Entre Fachadas
3 O que fica quando o mundo dorme
O jantar seguiu caótico, do jeito que só Anya conseguia tornar as coisas. A menina falava com a boca cheia, gesticulava animadamente com o garfo no ar, fazia caretas dramáticas e interrompia a si mesma para mudar de assunto sem qualquer aviso prévio. Bond, sentado como uma imensa estátua felpuda ao lado da cadeira dela, observava tudo com a paciência heróica de quem já havia aceitado aquela dinâmica como parte de sua própria existência.
— Mamãe, o vizinho novo é assustador — anunciou Anya, entre uma colherada e outra de seu prato. — Ele parece… vazio. Mas cheio ao mesmo tempo.
Loid ergueu os olhos do prato no mesmo instante, o garfo parando a meio caminho da boca.
— Anya — repreendeu ele, em um tom controlado e firme. — Não é educado falar assim das pessoas.
— Mas é verdade! — ela insistiu, franzindo o nariz. — A cabeça dele faz um barulho igual à sua, papai. Só que mais escura. Mais fria.
O silêncio caiu sobre a mesa rápido demais, denso o suficiente para ser cortado com uma faca.
Yor pousou os talheres com um cuidado milimétrico, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar um vidro invisível entre eles. Seus olhos castanhos encontraram os azuis de Loid. Não havia pânico ali; havia uma pergunta silenciosa e uma cumplicidade profunda o bastante para que nenhum dos dois precisasse verbalizar nada.
Loid respondeu com um leve e quase imperceptível inclinar de cabeça: conversamos depois.
— Pessoas novas sempre causam uma impressão estranha no começo — explicou ele, forçando uma suavidade profissional na voz enquanto voltava a cortar a carne. — Logo você se acostuma, Anya.
— Não quero — a menina retrucou, decidida, cruzando os braços.
Yor sorriu, inclinando-se um pouco na direção da filha com doçura.
— Está tudo bem sentir medo às vezes, querida. Mas o seu papai está aqui para nos proteger, não está?
Anya ponderou o argumento por um segundo, olhou de Loid para Yor e, finalmente, assentiu com a cabeça.
— Então tá.
A partir dali, a conversa migrou para trilhos mais leves. Falaram sobre as tarefas da escola, a comida e Anya fez um comentário absurdamente exagerado sobre um colega de classe que, segundo ela, “com certeza era um espião disfarçado”. O riso leve de Yor ecoou pela cozinha e a tensão aos poucos se dissolveu. Mas não desapareceu por completo; apenas se escondeu nas sombras dos cantos do cômodo.
Mais tarde, o apartamento assumiu um ritmo bem mais lento. Anya estudava com Loid na mesa da sala, apoiando o queixo nas mãos enquanto seus olhos verdes acompanhavam cada palavra dele com uma atenção quase comovente. Ele explicava a matéria com uma paciência genuína, ajustando o tom de voz sempre que percebia que a mente da menina começava a vagar.
Do sofá, Yor observava a cena. Bond estava deitado com a cabeça pesada em seu colo, e ela passava os dedos pelo pelo macio do cão de forma automática. Seus olhos iam e vinham entre o marido e a filha, absorvendo aquela pintura doméstica como se fosse um tesouro raro.
Ela ainda se surpreendia com aquilo. Surpreendia-se com a facilidade com que Loid ocupava aquele espaço, e com o jeito natural com que ele se tornara indispensável para elas. Ele não era apenas funcional ou conveniente; ele estava verdadeiramente presente.
Quando Anya finalmente cedeu ao cansaço e dormiu sobre os livros, Loid a pegou no colo com extremo cuidado. A menina se aninhou contra o peito dele sem sequer abrir os olhos. Bond os acompanhou em silêncio até o quarto, deitando-se como um guarda-costas fiel ao lado da cama assim que a garota foi acomodada sob as cobertas.
— Guarda… — murmurou Anya, já perdida no mundo dos sonhos.
Loid apagou a luz do quarto e puxou a porta devagar, deixando apenas uma fresta.
Ao retornar para a sala, encontrou Yor sentada no sofá, segurando uma xícara de chá fumegante entre as mãos. A luz suave do abajur desenhava sombras gentis em seu rosto, destacando suas feições delicadas. Ela parecia incrivelmente tranquila, e, por algum motivo, aquela imagem desarmou Loid mais do que qualquer ameaça externa seria capaz de fazer.
Ele se aproximou sem pressa, sentindo o cansaço do dia finalmente pesar nos ombros.
— Quer um pouco? — ela ofereceu, erguendo discretamente a xícara na direção dele.
— Daqui a pouco.
Os olhos de Loid desceram por um instante para os lábios dela, e Yor percebeu o olhar. Um rubor discreto, mas nítido, coloriu suas bochechas.
— Loid…
— Eu só pensei… — começou ele, acomodando-se ao lado dela no estofado — que deveríamos continuar praticando o nosso papel. Para não levantarmos suspeitas diante do novo vizinho.
Yor engoliu em seco. Não por surpresa, mas por uma súbita onda de antecipação que fez seu coração acelerar.
— Antes disso… você poderia me falar sobre ele? — perguntou ela, a voz baixa.
Loid fechou os olhos por um breve instante e soltou um suspiro. Não era de frustração, mas de puro cansaço analítico.
— Ele não é um civil comum.
No segundo seguinte, a postura de Loid mudou. A descontração deu lugar a uma precisão cirúrgica. Com uma voz baixa e pausada, ele descreveu Adrian Keller como quem detalha um mapa de terreno inimigo. Cada minúcia importava: a rigidez oculta na postura relaxada, o tempo de resposta calculado milisegundo a milisegundo, o olhar que varria o ambiente buscando vulnerabilidades.
