Era um começo de tarde ensolarado no Vale. A próxima estação já havia começado e Katarina parecia uma maluca correndo pra lá e pra cá arrumando a fazenda.

Ela havia comprado algumas vacas e galinhas de Marnie, mas não imaginaria que seria tão complicado cuidar dos animais.

Sua missão agora era transportar alguns fenos com a caminhonete emprestada de Marnie. A mulher havia dando a chave do veículo sem ao menos perguntar se Katarina sabia dirigir.

Coisa que bem... ela não sabia.

Kat então perguntou se alguém na Vila estaria disponível para dirigir a caminhonete para ela, e Marnie respondeu que traria alguém para o serviço.

Kat estava em pé na caçamba da caminhonete, amarrando os fenos com uma corda resistente quando Sam apareceu balançando as chaves do carro.

- Parece que minha ajuda foi requisitada? — o rapaz sorriu alegremente.

- Então você vai ser meu motorista hoje? — Kat respondeu, contente que era Sam que Marnie havia chamado. Seria um pesadelo se ela tivesse chamado Alex.

- Só por hoje, gatinha. Eu não tenho carro. — Sam respondeu, levando a mão no pescoço, corando levemente. — Tirei a carteira de habilitação em Zuzu, mas não tive muitas oportunidades de dirigir de fato.

- Bom, eu acredito que meu choffer vai dirigir em segurança — Kat disse, sarcástica.

Depois de tudo bem amarrado, Katarina se sentou no banco do passageiro, enquanto Sam já estava no volante. A ida até a Fazenda Amanhecer não foi muito longa, o que fez com que Sam quisesse que Katarina morasse a 100km, só para estar mais tempo com ela.

Chegando lá, os dois descarregaram o feno da caçamba juntos, deixando tudo perto do Silo. Acabou subestimando um pouco a carga do feno, mas aos poucos os treinos de força começariam a surtir efeito. Ele havia começado musculação, com a ajuda de Alex.

- Bom, eu acho que é isso! — Katarina suspirou, satisfeita após terminar o trabalho.

- A gente mandou bem — Sam sorriu, olhando pra ela.

- Você fez praticamente todo o serviço! — Kat sorriu para ele, colocando uma mão em seu ombro. Ele corou, tentando disfarçar o efeito que o gesto tinha nele.

- Não! É... imagina! Você foi muito bem também! — sorriu. — Sério, até eu fiquei impressionado com a forma como você conduziu a caminhonete... mesmo sem experiência.

Kat sorriu, surpresa e contente com o elogio.

Os dois riram e se sentaram em dois banquinhos na varanda da casa de Kat. Sam abriu uma Joja-Cola, que a garota brindou com o suco de manga que ela estava tomando.

Eles ficaram ali por bastante tempo, conversando sobre diversos assuntos enquanto observavam as vacas pastando. O tom alaranjado de fim de tarde tornava aquela cena muito aconchegante.

– Então eu disse pra ele o quanto isso me deixou chateada! — Kat suspirou, fechando os olhos. Depois percebeu que Sam parecia um pouco desatento — Ei, Terra chamando Sam!

– Ah, foi mal.. eu tava pensando em algumas coisas. Sabe, você tava falando sobre seu irmão e eu acabei lembrando do Vincent — o rapaz deu um sorriso fraco.

– O que tem ele? Seu irmãozinho é tão fofo! – Kat tomou mais um gole do suco, a jarra estava quase vazia a esse ponto.

– Ele é mesmo! – Sam sorriu, era esse sorriso que fazia Katarina se sentir tão bem na presença dele. — Mas... sinto uma pressão tão grande sabe? Nosso pai está na guerra contra os gotoros e eu me sinto responsável em tentar fazer o Vincent não se sentir tão mal com isso... ele é só uma criança, droga!

Katarina se sentiu péssima ao descobrir isso. Ela não fazia ideia de que o pai dos garotos estava lutando nesse exato momento. Sam carregava um fardo muito difícil, precisava parecer estar bem o tempo todo para cuidar das pessoas que precisavam dele.

Kat colocou uma mão nas costas de Sam, o confortando. Ela fez um leve carinho nele, estava preocupada com o mental do amigo.

– Obrigado. — ele sorriu, olhando para Kat nos olhos. — Mas sabe, eu sei que ele vai ficar bem. Meu pai é um cara foda, ele vai sair dessa ileso. – ele encarou o chão, falando rápido demais, depois voltou a olhar para ela — Eu tava escrevendo uma música sobre a guerra. Esse caos todo ao menos está me servindo de inspiração. Você quer dar uma olhada?

– Seria um prazer, a Abigail me disse que vocês tem uma banda! Quero escutar as músicas de vocês! — a garota sorriu para ele, o que derreteu o coração do loiro.

–Ah, a gente é uma banda pequena ainda — Sam coçou a nuca, grato pelo interesse genuíno dela — Somos só eu, a Abby e o Sebastian. Não temos muitas músicas por enquanto, mas eu sou o vocalista e o guitarrista, a Abby fica na bateria e o Seb no teclado.

