A noite começava a cair quando Katarina saiu de casa para fechar o galinheiro.

O céu ainda guardava um tom alaranjado, bonito demais para o peso que ela sentia no corpo. Não era só cansaço físico: ela sentia que algo ficou mal resolvido dentro dela, ocupando espaço demais.

Desde a conversa no lago, aquela sensação a acompanhava como um incômodo constante. Não era algo que ela soubesse nomear — apenas uma inquietação silenciosa, uma presença que surgia sempre que ela tentava se concentrar em qualquer outra coisa.

Ela se moveu no automático, fechando portões, conferindo travas, repetindo gestos que já conhecia de cor. Ainda assim, o silêncio da fazenda parecia mais denso do que o normal, quase incômodo, como se esperasse alguma coisa dela.

Ao virar em direção à estrada de terra, ela o viu.

Sam caminhava devagar, a mochila pendurada em um dos ombros, o cabelo levemente bagunçado pelo vento.

Kat reconheceu o jeito antes mesmo de pensar: o passo cansado, o olhar baixo por um segundo a mais do que o normal. Quando ele se aproximou, notou o cansaço estampado no rosto dele — o tipo que não vinha só do corpo.

Ela hesitou.

Por um instante, pensou em fingir que ainda tinha algo para fazer. Em se ocupar de novo. Em adiar.

Não era vontade de evitar o Sam. Era medo de não conseguir estar inteira ali.

— Sam? — chamou, antes que pudesse repensar.

Ele parou, surpreso, e logo abriu um sorriso aliviado.

— Ei. — Ajustou a alça da mochila. — Ainda bem que te encontrei. Acabei de descer do ônibus.

— Do ônibus? — ela franziu o cenho.

— É. Fui na cidade vizinha hoje. — Deu de ombros, tentando soar casual. — Entreguei uns currículos. Nada certo ainda, mas... sei lá. Tô tentando.

Kat sentiu um aperto no peito — um misto de empatia e algo mais difícil de nomear. Apesar disso, ela conhecia bem aquele tom: o de quem dizia que estava tentando porque ainda não tinha outra opção além disso.

— Deve ter sido cansativo.

— Um pouco. — Ele riu de leve. — Mais mental do que físico.

O silêncio se instalou por alguns segundos. Não era desconfortável. Sam olhou em volta, depois voltou o olhar para ela.

— E você? — perguntou. — Você parece... exausta.

— Hoje foi longo. — Ela deu um riso curto, que não convenceu nem a si mesma.

Sam assentiu, mas não insistiu. Kat sentiu os ombros relaxarem por um instante — só para travarem de novo logo depois.

— Quer companhia? — perguntou, simples.

Kat pensou em negar. Pensou em dizer que estava tudo bem, que precisava dormir cedo. Mas o cansaço venceu — não o do corpo, e sim o outro.

— Quer entrar um pouco? — ofereceu.

— Se não for atrapalhar.

— Não vai.

Dentro da casa, a luz era baixa. Kat acendeu apenas uma luminária, deixando o resto em penumbra. Sam largou a mochila perto da porta e se espreguiçou discretamente, soltando um suspiro cansado.

Era um gesto pequeno, quase automático, mas deixou claro o quanto ele precisava parar por alguns minutos.

— Posso sentar? — perguntou, já meio afundando no sofá.

— Claro.

Ela foi até a cozinha e pegou alguns cookies que ainda estavam no forno. Enquanto isso, percebeu a própria mente vagar — pensamentos soltos, imagens desconexas, uma sensação estranha de estar ali... e, ao mesmo tempo, em outro lugar.

Sam a observava do sofá.

— Nada melhor do que um docinho pra relaxar — comentou ele, com leveza.

— Faço isso quase todo dia. — Kat sorriu de lado. — Já virou hábito.

— E funciona?

— Às vezes.

Quando voltou, entregou alguns biscoitos pra ele num pratinho. Sam soprou-os, fazendo uma careta exagerada.

— Ainda vou queimar a boca com isso um dia. A vovó Evelyn sempre faz uns desses lá em casa.

— Aprendi a receita com ela. — Kat riu, sentando-se ao lado dele.

O espaço entre os dois era pequeno. Familiar. Confortável demais.

— Como foi lá? — ela perguntou. — Na cidade.

— Estranho. — Ele apoiou o prato nos joelhos. — Entrar em lugares que não me conhecem... explicar quem eu sou, o que eu sei fazer... — Deu um riso sem humor. — Me senti meio perdido.

Kat assentiu em silêncio.

— Mas acho que faz parte — continuou. — Só não achei que ia ser tão rápido. Um dia você tem rotina, no outro... — Ele estalou os dedos. — Vazio.

