Entre Fachadas
5 Quando a máscara pesa
O apartamento recebeu os três com um silêncio diferente. Não era o silêncio confortável e acolhedor de um fim de semana comum; era aquela atmosfera pesada que se instala quando algo indesejado é trazido para dentro de casa sem pedir permissão.
Anya largou os sapatos perto da porta de entrada e permaneceu parada por um instante, como se seu corpo pequeno ainda estivesse processando a enxurrada de pensamentos hostis que captara no parque. Ao seu lado, Bond sentou-se pesadamente, emitindo um ganido baixo e atento.
— Mamãe… — a menina chamou, após um longo tempo em silêncio. — O moço de hoje… ele deu medo.
Yor ajoelhou-se imediatamente à frente da filha. O gesto foi automático, um reflexo puramente instintivo de proteção. Segurando o rosto de Anya com extrema delicadeza, ela a obrigou a encará-la nos olhos.
— Ele não vai machucar você — afirmou Yor, com uma certeza absoluta em sua voz, do tipo que não aceitava qualquer contestação. — Ninguém vai tocar em você, Anya. Eu prometo.
Loid aproximou-se por trás, dando um passo firme e pousando a mão espalmada sobre o ombro da menina.
— Você está segura aqui — completou ele, o tom de voz calmo agindo como uma âncora.
Os três se olharam por um segundo mais longo do que o normal. Não houve necessidade de palavras ou explicações detalhadas; a mensagem subjacente passou clara e nítida entre os dois adultos: ninguém mexe com a nossa família.
Anya respirou fundo e, então, como se a tensão infantil tivesse passado rápido demais para ser sustentada por muito tempo, abriu um sorriso genuinamente travesso.
— Mas eu gostei de ver vocês no parque.
Loid piscou, pego de surpresa.
— Gostou… de quê, exatamente?
— De vocês dois flertando — respondeu ela, com uma naturalidade desconcertante. — Pareciam pais de verdade.
O silêncio caiu pesado e repentino sobre a sala. Yor sentiu o rosto queimar, ficando vermelha até a ponta das orelhas, enquanto Loid pigarreou alto, ajeitando o colarinho e desviando o olhar para a janela.
— Anya — repreendeu ele, assumindo uma seriedade excessiva para disfarçar o próprio embaraço —, crianças não deveriam usar esse tipo de vocabulário.
— Mas eu sou uma criança muito observadora — ela rebateu, orgulhosa de si mesma.
Bond latiu baixo, parecendo demonstrar apoio à garota. Yor levantou-se rapidamente, ainda tentando controlar o rubor nas bochechas, e guiou Anya gentilmente em direção ao sofá.
— Vamos assistir à televisão, está bem? O desenho do Detective Anemone já vai começar.
A menina assentiu, perfeitamente satisfeita com o rumo das coisas. Da entrada da cozinha, Loid observou a cena com um aperto estranho e inédito no peito — um sentimento confuso que oscilava perigosamente entre o orgulho doméstico e o medo do que o futuro reservava.
Mais tarde, com Anya completamente distraída pela programação noturna da televisão, Loid e Yor conversavam em tons quase inaudíveis na cozinha, aproveitando o barulho do aparelho ao fundo.
— Ele está avançando rápido demais — murmurou Loid, os braços cruzados enquanto apoiava as costas contra a pia. — Aquele encontro no parque não foi uma coincidência geográfica.
— Concordo — respondeu Yor, sua expressão doce dando lugar a uma seriedade focada. — Ele não está apenas sendo simpático. Está testando nossos limites para ver quem recua primeiro.
Eles se encararam por alguns instantes. O entendimento entre as duas mentes mais perigosas da cidade era completo, mesmo que por razões totalmente diferentes.
— Vou acionar alguns contatos amanhã cedo — declarou ele, referindo-se implicitamente à sua rede de informações. — Preciso descobrir a origem desse homem. De onde ele veio e quem financiou sua vinda para este prédio.
— Eu farei o mesmo do meu lado — ajeitou Yor, pensando na organização secreta à qual respondia. — Se ele tiver qualquer ligação com o submundo… alguém cometeu um erro grave ao colocá-lo aqui.
Ambos assentiram ao mesmo tempo, selando mais um acordo silencioso de cooperação mútua.
