Katarina acordou antes do sol.
Não porque estivesse descansada, mas porque o corpo já não sabia mais como ficar parado. O frio do inverno recém-chegado se infiltrava pelas frestas da casa, fazendo o assoalho ranger sob seus pés descalços.
Lá fora, a fazenda parecia suspensa no tempo.
O céu ainda estava opaco, num tom indefinido entre noite e manhã. Kat respirou fundo, sentindo o ar frio encher os pulmões, e começou o dia como sempre fazia: conferiu as cercas, reabasteceu o silo, conferiu os animais. O trabalho fluía automático, mas havia algo errado na forma como ela se movia — uma pressa sem objetivo.
Ela percebeu que estava prendendo a respiração.
Soltou o ar devagar, apoiando-se por um instante na cerca do galinheiro. O vazio que sentia não era recente, mas naquela manhã parecia mais pesado. Era como se estivesse no meio de uma conversa que não sabia como continuar.
Pensou em Sam.
Não no sorriso, nem nas piadas fáceis — mas no jeito cuidadoso com que ele tinha recuado naquele dia. Aquilo a incomodava mais do que qualquer gesto impulsivo teria incomodado. Porque não tinha sido rejeição. Tinha sido escolha.
Quando ouviu passos no caminho de terra, seu coração acelerou antes mesmo de reconhecer quem vinha. Sam apareceu alguns segundos depois, com o casaco fechado até o queixo e as mãos nos bolsos. O cabelo estava um pouco bagunçado, como se ele tivesse passado a mão várias vezes ali sem perceber.
— Bom dia — ele disse, com um sorriso pequeno, contido.
— Bom dia.
Eles caminharam juntos até o celeiro. Sam não entrou de imediato. Ficou ali, observando Kat trabalhar, como se não quisesse interromper o ritmo dela — ou talvez estivesse reunindo coragem para ficar.
— Eu passei na cidade hoje cedo — ele comentou. — Falei com o Gus. Ele disse que talvez tenha algo… mais pra frente.
Kat assentiu, genuinamente aliviada.
— Que bom.
Houve um silêncio. Não o confortável de antes. Um silêncio atento.
Sam se aproximou um pouco mais, ajudando-a a carregar um balde sem pedir. Os dedos deles quase se tocaram, e Kat sentiu o impulso de puxar a mão. Não por desconforto, mas porque aquilo parecia perigoso demais para aquele momento.
— Você dormiu? — ele perguntou.
— Um pouco.
Era mentira. Mas uma mentira gentil.
Sam pareceu perceber, porque não insistiu. Em vez disso, apoiou o balde no chão e se encostou na madeira do celeiro, cruzando os braços.
— Eu… — começou, parando logo depois. — Eu fiquei pensando naquilo...
Kat sentiu o estômago apertar.
— Eu também.
Ele riu de leve, sem humor.
— É, imaginei.
Houve uma pausa. O vento passou entre eles, frio, levantando poeira do chão seco.
— Eu queria que você soubesse — Sam continuou, com cuidado — que não foi porque eu não quis.
Ela levantou o olhar, surpresa.
— Eu sei.
— Não sei se sabe — ele corrigiu, gentil. — Porque eu quis. Muito. Só… — ele respirou fundo. — Só não queria que você achasse que eu tava ali pra te consertar. Ou pra ser um lugar onde você se esconde.
Kat sentiu a culpa crescer, quente, no peito.
— Eu nunca pensei isso.
— Eu sei — ele respondeu rápido demais. — Mas eu pensei. E isso já era suficiente pra me parar.
Ela ficou em silêncio, sentindo o peso daquilo se acomodar entre eles. Sam colocou a mão na nuca, um gesto nervoso, familiar.
— Eu tô tentando aprender umas coisas — ele disse. — Tipo… ficar comigo mesmo sem virar bagunça. Sem jogar tudo em cima de quem tá perto.
Ele a olhou então, direto, sem brincadeira.
— E você importa demais pra eu errar assim.
Kat sentiu os olhos arderem. Não chorou. Apenas desviou o olhar para o chão.
— Desculpa — murmurou.
Sam franziu a testa.
— Pelo quê?
— Por te colocar nesse lugar. Mesmo sem querer.
Ele se aproximou um passo, depois parou. Era visível o esforço que fazia para não ultrapassar um limite invisível.
— Você não me colocou em lugar nenhum — ele disse. — Eu entrei sozinho. E agora tô tentando sair do jeito certo.
Houve outro silêncio. Mais denso. Mais honesto.
Sam respirou fundo, como quem toma uma decisão pequena, mas difícil.
— Eu vou dar um tempo — disse. — Não de você. De mim nesse… — fez um gesto vago com a mão — modo automático. Se eu for ficar perto, eu quero estar inteiro. Não metade esperando algo, metade fingindo que tá tudo bem.
Kat assentiu, sentindo uma mistura estranha de alívio e perda.
