Entre Fachadas
6 Valores
Loid percebeu a gravidade do problema pelo que não encontrou.
Era sempre assim quando uma ameaça verdadeiramente profissional se aproximava. Não havia erros gritantes na trajetória do sujeito, não havia pistas óbvias deixadas para trás, tampouco fios soltos na tapeçaria de sua identidade. Havia apenas um vazio. Um histórico limpo demais, polido demais para ser considerado natural.
A tela do terminal criptografado à sua frente exibia dados que se encaixavam com uma perfeição incômoda. Adrian Keller: origem estrangeira devidamente registrada, emprego legítimo em uma importadora, mudanças de endereço justificadas por transferências corporativas. Nenhuma ligação conhecida com grupos clandestinos, nenhum contato suspeito monitorado pelo serviço de inteligência. Absolutamente nada.
Loid apoiou os dedos na ponte do nariz, fechando os olhos por alguns instantes enquanto sentia o peso da frustração. O cansaço não vinha do esforço físico, mas sim da paranoia latente.
— Você não existe assim — murmurou para a tela escura.
Nem mesmo Twilight conseguia ser tão invisível sem deixar ao menos um rastro microscópico de sua passagem. Alguém com uma ficha tão imaculada só podia ser uma de duas coisas: um civil perfeitamente irrelevante… ou um operador extremamente perigoso. Ele começou a refazer o caminho investigativo por outro ângulo, acessando fontes indiretas, rumores de mercado e movimentações financeiras secundárias. Nada ligava o nome de Adrian Keller a qualquer caça ativa ou contrato de execução. Ainda assim, seu instinto de espião recusava-se a recuar.
Do outro lado da cidade, Yor também não confiava naquele silêncio sepulcral.
Ela se encontrava em um ambiente de penumbra, onde nomes reais nunca eram ditos em voz alta e informações vitais jamais eram entregues sem um preço de sangue. Era um espaço intermediário, longe demais da legalidade e perto demais da verdade nua e crua do submundo.
— Você veio fazer perguntas demais, minha cara — comentou a mulher sentada ao outro lado da mesa de madeira gasta, sem levantar os olhos do maço de cartas que manipulava.
— Só vim buscar o necessário — respondeu Yor, sua suavidade habitual camuflando a frieza de sua postura.
— O necessário costuma custar caro por estas bandas.
Yor assentiu, firme.
— Estou preparada para o preço.
A informante finalmente a encarou. Seu olhar experiente e cínico avaliou Yor por um segundo a mais do que o confortável, tentando ler o que havia por trás daquela fachada dócil. Em seguida, enfiou a mão no casaco e empurrou dois papéis pequenos e dobrados pela mesa.
— Estão circulando duas recompensas massivas no mercado — revelou a mulher, a voz baixa. — Contratos separados.
Yor desdobrou o primeiro papel. O valor impresso era alto; alto demais para um alvo comum. Não era um número estipulado ao acaso, mas uma quantia astronômica que dizia claramente: vale qualquer risco.
Ao virar o segundo papel, seus olhos se estreitaram. O valor era ainda maior.
— Eles não estão ligados oficialmente — continuou a informante, recostando-se na cadeira. — Nenhum contratante mencionou qualquer relação ou aliança entre os alvos.
— Mas… — Yor murmurou, o olhar fixo nas cifras.
— Mas surgiram no mercado quase ao mesmo tempo — completou a outra mulher. — E no nosso negócio, coincidências desse tamanho simplesmente não acontecem.
Yor respirou fundo, guardando a tensão no fundo da alma.
— Quem são os alvos?
A mulher inclinou-se para a frente, sussurrando os nomes como se fossem maldições:
— Um deles atende pelo codinome de Thorn Princess.
O coração de Yor não acelerou. Pelo contrário, estabilizou-se em uma quietude fria e letal.
— O outro — a informante continuou, vigiando a reação dela — é conhecido apenas como Twilight.
Yor fechou os olhos por um breve momento. Então ele sabe, pensou, uma engrenagem se encaixando em sua mente. O vizinho novo não sabia de tudo, mas sabia o suficiente para caçar na área certa.
— Há descrições físicas anexadas? — perguntou, perfeitamente controlada.
— Da Thorn Princess… muito poucas e inconsistentes. — A mulher fez um gesto vago com a mão. — Cabelos escuros, olhos avermelhados e uma presença que deixa marcas de sangue por onde passa. Ninguém nunca conseguiu confirmar sua identidade e sair vivo para contar.
— E quanto a Twilight?
A mulher soltou uma risada seca, sem nenhum humor.
— Nada. Nenhuma descrição física confiável, nenhum rastro de DNA, nenhuma testemunha viva que tenha visto mais do que uma sombra antes do golpe.
Yor assentiu lentamente, assimilando cada detalhe.
— Obrigada.
