Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
12 Primeira vez
Sam está deitado de costas na própria cama, olhando para o teto. O olhar cansado, a mente vagando.
Pela janela do quarto, o sol do fim de tarde atravessava num ângulo dourado, revelando partículas de poeira dançando no ar.
O mundo segue. Ele não.
O celular em cima da cômoda vibra. O rapaz demora um pouco pra atender. Não é preguiça... é só aquela sensação de estar suspenso no vazio.
Ele suspira e pega o celular. Era uma mensagem de Shane.
"Desce comigo no Saloon hoje? Nada demais. Só... sair."
Sam passa a mão no rosto.
Ele sente o 'nada' onde antes havia rotina. O uniforme azul da Joja pendurado na porta.
Sente o peso do olhar da mãe, a responsabilidade de ser exemplo pro Vincent.
E a pergunta que ele tenta empurrar para longe todos os dias:
"O que eu sou... agora?"
O celular vibra de novo.
"Tô indo, caso quiser aparecer."
Sam inspira fundo.
Ele não quer ficar sozinho com os próprios pensamentos.
E talvez uma noite com Shane seja melhor do que continuar encarando o teto, esperando que alguma coisa faça sentido.
Ele se levanta.
**
— É, cara... também não sei o que fazer agora. — Shane abre uma garrafa de cerveja, entregue por Gus.
Os dois estão sentados nos banquinhos em frente ao balcão. Sam está inquieto. Um turbilhão de pensamentos invadia sua mente, impedindo-o de relaxar.
— Ei. Você tá muito tenso. — o mais velho comenta, com o cenho franzido. — Vai uma cerveja aí? — ele oferece a garrafa ao loiro.
Sam reflete um pouco. Por mais que já fosse maior de idade, ele nunca tinha bebido nada alcoólico antes.
— Não sei não... — comenta triste, a cabeça baixa.
— Qual é... não te chamei pra gente ficar chorando também. — Shane tentou dar um sorriso amigável, mas não era muito o forte dele. — Ei, Gus! Traz uma cerveja pro moleque!
Sam levantou o olhar, um pouco preocupado. Mas pensou que talvez era justamente disso que precisava agora: relaxar um pouco e parar de pensar nos problemas.
Gus colocou uma garrafa na frente de Sam, com um sorriso breve no rosto. O garoto agradeceu e tomou um gole, fazendo uma careta. Mesmo assim, tentou não parecer tão inexperiente.
— Ah... cara! Que droga! — Shane resmungou com a voz já embargada. — Apostei 20 pratas neles! — o mais velho assistia a um jogo de gridball na televisão do Saloon.
Sam tentou entender como funcionava o jogo, mas esportes não eram muito sua praia.
Quando percebeu, já havia tomado a garrafa inteira. Pediu mais uma... depois outra.
Pra quem nunca bebeu, três garrafas inteiras já fazem um estrago.
De estômago vazio, Sam sentiu a bebida bater forte. Tinha um sorriso bobo estampado no rosto. Mesmo sem entender nada, começava a xingar os jogadores do time junto com Shane.
Alguns minutos depois, estava se sentindo tonto. Resmungou alguma coisa e virou a cabeça para a entrada do Saloon. O sininho anunciava que alguém tinha chegado.
Ele arregalou os olhos quando percebeu que era Katarina.
Ela chegava com bandejas de ovos empilhados, produzidos na Fazenda Amanhecer. Com dificuldade, ela tentava equilibrar tudo e não deixar a porta da taverna bater com força.
Distraída, deixou tudo no outro lado do balcão, sem perceber Sam bêbado tentando se levantar e ir até ela.
Shane fixava seu olhar na televisão, muito focado em torcer e ganhar sua aposta pra perceber que o amigo cambaleava pelo Saloon.
Com o andar tortuoso e um pouco de dificuldade pra falar, ele conseguiu chegar perto de Katarina.
— E aí Katarinaaa, tudo bem?? — ele estava mole, a fala arrastada.
— Sam, você tá bem? — ela franze o cenho, preocupada, percebendo na hora que ele estava alterado.
— Claaaro... melhor agora! — depois deu uma risada solta. Se preparava pra fazer uma cantada quando começou a tombar um pouco pra trás.
— Meu Deus! — Katarina o segurou a tempo, ajudando-o a se sentar no chão. Ela assobiou para que Shane viesse também acudir o amigo.
— Porra, cara! Quantas você bebeu? — Shane parecia mais preocupado do que irritado.
— Só três... — Sam fechava os olhos, sonolento.