— Obrigada por me dizer.
Ele sorriu de novo, dessa vez mais verdadeiro.
— A gente se vê — disse, dando um passo para trás. — E… cuida de você, tá?
Ela observou enquanto ele se afastava pelo caminho de terra, sentindo o impacto atrasado da conversa. Não havia sido um adeus. Mas também não era mais o mesmo lugar de antes.
Kat ficou sozinha na fazenda, cercada pelo som distante dos animais e pelo frio que começava a se intensificar. Pela primeira vez desde que chegou ao Vale, percebeu que nem todo cuidado vinha para ficar do mesmo jeito.
Alguns mudavam. Oscilavam. E isso não significava partir — apenas doía diferente.
Ela demorou alguns minutos até conseguir se mover.
Não havia mais ninguém ali além dela. Ainda assim, sentia como se o espaço estivesse ocupado por restos da conversa. Ela recolheu o balde, guardou as ferramentas, mas o corpo já não obedecia com a mesma precisão de antes.
Entrou em casa sem perceber quando decidiu fazê-lo.
O silêncio lá dentro era diferente do silêncio da fazenda. Mais fechado. Kat apoiou as mãos na mesa da cozinha e ficou ali, parada, sentindo o peso estranho que tinha ficado depois da partida dele.
Sam tinha ido embora tentando se proteger. Tentando protegê-la. Isso ela entendia. O que não conseguia entender era o que exatamente tinha ficado faltando quando ele se afastou.
Não era falta de carinho, ou de cuidado.
Era outra coisa.
Kat passou o polegar pela borda da mesa, distraída, até que uma lembrança atravessou o pensamento sem aviso.
— Primeiro foi o jeito como o Seb te olhava.
A voz de Abigail voltou inteira, clara demais para algo que Kat tivesse tentado esquecer.
Ela fechou os olhos por um instante.
O jeito como o Sebastian a olhava.
Na hora, aquilo tinha soado estranho. Incômodo, até. Kat lembrava de ter sentido vontade de contestar, de dizer que Abigail estava exagerando — como sempre fazia quando estava insegura. Mas agora, sozinha, a frase parecia se recusar a ir embora.
Jeito.
Não um gesto isolado, nem uma atitude óbvia. Um jeito.
Sem querer, a mente começou a puxar fios antigos, cenas pequenas demais para terem chamado atenção na época.
O toque no pulso.
Não tinha sido brusco, mas foi rápido demais pra ter sido planejado — e intenso demais pra ser distração. Lembrava do calor da mão dele, do modo como Sebastian tinha parado logo em seguida, o olhar aflito, como se tivesse ultrapassado algo sem perceber.
Lembrava também do lago. Das conversas que sempre pareciam acontecer à margem de alguma coisa que nunca era dita. Do jeito como ele desviava o olhar quando ficava perto demais. Ou, às vezes, do jeito como não desviava.
Kat franziu a testa.
E então a mensagem.
Aquela lembrança vinha com um desconforto antigo, uma sensação de desencaixe que ela tinha empurrado para longe na época. Sebastian tinha dito que a mensagem não era para ela. Que tinha sido um engano. Que era para Abigail.
Mas agora…
Se era para Abigail, por que o silêncio depois? Por que se afastar de todo mundo?
E, mais do que isso:
se era para Abigail, por que a amiga tinha dito que percebeu primeiro o jeito como Sebastian olhava para Kat?
Katarina passou a mão pelo rosto, sentindo um arrepio que não tinha nada a ver com o frio. Não era uma conclusão, mas uma inquietação, que deixava a ruiva deslocada no próprio entendimento das coisas.
Talvez tivesse aceitado respostas rápidas demais, ou talvez tivesse preferido não olhar com atenção.
Kat se levantou e foi até a janela. Lá fora, o céu já estava mais claro, embora o sol ainda não tivesse aparecido. O lago da montanha não era visível dali, mas surgiu inteiro na mente — calmo, silencioso, sempre disponível para conversas que nunca terminavam do jeito esperado.
Pensar em Sebastian agora vinha com um nó.
Kat ficou ali por mais alguns segundos, encarando o reflexo pálido no vidro da janela, até perceber que não chegaria a lugar nenhum se continuasse parada. Pegou o cachecol, fechou a porta atrás de si e seguiu em direção à vila, mais por inquietação do que por intenção clara.
A cidade ainda despertava devagar. Poucas pessoas na rua, o frio espantando conversas longas. Kat caminhava sem pressa, mas com aquela sensação incômoda de que algo estava prestes a acontecer.
Encontrou Sebastian perto da carpintaria.
Ele estava encostado na garagem, mãos nos bolsos do moletom, o olhar perdido em algum ponto do chão. Não parecia esperar ninguém. Ainda assim, quando a viu, se endireitou de imediato, como se tivesse sido pego em algo que não devia.
— Oi — Kat disse, antes que pudesse repensar.
