Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
8 Começar diferente
Abigail estava deitada na cama de seu quarto, os olhos pesados. Caroline bateu na porta e chamou a filha para tomar o café da manhã.
— Hum... já são 7h — a dona dos cabelos roxos resmungou para si mesma olhando para a tela do celular.
Abby abriu o aplicativo de conversas e começou a reler as mensagens trocadas com Sebastian ao longo das semanas. Apesar de sempre ser direto e legal com ela, ele parecia tão distante ultimamente...
A garota fechou os olhos e suspirou com pesar. Ela sabia que esse afastamento tinha a ver com Katarina.
Era mais uma noite passada em claro. Quando isso acontecia, se perguntava há quanto tempo as coisas estavam assim entre ela e Seb.
Será que ele percebeu que Abby gostava dele e por isso quis se afastar?
Pra Sam, isso não era novidade. Ele já sabia que ela tinha um crush pelo moreno — só tinha medo de que Sebastian tivesse descoberto também.
Um pouco ansiosa, agarrou o lençol da cama com força. Ela gostava de Katarina, mas ao mesmo tempo, quando a via junto de Sebby, sentia um aperto no peito.
Os dois pareciam compartilhar uma intimidade só deles, algo que Abigail tanto demorou a conseguir com o garoto.
E Kat havia feito aquilo tão facilmente.
Abigail se sentou na cama, pressionando os dedos, irritada consigo mesma. Mas logo respirou fundo e se acalmou novamente. Não era justo ela sentir coisas ruins por Katarina. Os dois não estavam fazendo isso contra ela. Não era pessoal. Ela sabia.
Kat era uma garota gentil e bonita, e Abigail também era tudo isso. Não era uma competição de quem é a melhor, eram amigas afinal.
Levantou-se e se olhou no espelho de chão do quarto. Percebeu que nem ao menos sabia se os dois gostavam um do outro romanticamente. Sentia que estava perdendo seu tempo sofrendo por antecipação.
Após encarar seu reflexo por alguns segundos, Abigail se motivou a ter uma conversa com Sam. Queria desabafar com o amigo sobre o que estava sentindo. Quem sabe assim ela se sentiria melhor?
Ela não precisava que alguém dissesse que estava tudo bem, ela só queria entender por que não estava.
A garota então mandou uma mensagem para o loiro, pedindo que os dois se encontrassem no Saloon na hora do almoço. Ele respondeu alguns minutos depois, confirmando o encontro.
Mais tarde, os amigos se encontravam conversando em uma das mesinhas da taverna de Gus.
— Obrigada por ter vindo, eu tava precisando falar com alguém. — Abigail sorriu.
Ele abraçou a amiga de imediato. Ela sabia que poderia sempre contar com ele. Sempre pôde.
— Bom, eu queria falar sobre o Sebastian... — ela começou, e Sam se endireitou na cadeira, ficando um pouco mais sério.
— Se for sobre a discussão na minha casa ontem... relaxa. Não vai acontecer de novo. A gente chegou num acordo sobre a música e...
— Não, eu não tô falando disso. — Abigail interrompeu — Eu sei que vocês tem suas diferenças, mas eu vim falar sobre como eu me sinto sobre o Sebastian.
Sam assentiu para ela, esperando que ela continuasse.
— Você sabe que eu gosto dele, tipo... gosto mesmo. — a garota corou um pouco, era raro vê-la assim — Mas eu sinto que nunca vai ser recíproco. Sei lá...
Sam sorriu sem mostrar os dentes, mostrando empatia pela amiga.
— Abby, eu entendo como você se sente. Imagino que você deve estar se sentindo frustrada, mas... talvez ele precise de um pouco de espaço agora.
— Eu sempre achei que ele só precisaria de alguém que acreditasse nele... como eu acredito. — ela mordeu o lábio inferior, se forçando a não chorar — Mas e se ele não sente o mesmo?
Sam aproximou sua cadeira de Abigail e colocou uma mão em seu ombro, confortando a amiga. Ele não sabia bem o que dizer, afinal, Sebastian sempre foi assim: nunca dava pra saber o que ele estava pensando.
O loiro percebeu que também ficaria arrasado se não tivesse seus sentimentos correspondidos por Katarina, então faria o possível para dar todo o suporte emocional à Abby.
Abigail agradeceu o carinho de Sam e a garota voltou a falar, fungando:
— Acho que você tá certo. Talvez ele precise de um tempo. — ela suspirou — Mas não vou perder a esperança mesmo assim.
