Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
3 Te encontrei na chuva
Era uma tarde chuvosa no vale. Katarina sentia seu olfato sendo invadido pelo cheiro gostoso de terra molhada. Em dias como esse, seu avô costumava dizer que era o melhor clima para a pescaria no oceano.
Tomou seu café observando as gotas de chuva baterem gentilmente no vidro da janela da cozinha. Estava pensativa sobre seus afazeres, mas também reservava tempo para pensar sobre os novos amigos que havia feito.
Abigail havia a surpreendido. Apesar de ser temperamental, a garota de cabelos roxos na verdade era gentil e amorosa com os amigos.
Já Sam era sempre positivo e alegre. A energia dele a contaminava, apesar de ela sempre se considerar mais introspectiva e calma. O jeito enérgico dele fazia com que fosse impossível conter um sorriso.
Finalizou o café e sorriu para si mesma. Não havia sequer cogitado que faria amigos no vale. Ela imaginou que seria uma jornada de recomeço solitária, mas qualquer coisa seria melhor do que continuar trabalhando para a Joja.
Kat lavou a louça e voltou a se concentrar em suas tarefas. Ela saiu de casa, com sua capa de chuva azul: precisava pescar no píer da praia, nas águas do oceano. Willy, o pescador local, disse a ela que poderia ganhar um bom dinheiro vendendo os peixes que encontrasse — e ela não perderia essa oportunidade!
Passando pela cidade, cumprimentou Pierre no Armazém e deu de cara com as crianças, Vincent e Jas, que brincavam nas poças de lama formadas pela chuva.
Penny, uma jovem que levava os pequenos para biblioteca para ensiná-los algumas matérias escolares parecia achar a cena adorável, mas ao mesmo tempo parecia preocupada. Afinal, como explicaria a sujeira na roupa das crianças para os responsáveis depois?
Katarina se aproximou dela e a cumprimentou. Achava ela uma moça tradicional, bem diferente de Abigail.
— Olá Katarina, indo pescar? — Penny perguntou docemente, enquanto segurava um guarda-chuva.
— Sim, hoje é um bom dia para pesca! — Kat respondeu, com alegria. Já se sentia à vontade com muitos habitantes do vale. Talvez Lewis realmente estivesse certo.
— Cuidado para não se esforçar tanto! Fiquei sabendo que o Dr. Harvey teve de ajudá-la depois que você passou mal por tanto esforço! — Penny franziu o cenho, preocupada com a fazendeira.
Katarina deu uma risada e tranquilizou a jovem, aquilo não aconteceria de novo, mas Kat realmente estava atarefada demais! Sentia que estava trabalhando tanto quanto na Joja, mas agora a sensação era diferente... se sentia livre e feliz. Estava fazendo algo que gostava.
No entanto, um pensamento persistia em sua mente: Será que estou pronta para assumir tudo isso sozinha? E se eu fracassar? Mesmo em meio à felicidade, havia um pequeno receio — o medo de não corresponder às expectativas, nem mesmo as suas próprias.
As duas se despediram e Katarina foi até o píer da praia. O cheiro da madeira molhada não era tão agradável quanto o cheiro da terra molhada em sua fazenda, mas ela permaneceu lá pescando por algumas horas.
Depois de pescar uma dúzia de peixes, virou a cabeça para o lado e percebeu que havia um rapaz de cabelos escuros no píer ao lado. Ela não havia notado a presença dele até então. Ele estava sentado, olhando para o mar e para as nuvens negras se aproximando. Os olhos estavam semicerrados, como se ele estivesse perdido em pensamentos profundos.
Ela ficou encarando ele, até que, em um dado momento, ele a olhou de volta. Ela rapidamente desviou o olhar, envergonhada. Sua reação até mesmo quase lhe custou a vara de pesca, que por pouco não escorregou de suas mãos. Às vezes tinha essa mania de olhar por um bom tempo para as pessoas, mas era porque tentava imaginar o que elas estavam sentindo.
Não sabia quem ele era. Mas sentiu que agora ele estava a observando de maneira intensa, quase estudando cada gesto seu. Um arrepio percorreu sua espinha, curioso. Tomou coragem e olhou de volta. Ele permaneceu em silêncio, seu olhar profundo transmitindo algo que palavras não poderiam explicar. Sam provavelmente faria alguma piada sobre esse silêncio esquisito.
Ela tentou quebrar o gelo, se sentindo um pouco corada.
— Ahn... oi. Sou a fazendeira nova. — ela acenou pra ele.
Ele sorriu de canto com o aceno dela.
— Não vejo muitas pessoas por aqui em dias de chuva. Geralmente venho para ficar sozinho. – ele disse, brevemente.
— Ah, eu já estava de saída. — Katarina respondeu, com medo de irritar o rapaz.
— Relaxa, você não me incomoda — ele respondeu e voltou a encarar o oceano.
