Já era meio da tarde quando Katarina se deu conta de que não tinha feito o almoço.

Tinha regado as plantas, alimentado os animais... tudo sem realmente estar ali.

Era como se o dia estivesse passando por ela, não o contrário.

Jogada no sofá da sala, a fazendeira pretendia passar o dia assistindo televisão, tentando não pensar muito.

Mas então ouviu batidas suaves na porta.

— É... oi, entrega da Marnie! — era Sam, levemente corado. Ele segurava uma caixa com alguns suprimentos para os animais.

— Obrigada! Chegou mais rápido do que pensei! Você está melhor? — a ruiva sorriu sem notar, ajudando o rapaz a colocar a carga pesada no chão, perto do celeiro.

— Sou um entregador eficiente. — ele brincou, orgulhoso. — Relaxa, eu tô 100% agora!

Então, ele reparou as órbitas escuras ao redor dos olhos de Katarina, e o sorriso fraco, que não chegava aos olhos.

— Você não dormiu bem, né? — o semblante dele era preocupado — Você tem certeza que... tá bem?

— Hã? Eu... — ela ajeitou rapidamente a postura. — É que eu passei a última noite maratonando uma série. — disfarçou, gaguejando um pouco.

— Hum... certo. — assentiu, mas não convencido. — Quer ajuda pra colocar essas ferramentas no lugar? — ele disse, já indo pegar uma enxada jogada.

— Sim, pode ser! — o nervosismo dela era claro. Nem havia percebido que tinha deixado tudo jogado naquele dia. Um reflexo da sua mente caótica.

**

Na casa de Abigail, a tensão pairava no ar. O silêncio só veio quando a garota se trancou no quarto, irritada.

Os pais, que voltaram de viagem, estavam pressionando ela de novo.

— Você não parece dar valor pra loja, né? — Pierre dizia.

— Acho que você precisa ouvir mais seu pai e seguir um rumo na vida. — Caroline comentava.

Abby bufou, pegando seu fone de ouvido. Colocou sua playlist de conforto, enquanto se forçava a não chorar de raiva.

Pra piorar, a seleção de músicas estava no automático — e caiu justamente em uma favorita do Sebastian.

Tirando rapidamente o fone, ela abriu a porta do quarto, saindo às pressas do Armazém.

— Não, não vou ficar aqui. — pensou.

Sabia que ficar sozinha só a destruiria mais ainda. Então, num ato impulsivo, decidiu visitar alguém que vinha tentando evitar pensar demais.

Katarina.

**

— Pronto, tudo organizado! Bem diferente do meu quarto. — Sam sorriu, colocando a mão na nuca.

Os dois estavam no galpão de ferramentas, um pequeno cômodo de madeira onde os raios de sol daquele fim da tarde atravessavam a janela.

Katarina agradeceu, demorando o olhar nele. Sentiu o coração acelerar ao notar o rosto vermelho de Sam, com uma pequena gota de suor descendo.

Ele se aproximou devagar, e a garota travou a respiração. Ela olhou pra cima, pois ele era mais alto que ela. Sam começou a falar, mas vacilou por um instante, parecendo procurar as palavras certas.

— Tem um fiapo aqui... deixa eu... — ele retirou a palha, dando um sorriso discreto, quase envergonhado.

O rosto dela esquentou.

Quando abriu a boca pra dizer algo, ouviu alguém gritando do lado de fora.

— Ei, tem alguém aí? Katarina?

Os dois olharam pela janela e conseguiram ver uma Abigail parada com as mãos na cintura, esperando pela ruiva.

— É... melhor a gente ir antes que ela fique pistola igual da outra vez, antes do ensaio — ele sorriu para Kat, já se virando para a portinha do galpão.

A ruiva ficou parada ali por um momento, ainda com a boca semiaberta. O coração descompassado.

— Você vem? — Sam arqueou uma sobrancelha, olhando pra trás.

Katarina assentiu e deu uma corridinha até a saída do cômodo. Sam esperou ela sair primeiro e ficou observando a fazendeira indo até Abigail.

O peito dele apertou um pouco. Reconhecia naquele jeito da ruiva que tinha algo de diferente. Mas não sabia exatamente o quê.