O rapaz sorriu para ela e os dois pediram um almoço do cardápio do Gus, estavam famintos.
Os dois conversavam quando Lewis, o prefeito, chegou na mesa deles. O velho parecia animado hoje.
— Posso confirmar a presença dos dois jovens no festival da dança das medusas-da-lua hoje?
Os amigos se entreolharam. Haviam esquecido completamente da tradição de hoje. Uma vez por ano, no último dia de verão, as medusas visitavam as águas da praia do Vale do Orvalho durante a noite, atraídas pelas luzes das tochas acesas pelos moradores.
Eles confirmaram a presença e Lewis saiu satisfeito. Depois de um tempo, Abigail se levantou e se despediu de Sam. Precisava terminar o dever de casa da faculdade online.
**
Ao pôr do sol, Katarina se ajeitou diante do espelho, colocando uma flor amarela nos cabelos ruivos. Pensou que seria uma homenagem legal ao gesto bonito de Sam no dia da Dança Das Flores.
Saindo de casa, ela fechou a porta atrás de si e caminhou até a cidade. Hoje era um dia especial na Vila Pelicanos, e seria ainda mais especial para ela. Era a primeira vez que presenciaria o espetáculo marinho das medusas-da-lua, e estava muito animada pra isso.
Na cidade onde morava, tudo parecia igual. Aqui, cada dia surpreendia de um jeito diferente. Aos poucos, ela encontrava um novo propósito.
No meio do caminho encontrou Haley. A garota estava sentada numa fonte perto do Centro Comunitário, ajeitando sua câmera. Kat ficou sabendo da paixão da loira por fotografia. Possivelmente ela tiraria fotos do evento mais tarde.
De repente, Katarina se lembrou da cena de Alex vestindo a cueca no quarto de Haley e riu baixinho para si mesma. Apesar de não ser fã do aspirante à atleta, admitia que aqueles dois formavam um belo casal.
Foi constrangedor ter presenciado aquilo junto de Sebastian, mas pelo menos ela não teve que ver aquilo sozinha. A recordação fez ela ter vontade de visitá-lo antes do festival, então se dirigiu para a Carpintaria de Robin.
Chegando lá, ele estava fazendo alguns ajustes na moto, as luvas pretas sujas de graxa. Katarina se aproximou e deu um assobio para chamar sua atenção.
Ao perceber a presença dela, o moreno limpou o suor da testa e sorriu.
— Veio me visitar, huh? Ainda traumatizada com o traseiro do Alex? — ele deu um sorriso sarcástico.
— Acho que você pode começar a trabalhar como vidente — Katarina deu uma risada solta e continuou, se sentando na beirada do canteiro de flores da Carpintaria — Estou animada para o festival hoje à noite.
Ele sorriu discretamente. Gostava da empolgação da fazendeira pelas pequenas e grandes coisas.
— Antes da chegada das medusas... tudo fica quieto. — Seb comentou.
Ele observa o lago por alguns segundos, como se estivesse procurando algo ali.
— É um tipo de silêncio que eu gosto. — concluiu.
Enquanto ele apertava alguns parafusos com o auxílio de uma ferramenta, Katarina o observava, sorrindo docemente.
A ruiva achava interessante a forma como o moreno via a vida. Ele parecia enxergar beleza em coisas que algumas pessoas não viam, e também tristeza em outras que as demais não reparavam.
O rapaz apertou os lábios, concentrado, e finalizou o trabalho na moto. Mostrou os ajustes que fez para Katarina e prometeu levá-la para um passeio na colina em algum outro dia.
Ele se sentou ao lado dela, no canteiro de flores. Colocou a mão no bolso para puxar um cigarro, mas desistiu da ideia. Ao invés disso, apenas suspirou, olhando para o lago de longe.
— Ultimamente eu fico imaginando como seria... começar de novo. Não exatamente ir embora. Só... começar diferente. — disse baixo, quase falando com o próprio pensamento.
Houve uma pausa longa.
Katarina o observou em silêncio. Havia algo diferente no jeito que ele falava — Seb estava em dúvida, mas não triste. A fazendeira não sabia profundamente sobre algumas coisas, mas aos poucos sentia que entendia algo sobre recomeços. Então disse a ele, seriamente:
— Recomeços nunca são fáceis. — disse com honestidade simples. — Eu vim pra cá achando que só mudar de lugar já resolveria tudo.
Fez uma pausa breve.
— Mas algumas coisas... a gente acaba trazendo junto.
O silêncio entre eles não era desconfortável. Apenas... honesto. Sebastian franziu o cenho, absorvendo a ideia.
