Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
21 Crescer dói
Katarina acordou com a sensação de que nem tinha dormido.
O canto do galo parecia insuportável hoje. O mau humor tinha atingido a ruiva em cheio.
Escovando os dentes, a decisão veio como uma lâmpada acendendo acima da cabeça.
— Vou tirar o dia pra relaxar.
Nada de tarefas pesadas nem horas limpando a neve das estradas da fazenda. Só café quente e o livro favorito.
E assim o fez.
Mas, mesmo assim... a mente parecia fora do eixo.
Leu um parágrafo inteiro e percebeu que não fazia ideia do que tinha acabado de ler. Voltou duas linhas. Piorou.
Sem pensar muito, vestiu o casaco pesado, pegou a garrafa térmica de café e o livro, decidida a afastar qualquer tipo de pensamento.
Ao abrir a porta de casa, percebeu os flocos de neve molharem o couro do casaco.
Então deixou a fazenda rumo à cidade, deixando marcas de pegada sob a neve.
-
Sam estava de saída.
A mochila nas costas revelava que faria algum bico em breve. Também usava um gorro verde e um casaco marrom de lã pesado sobre o corpo.
Quando estava prestes a abrir a maçaneta da porta de casa, escutou um som estranho, mas familiar.
Era a mãe chorando... de novo.
O barulho vinha do quarto. Sam bateu na porta delicadamente.
— Mãe... — ele fez uma pausa, pressionando os lábios. — Posso entrar?
Silêncio. O loiro já estava com a mão no ar novamente, quando ela respondeu:
— Sim, querido. Pode sim. — a voz fanhosa.
Jodi estava sentada de costas para a porta. Segurava o porta-retrato do marido, com uma foto tirada antes da ida para a guerra. As pontas dos dedos da mulher estavam vermelhas, como se estivesse segurando com força aquele objeto. Aquela memória.
Sam deixou a mochila perto da cama e se sentou ao lado da mãe. Ele olhou de relance o quadro, como se evitasse olhar, e deu um suspiro.
— Eu também sinto muita falta do pai. Todos os dias. — começou. — Mas ver a senhora assim... me dói muito, mãe.
Jodi olhou para o garoto com a ternura de quem vê um filhote indefeso, então o abraçou.
As lágrimas voltaram a sair em peso.
— Eu te amo muito, meu filho. Eu só... — mal conseguia completar a frase.
— Tá tudo bem, mãe. Eu também te amo. Eu tô aqui. — ele retribuiu o gesto com carinho.
Ela se desvencilhou do abraço e apoiou a mão sobre a lateral da bochecha dele.
— Você sempre tá aqui. Você sempre está sendo um rapaz forte. Eu sinto muito por isso, filho. Eu sei que é muito peso pra você, e eu...
— Relaxa, mãe. Eu tô acostumado. — ele cortou a fala dela com a voz cuidadosa. — Sei que é pesado, mas tô aqui com você.
Ambos ficaram em silêncio.
O quarto parecia pequeno demais para tudo o que não foi dito.
Jodi enxugou as lágrimas, retirando delicadamente a mão do rosto dele.
— Você vai se atrasar. — ela tentou um sorriso sincero. — A Marnie tá te esperando.
— Você vai ficar bem, mãe? — ele perguntou, o rosto preocupado.
Jodi pressionou os lábios, então acenou com a cabeça.
— Sim. – deu uma pausa. — Você vai?
Ele abriu um pouco os olhos, surpreso com a pergunta.
— Estou tentando. — sorriu de canto, tentando trazer a leveza característica de sempre.
Com a mochila nas costas novamente, ele partiu rumo ao Rancho da Marnie.
-
Abigail sentia o estômago afundar em ansiedade.
Estava parada em frente à caixa de correios do Armazém. Esperava que aquilo estivesse lá dentro.
A carta.
Com as palmas das mãos levemente suadas, ela pegou todos os envelopes dali e voltou para casa.
Ela adentrou o quarto e se trancou lá dentro, afinal, uma interrupção de Pierre ou Caroline arruinaria completamente o momento.
Com um certo medo, sentou na mesa da escrivaninha e despejou as cartas ali. Começou a ler o destinatário de cada uma delas.
— Pierre... Pierre, hum... Pierre, de novo... mamãe...
