Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
1 Um recomeço
Katarina observava pela janela do ônibus as montanhas que cercavam o Vale do Orvalho.
Elas pareciam separar dois mundos. Do outro lado, ficava a cidade, o trânsito, o prédio cinza onde ela passara os últimos anos. Deste lado, havia silêncio.
O motor fazia um barulho constante, quase hipnótico. O ar que entrava pela fresta da janela era mais fresco do que ela estava acostumada. Cheirava a terra úmida.
Fechou o livro que carregava no colo e afastou uma mecha do cabelo vermelho do rosto. A viagem tinha sido longa. Ela ainda não sabia exatamente o que esperava encontrar ali.
Kat. Era assim que o irmão a chamava desde pequena. Foi ele quem mais resistiu à ideia da mudança. Disse que ela estava sendo impulsiva. Disse que podia procurar outro emprego na cidade. Disse que o campo não era para ela.
Mas o trabalho na Joja também não era.
Ela passava o dia inteiro atendendo clientes. Conversava com dezenas de pessoas, mas nunca dizia nada de verdade. Repetia frases prontas. Pedia desculpas por problemas que não eram dela. No fim do dia, voltava para casa exausta e com a sensação de que não tinha feito nada que importasse.
A fazenda do avô era o oposto disso.
Ele deixara a Fazenda Amanhecer como herança para ela. Enquanto vivo, era alvo constante de críticas da família. A mãe de Katarina nunca entendeu como alguém podia escolher uma vida daquelas. Mas o avô parecia feliz ali. Cansado, às vezes. Mas feliz.
Era disso que Kat precisava agora.
— Senhorita?
A voz do motorista a despertou de um cochilo leve.
— Já chegamos. Tem gente esperando por você.
Ela se levantou rapidamente, pegou a mala e desceu do ônibus.
Duas pessoas estavam paradas perto da estrada. Um senhor de suspensórios e sorriso acolhedor. Ao lado dele, uma mulher ruiva de coque folgado, postura firme.
— Você deve ser a Katarina — disse o senhor. — Sou Lewis, o prefeito.
Lewis apertou sua mão com cordialidade simples.
— E eu sou Robin — completou a mulher, sorrindo. — Tenho uma carpintaria. Bem-vinda ao Vale!
Robin tinha um jeito direto, simpático, além de ser inegavelmente bonita. Katarina sentiu um leve constrangimento ao perceber o quanto aquela recepção era calorosa. Não estava acostumada com isso.
— Fico feliz que tenha se mudado para o Vale. Seu avô me contou muitas histórias divertidas sobre você. — riu Lewis. — Ele tinha orgulho.
Katarina sorriu, um pouco sem graça.
— Espero não decepcionar.
Robin piscou para ela.
— Fique tranquila. Sua reputação está intacta… ainda!
Depois completou:
— A fazenda está precisando de cuidado. Mas nada que dedicação não resolva. Dá uma passadinha lá na carpintaria se precisar de ajuda!
— Obrigada! — Katarina respondeu, corando um pouco as bochechas. Sempre se sentia um pouco sem jeito quando as pessoas à sua volta eram gentis com ela.
— Vou te apresentar a fazenda de seu avô, que agora será sua — Lewis acenou, pedindo para que Kat o acompanhasse.
O tour foi simples e prático. Lewis explicou sobre as plantações, as vendas, as entregas. Falou também da Vila Pelicanos e das pessoas que ela conheceria no dia seguinte. Katarina anotava tudo em um caderno pequeno. Não queria errar.
— Bom, por hoje é só. Vou deixá-la descansar por enquanto, deve estar cansada da longa viagem! — o velho levantou-se da cadeira da sala de jantar da nova casa de Katarina e foi até a porta — Tenho certeza de que vai gostar daqui. Temos muitas pessoas amáveis em nossa comunidade!
— Tenho certeza que sim! Obrigada por toda a ajuda Lewis, nos vemos amanhã! — ela sorriu e os dois se despediram.
Quando ficou sozinha em casa, o silêncio foi mais intenso do que ela imaginava.
Caminhou pelos cômodos devagar. O piso de madeira rangia sob seus passos. A cozinha era pequena. Os móveis eram antigos, mas resistentes. Havia poeira acumulada e sinais claros de abandono.
Nada que eu não consiga melhorar, pensou.
Do lado de fora, o terreno estava tomado por mato alto, pedras e troncos espalhados. Daria trabalho. Muito trabalho.
Por um momento, sentiu medo.
Mas então lembrou de uma conversa antiga com o avô. Ele segurava um punhado de terra nas mãos e dizia que a terra recompensava quem cuidava dela com paciência. Na época, ela achou que era apenas uma frase bonita. Agora, parecia um conselho.
Ao anoitecer, acendeu uma lamparina e a colocou na mesa de cabeceira. A luz amarelada deixou o quarto mais acolhedor.
Deitou-se na cama, cansada da viagem, mas com a mente inquieta. Pensava no que encontraria na vila. Pensava se conseguiria se adaptar. Pensava se estava fugindo ou, finalmente, escolhendo por si mesma.
Demorou a dormir.
Antes de fechar os olhos, imaginou a fazenda limpa, organizada, viva outra vez. Imaginou sementes sendo plantadas. Imaginou algo crescendo.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez a felicidade não precisasse ser grandiosa.
Talvez bastasse recomeçar.
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