O sol pairava sobre a tarde fria no Vale. Apesar disso, o brilho não esquentava quase nada, fazendo com que a maioria doa moradores ficasse somente dentro de casa.
Apesar disso, um deles estava na cidade.
Sam fechava a porta do Saloon com cuidado, quase como se não quisesse ser visto. As bochechas e o nariz tinham um tom corado pelo frio e as mãos estavam vestidas por uma luva quente.
O ar gelado da tarde o fez inspirar fundo, como se precisasse confirmar que ainda estava ali. Parou por um instante na varanda, passando a mão pelo cabelo, antes de descer os degraus.
— Ei.
A voz veio de lado, hesitante.
Sam virou o rosto e encontrou Abigail parada perto do poste de luz, as mãos enterradas nos bolsos do casaco. Ela parecia menos defensiva do que o normal — o roxo do cabelo preso às pressas, o olhar atento demais, como quem ensaia uma conversa há dias.
Apesar disso, a garota abriu um sorriso, então ajeitou o gorro de inverno na cabeça.
— Tem pouco tempo que você foi parar no hospital por causa de bebida, sabia? — deu uma risada irônica, apontando com o queixo para a entrada da taverna.
Ele levantou o canto da boca, parecendo mais relaxado.
— Pode deixar que não vou beber de novo tão cedo. — fez uma pausa — Só tava falando com o Gus. Talvez role um trabalho aqui. Não é o ideal, mas... é alguma coisa.
— Sério? Que bom! Você vai ver só, a Joja perdeu o melhor funcionário dela. — ela deu um soquinho no ombro dele.
Os dois riram, tentando tirar o peso daquela situação. Então, ela disse, mais séria dessa vez:
— Mas é real, você sempre dá um jeito.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Nem sempre. E não precisa ficar tão animada. Não é uma certeza ainda.
Após alguns segundos se olhando, Abigail desviou o olhar para o chão, pressionando os lábios. Sam aguardava ansiosamente ela dizer o motivo de ter procurado por ele.
Depois de tanto tempo.
— Olha, eu... — ela deu uma pausa. — Sobre aquele dia do pôr-do-sol, que eu só... saí. — ela finalmente olhou pra ele — Foi mal. Eu devia ter explicado melhor o que eu tava sentindo.
— Eu ainda sou todo a ouvidos. — ele a tranquilizou, com o semblante sério.
— Vem, vamos sentar ali. — ela apontou para o banco em frente ao Saloon.
Os dois atravessaram a rua devagar. Sentaram lado a lado, com um espaço pequeno demais para parecer distância, grande demais para ser intimidade. A luz fraca da tarde esquentava um pouco, mas não o suficiente.
Abigail esfregou as mãos uma na outra e respirou fundo.
— Eu... queria pedir desculpa. Pelo que aconteceu naquele dia. — disse de uma vez, como quem tira um peso do peito. — Eu fui injusta. E impulsiva. E... falei coisas que não devia.
Sam ficou em silêncio, ouvindo.
— Não foi só a discussão — ela continuou. — Foi o jeito que eu me afastei depois. Do grupo. De você. Como se fosse mais fácil sumir do que admitir que eu tava errada.
Ele passou alguns segundos olhando para a rua, antes de responder.
— Eu também não ajudei muito. — admitiu. — Eu fico tentando segurar tudo, sabe? E quando alguém aponta alguma coisa... eu não lido muito bem.
Abigail inclinou o rosto na direção dele, surpresa com a franqueza.
— Mesmo assim, a culpa foi minha. — insistiu. — Eu deixei a insegurança falar mais alto. E acabei machucando você. Isso não é justo.
Sam respirou fundo. Quando falou, a voz saiu mais calma do que ele esperava.
— A gente se machuca às vezes. — disse. — Não quer dizer que não se importe.
Ela sorriu de verdade dessa vez, um sorriso pequeno, mas aliviado.
— Eu sinto falta da gente. — confessou. — De como era antes. Parece que tudo ficou... torto. Tudo depois que...
Um silêncio desconfortável se instalou. Ambos sabiam do que se tratava. Ou melhor, de quem se tratava.
— Eu acho que o grupo tá estranho, sabe? E... não vou mentir — hesitou — Eu comecei a me sentir um pouco excluída.
— Excluída? — Sam repetiu.
— Não diretamente, mas... desde que a Katarina chegou no Vale, parece que as coisas mudaram. Você, o Sebastian... enfim.
Sam suavizou a expressão por um instante.
— Você não precisa ter ciúmes. — ele colocou a mão sobre o ombro da amiga, certo de que isso ajudaria. — Porque sempre vou ser seu amigo e te ouvir. Igual sempre fiz.
— Não é só ouvir — ela disse com a voz irritadiça, mas logo suspirou fundo. — É estar ali de verdade, presente.
Sam recuou a mão, ficando um pouco tenso. Ele abriu a boca pra falar algo, mas ela interrompeu.
