O inverno chegou sem anúncio.
Não houve neve naquele primeiro dia, apenas uma mudança sutil demais para passar despercebida. A terra parecia mais clara, quase desbotada, como se tivesse perdido o calor que costumava guardar. O vento passava seco entre as árvores, sem trazer cheiro algum, e o silêncio da manhã se estendia mais do que o normal.
Katarina percebeu antes mesmo de sentir frio.
Vestiu um casaco ao sair de casa e estranhou o peso sobre os ombros. Não era desconfortável, só... diferente. Ela sentia que algo tinha se fechado atrás dela sem que tivesse notado o momento exato.
A fazenda exigia menos naquele começo de estação. Menos colheita, menos pressa. Ainda assim, Kat se manteve ocupada, arrumando ferramentas que já estavam no lugar, revisando cercas que não precisavam de reparo. Qualquer coisa para não pensar demais.
Mas o inverno tinha esse efeito cruel: tirava o excesso. E deixava só o que não dava mais para ignorar.
Desde a noite anterior, a conversa com Sam voltava em fragmentos. O cuidado, o limite. A forma como ele tinha se afastado sem dureza, como se estivesse protegendo os dois — e, ainda assim, deixando algo ir embora.
O que mais doía não era o quase.
Era o entendimento de que, se Sam tivesse deixado aquele beijo acontecer, ele teria assumido um lugar que já conhecia bem demais: o de sustentar alguém enquanto se esquecia de si.
E, junto disso, havia outra coisa. Um incômodo difícil de ignorar. Um olhar atento demais nos últimos dias. Silêncios que não existiam antes. Conversas interrompidas quando ela se aproximava.
Kat não era ingênua. Só tinha demorado mais do que gostaria para aceitar o que já estava ali.
O grupo não estava mais inteiro.
E, gostasse ou não, o eixo daquela mudança passava por ela.
Abigail.
Kat fechou a porta de casa com cuidado e seguiu pela estrada em direção à vila. O chão rangia levemente sob as botas. O céu estava claro demais, quase branco, dando à paisagem um ar suspenso, como se o tempo tivesse diminuído o ritmo.
Ela não estava indo ao armazém por impulso, nem por culpa pura. Estava indo porque fingir normalidade tinha começado a doer mais do que encarar o desconforto.
O Armazém do Pierre estava aberto. O sino da porta tilintou quando Kat entrou, trazendo consigo o ar frio da rua.
— Kat! — Pierre chamou do balcão. — Bom dia.
— Bom dia. A Abigail está? — respondeu rapidamente, os olhos já procurando pela amiga.
— Tá na sala de jantar, fique à vontade! Caroline está preparando o almoço.
— Obrigada. — a fazendeira deu um sorriso fraco e entrou na casa da família.
Abigail estava realmente ali, distraída, folheando uma revista antiga sem muita atenção.
Ao notar Kat ali, ela levantou o olhar rapidamente, os ombros tensos. Houve um segundo de surpresa. Depois, um sorriso pequeno, contido.
— Oi.
— Oi — Kat respondeu. — Podemos... conversar em particular?
Abigail deu uma olhada em direção a cozinha, verificando que a mãe estava ali. O sorriso da garota de cabelos roxos demorou um instante a se formar por completo.
— Claro.
Não houve perguntas. Nem justificativas. Abigail se levantou, avisou rapidamente Caroline que estaria no quarto, e seguiu em direção a ele.
O pequeno refúgio de Abby estava do mesmo jeito de sempre: familiar e bagunçado na medida certa. A espada de treino encostada num canto, os pôsteres levemente tortos, a janela fechada apesar da claridade lá fora.
Kat teve a sensação estranha de estar entrando num espaço que sempre fora aberto para ela — mas que agora exigia cuidado.
Abigail se sentou na cama, cruzando as pernas.
Kat permaneceu de pé por alguns segundos antes de puxar a cadeira da escrivaninha e se sentar de frente para ela, um pouco desconfortável.
