhava para Kat e também o tom de voz que usava com ela, fazendo Sam se contorcer de vergonha.

- Meu Deus, para com isso! — ele tentou impedir Abigail, tentando não passar vexame no meio do Saloon — Tá, ela é bonita. Não tem gente nova por aqui tem muito tempo, e ela parece ser legal.

- É, confesso que ela me surpreendeu positivamente. Mas pode deixar que vou sair do seu caminho — Abigail deu uma piscadinha pra ele, fazendo uma piada com o fato de ser bissexual, coisa que Sam já sabia.

- É, espero que sim — ele sorriu, irônico.



Notas finais
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