De toda forma, ela juntou suas coisas pois já estava há muito tempo pescando. Conseguiu peixes grandes e valiosos, estava orgulhosa de si mesma. Pesca era uma habilidade que seu avô a ajudou a desenvolver quando mais nova, e ela ainda tinha jeito pra isso.
— Bom, até mais! — ela disse sorrindo e saiu do píer, voltando para a cidade. O rapaz apenas assentiu para ela, e um pequeno sorriso passou pelos cantos de sua boca antes de se virar novamente para o mar. Aquela expressão ficou gravada na mente de Katarina, que não conseguiu evitar sentir uma curiosidade crescente sobre ele.
Chegando em casa, Katarina armazenou devidamente os peixes e cuidou de mais alguns afazeres na fazenda. Já era noite, então ligou a televisão da sala e começou a assistir ao noticiário.
Nas notícias aparecia algo sobre um crescimento exponencial das vendas da Joja, e também depoimentos dos funcionários. Todos tinham um semblante cansado, e Katarina se relembrou de todas as vezes em que fez hora extra obrigatória e não foi paga por isso.
Ela desligou a TV e jantou, depois acendeu uma vela com cheirinho de hortelã na cômoda do quarto e se sentou na cama para ler seu livro favorito.
Após um tempo de leitura, seus pensamentos se desviaram para o rapaz misterioso que encontrou mais cedo na praia. Ela realmente ficou intrigada com a presença dele. Há quanto tempo ele estava ali e ela nem mesmo havia reparado?
Ela percebeu que nem havia perguntado o nome dele, e sua curiosidade só foi cessada pois acabou dormindo de cansaço.
**
Na manhã seguinte, Robin disse à fazendeira que a construção do silo estava pronta. As duas se reuniram na mesa de jantar de Katarina e continuaram a conversa que estavam tendo sobre a família de Robin.
— Maru é mesmo muito agradável, não é? Ela é minha menina prodígio — Robin disse orgulhosa, mas não soberba.
— Ela é muito simpática, nos tornamos amigas facilmente — Katarina sorriu em resposta à menção à nova amiga. Maru a apoiava bastante e até oferecia soluções inteligentes para os problemas da fazenda.
— Eu gostaria que Sebastian saísse mais, assim como ela, conversasse mais... não sei — Robin ficou pensativa.
— Sebastian? É seu filho mais velho? — Katarina perguntou curiosa. Será que teria mais informações sobre ele?
— Ah, eu não te falei sobre ele? Sim, ele é meu filho mais velho. Ele e Maru não são irmãos biológicos, eu me casei com Demetrius depois de ter o Seb.
Robin fez uma pausa e sorriu de leve. — Então a Maru nasceu! Eles se dão bem, mas não são tão próximos. O Sebastian é reservado, mas tem um bom coração. Não sei o que já te falaram sobre ele, mas não se deixe levar pelo o que as pessoas dizem.
— Eu ainda não tive a chance de conhecer ele — Katarina comentou.
— Ele é bastante recluso, mas costuma sair mais à noite e em dias de chuva. Com sorte, você encontrará ele — Robin deu uma piscada.
Katarina começou a se relembrar do dia anterior. Seria aquele rapaz do píer, Sebastian? Do qual tanto comentam? De fato, sentiu uma aura misteriosa vindo daquela pessoa, e as características pareciam coincidir com o que já ouviu sobre ele. Estava ansiosa para encontrá-lo de novo e perguntar seu nome.
— Preciso ir agora, tenho uns projetos de móveis para finalizar — Robin sorriu e agradeceu o café da manhã, indo embora da fazenda.
Katarina se sentiu grata por ter uma carpinteira habilidosa morando no vale. O silo estava pronto e a construção estava impecável. Logo começou a se preparar para abastecê-lo com feno.
No final da tarde, a fazendeira havia terminado seu serviço. Estava orgulhosa de si mesma e queria se distrair um pouco. Voltou para casa, e quando estava prestes a ligar a televisão, ouviu uma batida na porta.
— Abigail? – Katarina se surpreendeu ao ver a amiga bem vestida na porta da casa dela.
— Nada de televisão, hoje é sábado! Vamos pro Saloon, lá tá cheio de gente! É dia de sinuca, o Sam vai estar lá!
— Ah não sei Abby, estou muito cansada. — Kat se jogou no sofá, com uma cara de preguiça.
— Ah, vamos, por favor! Quero te apresentar pessoas novas. Até o Sebastian vai vir hoje.
A menção do nome do rapaz fez Kat abrir os olhos da expressão de cansaço que havia feito. De repente, pareceu uma ótima ideia relaxar no Saloon, e não no sofá.
— Ok, você venceu, vou me arrumar! — Katarina virou de costas e ouviu uma risada sarcástica de Abigail.
— Uau! Te convenci tão fácil... foi porque eu falei que o Sebastian viria?
Para a sorte de Katarina, Abigail não pôde ver as bochechas coradas da fazendeira, pois esta estava de costas.
— Não viaja — Kat retrucou, se apressando para ir para o quarto e se vestir.
Uma noite emocionante estava por vir.
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