Ao se aproximar das duas, pegou a conversa pela metade.

— Sim, eu tava dando uma volta na cidade e aí vim te visitar! — a garota de cabelos roxos deu um sorriso forçado, que os outros dois notaram.

Os três se sentaram no alpendre em frente à casa. Um silêncio desconfortável começou entre os amigos. Aquilo era novidade pra eles.

— Que tal a gente ir ver o pôr do sol no píer da praia hoje? — Sam sugeriu, já se levantando.

Abigail concordou depressa e começou a falar sobre como sentia saudades de dar um mergulho no mar. O loiro levantou uma sobrancelha, desconfiado. Sabia que ela detestava nadar.

Katarina concordou também, ainda meio aérea.

Os três andavam pela cidade como se tudo estivesse bem, mesmo que eles soubessem que não estava.

Sam caminhava com as mãos entrelaçadas atrás da nuca, os cotovelos abertos, num ritmo despreocupado, enquanto Abby falava sobre as folhas caindo naquele final de outono.

Katarina estava um pouco atrás, apenas observando tudo. Nem reparou quando Gus acenou pra ela, da porta do Saloon.

Chegando lá, sentaram sobre o cais de madeira. O sol se despedia atrás do mar, espalhando cores mornas que se refletiam na água.

Eles ficaram lá, observando em silêncio, como se aquele fosse um dos poucos momentos em que tudo parecia leve.

Balançando os pés sobre o oceano, Katarina observava o horizonte. Sentiu o vento frio bater na pele, e um arrepio percorreu seus braços. Cada cor do pôr do sol parecia mais viva, mas sua mente ainda estava presa a mil pensamentos.

Abigail voltou a falar, agora sobre as provas da faculdade, mas a esse ponto, nem mesmo o loiro prestava atenção.

Olhando de canto para a ruiva, Sam soltou um comentário com um sorriso suave:

— Você faz essa cara quando sua cabeça tá longe.

Ela ficou surpresa. Será que pra ele era tão visível assim a desordem na mente dela?

— Imagina, eu tô só... pensando no que vou fazer na próxima estação. Na fazenda... claro. — desconversou.

Sam apenas assentiu. O olhar gentil, mas sem insistir. Depois voltou a conversar com Abigail, como se nada tivesse acontecido.

Mas Abigail percebeu aquela interação.

Ela, que abraçava as pernas, colocou a mão no colar em seu pescoço, mexendo o pingente sem perceber. Era só uma sensação rápida de aperto no peito, que ela tratou de disfarçar. Não era ciúme, nem raiva... apenas uma estranha inquietação diante da proximidade silenciosa entre eles.

Então, quando Sam se virou pra ela, a garota começou a falar algo depressa:

— Enfim, vocês viram como as ondas estão mais fortes hoje?

O tom era animado demais para alguém que estava calada um segundo antes. Sam, distraído, respondeu algo sobre o vento do outono, e Katarina continuou olhando o mar. Abigail baixou os olhos para a água, apertando as pernas contra o peito. Nenhum dos três pareceu notar a tensão que se formava ali.

Mas Abby sabia: se arranhasse só mais um pouco, doeria.

**

Após algum tempo, Katarina se levantou do cais. O cansaço e o frio a atingiram com mais intensidade. Precisava de sua cama urgente.

— Acho melhor a gente voltar agora. — comentou, cruzando os braços.

Os outros dois assentiram, dando uma última olhada no horizonte sereno.

Kat se abaixou para amarrar os cadarços de seu coturno e franziu o cenho quando avistou um caderninho preto, encostado no píer ao lado.

Foi até lá e pegou o caderno, depois o mostrou aos amigos.

— Alguém deve ter esquecido isso.

— Pode ser do Elliot, ele mora aqui perto. — Abby sugeriu, dando de ombros.

— Posso dar uma olhada? — Sam estendeu o braço, com um olhar de quem tinha um bom palpite.

Ele folheou algumas páginas, procurando por alguma coisa que as amigas não sabiam o quê. Pressionou os lábios enquanto procurava, até que parou, reconhecendo um detalhe.

— É do Sebastian. Eu lembro desse desenho, ele me mostrou um dia. — o garoto apontou para uma das páginas. Era um pássaro parado na porta de uma gaiola aberta.