E quando finalmente leu seu próprio nome ali, em uma carta com lacre vermelho, levantou da cadeira num sobressalto.
— Aqui! Isso, droga! — os dedos atravessavam a abertura do envelope nervosamente.
Tirando o papel de dentro, os olhos azuis percorriam a tinta de caneta tinteiro, procurando pelas palavras que tanto sonhava em ler.
Então, de repente...
"Parabéns! Você foi aceita na Guilda dos Aventureiros!"
Abby releu aquela frase incontáveis vezes, tentando se certificar de que não tinha visto errado.
Depois de reler algumas vezes... a ficha caiu.
— Caralho, eu consegui! — ela fechou o punho, vitoriosa, então deu pulinhos de alegria.
Como se tivesse sido pega no pulo, virou a cabeça de um lado para o outro, então deu um suspiro de alívio ao perceber que estava de fato sozinha. Ela definitivamente não queria ser vista daquele jeito.
O primeiro impulso foi pegar o celular. Digitou para Sam, anunciando a notícia. Estava feliz da vida. Tinha conseguido.
Depois de tanto treino, tanto esforço.
Ela foi vista.
Pela primeira vez, por algo que era só dela.
Começou a digitar para Sebastian também.
Mas então, a ficha caiu novamente.
Sebastian. Katarina.
O dedo pairou sob o botão de enviar...
E apagou tudo.
Abby jogou o celular na cama como se pudesse jogar fora os próprios sentimentos. Então, após um suspiro, olhou para janela e se permitiu abrir um sorriso.
Aquilo era o primeiro passo para a independência que tanto queria.
O discurso que diria aos pais já estava pronto. Passou dias pensando em cada frase que diria. Na tonalidade da voz. Tudo.
Mas antes disso....
Ela ficaria apenas ali. Sentindo aquela felicidade merecida atingir o corpo.
-
Meio da tarde. A neve tinha cessado.
O sol iluminava fracamente Shane, que estava sentado num fardo de feno, jogando grãos numa bandeja de metal com mais força que o necessário.
Sam ajudava a carregar sacos de ração. O corpo cansado, mas a cabeça ainda ativa.
— A Abby mandou mensagem. — Sam comentou, meio distraído. — Foi aceita na Guilda.
— Hm. — Shane nem olhou. — A garota tem mais coragem que metade da vila.
Silêncio. O som das vacas mastigando preenchia o espaço entre os dois.
Sam apoiou o saco no chão e passou a mão na nuca. Ficou olhando para o nada por alguns segundos, como se a conversa anterior já não tivesse mais a ver com o que estava na cabeça dele.
— Você acha que... dá pra gostar muito de alguém e ainda assim estar fazendo tudo errado?
Shane finalmente levantou os olhos.
— Depende. Você tá perguntando ou confessando?
Sam soltou uma risada curta.
— Eu amo ela.
Não foi dramático. Foi quase baixo demais. Como se tivesse escapado. O loiro corou levemente com a própria fala.
Shane observou o garoto por alguns segundos.
— E?
Sam franziu a testa.
— E o quê?
— E o que você tá fazendo com isso?
O loiro chutou um pedregulho no chão.
— Eu só quero que ela fique bem. Quero que ela seja feliz. Mesmo que…
Ele parou.
Shane inclinou levemente a cabeça.
— Mesmo que você não esteja?
Sam ficou em silêncio. O vento entrou pelas frestas do celeiro da Marnie.
— Eu só… — ele respirou fundo. — Eu não posso me escolher por último sempre, né?
Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.
Shane soltou um riso nasal e ajeitou o boné.
— Não pode. Mas vai tentar mesmo assim.
Sam olhou pra ele, surpreso.
— Você acha?
— Acho que você faz isso com todo mundo. Sua mãe... seus amigos. — deu de ombros. — Só não percebe que ninguém te pediu pra ser o adulto da sala o tempo todo.
Sam não respondeu de imediato. Apenas ficou olhando para as próprias mãos.
— Eu não quero perder ela.
Shane pegou o balde vazio.
— Então para de tentar ser o herói.
Ele passou por Sam e completou:
— Amar alguém não é perder a si mesmo.
Sam ficou parado ali alguns segundos, processando a informação. Depois voltou ao trabalho.