— Essas coisas... te acompanharam até aqui? — perguntou sem encará-la, passando o polegar no zíper do moletom, pensativo.
—Sim, um pouco — ela sorriu, pequeno. — Mas não tá tão pesado mais. Tô descobrindo outras partes de mim que eu não deixava existir antes. Acho que é isso que muda tudo.
A expressão dele suavizou bem de leve.
— Talvez ainda tenha... algo pra mim aqui. — disse baixo, como se não tivesse planejado falar.
Katarina acompanhou o olhar dele para a cidade sob o céu rosa-alaranjado. Aquele lugar onde estavam era mais alto que o restante do Vale, o que proporcionava as melhores vistas.
— Eu sei que sim. — Kat sorriu para ele.
Ele olhou de volta para ela e foi impossível não sorrir. Um sorriso pequeno, que o fez sentir que poderia ser ele mesmo.
Mas depois percebeu que tinha ido longe demais.
Sebastian baixou o olhar, colocou as mãos nos bolsos do moletom e mordeu o lábio inferior, tentando recolher tudo que deixara escapar.
Katarina percebeu que o garoto se sentia desconfortável após desabafar. Seb estava saindo de seu casulo, de onde pensava que sempre deveria estar.
Pra cortar o clima, a ruiva olhou para o relógio de pulso e constatou que os dois deveriam ir para a praia logo. Lewis disse que teria comida do Gus antes da chegada das medusas-da-lua.
Os dois foram em direção à praia, passando pela Vila. Maru, que estava saindo da clínica de Harvey, cumprimentou os dois com um aceno e um sorriso. Em seu íntimo, ela achava que os dois combinavam juntos.
Chegando lá, a maioria dos moradores já estava presente, incluindo Sam e Abigail. O rapaz loiro percebeu a chegada de Kat e ficou feliz em avistá-la. Também notou que ela estava acompanhada de Sebastian.
Ele começou a refletir sobre a conversa que teve com Abby mais cedo. Os dois realmente estavam tendo algo juntos?
Apesar do pequeno desconforto no estômago, foi em direção dos dois, com um sorriso largo no rosto.
O rapaz logo se alegrou ao ver a flor amarela no cabelo de Katarina. Ela havia pensado nele, certo? Acalmando-se um pouco, percebeu que era um cara um pouco ansioso.
— E aí pessoal! — Sam cumprimentou os amigos e fez algumas piadas sobre a roupa do prefeito na ocasião. Katarina sorriu de volta. Seb endireitou a postura e permaneceu em silêncio, observando as pessoas.
O grupinho se reuniu para comer alguns petiscos preparados por Gus. Katarina sentiu que Abigail estava diferente hoje, mas não soube dizer o motivo. Já o loiro estava muito comunicativo, pra variar. Tinha muito a dizer sobre fatos curiosos de criaturas marinhas misteriosas.
Uma hora depois de muitas risadas e teorias da conspiração, Lewis anunciou que estava na hora de acender as tochas para atrair as medusas-da-lua. Sam ensinou Katarina a ajeitar cuidadosamente a lanterna e os dois colocaram-na juntos num barquinho, ao lado do píer.
Após algum tempo, os seres marinhos realmente vieram e o espetáculo começou. Haley posicionou a câmera e começou a tirar várias fotos das medusas.
Katarina estava encantada com aquele fenômeno. Ela e Sam observavam juntos tudo aquilo no píer da praia.
— Eu nunca vi algo tão bonito assim em toda minha vida! — Katarina suspirou. Aquela cena era de tirar o fôlego.
— Eu também acho. Nunca vi coisa mais linda. — Sam corou, olhando para ela.
Ele hesitou um instante, como se estivesse reunindo coragem. Então deu um passo leve para mais perto e, devagar, tocou a mão dela. Katarina piscou surpresa, mas não recuou — apenas deixou que seus dedos se encaixassem nos dele, sentindo o rubor subir às bochechas.
As mãos se entrelaçaram com naturalidade, e os dois sorriram, tímidos, antes de voltarem a observar as medusas dançando no oceano. O reflexo das luzes no mar fazia tudo parecer ainda mais quieto, ainda mais íntimo.
Um pouco atrás, Sebastian conversava com Maru quando percebeu o movimento. Seu olhar passou rápido pelas mãos unidas — apenas um segundo — e depois voltou para o mar, como se estivesse se obrigando a focar nas luzes no horizonte.
Um toque doce, acompanhado de um silêncio confortável.
E, por um instante, o mundo pareceu simples.
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