— É bem bonito. — Abigail comentou com a voz um pouco triste.

O vento virou as páginas do caderno sem querer, e Sam franziu o cenho quando viu que algumas páginas tinham sido arrancadas. Achou estranho — Sebastian sempre teve apego por aquele caderno.

— Eu posso entregar pra ele de volta. — Katarina ofereceu, com um ânimo incomum para aquele momento. As mãos dela estavam um pouco trêmulas.

Abigail fechou a cara, um pouco irritada.

— Aliás... o Seb anda sumido né? Estranho. — disse Abby, tentando não parecer tão interessada quanto estava.

Os amigos assentiram, recordando que ele não aparecia faz tempo. Katarina disse que entregaria o caderninho na Carpintaria no dia seguinte.

E os três foram embora da praia.

**

— Até mais! — Sam acenou e esperou Katarina desaparecer para a fazenda. Só quando ela sumiu por completo, ele piscou devagar, ainda com aquele ar pensativo preso no rosto. Depois, se virou pra Abigail.

— Foi um dia legal hoje. — o loiro comentou, distraído. Os dois caminharam em direção ao Armazém.

Antes, costumavam andar juntos pela cidade quando anoitecia... apenas com a luz dos postes iluminando seus rostos. Agora... não era mais tão recorrente.

E Abigail sentia falta disso.

Os dois andavam em silêncio, daqueles que deixam o clima desconfortável. Abby segurava o pingente no pescoço, sentindo o corpo pesado. Sam soltou um suspiro e comentou:

— Ela parecia cansada hoje... eu queria poder ajudar.

Abigail parou no meio do caminho e encarou Sam. O olhar irritado fez o loiro parar sem entender.

— Você não precisa resolver tudo, Sam.

Ele franziu o cenho, surpreso.

— Eu não tô tentando resolver... só tô preocupado, Abby.

A garota soltou o ar, impaciente.

— Eu sei. Você sempre tá. Mas às vezes parece que... eu tô ficando pra trás.

Silêncio. Algo raro para os dois. Ele não sabia o que dizer e muito menos como reagir.

— Isso é sobre mim e a Kat?

As lágrimas subiram para os olhos azulados de Abigail.

— É sobre tudo, Sam. Sobre a gente. Sobre o Seb. Sobre eu me sentir... fora do lugar.

Sam abriu a boca para tentar dizer algo mas a garota correu até o Armazém, batendo a porta.

Ele ficou ali, parado, sem entender o que tinha feito de errado. Então olhou para o chão, um pouco decepcionado consigo mesmo.

**

Katarina fechou a porta, sentindo o silêncio da casa cair pesado sobre ela.

A primeira coisa que fez ao chegar foi se sentar no sofá e ler o caderninho de Sebastian.

Invasão de privacidade? Sim, ela sabia.

Mas a curiosidade falava mais alto.

Ela mordeu o lábio inferior, se sentindo um pouco diabólica.

As primeiras páginas eram normais: desenhos de pássaros, uma lista de afazeres, um lembrete de trocar a corda do violão. Tudo muito... Sebastian.

Ela continuou folheando, mas parou quando percebeu um rasgo.

Algumas páginas tinham sido arrancadas. Não era um corte limpo. Dava pra ver que foram puxadas com força. O miolo do caderno estava irregular, com pequenos pedaços de papel presos na costura.

Katarina franziu o cenho.

— Que estranho... — murmurou, passando o dedo pelo espaço vazio.

Virou o caderno de um lado pro outro, como se tentasse entender por que alguém tiraria justamente aquelas páginas. Mas não havia nenhuma pista.

O resto do caderno voltava ao normal depois disso: mais desenhos, anotações comuns, nada demais.

Ela fechou o caderno devagar, ainda com aquela sensação incômoda de que faltava alguma coisa importante ali, mas sem conseguir imaginar o quê.

Aquele vazio inesperado parecia mais pesado que qualquer desenho.

Apoiou o caderninho no colo e soltou um suspiro cansado.

Apesar de todo o silêncio da casa, sua mente estava barulhenta demais.


Notas finais
Obrigada por ler até aqui <3