— É a primeira vez dele? — Katarina arqueou as sobrancelhas, olhando para Shane, que fez uma expressão de que não fazia ideia.
Katarina estava sentada ao lado de Sam, tentando mantê-lo acordado. O loiro tombou a cabeça no ombro dela, com o canto da boca levantado. Ele parecia flutuar. Perigoso, considerando o estado dele.
A ruiva deu um sorrisinho involuntário, ajeitando o cabelo bagunçado dele. Agora sua voz e seu rosto eram de pura preocupação.
— Acho melhor levarmos ele ao hospital. — Katarina se apressou, segurando um dos braços de Sam, pedindo que Shane segurasse o outro.
Os dois ajudaram Sam a se firmar e levantar. Ele andava arrastado, então o levaram pela cidade até à Clínica de Harvey.
Lá, foram atendidos primeiro por Maru, que era a assistente do médico. Deitaram ele na maca do hospital, num quartinho pequeno, mas confortável. A esse ponto, ele já estava desmaiado.
Shane já começava a se sentir culpado, massageando as têmporas. Kat apertou a mão de Sam por um segundo, sem saber por quê.
Ela ajeitou a coberta sobre ele enquanto Maru organizava os equipamentos.
Enquanto isso, nuvens escuras se formavam do lado de fora da clínica.
**
Passado algum tempo, Sam acordou, abrindo os olhos pesados e se assustando ao ver que estava rodeado de pessoas.
Na ponta da cama, Shane e Vincent, seu irmãozinho. Do seu lado, Jodi segurava sua mão firmemente. Katarina também estava lá, para surpresa dele, sentada numa cadeira ao lado.
— O que... aconteceu? — disse o loiro, muito confuso. Não se lembrava de todos os detalhes.
— Meu menino! — Jodi apertou ainda mais a mão do garoto, machucando-o sem querer — Eu fiquei tão preocupada! — ela parecia prestes a chorar.
— Mãe... — Sam também tinha os olhos marejados. Estava se sentindo péssimo por preocupar seus amigos e sua família.
Ele sempre queria se sentir como um herói para Jodi e para seu irmão mais novo, mas agora se sentia no papel do personagem que precisava ser salvo.
Aquilo era um soco no estômago pra ele.
O Dr. Harvey chegou no quarto, explicando novamente tudo que tinha acontecido. Jodi já havia feito ele repetir umas cinco vezes.
— Bom, o quadro dele é estável. Foi só um susto, né garoto? — Harvey deu um sorriso complacente, fazendo Sam se sentir um menininho. — Aplicamos um soro para hidratá-lo novamente. Mesmo estando bem, acho melhor ele passar a noite aqui.
Todos assentiram, aliviados com as notícias do doutor. Depois, o médico explicou que Sam estava cansado e precisava descansar, mas somente um acompanhante era permitido.
— Preciso colocar o Vincent na cama, já está tarde. — a mãe olhou no relógio de pulso, preocupada. — Eu posso vir mais tarde e...
— Não, mãe... eu vou ficar bem. A senhora tá cansada, pode ir dormir em casa. — mesmo nessas situações, tentava manter a força.
— Eu posso ficar por aqui. — Kat se manifestou. — Não tenho mais obrigações por hoje.
— Obrigada, Katarina. — Jodi sorriu pra ela, depois se virou para Sam, com um olhar de quem desconfiava de algo. — Melhoras, meu filho.
— Obrigado. — Sam sorriu cansado pra ela, depois abraçou Vincent e desejou a ele boa noite. Jodi deu a mão ao menino e eles foram embora da clínica.
Shane observava toda a situação calado, a preocupação fez a bebida evaporar de seu sangue rapidamente.
— É... foi mal cara... eu não sabia... — Shane levou a mão na nuca, atingido pela culpa.
— Relaxa, não foi sua culpa. Eu que fui... irresponsável. — Sam comentou, o semblante um pouco triste. Estava decepcionado consigo mesmo.
O amigo pressionou os lábios, um pouco sem jeito. Não estava acostumado a lidar com esse tipo de coisa.
— Bom... vou indo nessa. A Jas tá sozinha em casa. Te mando mensagem amanhã. — Shane deu um sorriso triste para o garoto e colocou seu boné. Lá fora, uma chuva ameaçava cair a qualquer momento.
O mais velho saiu do quarto, deixando apenas Katarina e Sam ali.
Sozinhos, um silêncio se instaurou no pequeno quartinho. Katarina molhou os lábios, prestes a falar algo, quando Sam se manifestou.
