Katarina suspirou fundo antes de bater na porta da Carpintaria. A ruiva segurava firmemente uma bolsa de tecido, com alguns bordados feitos à mão.

Ela escutou passos em direção à porta e endireitou a postura. Era Robin, que atendeu com um sorriso, convidando-a para entrar.

— Eu tenho alguns móveis novos que você vai adorar! — a carpinteira dizia com entusiasmo, já se apressando para detrás do balcão, procurando o catálogo.

— Na verdade, Robin... — a fazendeira tirou o caderninho de Sebastian da bolsa — Eu vim entregar isso.

— Isso é do Tião? — Robin levantou uma sobrancelha. — Ora, obrigada por devolver. Pode deixar que eu entrego pra ele!

— Eu prefiro entregar pessoalmente! — Kat respondeu rápido demais, dando uma risada tensa — É que... o Sam disse que ele é meio apegado com o caderno... sabe como é!

— Ah, você tem razão! — Robin deu uma risada divertida — Se ele me vir segurando isso vai ficar de mal humor. Ele não gosta que mexam nas coisas dele — concluiu.

— Sério? — Kat engoliu seco, tentando esconder o pânico de ter folheado tudo. — Você sabe onde ele tá?

— Deve estar perto do lago. — Robin deu de ombros, procurando o machado favorito para o corte de lenha daquela manhã — Ele não tem mais passado tanto tempo em casa.

Katarina sentiu um arrepio subir pela espinha. Não de frio, mas de preocupação.

— Obrigada. Vou procurar por ele! — Kat sorriu para Robin e se despediu, fechando a porta da Carpintaria.

O caminho até o Lago da Montanha foi rápido. Assim que chegou, ela avistou Sebastian encostado em uma árvore. Ele levantou o olhar quando percebeu a presença dela, como se já estivesse esperando.

Havia algo inquieto nele, mas ainda assim, Sebastian deu alguns passos na direção de Kat.

— Ah... oi. — tentou soar indiferente, mas acabou parecendo só sem jeito.

— Oi, Seb... — ela respirou fundo. — Eu... a gente ficou meio preocupado com você. Tá tudo bem?

— Tá, sim. — ele deu de ombros. — Só tenho dormido meio mal.

A resposta não convenceu totalmente Katarina.

— Você... quer falar sobre isso?

Sebastian hesitou por um segundo, depois desviou o olhar.

— Não.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. A ruiva então abriu a bolsa e puxou o caderninho.

— Encontrei isso no píer da praia ontem... o Sam disse que é seu. — Kat entregou o caderno para Sebastian, esperando atentamente por alguma reação.

Finalmente olhando pra ela, Sebastian pegou o caderno um pouco rápido demais. Um nó se formou na garganta dele quando se lembrou daquelas páginas arrancadas.

— Valeu... eu tava procurando por isso. — ele colocou o caderno em um dos bolsos do moletom. — Você... chegou a ler alguma coisa?

Katarina não conseguiu esconder a vermelhidão em seu rosto e Sebastian arqueou levemente a sobrancelha, segurando um sorriso de canto.

— Acho que isso é um sim.

— Foi mal... — ela levou a mão à nuca, constrangida. — Sou meio curiosa. E... você desenha muito bem.

— Obrigado. Gosto de fazer uns rabiscos de vez em quando. — ele colocou as mãos no bolso, se sentindo um pouco nervoso.

Katarina demorou o olhar no dele e, de repente, se lembrou daquela mensagem enviada sem querer.

Ela desviou rapidamente o olhar, encarando agora o lago. Ela caminhou lentamente até a beira da água, observando atentamente o próprio reflexo.

Seguindo-a com o olhar, o moreno começava a sentir as mãos suadas. Ela parecia tão... diferente.

— Você também tem dormido mal? — ele criou coragem para se aproximar, ficando ao lado dela.

— É... sim. — Kat suspirou — Só... trabalho demais na fazenda.

Pequenas mentiras, uma atrás da outra. Ainda sim, aquele incômodo persistia.

Sebastian puxou um cigarro da cartela e o deixou cair no chão, sem nem acender. Aquele lugar, que antes era tão aconchegante para os dois, agora parecia tomado por uma tensão silenciosa e desconfortável.

— O Sam... — ele começou, mas a voz falhou. Limpou a garganta. — A Maru me disse que você levou ele pro hospital.

— Levei. — Kat assentiu, o semblante sério. — Você falou com ele depois disso? — disse se virando para Sebastian.

— Mandei mensagem no outro dia. — ele hesitou. — Ele... falou bastante de você.

Essa última frase pareceu escapar de sua boca. O arrependimento veio de imediato.