Mas alguma coisa tinha mudado nele.
-
O aquecedor da biblioteca fazia um barulho discreto e constante.
O ar lá dentro era morno. Katarina escolheu a mesa perto da janela, deixando o casaco no encosto da cadeira, apoiando as costas.
O livro aberto nas mãos. Os olhos percorriam as linhas com disciplina, mas a cabeça estava em outro lugar.
Suspirou baixo e levou a garrafa térmica aos lábios. O café já não estava mais tão quente.
O ambiente era silencioso e cheirava a papel antigo. Estava quase vazio, com exceção de Gunther, que preenchia arquivos atrás do balcão e do Dr. Harvey, que consultava alguns exemplares de clínica médica.
Em momentos de distração, Kat aproveitava a vista da janela, notando alguns coelhos que pulavam sob a neve. Em outros, via de relance as poucas pessoas que estavam naquele local aconchegante.
Então ele chegou.
Sebastian usava um cachecol roxo e moletom preto. Segurava alguns livros no braço. Por ironia do destino, seus olhos cruzaram os de Katarina assim que entrou.
Ela foi a primeira a desviar o olhar, procurando com urgência o último parágrafo que estava lendo.
O moreno franziu o cenho, demorando os olhos nela. Ele se aproximou do balcão de Gunther. Estava ali para devolver alguns livros emprestados.
Katarina manteve o olhar baixo sobre o livro quando sentiu alguém puxando a cadeira ao lado.
Ela já sabia que era ele antes mesmo de olhar.
— Você sempre lê o mesmo livro? — perguntou ele com casualidade, enquanto tirava as luvas devagar.
Katarina demorou um pouco a responder, ainda olhando para baixo.
— Sempre.
Silêncio. O ar agora parecia mais denso.
— E funciona? — ele deixou as luvas alinhadas demais sobre a mesa.
Kat sabia que a conversa não era mais sobre livros.
— Às vezes.
Sebastian segurou o fôlego antes de soltar, então colocou um livro qualquer sobre a mesa e se inclinou para frente, demorando um pouco para abrir a primeira página.
Katarina finalmente olhou para ele, notando os ombros tensos.
Tentando relaxar um pouco, Kat soltou o ar e virou a página sem pensar, apenas fingindo que estava lendo algo.
Sebastian olhou para ela com o canto do olho.
— Achei que você ia estar na fazenda.
Ela encarou o moreno.
— Achei que você ia estar no porão.
Sebastian deu um meio sorriso, então fingiu que nem tinha dito nada, mantendo a expressão séria diante das páginas.
A ruiva notou como aquela simples mudança de expressão havia afundado algo dentro dela.
Não era a primeira vez que sentia aquilo, mas nunca deixava de doer.
Katarina segurou o livro com mais força, tentando obrigar a mente a focar na leitura.
Os dedos dele bateram duas vezes na borda da mesa, um gesto curto, impaciente, como se algo ali já tivesse ultrapassado o ponto de retorno.
Sebastian empurrou para longe o livro que não estava realmente lendo.
— Eu tava pensando em tentar algo em Zuzu. Ficar parado aqui não tem feito muito sentido pra mim. — disse como quem comenta do clima.
O nome da cidade ficou suspenso entre os dois, pesado como algo que já vinha sendo ensaiado há meses. A ruiva sentiu um pequeno aperto no peito.
— Sério?
Ele deu de ombros.
— Talvez na primavera.
Katarina olhou para a janela, reparando que a neve tinha cessado. Ela demorou meio segundo a mais pra responder.
— Legal.
O maxilar dele enrijeceu.
— Só isso?
Ele inclinou o corpo um centímetro para frente, como se aproximar pudesse arrancar outra resposta.
O coração de Kat bateu mais forte. Ela percebeu tarde demais.
— Quer dizer... — corrigiu rápido. — Você sempre disse que não se sentia bem aqui.
Ele a encarou como se estivesse esperando por outra coisa.
Como se esperasse que ela dissesse "fica."
Ela não disse.
O ar estava pesado.
Kat se virou para ele. Percebeu as olheiras fundas, o jeito como ele mantinha os ombros levemente tensos, como se estivesse pronto para se levantar a qualquer instante.
Como se estivesse ensaiando ir embora.
Ela odiou aquilo.