– Me convidem para o ensaio qualquer dia desses!

Sam aproximou mais o banco para perto de Katarina, os olhos verde-azulados do rapaz a deixavam desconcertada. Por um momento, ela se sentiu sem fôlego, como se ele fosse fazer alguma coisa.

- Sim, pode deix- espera... O ENSAIO! — Sam levantou depressa do banquinho, colocando as mãos nos bolsos da calça, procurando o celular. Ele puxou o telefone e conferiu o horário: eram 18h30. Ele estava atrasado.

Katarina levantou também, tentando tranquilizar o amigo, claramente ansioso.

- Ei, calma! Você pode ir lá agora, tenho certeza de que eles vão entender — ela segurou gentilmente os braços dele, o trazendo de volta.

O toque fez Sam corar mais ainda, e Kat sorriu ao perceber isso.

- Sim! É que.. a Abigail fica muito irritada quando eu me atraso! Eu sou meio desatento às vezes — ele sorriu sem graça e respirou fundo — Katarina, eu queria saber se.. a gente poderia sair jun...

A fala do rapaz foi interrompida por batidas nervosas na porta da casa de Kat. Os dois tentaram olhar quem era, mas como a varanda ficava atrás da casa, seria muito difícil descobrir. Eles viram uma silhueta batendo os pés no chão nervosamente.

– Eu vou lá atender, com licença — Kat se apressou, já sabia quem estaria lá esperando

Dito e feito, pensou Katarina. Ela abriu a porta e deu de cara com uma Abigail irritada.

– O Sam tá aí né? Daqui deu pra ver um pouco vocês lá na varanda. Ele tá atrasado pro ensaio, DE NOVO! — o tom de voz da garota de cabelos roxos era alto o suficiente para que Sam escutasse de lá.

– Ele já estava de saída! — Kat sorriu sem graça, tentando acalmar Abby.

O loiro se levantou do banquinho depois de um suspiro e foi ao encontro das duas. Cheguei perto — pensou.

Abby ficou em silêncio olhando para Sam, respirando fundo. Estava tentando controlar sua raiva de estar tanto tempo esperando por ele. Ela só estava tentando se manter calma pois Sebastian havia insistido para que ela se controlasse.

Falando nele, ele estava de longe olhando a situação, na entrada da fazenda, mas ainda sim distante da casa. Seb levantou as sobrancelhas quando percebeu que Abigail realmente estava certa: Sam estava na casa de Katarina.

Ele acendeu um cigarro e ficou esperando a situação se resolver, enquanto se perdia em pensamentos.

– Foi mal Abby, eu tava ajudando a Katarina hoje com a fazenda e perdi a hora — Sam comentou, frustrado. Não queria magoar a amiga, que já estava irritada.

– Tá, tanto faz. — Abigail se virou para ir embora quando percebeu que nem havia cumprimentado Kat direito — Ah, oi Katarina, como você está? Desculpa... tô cansada, não queria descontar.

Katarina disse que estava bem e Sam perguntou a Abby se Kat poderia acompanhar o ensaio hoje, o que Abigail respondeu com um:

– Claro, mas saiba que eu não vou intervir de novo nas brigas do Seb e do Sam.

— Brigas? — Kat perguntou, curiosa. Os dois não eram melhores amigos?

– Não é nada demais, é só que a gente discute um pouco sobre a banda às vezes. — o rapaz explicou, e depois os três foram se encontrar com Sebastian.

Ao perceber os três se aproximando, o rapaz de cabelos escuros jogou o cigarro fora e colocou as mãos nos bolsos do moletom

– Você não fica com calor de usar esse moletom durante o verão? — Abigail perguntou, com uma sobrancelha levantada.

– Não se preocupa, tampinha, moletons são a minha vida. — coçou a nuca, disfarçando um pequeno incômodo.

Abigail sentia que ele estava cada vez mais distante. Franziu o cenho, preocupada.

Os quatro foram para casa de Sam, onde os equipamentos já estavam dispostos e conectados. Sam afinou a guitarra enquanto Abigail procurava as baquetas da bateria.

Katarina se sentou na cama de Sam, observando os três cuidando de seus instrumentos. Ela nunca foi boa com música, mas poderia dizer que sabia cantar bem. Por fim, Sebastian se sentou ao lado dela, olhando pela janela do quarto do amigo.

– Tá tudo bem? — Katarina perguntou. Eles não haviam se falado desde aquele dia no lago.

– Tá sim. – ele respondeu direto. Depois encarou as próprias unhas, um pouco desconfortável. — Tendo muito trabalho na fazenda?

– Essa estação me deixa muito atarefada. — ela respondeu com um suspiro — Mas Sam me ajudou hoje a transportar feno. — o moreno finalmente olhou para ela agora — Ainda bem que ele estava lá, eu não tenho carteira de motorista, então ele levou a gente pra minha fazenda usando a caminhonete da Marnie.