Ela se levantou sem pressa, guardando os papéis no fundo da bolsa. Ao sair para a noite fria, sentiu o peso da conclusão se formando peça por peça em seu diagnóstico. O fato de as duas recompensas terem sido ativadas em paralelo a incomodava muito mais do que os valores em si. Ela desceu a rua com passos calmos, mas por dentro sua mente trabalhava em velocidade máxima. Se alguém estava cercando o seu território… esse mesmo alguém estava caçando o espião. E aquilo mudava a natureza do jogo.
Eles se encontraram naquela noite na sala do apartamento, sem que nenhum dos dois precisasse verbalizar a necessidade daquela conversa. Loid percebeu, pela forma precisa e silenciosa como Yor cruzou a porta, que o cenário havia mudado. Não havia pânico nela; havia um foco mortal.
— Ele é um vazio perfeitamente construído — Loid iniciou sem rodeios, mantendo a voz baixa para não acordar Anya no quarto ao lado. — Nada nas redes oficiais liga Adrian Keller a qualquer operação clandestina ou militar. Ele é um fantasma de papel.
Yor assentiu, pousando a bolsa na cadeira.
— Eu imaginei que seria assim. Oficialmente, ele não existe. Mas nós existimos.
Ela abriu o fecho da bolsa, retirou os dois papéis dobrados e os colocou sobre a mesa da cozinha, sob a luz direta do teto. Loid deu um passo à frente. Não precisou perguntar de onde vinham.
— Recompensas — observou ele, os olhos escaneando os documentos. — Contratos independentes.
— Os valores são altos demais, Loid — disse ela, cruzando os braços e adotando uma postura rígida.
— Sim. Isso significa que ele não veio até o nosso prédio por mera curiosidade. Ele está pessoalmente investido na captura.
Yor começou a caminhar lentamente pela cozinha, analisando as possibilidades.
— A única pista real que existe sobre a Thorn Princess é uma descrição física vaga. Alguém viu o que não devia no passado… ou sobreviveu por algum milagre.
— O que significa que, teoricamente, ele ainda não sabe a verdade — concluiu Loid, o raciocínio lógico operando com precisão. — Ele não faz ideia de que nós dividimos o mesmo teto.
— Ainda não — concordou Yor, parando a caminhada e encarando-o. — Mas ele escolheu o nosso andar. Ele tentou se aproximar de mim na escada hoje porque aquela descrição o trouxe até aqui. E isso me fez pensar na sua situação.
Loid levantou o olhar, atento.
— Explique.
— Se ele está disposto a chegar tão perto de uma assassina profissional baseado apenas em rumores físicos… — ela pausou, medindo o peso das palavras —, então ele também deve estar usando a mesma tática para cercar você. Ele está tentando atrair Twilight para fora das sombras, mesmo sem saber qual é o seu verdadeiro rosto.
Loid soltou o ar lentamente pelos lábios, impressionado com a leitura tática dela.
— Um caçador paciente.
— E extremamente inteligente — completou Yor. — Ele testa o ambiente, observa as reações e confirma as suspeitas antes de desferir o golpe. Ele me avaliou na escada. Não atacou porque ainda precisa de uma certeza absoluta.
— E ele nunca terá essa certeza — Loid garantiu, a voz blindada por uma convicção gélida.
O silêncio retornou entre os dois por alguns instantes. Não havia espaço para o pânico ali; apenas para o reajuste imediato de suas defesas.
— A Anya não pode perceber a gravidade disso — alertou Yor, o instinto materno blindando sua voz.
— Não vai — Loid respondeu de imediato. — Eu garantirei isso.
Yor deu um passo na direção dele, encurtando a distância física. Não buscava conforto para o medo, mas sim o alinhamento de forças com o único aliado em quem confiava.
— E se ele acabar descobrindo quem somos? — perguntou ela, os olhos fixos nos dele.
— Se ele descobrir… — concluiu Loid, um meio sorriso sombrio surgindo em suas feições —, não será por um erro nosso. Será porque nós decidimos que era hora de deixar que ele soubesse.
Os olhares se cruzaram intensamente. Não havia espaço para o romance ou para o disfarce doméstico naquele segundo; o que vibrava entre eles era algo muito mais denso, visceral e absoluto. Uma parceria de sangue e segredos.
Yor assentiu devagar e voltou o olhar para a janela. A rua já estava mergulhada na escuridão.
— Adrian Keller está caçando lendas — murmurou ela, as palavras carregadas de um peso poético e mortal. — E ele nem desconfia que elas dormem sob o mesmo teto.
Loid sustentou o olhar dela, sentindo uma satisfação genuína e perigosa com a resolução da esposa.
— Vamos manter as coisas exatamente assim.
Do lado de fora, em algum ponto estratégico e invisível da noite daquela cidade, Adrian Keller analisava seus dados fragmentados em um quarto de hotel improvisado. Duas recompensas astronômicas. Dois alvos lendários. Dois fantasmas impalpáveis.
E, na mente do caçador, uma sensação incômoda e persistente de que as peças daquele quebra-cabeça não estavam tão distantes umas das outras quanto o resto do mundo acreditava.
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