— Desculpa Kat, e-eu... não queria te preocupar. É só que aconteceram algumas coisas e... — falava depressa, atropelando as palavras.
— Tá tudo bem, Sam. — ela sorriu pra ele, com ternura. Depois colocou uma de suas mãos sobre a dele. O garoto corou um pouco, se lembrando do festival das medusas-da-lua.
Silêncio novamente. Aquilo não era comum entre eles, principalmente considerando que Sam era tão falante.
Sentindo uma dorzinha no peito, o loiro não quis olhar pra ela. Estava tão mal consigo mesmo. Se propôs a fazer tanto... e falhou em tudo.
Com um suspiro cansado, ele fechou os olhos. Katarina percebia que ele parecia lutar contra os próprios pensamentos.
Ela começou um leve carinho na mão dele, e começou:
— O Shane me contou sobre a Joja... — ela fez uma pausa — Sinto muito, Sam.
Ele abriu os olhos e se virou para ela. O olhar triste encontrava os olhos acolhedores dela. Sem querer, percebeu que ela tinha uma mini covinha no lado direito do sorriso.
O loiro sentiu o rubor subir às bochechas e sorriu, sem querer. Kat também corou um pouco, surpresa pela reação inesperada dele.
Aquele sorriso radiante dele agora era um sorriso cansado, mas ainda sim, tão bonito. Tão verdadeiro.
Era como se ele estivesse aos poucos se libertando da máscara que havia criado para se proteger. Para proteger os outros.
Após um tempo assim, ele desviou o olhar, voltando a pensar novamente.
Sam suspirou fundo, ainda olhando para o teto.
— Eu... — ele engole seco — eu achei que ia lidar bem com tudo isso, sabe? A Joja, a mudança, o tanto de gente que depende de mim...
Silêncio curto. Kat olhava para ele atentamente.
— Eu sempre tento ser o forte. O otimista. O que resolve. — ele ri de si mesmo, triste — Mas hoje... hoje eu só... não consegui.
Katarina aperta um pouco a mão dele, encorajando.
— Você não precisa dar conta de tudo sempre, Sam.
Ele balança a cabeça devagar.
— Eu sei. Mas parece que... se eu falhar, todo mundo desmorona junto. Minha mãe... o Vincent... até o Sebastian e a Abby. Eu tento ser um lugar seguro pra todo mundo. — sua voz falha — Só que às vezes eu não sou nem seguro pra mim mesmo.
Kat sente o peito apertar. A chuva começa a bater fraco na janela.
— Você não falhou. — ela diz num tom baixo, firme — Só ficou cansado. Qualquer pessoa ficaria.
Ele ri, meio sem força.
— Menos você.
Kat sorri de canto, quase surpresa.
— Sam... você me viu quase chorar no meio do celeiro semana passada porque derrubei um balde de leite. Eu não sou tão forte assim.
Ele finalmente vira o rosto pra ela. O olhar é tão vulnerável que Kat quase perde o ar.
— Mesmo assim... quando você apareceu hoje... — ele hesita — Foi como se eu pudesse respirar.
Kat sente o rosto queimar, mas tenta manter a voz estável.
— Eu só fiquei preocupada. E eu tô aqui porque você é importante pra mim. — ela diz devagar.
Sam fecha os olhos por um instante, absorvendo aquilo.
Quando abre, sorri de um jeito pequeno, honesto.
— Obrigado... de verdade. Eu... precisava que alguém ficasse.
Kat desliza o polegar pela mão dele, sem perceber.
— Eu fico. — ela diz, com simplicidade — Pode descansar, tá?
O loiro respira fundo, como se finalmente estivesse seguro.
— Kat... — ele murmura, quase dormindo — desculpa de novo.
Ela balança a cabeça, suave.
— Não tem nada pra desculpar.
Ele relaxa contra o travesseiro, os traços suavizados.
— Você é... — a voz falha, sonolenta — ...boa demais comigo.
Kat observa por um momento. Só o som da respiração dele e da chuva lá fora.
Ela ajeita a coberta sobre ele, cuidadosa.
— Boa noite, Sam. — sussurra, dando um beijinho em sua testa.
Ele já não responde.
Mas um sorriso pequeno permanece no rosto dele.
**
Maru chega em casa, na Carpintaria. Sebastian está na cozinha, preparando um sanduíche.
Os dois já estavam de boa um com o outro depois daquela conversa no quarto de Seb. Ele pediu desculpas e depois a presenteou com alguns morangos. Ela o perdoou, com um sorriso no rosto, dizendo que não precisava de tudo aquilo.