E odiou ainda mais perceber o quanto ele parecia bonito sob a luz cinza da janela. O quanto aquilo machucava.
Ambos voltaram a ler. Mas Seb não virava a página há minutos.
Kat também não.
Então os dois se encararam. E dessa vez, ninguém sorriu.
Katarina sentiu a respiração falhar. Os olhos de Sebastian eram fundos como um poço. Ela teve o vislumbre da primeira vez em que se encontraram, no píer da praia.
Então ele desviou primeiro.
Claro que desviou.
Sebastian fechou o livro novamente e se levantou.
— Eu tenho que ir.
Ela quase disse algo. Ele demorou meio segundo a mais do que o necessário antes de virar as costas.
Mas nada veio.
Ele assentiu para si mesmo e pegou as luvas.
A cadeira rangeu levemente ao se mover sob o chão de madeira.
Katarina ficou ali, ainda olhando para a página aberta.
Só quando a porta fechou atrás dele é que percebeu que não tinha absorvido nada do livro.
De novo.
-
O quarto de Sam ainda guardava o eco da guitarra que ele tocara mais cedo.
Fios do amplificador largados sobre o chão... um pôster meio torto ameaçava cair da parede.
Ele estava deitado de barriga para cima, o celular apoiado no peito, olhando para a tela como quem espera um sinal do céu.
A conversa com Kat aberta.
A última mensagem dele ali, simples demais:
“Boa noite.”
Ele tinha escrito “boa noite :)” primeiro.
Depois apagou o sorriso.
Depois colocou de novo.
Depois apagou outra vez.
Mandou seco.
"Mais honesto assim", pensou.
O polegar tamborilava na lateral do celular, no mesmo ritmo que ele costumava marcar antes de começar uma música. Tum. Tum. Tum.
Nada.
Ele virou o aparelho com a tela para baixo sobre o colchão.
Ficou dois segundos encarando o teto.
Virou de novo.
Nada.
O celular vibrou de repente. Sam se ergueu rápido demais, o coração disparando. Era só uma notificação qualquer. Ele deixou escapar um suspiro frustrado e jogou o aparelho de volta no peito.
Sam soltou um riso curto pelo nariz, quase zombando de si mesmo.
— Relaxa.
Falou para o quarto vazio.
Talvez ela estivesse ocupada. Talvez tivesse ido dormir cedo.
Ele começou a montar pequenas histórias confortáveis, como quem arruma almofadas antes de se deitar nelas.
Pensou na primavera chegando. Na neve derretendo. Em chamar Kat para a praia quando o vento parasse de cortar o rosto.
Talvez levasse o violão.
Talvez ela risse daquele jeito que fazia o mundo parecer menos pesado.
O celular continuava imóvel.
Ele abriu a conversa outra vez, leu a própria mensagem como se fosse de outra pessoa.
Curta demais.
Sem graça demais.
O celular vibrou. Dessa vez era ela. Sam sentou na cama antes mesmo de perceber.
“Boa noite. Desculpa a demora.”
Ele leu duas vezes. A mensagem era correta, educada. Mas parecia estar em outro lugar.
Sam franziu levemente a testa, como se tentasse encontrar algo nas entrelinhas. Não encontrou. Mesmo assim, sorriu pequeno.
Pensou em mandar outra.
“Você chegou bem?”
Parou com o polegar sobre a tela.
Lembrou do que Shane tinha dito no celeiro.
Apagou.
Não por medo. Por escolha.
Sam colocou o celular sobre a mesinha dessa vez, ao lado do abajur aceso. A luz amarela desenhava sombras suaves nas paredes, deixando o quarto numa penumbra.
Ele ficou olhando para aquela luz por um tempo.
Apagar significava aceitar que aquilo era o suficiente.
Respirou fundo, esticou o braço e girou o botão.
O quarto mergulhou no escuro.
Por alguns segundos, ele ainda ouviu o próprio coração batendo alto demais para quem já tinha recebido o que queria.
O celular permaneceu silencioso.
Talvez ela estivesse só cansada.
Talvez fosse coisa da cabeça dele.
E, antes de dormir, pensou que amanhã poderia ser diferente.
Ele se agarrou a essa ideia como quem segura a última nota de uma música, esperando que ela não desafine no ar.
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