— Não estou te culpando, nem quero suas desculpas. Você não fez nada de errado, mas...
Ele pressionou os lábios e apoiou os cotovelos nas pernas, olhando para ela.
— Mas...? — ele repetiu novamente.
— Mas eu acabei me sentindo de lado depois que vi que era sério mesmo. Você tá gostando dela, então pensei que não ia mais sobrar um lugar pra mim. — disse por fim, quase atropelando as palavras.
— Abby... — a voz dele era suave, até mesmo terna. — E-Eu... realmente gosto dela — o rosto ficou vermelho por ter admitido aquilo em voz alta — Mas você sempre vai ser minha amiga, e eu sempre vou ter um espaço aqui dentro só pra você — ele apontou para o peito, num gesto quase infantil.
Ela revirou os olhos, então deu uma risada sarcástica.
— Eu sei, é só que na hora... não pensei direito. — disse por fim, com um suspiro.
Sam também deu um suspiro aliviado, feliz em saber que aquilo tinha sido somente um mal entendido. Abigail era uma amiga importante demais para se perder.
— Então... posso voltar a ter perturbar? — ele tombou a cabeça em direção a ela, arqueando a sobrancelha.
A garota novamente fez uma expressão de deboche.
— Estou começando a reconsiderar se eu deveria mesmo ter te chamado pra conversar.
Os dois riram e então começaram a colocar o papo em dia. Provas da faculdade da Abigail, visitas de Sam na cidade à procura de emprego, e até mesmo uma novidade.
— Estou treinando nas minas, com espada e tudo. Matando alguns monstros, peguei até uns minérios. — revelou ela, com um ar confiante.
Sam arregou os olhos.
— Abby! Você faz ideia do quão perigoso isso é? E se... e se você...!
A garota cruzou os braços, como se estivesse ofendida. Então, interrompeu a falação ansiosa do amigo.
— Eu dou conta, tá? Você precisa confiar mais em mim.
— Eu confio, mas... caramba, você tem que tomar cuidado.
Abigail deu um sorriso superior, tentando parecer mais forte do que realmente era. Mas ainda sim, apreciava o gesto de cuidado de Sam. Apesar de também ser uma fraqueza às vezes, uma parte dele sempre continuaria sendo assim: gentil e cuidadoso (até demais) com quem ama.
— Eu vou me cuidar, e obrigada por se importar.
Sam balançou a cabeça negativamente, desconfiando do juízo de Abigail. Foi então que ergueu o olhar e franziu a testa.
— Olha lá.
Abigail seguiu a direção do olhar dele e viu Sebastian subindo o caminho da praia, os fones pendurados no pescoço, o caderninho nas mãos. Ele caminhava devagar, distraído, como se estivesse preso em pensamentos que não queriam largá-lo.
Sam observou por alguns segundos, algo se encaixando.
— Faz tempo que a gente não ensaia. — comentou, quase casual. — Tipo... tempo demais.
Abigail o encarou, surpresa.
— Você acha que...? — disse ela, se arrependendo quase de imediato.
— Acho que talvez seja uma boa ideia. —Sam concordou, já se levantando. — Nem que seja só pra tocar. Sem pressão.
Sebastian se aproximava, ainda sem notar os dois no banco.
Abigail acompanhou o movimento de Sam, sentindo uma mistura estranha de alívio e desconforto se formar no peito.
— Tá. — respondeu, por fim. — Vamos tentar.
Sam sorriu de canto.
— Vamos.
Sebastian só percebeu a presença dos dois quando já estava perto o suficiente para ouvir o ranger da neve sob os próprios passos. Levantou o olhar, tirando um dos fones do ouvido.
— Ei — disse, meio surpreso. — O que vocês dois tão fazendo aqui fora congelando?
Sam se levantou do banco antes que Abigail respondesse.
— Eu poderia dizer o mesmo. – respondeu o loiro com um sorriso – Enfim, a Abby veio me salvar de uma tarde inteira pensando demais. E aí eu pensei numa coisa.
Sebastian arqueou a sobrancelha, desconfiado por natureza.
— Isso nunca soa bem.
— Faz tempo que a gente não ensaia — Sam continuou, ignorando o comentário. — Tipo... tempo demais.
— Ele deu de ombros. — Talvez fosse bom tocar um pouco. Só isso. Sem pressão.
Houve um segundo de silêncio. Sebastian desviou o olhar para o chão, como se avaliasse a ideia com mais cuidado do que parecia necessário.
— Hoje? — perguntou.
— É, tipo agora.— Sam confirmou. — Se você quiser.
Abigail observava os dois, sentindo aquele aperto estranho no peito crescer devagar. Não era exatamente ciúme — era memória. O jeito como Sebastian tinha ficado perto demais naquele dia no Armazém. A conversa interrompida. O clima que nunca chegou a se desfazer por completo.
— Eu topo — Sebastian disse, por fim. — Não prometo nada muito inspirado.