Apesar disso, o silêncio que se formou não era hostil. Era atento.
— Eu fiquei pensando... — Kat começou, escolhendo as palavras com cuidado. — E achei que a gente precisava conversar.
Abigail inclinou levemente a cabeça.
— Eu imaginei.
O jeito como ela disse aquilo deixou claro: a conversa já estava acontecendo há dias, só não em voz alta.
Kat respirou fundo.
— Eu não quero que isso vire algo estranho entre a gente.
— Já tá um pouco estranho — Abigail respondeu, sem acusação. Só constatação.
Kat assentiu.
— Eu sei. E a culpa não é sua.
— Nem só sua — Abigail completou.
Houve um silêncio curto. Depois, Abigail suspirou, apoiando as mãos na cama.
— Eu tô vendo, Kat.
Katarina ergueu o olhar.
— Vendo o quê?
Abigail sustentou o olhar dela. Não havia raiva ali, nem ironia. Só uma sinceridade cansada.
— Tudo.
A palavra ficou suspensa entre as duas.
— Não tô dizendo isso pra te cobrar nada — ela continuou. — Nem pra te acusar. Só... não quero que finja que tá tudo normal quando não tá. — ela deu uma pausa, aflita. — Que não finja que não percebe o que tá acontecendo entre todos nós.
Kat sentiu um aperto no peito.
— Eu nunca quis colocar você nessa posição.
— Eu sei. — Abigail deu um meio sorriso. — E é isso que complica.
Ela se recostou na parede, encarando um ponto indefinido do quarto.
— Vocês mudaram — disse. — Você, o Sam... o Sebastian. Não foi de uma vez... foi devagar.
Abby deu uma pausa, desviando o olhar. Aquilo era tão desconfortável pra Kat quanto pra ela.
— Primeiro foi o jeito como o Seb te olhava. Depois o jeito como o Sam ficava quando você não aparecia. — Abigail deu de ombros. — E aí, quando eu fui ligar os pontos...
Kat engoliu em seco.
— E a gente... — Abigail continuou — tá sentindo isso. Nós quatro. Mesmo que ninguém diga em voz alta.
Kat fechou os olhos por um instante.
— Eu não queria ser o centro de nada disso, Abby.
— Eu sei — Abigail repetiu. — Mas você é.
As palavras não soaram duras, mas sim honestas. Kat respirou fundo, sentindo um nó na garganta.
— Eu tô tentando entender as coisas — disse. — Em mim. Antes de machucar alguém.
Abigail observou o rosto dela com atenção. Como se estivesse avaliando algo que já sabia a resposta.
— Só toma cuidado pra não machucar mesmo assim — disse, por fim. — Às vezes, não escolher também é uma escolha.
Katarina assentiu, confirmando mentalmente o que já tinha sido doído de entender: o limite de Sam nunca tinha sido distância. Era um pedido silencioso para não ser colocado, outra vez, no lugar de quem sustenta tudo sozinho.
— Eu não quero perder vocês.
Abigail suavizou a expressão.
— Eu também não.
Ela se levantou e, por um segundo, pareceu hesitar. Depois, se aproximou e puxou Kat para um abraço rápido, firme.
— Obrigada por ter vindo aqui. — murmurou. — Sinto que quando ninguém diz nada... isso dói mais do que qualquer outra coisa.
Kat fechou os olhos, retribuindo o abraço.
— Eu prometo tentar ser mais honesta.
Abigail assentiu, soltando-a.
— É tudo o que eu posso pedir.
Quando Kat deixou o armazém, o ar frio pareceu mais presente. O céu continuava claro demais, e o vento passava sem som.
Ela caminhou alguns metros antes de perceber que estava prendendo a respiração. Quando soltou o ar, sentiu o peito arder.
O inverno tinha começado.
E, pela primeira vez, Kat teve certeza de que não era apenas uma estação.
Era o início de algo que não dava mais para adiar.
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