Ela pensou em dizer algo que o animasse. Alguma frase certa. Mas nenhuma parecia verdadeira o suficiente.

Ela o observou com atenção. Pensou em como ele estava ali, presente, inteiro. E ainda assim sentiu aquela pontada estranha — como se estivesse tentando se encaixar em algo que, por algum motivo, não se alinhava totalmente.

— Você não tá sozinho — disse, antes de pensar demais.

Sam sorriu. Havia carinho ali, mas também algo frágil, quase inseguro.

— Às vezes parece que tô.

O silêncio voltou.

Kat percebeu que, naquele momento, ele precisava mais de presença do que de respostas. E isso ela conseguia oferecer.

Ela puxou uma manta fina do encosto do sofá e a colocou sobre as próprias pernas. Alguns segundos depois, Sam puxou o resto, cobrindo os dois.

— Você anda sumida — ele comentou, tentando soar leve. — A Abigail quase não fala de você ultimamente.

O estômago de Kat apertou.

— Eu... ando meio desligada.

— Eu percebi. — Ele virou o rosto para ela. — Fiquei um pouco preocupado. Desde aquele dia no píer você... mudou.

Ela sentiu a vontade imediata de se fechar, mas ainda assim, permaneceu ali.

Kat respirou fundo. O calor da manta, a proximidade dele, a voz baixa... tudo aquilo parecia um descanso que ela não sabia que precisava — e talvez exatamente por isso fosse perigoso.

Sem perceber, encostou o ombro no dele. Sam ficou tenso por um segundo, depois relaxou, inclinando-se também.

— Kat... — ele disse, baixo. — Você quer falar sobre isso?

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Havia pensamentos demais. Sentimentos demais. Alguns que ela nem queria encarar.

— Não agora — murmurou.

— Tudo bem. — Ele não insistiu. — A gente pode só... ficar.

E ficaram.

O silêncio agora era confortável demais. Katarina fechou os olhos por um instante, sentindo a respiração desacelerar. Quando abriu, percebeu o quão perto estavam. Perto demais.

O coração acelerou.

Ela virou o rosto. Os lábios ficaram a poucos centímetros dos dele. Sam sentiu a aproximação e correspondeu, instintivo. Por um segundo, pareceu simples.

Mas algo nele travou.

Ele parou antes do beijo acontecer. A testa encostou de leve na dela, a respiração quente e irregular.

— Kat... — murmurou, de olhos fechados. — Espera.

Ela abriu os olhos, confusa.

— O que foi?

Sam respirou fundo, visivelmente lutando consigo mesmo.

— Eu quero — disse, com honestidade. — Muito. Mas... — Abriu os olhos e a encarou. — Eu sinto que você tá aqui comigo, mas sua cabeça tá em outro lugar. E eu não quero ser só o lugar onde você descansa porque tá doendo demais.

As palavras não soaram duras, mas sim cuidadosas. E, justamente por isso, doeram mais.

Kat sentiu o rosto queimar. Não porque ele estivesse errado — mas porque ele tinha colocado em voz alta algo que ela vinha evitando.

— Eu não... — começou, mas parou. Não havia resposta simples.

— Eu não quero te confundir mais — ele continuou, a voz baixa, cuidadosa. — Nem me confundir.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Kat percebeu que, pela primeira vez, alguém estava colocando um limite não por falta de sentimento, mas por respeito.

Ela se afastou devagar, puxando a manta para si — como se aquilo pudesse protegê-la do que tinha acabado de entender.

— Desculpa — disse, a voz pequena. — Eu acho que... eu tô um pouco bagunçada.

Sam assentiu. Triste, mas firme.

— Eu sei.

Ele se levantou e pegou a mochila.

— Obrigada por vir — ela disse, sem encará-lo. — E obrigada por... tudo.

— Se cuida, Kat.

— Você também.

Sam saiu, fechando a porta com cuidado. O clique suave da porta soou mais alto do que ela esperava.

Katarina permaneceu sentada no sofá por um longo tempo, encarando o cookie de chocolate ainda morno nas mãos.

O cuidado tinha sido real.

O carinho também.

Mas não tinha sido suficiente — e não porque faltava sentimento, e sim porque havia outro ocupando espaço demais dentro dela.

Quando finalmente foi se deitar, a culpa se acomodou no peito junto com um medo silencioso: o de que, ao não escolher, já tivesse escolhido.

Ela fechou os olhos, desejando que o cansaço apagasse tudo.

Mas não apagou.

E, naquela noite, o sono não trouxe descanso algum.