Colocando as chaves de casa numa mesinha, ela se aproximou do irmão mais velho.
— Seu amigo, o Sam... tava no hospital hoje.
— O quê? — Sebastian arregalou os olhos, preocupado. — O que aconteceu?
— Ele chegou lá quase desmaiado... bebeu demais. Acho que ele deve ser fraco pra bebida. — comentou, dando de ombros. Estava acostumada com os atendimentos.
— Mas... ele tá bem? — Seb gaguejou um pouco, se lembrando da conversa dos dois há alguns dias, após a notícia da demissão.
— Sim, está. — ela colocou uma mão no ombro dele — Fica tranquilo, ele deve ter alta amanhã. — disse, saindo pro quarto, cansada do dia de serviço.
Sebastian engoliu seco, observando a chuva lá fora começando a engrossar. Procurou um guarda-chuva nas coisas de Robin mas não encontrou nada.
Vestindo um moletom mais pesado, saiu de casa rumo ao hospital, sem pensar muito. Esse não era um ponto forte dele.
Começou a correr em direção a cidade, com o capuz protegendo o rosto. O moreno não era atlético, então aquilo era o equivalente a uma maratona pra ele.
Apesar do clima, sabia que precisava estar ali pelo amigo. E é isso que faria.
Pela cidade, os vaga-lumes dançavam em volta dos postes de iluminação. A pouca luz provida por uma lâmpada em frente ao hospital iluminava a face de Sebastian, que mordeu o lábio, ansioso.
Chegando no destino, o rapaz arfava, exausto. Parou por ali mesmo, tentando recuperar o fôlego. Rodeou o local, tentando ver o amigo por alguma janela, mas estavam todas fechadas.
Então entrou no hospital e deu de cara com o Dr. Harvey preenchendo alguns relatórios.
O médico levantou o olhar para o garoto, ajeitando os óculos. Dado a situação de Sebastian — encharcado e preocupado — sabia que seria maldade não deixá-lo entrar.
Quebrando as regras de visita (com a permissão do doutor), Seb abriu devagar a porta do quarto onde estava Sam.
Ao abrir a porta, Sebastian esperava ver Sam desacordado, talvez algum aparelho apitando, o típico silêncio estéril de hospital.
Mas não aquilo.
Sam dormia tranquilo, ainda pálido, o soro ligado ao braço.
E Katarina...
Katarina estava encostada na lateral da maca, adormecida também, a mão ainda entrelaçada na dele.
Os dois respirando no mesmo ritmo... a cabeça dela apoiada perto do ombro dele.
Um quadro tão sereno que doía.
Sebastian parou na entrada. Quase sem ar. A primeira sensação foi alívio.
"Sam está bem. Ele realmente está bem."
Mas logo depois veio algo que ele não soube nomear — um incômodo leve e profundo ao mesmo tempo, como se algo tivesse puxado seu estômago pra baixo.
Ele ficou imóvel, o capuz pingando no chão, a respiração tentando se estabilizar.
Não era ciúme.
Era... perda.
Um eco daquela voz interna que ele tenta calar desde o dia em que Kat chegou na vila:
"É claro que alguém escolheria ele."
O olhar de Sebastian passeou pela cena, devagar.
O jeito que Kat segurava a mão de Sam com tanto cuidado... a forma como o loiro parecia finalmente em paz — coisa rara nele.
O silêncio confortável que os dois compartilhavam.
Seb sentiu o peito apertar, mas não de raiva.
Era só... a consciência de estar do lado de fora de algo bonito.
Ele respirou fundo, tentando engolir o que sentia.
Não era o momento pra ele.
Era o momento do amigo.
Depois de alguns segundos — longos e carregados — Sebastian deu um passo para trás, com cuidado para não fazer barulho. Harvey o observava de longe, como se entendesse.
Antes de fechar a porta, Seb olhou mais uma vez, uma última, e sussurrou, quase inaudível, para ninguém ouvir:
— Ainda bem que você não estava sozinho.
Então fechou a porta devagar, deixando o corredor vazio recebê-lo.
A chuva o esperava lá fora.
Saindo do hospital, Sebastian inspirou fundo. Olhou para as próprias mãos, na chuva. As mesmas que tinham escrito a mensagem naquele dia.
Mas ele disse à Kat que tinha sido pra Abigail... certo?
Mas e se não fosse?
Com uma pontada de culpa e angústia, Seb começou a caminhar de volta pra casa, quando escutou o barulho de uma porta se abrindo.
— Ei, você vai pegar um resfriado.
Era Abigail.
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