Yor ouvia tudo em absoluto silêncio. Enquanto ele falava, ela o estudava. Era fascinante ver como o marido se transformava; como a inteligência dele se tornava uma lâmina afiada, quase bela de se contemplar. Era assustador, mas terrivelmente magnético. Como alguém podia ser tão letal quando necessário e, ainda assim, sentar-se naquele mesmo sofá para dividir o chá e beijá-la com tanto zelo?
Meu marido, pensou ela. A palavra não soava mais como um roteiro decorado. Soava como uma escolha real.
— Se ele se aproximar da nossa família — disse Yor, a voz suave contrastando com a promessa sombria em suas palavras —, garanto que não será um problema por muito tempo.
Loid sorriu. Não foi o sorriso gentil e comercial que ele usava na rua, mas um sorriso cúmplice, de quem compreendia exatamente a natureza perigosa da mulher ao seu lado e, no fundo, confiava nela inteiramente. Ele se inclinou e selou os lábios nos dela. Foi um toque curto, mas carregado de uma intensidade nova.
— É por isso que eu confio em você, Yor.
Ela desviou os olhos, timidamente, mas não se afastou.
Eles permaneceram ali, muito próximos, desfrutando do silêncio que só existe quando as máscaras caem e não há mais necessidade de fingir. Loid recostou-se no sofá, afrouxando os ombros pela primeira vez desde que o nome de Adrian Keller cruzara seus pensamentos. A tensão não havia sumido por completo, mas havia mudado de lugar; saíra da mente e se alojara nos músculos cansados.
Yor pousou a xícara esquecida na mesinha de centro e voltou a atenção para ele. O rosto dela ainda exibia aquela serenidade focada, a expressão típica de quando decidia que protegeria algo a qualquer custo.
Loid a observou de soslaio. Era curioso como ela conseguia transitar entre extremos de forma tão fluida: a esposa doce cujos joelhos quase tocavam os dele, e a arma implacável que acabara de prometer sangue a qualquer um que ameaçasse o lar deles. Naquele momento, ele se sentia atraído por ambas as facetas.
Ele encurtou a distância entre os dois com um movimento lento. Yor percebeu a mudança na atmosfera antes mesmo de olhá-lo nos olhos.
— Você está muito tenso — ela comentou, sem julgamento, apenas constatando o óbvio.
— Um pouco — admitiu ele. Era raro abrir mão do orgulho e confessar uma fraqueza de forma tão direta.
Yor virou-se completamente para ele, examinando suas feições com um olhar atento que ia além do papel de cônjuge; era o olhar de alguém que conhecia os sinais físicos do estresse técnico.
— Quer… descansar? — sugeriu ela.
O canto da boca de Loid se ergueu em um meio sorriso quase imperceptível.
— Pensei que talvez… praticar um pouco mais nos ajudaria a relaxar.
Ela piscou, surpresa pelo tom dele. Não havia hesitação ou brincadeira ali; havia um pedido genuíno de proximidade. Devagar, ela assentiu.
Loid avançou o espaço que faltava, permitindo que o calor entre seus corpos se tornasse inegável. Ele não a tocou de imediato; esperou, como quem respeita os limites dela. Mas, dessa vez, o controle rígido do espião parecia maleável. Quando sua mão finalmente subiu para tocar o rosto de Yor, seus dedos longos acariciaram a linha do maxilar com uma delicadeza que contrastava com a intensidade do momento.
Yor não recuou. Pelo contrário, inclinou-se sutilmente contra o toque.
O beijo que se seguiu foi lento e profundo. Não carregava uma urgência desesperada, mas sim uma intenção clara. Não havia encenação ou técnica de espionagem ali; era menos um ensaio e muito mais uma escolha mútua. Loid sentiu a própria respiração se alinhar ao ritmo da dela, e o mundo inteiro pareceu encolher até reduzir-se àquele sofá, ao silêncio da sala e ao som suave do toque deles.
Ele aprofundou o beijo um pouco mais, apenas o suficiente para testar o terreno, para ver até onde a barreira deles cederia. Yor correspondeu sem hesitar, suas mãos fechando-se de leve no tecido da camisa dele, puxando-o para mais perto. Por alguns minutos, o perigo que rondava o corredor do prédio deixou de existir.
Quando se separaram, o afastamento foi gradual.
— Yor… — o nome dela escapou em um sussurro mais baixo do que ele pretendia.
Ela continuou ali, a poucos centímetros dele, com as pupilas ligeiramente dilatadas e um olhar que misturava a timidez típica com uma atenção afiada.
— Você confia em mim — afirmou ela, não como uma pergunta, mas como uma verdade que acabara de constatar.
— Mais do que eu deveria — respondeu Loid, com um sorriso genuíno de canto de boca.
Ao ouvir aquilo, ela finalmente relaxou. A aura fatal deu lugar à sua essência acolhedora. Loid se recostou no sofá e, em um gesto discreto, puxou-a para junto de si. Yor aceitou de bom grado, apoiando a cabeça contra o peito dele. Não era uma pose de vulnerabilidade, mas de conforto escolhido por ambos.
Enquanto ouvia o ritmo cadenciado do coração dele, Yor fechou os olhos e sorriu de canto.
— Se alguém mexer com a nossa família — repetiu ela, baixinho, quase como uma prece —, vai se arrepender.
Loid inclinou a cabeça e depositou um beijo suave no topo dos cabelos dela.
— Eu sei.
E, pela primeira vez naquela noite, ele realmente se permitiu descansar.
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