Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
13 Porto Seguro
A chuva piorava cada vez mais.
Quando Sebastian se virou para Abigail, ela percebeu que a expressão indiferente de sempre dele agora tinha um olhar de dúvida e de tristeza.
— Fica aqui um pouco. Espera essa chuva passar. — ela fez um sinal para que ele entrasse.
Meio sem jeito, o rapaz colocou as mãos nos bolsos e se apressou até a porta do Armazém.
Entrando lá, o moreno se sentiu um pouco nostálgico. Há quanto tempo não entrava lá mesmo?
Com as roupas encharcadas, ficou de pé ao lado de Abby, que estava sentada no sofá da casa. O cabelo dela estava bagunçado, como o de alguém que tinha acabado de acordar.
— Não penteou o cabelo hoje, tampinha? — ele sorriu de canto pra ela.
— E você? Esqueceu de colocar suas roupas na secadora? — respondeu ela, com ironia, passando a mão nos cabelos.
Ela deu um breve sorriso, com saudades daquele humor deles. Mas voltou a ficar séria quando se lembrou do semblante do garoto quando estavam do lado de fora.
— Você tava em frente ao hospital... tá tudo bem com você? — Abigail franziu o cenho.
— É... comigo sim. — desviou o olhar, com medo de que ela percebesse algo — Mas o Sam tá lá no hospital... exagerou na bebida.
Abigail arqueou uma sobrancelha.
— Eu nunca vi ele beber antes.
— Pra tudo tem uma primeira vez. — o moreno deu de ombros. A frase despretensiosa fez a garota sentir um frio na barriga.
— Mas o Harvey disse que ele vai ficar bem. — completou Sebastian, se apoiando um pouco no encosto do sofá.
Abigail se levantou, buscando um plástico para que Seb pudesse se sentar ali sem molhar tudo. Ele agradeceu e se sentou.
O garoto se inclinou para frente, apoiando os cotovelos sobre as pernas, pensativo. Abigail estava sentada ao lado, observando-o cuidadosamente. Tentava ler seus pensamentos, mas era uma tarefa impossível.
Ela corou por um instante quando ele ajeitou o cabelo molhado, revelando mais de seu rosto. Desviando o olhar, ela procurou o controle remoto da televisão.
— Cadê seus pais? — perguntou ele.
— Viajaram. Meu pai quer fazer negócios com um amigo antigo de outra cidade. Vai voltar só daqui uns dias. — o tom dela era mais de alívio do que saudades.
O moreno assentiu para ela, voltando o olhar para a televisão acesa. Em um momento, a perna dele encostou na dela sem querer, o que apenas ela percebeu, deixando-a desconcertada.
Levantou bruscamente do sofá. Começou a formular alguma frase, mas gaguejava um pouco.
— Eu... vou ao banheiro. — ela corava.
— Tá... — respondeu ele devagar, sem entender o constrangimento repentino da garota.
Fechando a porta do banheiro atrás de si, Abigail murmurou baixinho, olhando no espelho.
— Sua idiota.
Sebastian estava certo. O cabelo dela estava desalinhado... mas não era só isso. Ela tinha olheiras, os lábios ressecados.
Estava trocando o dia pela noite, com uma constante insônia. Agora não era somente a aproximação de Kat e Sebastian que a incomodava, tinha algo a mais também.
Seus pais queriam que ela se mudasse de cidade para seguir as aulas presenciais da faculdade. Abigail já tinha concordado em entrar em uma — por mais que ela não quisesse — ...mas isso?
Eles tirariam ela de seus amigos, e de algo que importava muito pra ela:
O sonho de entrar na Guilda dos Aventureiros.
Quase todos os dias, Abigail treinava com sua espada. Queria viver aventuras, matar monstros, descer pelas minas e se sentir livre.
Mas esse não era o plano dos pais dela.
Eles queriam que ela seguisse um caminho tradicional: faculdade, arrumar um marido — rico, de preferência — e ter filhos.
— Nem fodendo. — ela pensava.
Se acalmando um pouco diante do espelho, Abigail saiu do banheiro. Viu de longe Sebastian balançando as pernas, inquieto.
— Quer um chá? — ela ofereceu gentilmente, numa tentativa de acalmá-lo.
— Sim... pode ser. — ele pressionou os lábios, voltando a pensar na situação mais cedo no hospital.
Passado um tempo, ela entregou o chá para ele, que a agradeceu. A mesma segurava uma xícara também. Os dois apreciavam a bebida, virados um para o outro.
Um silêncio um pouco constrangedor se instalou na sala. Sebastian desviou o olhar, desconfortável.
Ela deu um riso sem graça.
— É foda quando as pessoas tem tanta expectativa sobre você que nem se importam sobre o que você quer de verdade pra sua vida. — ela comentou, o tom sarcástico de sempre.
Sebastian voltou o olhar para ela, surpreso, como se entendesse exatamente o que ela estava passando.
— Seus pais? — ele deu outro gole no chá. Estava muito gostoso.
— Uhum. — ela revirou os olhos — Eles querem que eu seja o projeto perfeito deles. Nunca se importaram com o que eu quero de verdade.
Silêncio. Ele assentiu para ela, depois questionou:
— E o que você realmente quer?
O olhar baixo dela agora encontrou os olhos escuros de Sebastian. Corando um pouco, ela começou:
— Queria ser livre. — disse apenas isso, tornando a olhar para baixo.
Seb demorou o olhar nela. Entendia muito bem sobre isso... e imaginava que pudesse sentir essa liberdade em Zuzu City.
Mas será que apenas mudar de ambiente o faria sentir isso?