– De vez em quando ele faz uns bicos pra Marnie. Ela sempre chama ele para essas coisas. – Seb respondeu, indiferente – Eu tenho uma moto, algum dia posso te levar pra dar uma volta. Gosto de subir até o topo da colina e observar Zuzu de longe

– Seria um prazer.. mas tenho um pouco de medo de moto.

– Relaxa, você tá segura comigo. – ele sorriu de canto.

– Bora logo Seb — Abigail interrompeu os dois, parecendo um pouco irritada, pra variar. Sebastian se levantou e os três começaram a ensaiar uma música sobre uma festa numa cidade movimentada. A voz de Sam era linda, ele conseguia transmitir muita emoção.

Quando a música acabou, Katarina aplaudiu eles. Os integrantes da banda tinha uma boa harmonia entre si, o que era ótimo. Depois de revisar a letra de algumas canções juntos, Sam e Sebastian pareciam um pouco descontentes.

– De novo não... — Abigail revirou os olhos e se jogou na cama de Sam, já pegando o celular. – Recomendo que ignore o que está por vir agora.

Katarina assentiu para ela mas observou os dois discutirem. Cada um tinha uma ideia diferente para a essência das músicas. Enquanto Sebastian dizia que era melhor irem num ritmo mais lento e com acordes mais graves, Sam defendeu que preferia uma música agitada e alta.

Era como se os dois estivessem espelhando as próprias personalidades dentro da música, refletiu Katarina.

Por fim, Sebastian cedeu, deixando Sam se sentindo vitorioso, mas o clima do ensaio ficou um pouco pesado depois. Após uma hora, o grupo decidiu dar uma pausa. Abigail precisava ajudar a mãe com o jantar.

– Vejo vocês amanhã – ela sorriu para todos e se despediu. Apesar de parecer bem, sua feição parecia um pouco cansada.

Enquanto caminhava de volta para casa, Abigail sentiu uma sensação ruim dentro de si. Começou quando viu Katarina e Sebastian conversando. Ela pensou que deveria ser ciúmes, mas se condenou por isso, pois sabia que Sebastian não sentia o mesmo por ela.

Enquanto isso, Sam e Sebastian guardavam os equipamentos na garagem. Katarina refletia sobre o que o loiro estava tentando dizer a ela em sua casa mais cedo. Ele a convidaria para sair? Seria tipo... um encontro?

– Ufa, finalmente. – o loiro suspirou, fechando a porta da garagem e se virando para os amigos

– Valeu por hoje pessoal, desculpa pela demora mais cedo, Seb.

– Tá de boa. – Sebastian não parecia querer conversar muito no momento. Na verdade, ele parecia não querer conversar quase nunca.

Os três se despediram. Katarina agradeceu Sam novamente pela ajuda com o transporte de feno e o loiro disse que ela poderia chamá-lo sempre que precisar. Após um abraço leve, ele fechou a porta de casa, indo direto para cozinha servir seu jantar. Do lado de fora, Sebastian chegou perto de Katarina.

– Me deixe te acompanhar até a sua fazenda hoje, tá tarde e... sei lá. — Sebastian disse, desviando o olhar para o canteiro de plantas da casa de Haley, ao lado.

– Agradeço sua gentileza – Kat sorriu para ele, corando um pouco. Não esperava que ele fosse fazer isso.

Os dois se assustaram quando escutaram um barulho estranho na casa vizinha. Parecia um som abafado de um gemido.

– O que é isso? – Katarina segurava o riso.

– Sei lá, a Emily deve estar trabalhando no Saloon agora. – Sebastian respondeu, o rosto levemente vermelho. Não imaginava que presenciaria esse tipo de situação, mesmo de longe.

Os dois conseguiram ver Alex sem camisa de costas pela janela, ele estava vestindo suas cuecas, o que fez Seb revirar o rosto numa careta quando viu o traseiro dele.

– Alex e Haley, huh? Eu já esperava por isso – Katarina comentou, dando uma risada.

– Vamos cair fora daqui, ou você gosta de ficar olhando o traseiro dos rapazes? – Sebastian sorriu de uma forma provocante pra ela.

Katarina deu um soquinho no ombro dele e os dois foram fazendo piadas até chegar na Fazenda Amanhecer.

– Valeu por me acompanhar — Kat segurava a porta da casa.

– Até mais, senhorita fã de traseiros! – Sebastian fez um aceno com a cabeça para ela e foi respondido com um dedo do meio da ruiva.

Sentando no sofá, Kat repassava o dia em sua mente. Lembrou de como Sam sempre conseguia tornar tarefas complicadas mais leves, como transportar o feno ou lidar com a caminhonete. Por mais que se sentisse constrangida de pedir ajuda à Marnie, aquele pequeno gesto de Sam a fez perceber que não precisava carregar tudo sozinha.

Ela sorriu sozinha, pensando:

– Ele sempre acha um jeito de tornar as coisas mais fáceis... mesmo sem perceber, me faz querer fazer melhor também.