— De mim? — a ruiva parecia nervosa. Falar de Sam ali, com Sebastian, de repente parecia errado. — Como assim?

O moreno assentiu, então se sentou na beirada do lago, seguido dela.

— Disse que você foi muito atenciosa com ele. — Seb dobrou os joelhos, mantendo o olhar fixo no horizonte nublado.

— Ele tava malzão. — Katarina tentou sorrir, sem graça, mas o moreno permaneceu quieto. — Eu só... tava por perto quando aconteceu. Ajudei ele, só isso.

As palavras saíram devagar demais.

Só isso.

Sebastian sentiu o estômago afundar com a lembrança das mãos entrelaçadas — mas ainda assim... ela estava ali. Se explicando.

Por quê?

Kat começou a roer as unhas, mas parou ao sentir o olhar dele sobre si. Um leve rubor subiu às bochechas.

Por um instante, Sebastian quase falou da mensagem. Quase.

Mas engoliu as palavras.

Tinha medo demais de estragar tudo.

— Eu só vim te devolver o caderno... tenho que ir agora. — Katarina virou o rosto para trás, tentando esconder o aperto no peito.

Quando percebeu que ela estava mesmo indo embora, Sebastian segurou o pulso dela. Foi rápido, instintivo — como se o corpo tivesse decidido antes da mente.

— Kat, eu... — o olhar dele era aflito, como se estivesse tentando segurar pequenos grãos de areia que escorriam de suas mãos.

Ela ficou imóvel por um segundo. O toque era leve, mas queimava

— Só... se cuida tá? — a voz dele saiu baixa, trêmula.

Ela olhou de volta, fitando os olhos negros do garoto. Tombou levemente a cabeça, assentindo com um sorriso gentil, mas que escondia uma pequena tristeza que insistia em brotar em seu peito.

Seb observou cada passo dela até ela sumir de vista. Ficou parado ali por muito tempo, incapaz de mover sequer um músculo.

Todo aquele incômodo que estava sentindo... agora ele tinha certeza.

Não conseguia ir embora.

Não conseguia respirar fundo.

— Droga. — murmurou.

Ele esfregou o rosto com as mãos várias vezes, como se tentasse acordar de um sonho.

Mas era real.

Sebastian soltou um longo suspiro e colocou o caderno sobre as pernas, passando os dedos pelas marcas do uso, como se precisasse se certificar de que aquilo era mesmo seu.

Por impulso, abriu o caderno na contracapa.

Algo deslizou e caiu no chão.

O moreno congelou.

Era um papel dobrado, fininho, como se tivesse sido colocado ali de última hora.

Ele o pegou, sentindo o coração acelerar. Não de ansiedade, mas de um medo estranho e elétrico.

Desdobrou devagar.

Era um desenho feito à mão, mas reconhecível de imediato.

Ele e o lago.

Ou melhor... ele no lago, exatamente como estava agora — sentado, joelhos dobrados, o céu nublado.

Só que no desenho havia um detalhe que não existia na realidade:

Uma pequena frase no canto inferior:

"Não sei o que está acontecendo com você... mas espero que fique bem."

A caligrafia era dela. Rápida, quase tímida.

Sebastian sentiu o estômago revirar, mas de um jeito doce, desesperador e quente.

— Kat... — murmurou, como se o nome dela tivesse peso suficiente para afundá-lo ali mesmo.

Passou o polegar sobre o desenho, tentando entender quando ela tinha colocado aquilo ali.

Talvez antes de devolver o caderno. Ou talvez... na hora de ir embora, para que ele só percebesse depois.

Ele não sabia.

E esse "não saber" era o que mais mexia com ele.

Sebastian fechou os olhos e apoiou o desenho contra o peito.

Ele riu sem humor, um riso curto, nervoso.

— Assim você acaba comigo — disse baixo, quase num sussurro.

O vento passou pelo lago, mexendo um pouco o cabelo dele.

Sebastian prendeu o desenho dentro do caderno com cuidado. Não no bolso, não dobrado, mas entre as páginas mais importantes, as mais pessoais.

Como se fosse precioso demais para perder.

E pela primeira vez desde cedo, respirou fundo.

E doeu.

Mas era uma dor boa.

Ele fechou o caderno, segurando-o com firmeza.

E ali, sozinho no lago, com o vento frio batendo no rosto, ele finalmente entendeu por que era tão impossível respirar perto dela.

E esse sentimento estava crescendo rápido demais pra controlar.

Notas finais
Obrigada por ler até aqui! <3 Eu senti daqui a tensão entre os dois. O que vocês acharam?