A segunda-feira começou com uma normalidade quase irônica. Loid e Anya saíram cedo para a escola e o trabalho, seguindo o cronograma habitual. Yor observou a silhueta dos dois da soleira da porta até que desaparecessem na curva do corredor. Só então ela pegou sua bolsa de mão, respirou fundo para alinhar seus próprios pensamentos e trancou o apartamento.
A escadaria interna do prédio parecia vazia e silenciosa. Ou, pelo menos, deveria parecer.
— Bom dia, senhora Forger.
A voz ecoou vinda do lance de degraus logo abaixo.
Yor virou-se lentamente, sem demonstrar qualquer sobressalto físico. Adrian Keller estava parado alguns degraus abaixo dela, com uma das mãos apoiada casualmente no corrimão de madeira. Vestia um terno cinza cortado sob medida e ostentava aquele mesmo sorriso ensaiado de quem não via perigo algum em cercar uma mulher sozinha no corredor.
— Bom dia, senhor Keller — respondeu ela, mantendo a polidez impecável de uma dona de casa exemplar.
— O seu marido sai realmente cedo — comentou ele, inclinando ligeiramente a cabeça. — Um homem muito dedicado aos seus deveres, pelo visto.
— Ele trabalha muito para garantir o nosso sustento — limitou-se a dizer, simples e direta.
Adrian subiu um degrau, encurtando sutilmente a distância entre eles.
— E a senhora? Também trabalha fora?
— Sim, na prefeitura.
Ele a observou com uma atenção quase clínica, seus olhos escaneando a postura dela, a linha dos ombros e a forma como ela distribuía o peso do corpo sobre os pés.
— É um trabalho burocrático, suponho. No entanto, a senhora não parece carregar o cansaço típico de quem passa o dia atrás de uma mesa.
— Já estou perfeitamente acostumada com a minha rotina — replicou Yor, sustentando o olhar dele com uma serenidade inabalável.
Adrian subiu mais um degrau. Seus olhos desceram por um instante para as mãos dela, que seguravam a alça da bolsa.
— Suas mãos… — ele pontuou, mudando o tom de voz de forma abrupta. — São surpreendentemente delicadas para alguém que lida com tantos afazeres domésticos e profissionais.
Yor não recuou.Mas todos os músculos de seu corpo ficaram prontos para agir.Ela não recuou um único centímetro, mas seus músculos se contraíram internamente, prontos para uma reação violenta caso o homem fizesse um movimento em falso.
— Eu tento cuidar bem delas sempre que possível — respondeu, mantendo o tom suave.
— Interessante — murmurou ele, estreitando os olhos de maneira calculista. — No meu país, costumamos dizer que há mulheres que escondem uma força descomunal por trás de uma fachada de extrema delicadeza.
As pupilas dele fixaram-se nas dela, buscando ansiosamente por um reflexo de culpa, um piscar de olhos nervoso ou qualquer falha na Matrix daquela mulher comum.
— Receio não compreender o que o senhor quer dizer com isso — disse Yor, abrindo um sorriso leve e perfeitamente inocente.
Adrian inclinou a cabeça para o lado, como um crítico de arte analisando uma pintura cujo segredo tentava decifrar a todo custo.
— Às vezes, as flores mais bonitas e ornamentais de um jardim são justamente aquelas que carregam o veneno mais letal em seus espinhos, senhora Forger.
Por um breve e sufocante segundo, a atmosfera no corredor do prédio ficou densa demais para respirar. A menção implícita ao Garden ecoou na mente de Yor como um gongo de guerra. Yor deu um passo lateral elegante, quebrando o alinhamento corporal de Adrian.
— Se me dá licença — disse ela, com uma gentileza quase gélida. — Eu realmente não posso me atrasar para o meu turno hoje. Tenha um bom dia.
Ela passou por ele pelos degraus restantes sem permitir que suas roupas sequer se tocassem. Adrian permaneceu absolutamente imóvel na escada, apenas girando o pescoço para observá-la descer até o saguão do prédio. O sorriso artificial sumiu completamente de suas feições.
A ausência de ruído nos passos. A precisão do movimento. A forma como ela escapara de sua pressão. Tudo correspondia às descrições confidenciais que recebera. No entanto, aquela mulher não parecia apenas um alvo mecânico. Ela parecia… dolorosamente real.
— Muito interessante… — murmurou o homem para si mesmo na penumbra da escada.
Do lado de fora do prédio, sentindo o ar fresco da manhã tocar seu rosto, Yor respirou fundo uma única vez para purificar os pulmões. Depois, com o semblante calmo restaurado, seguiu seu caminho pela calçada.
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