— Oi.
A resposta veio rápida demais. Defensiva.
Por um instante, nenhum dos dois falou mais nada. O silêncio entre eles era cheio de frases não ditas.
— Eu… — Sebastian começou, depois parou. Passou a mão pelo cabelo, empurrando a franja para trás, sem sucesso. — Você tá… bem?
Kat assentiu, mas demorou um segundo a responder.
— Tô. Quer dizer… — deu de ombros. — Indo.
Ele soltou um meio sorriso que não chegou aos olhos.
— É.
Outro silêncio. Mais tenso.
Kat percebeu que ele parecia diferente. Não frio como antes — inquieto. Como se tivesse decidido falar alguma coisa e estivesse falhando nisso em tempo real.
— Você sumiu — ela disse, sem acusação. Apenas constatação.
Sebastian respirou fundo.
— Eu sei.
— E… — ela hesitou, escolhendo o tom com cuidado. — Todo mundo percebeu.
Ele desviou o olhar.
— Não era minha intenção.
Kat quase respondeu mas foi o que aconteceu, mas se conteve. Não queria empurrar. Ainda não.
— Eu fiquei confusa — ela disse, então. — Com algumas coisas.
O maxilar dele se tensionou levemente.
— Sobre o quê?
A pergunta veio direta demais. Kat sentiu o peso dela.
— Sobre aquele período — respondeu, vaga de propósito. — Depois da mensagem. Do lago. De você ter se afastado.
Sebastian permaneceu em silêncio por tempo demais.
— Não tem muito o que entender — ele disse, por fim. — Foi só… confuso.
Kat o observou. O jeito como ele se fechava quando chegava perto demais de algo importante já não lhe era estranho. Ainda assim, havia algo diferente agora: não parecia só medo. Parecia esforço.
— A Abby disse umas coisas ontem — Kat comentou, com cautela. — Nada direto. Só… observações.
Ele ergueu o olhar rápido demais.
— Que tipo de observações?
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o confortável.
— Sobre mudanças.
Sebastian engoliu em seco.
— Ela costuma ver coisa onde não tem.
Kat quase discordou. Quase.
— Às vezes — disse apenas. — Mas nem sempre.
Um vento frio passou entre eles, fazendo Sebastian esfregar as mãos.
— Kat… — ele começou, e dessa vez o nome saiu baixo demais. — Eu não sei explicar direito.
Ela sentiu o peito apertar.
— Então não explica — respondeu, gentil. — Só… fala.
Ele abriu a boca. Fechou. Passou a língua pelos lábios, nervoso.
— Eu não quero estragar nada — disse, por fim.
A frase caiu entre eles como algo incompleto.
— Estragar o quê? — ela perguntou, sem ironia.
Sebastian balançou a cabeça.
— É isso que eu tô dizendo. Eu nem sei responder essa pergunta.
Kat sentiu uma pontada de frustração — não raiva, mas cansaço. Aquela sensação de estar sempre chegando perto demais de algo que recuava no último segundo.
— Eu não tô te pedindo decisão nenhuma — ela disse. — Só… honestidade.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Se eu soubesse por onde ela começa, talvez fosse mais fácil.
Por um momento, Kat teve vontade de dizer tudo. De falar do toque no pulso, da mensagem, do jeito como ele a olhava às vezes — atento demais para ser casual. Mas algo no rosto dele a fez parar. Não era indiferença. Era medo puro.
E Kat entendeu, com uma clareza desconfortável, que insistir agora não aproximaria. Só machucaria.
— Tá — ela disse, recuando meio passo. — Então deixa.
Sebastian pareceu surpreso.
— Deixar?
— Sim. — Ela respirou fundo. — Não agora.
Ele assentiu devagar, como se aquela permissão fosse, ao mesmo tempo, um alívio e uma derrota.
— Desculpa — ele murmurou.
Kat balançou a cabeça.
— Não precisa.
Mas os dois sabiam que precisava.
Ela se afastou primeiro, sentindo o peso da conversa mal acabada se acomodar nos ombros. Não havia respostas. Não havia confirmação nenhuma. Só aquela sensação incômoda de ter chegado perto demais de algo que nenhum dos dois soube tocar.
Caminhou pela vila com o pensamento disperso, revendo fragmentos desconexos da manhã: o cuidado contido de Sam, o recuo consciente, o silêncio de Sebastian que parecia esconder mais do que proteger. Nada se encaixava direito. Nada se desfazia por completo.
Ao chegar em casa, o frio parecia mais presente. O inverno tinha se instalado de vez, não só no Vale, mas nela.
Kat tirou o casaco, deixou as botas perto da porta e ficou alguns segundos parada, no meio da sala silenciosa. Não pensava em escolhas. Não ainda.
Pensava apenas naquela sensação estranha de que algo estava se movendo ao redor dela e que, dessa vez, era impossível ignorar.
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