— Acho que nenhum de nós está exatamente muito inspirado. — Sam brincou.
Abigail respirou fundo.
— Tá — disse. — Vamos.
O quarto do Sam ainda tinha o mesmo cheiro de sempre: uma mistura de poeira, tecido velho e alguma coisa elétrica, difícil de definir. Os instrumentos estavam encostados nos mesmos lugares de meses atrás, como se ninguém tivesse tido coragem de mexer neles desde a última vez.
Sebastian ligou o amplificador em silêncio, testando o som com cuidado. Sam afinava a guitarra, concentrado demais para parecer casual. Abigail se sentou na cama, apoiando a espada de treino ao lado, observando os dois com atenção.
No começo, foi estranho.
As primeiras notas saíram desajeitadas, fora de ritmo. Sam errava entradas que nunca errava. Sebastian tocava com rigidez, como se estivesse aprendendo a tocar teclado pela primeira vez.
— É.— Sam disse, rindo de si mesmo. — A gente desaprendeu.
— Fala por você — Sebastian respondeu, ajustando o volume.
Aos poucos, o som começou a se encaixar. Não como antes — mas de um jeito novo. Menos solto. Mais contido. Ainda assim, soava familiar.
Abigail tentava se concentrar, batendo o pé no ritmo, mas a sensação não passava. Cada vez que Sebastian se inclinava um pouco mais pra frente, cada vez que o olhar dele se perdia por um segundo antes de voltar para o instrumento, o desconforto aumentava.
Era como se estivesse ocupando um espaço que não era mais exatamente dela.
— Vou pegar água — ela disse, levantando rápido demais.
Ninguém questionou.
Ela saiu do quarto e foi até a cozinha, o coração batendo mais forte do que deveria. Abby apoiou as mãos na pia e ficou ali por alguns segundos, respirando fundo.
Não era raiva. Nem tristeza clara.
Era a certeza incômoda de que algo tinha mudado — e que insistir em ficar ali só tornaria isso mais evidente.
Quando voltou ao quarto, o som estava mais firme. Sam sorria enquanto tocava, completamente entregue à música. Sebastian estava sério, mas menos tenso.
Abigail parou na porta.
— Gente — chamou.
Os dois olharam para ela.
— Eu vou indo nessa — disse, tentando manter o tom leve. — Ainda tenho umas coisas pra resolver hoje.
— Já? — Sam perguntou, genuinamente surpreso.
— É. — Ela deu um meio sorriso. — Depois a gente ensaia de novo. Com mais tempo.
Sebastian assentiu.
— Até mais, Abby.
— A gente se vê.
Ela fechou a porta atrás de si sem fazer barulho. Após isso, um longo silêncio se instalou no quarto.
Sam foi o primeiro a largar a guitarra.
— Ela ficou estranha — comentou, sem julgamento.
Sebastian passou a mão pelo braço, pensativo.
— Ela sempre fica quando tenta fingir que não tá.
Sam hesitou por um segundo, então se sentou na beirada da cama.
— Cara... posso te perguntar uma coisa?
Sebastian se encostou na parede.
— Já perguntou.
Sam soltou uma risada curta.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês?
Sebastian demorou a responder.
— Nada. — disse. — E foi justamente isso que complicou tudo.
Sam franziu a testa.
— Como assim?
— A Abby falou umas coisas. Eu fiquei sem saber o que responder. — Ele respirou fundo. — E também... eu vi você e a Kat no hospital, naquele dia.
Sam congelou por um instante.
— Você viu?
— Vi. — Sebastian deu de ombros. — Não foi nada demais. Eu só... vi.
O silêncio que veio depois não era pesado. Era cuidadoso.
— A Abby gosta de você — Sam disse, por fim. Não como revelação. Como constatação.
Sebastian fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
— E eu acho — Sam continuou, escolhendo as palavras — que ela também percebeu umas coisas antes de todo mundo.
Sebastian abriu os olhos, atento.
— Que coisas?
Sam não respondeu direto.
Bom... — ele disse, quase rindo — Quando eu perdi o emprego, você me segurou quando tudo tava desmoronando. Então agora acho que... talvez seja minha vez de agir.
Sebastian o encarou.
— E o que você quer dizer exatamente?
Sam sustentou o olhar.
— Que você não tá sozinho nisso. — Fez uma pausa. — Mesmo que ainda não saiba exatamente no quê.
Sebastian soltou o ar devagar. Não parecia aliviado. Mas parecia menos tenso.
— Valeu — murmurou.
Sam deu um sorriso torto.
— A gente se vira. Sempre deu.
Do lado de fora, a noite já tinha caído de vez. O moreno se despediu de Sam, que acompanhou o amigo com o olhar até que ele sumisse de vista.
Sam fechou a porta de casa e parou, pensativo. Abigail tinha razão, Seb estava diferente.
Todos estavam.
Mas, pela primeira vez em um bom tempo, ninguém estava carregando tudo sozinho.
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