Ele se lembrou da conversa com Katarina no outro dia. A fazendeira disse que não conseguiu fugir totalmente dos problemas... apenas havia encontrado uma forma de deixar outras partes dela brilharem.
Será que era disso que ele precisava de verdade?
Após a pequena reflexão, o garoto pegou uma manta pendurada sobre o encosto do sofá e cobriu Abby. Fazia frio naquela noite.
— Os dois resfriados não dá. — ele sorriu levemente pra ela, que corou com o gesto, abraçando a manta.
— Valeu, Sebby. — ela sorriu.
Ele assentiu, depois retomou o assunto:
— Pelo menos você não é comparada todos os dias com a irmãzinha prodígio. — levantou o canto da boca, sarcástico sobre sua própria situação.
Ela riu com ele, feliz de estar sendo compreendida. O moreno completou:
— É... eu sei como é. Os meus pais também adoram achar que sabem o que é melhor — ele deixou a xícara na mesinha de centro, relaxando mais no sofá.
Aquela fala havia deixado Abby surpresa e preocupada. Queria recompensá-lo pela ajuda no passado, quando ele estava sempre a ouvindo, dando conselhos.
Agora, ela queria ser o porto seguro dele.
Assim como ele foi para ela.
Ela hesita um pouco, mas pergunta:
— O que eles querem de você? — disse, se aconchegando na manta.
Ele suspirou fundo, confiando nela.
— Minha mãe não entende meu trabalho. Ela acha que eu fico só no computador o dia todo, sem fazer nada— ele se referia ao emprego de programador autônomo, que Abigail já sabia.
Ele fez uma pausa, com o rosto cansado. Massageava as têmporas em busca de conforto. Ela se inclinou para ouvir mais atentamente.
— Já o Demetrius... prefiro nem comentar. — ele desviou o olhar para a televisão novamente — Acho que eles querem que eu seja mais sociável... sei lá.
A garota pressionou os lábios, intrigada. Não sabia que ele tinha um relacionamento difícil com os parentes, assim como ela mesma. Ou melhor... percebia a situação, mas não notou que isso importava pra ele.
O moreno estava sempre tão indiferente pra tudo que Abby se perguntava se ele tinha sentimentos de fato. Sempre fechado, se escondendo numa casca para que ninguém o ferisse.
E agora ela entendia isso.
— Bem-vindo ao clube dos filhos problemáticos — ela sorriu, sarcástica.
Ele ficou feliz por ela quebrar o clima pesado que estava se instalando.
— Então somos colegas de guerra familiar? — respondeu ele. Ela riu de volta e os dois trocaram um olhar que demorou mais do que deveria.
Sem tirar os olhos dele, ela enroscou uma mecha de cabelo nos dedos, sentindo o rubor subir às bochechas.
Sebastian percebeu a vermelhidão no rosto da amiga, além do gesto nos cabelos. Isso o fez lembrar de uma das postagens no fórum de 'conselhos amorosos'.
Aquele fórum tinha se tornado um dos passatempos secretos dele. Estava aos poucos entendendo algumas dinâmicas de romance.
E aquilo... parecia ser uma clara demonstração de interesse.
De repente, ele se lembrou daquela mensagem... e da ruiva.
Ficou um pouco atordoado.
"Você estava linda hoje."
"Pra Abigail."
Os pensamentos estavam girando em sua mente novamente, bem como aquela cena de Sam e Katarina dormindo serenamente no quarto do hospital.
Procurando abafar o que sentia, Seb olhou para a chuva lá fora, que parecia ter diminuído bastante.
Pressionado pelos sentimentos, quis sair dali o mais rápido possível, mas Abby disse algo que o surpreenderia.
— Vou sair da cidade no final do ano.
Ele ficou mudo, com as sobrancelhas arqueadas. Aquele era exatamente o plano dele também. Mas por que ela faria isso?
— Meus pais... eles me deram um ultimato. Era isso ou... fora de casa. — ela completou, frustrada. Os olhos marejados, os ombros caídos.
Eles não entendiam o quanto aquilo seria difícil pra ela. Não era tão simples abandonar toda a sua vida na Vila e seus sonhos pelo desejo dos outros.
Desistindo de ir embora, Sebastian se aproximou da amiga. Colocou a xícara dela na mesinha também e deu uma pausa antes de começar:
— Não. Eles tem que entender. — o tom dele era sério. — Você precisa enfrentar eles.
— Não posso... eu... — ela olhava para baixo, prestes a chorar. Sentia um aperto enorme no peito só de pensar em ir embora.
— Abigail. — ele chamou a atenção dela, fazendo-a voltar a olhar pra ele — É a sua vida. Não deixe ninguém dizer o que você deve ou não fazer.
Ela mordeu o lábio inferior, engolindo o choro. Voltando a olhá-lo, demorou-se nos lábios do moreno. Ele percebeu isso.
Agora os dois estavam bem perto. A íris azulada da garota fitava os olhos negros de Sebastian. Aquele momento parecia ser uma eternidade para ela.
Ele engoliu em seco, também olhando para a boca dela. E se... — pensou.
Mas não.
Ele se afastou devagar, um pouco nervoso. A garota sentia a respiração falhar.
— Eu tenho que... a chuva já... minha mãe vai... — ele se levantou depressa, sem conseguir completar uma frase.
Abigail abriu a boca levemente, queria dizer algo, mas não conseguiu.
Ele foi embora sem esperar uma resposta. Se perguntava o que tinha na cabeça dele pra cogitar fazer isso?
— Eu acho que tô ficando maluco. — refletiu, caminhando até o Lago da Montanha. Precisava fumar.
As mãos trêmulas buscavam o cigarro no bolso. Mesmo naquele momento... não era em Abigail que ele pensava.
Era nela.
Katarina.
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