Entre Fachadas
4 Aparências que respiram
O sábado amanheceu claro demais para ser ignorado. O parque transbordava com os sons vibrantes de uma manhã viva: crianças correndo pelo gramado, risadas espalhadas pelo ar e o som ritmado de passos sobre a grama que ainda retinha o sereno da madrugada. Era um cenário perfeitamente corriqueiro, exatamente o tipo de ambiente onde pessoas comuns existiam e aproveitavam a vida sem precisar pensar em estratégias ou disfarces.
Loid caminhava ao lado de Yor com os ombros relaxados, enquanto Anya avançava alguns passos à frente, praticamente arrastando Bond pela coleira enquanto apontava para tudo o que via pela frente.
— OLHA, MAMÃE! — a menina exclamava, a voz carregada de entusiasmo infantil. — UM PÁSSARO! E UM CACHORRO! E UM SORVETE!
Yor sorriu diante da energia da filha, acenando de volta com doçura.
— Não vá muito longe, Anya! — recomendou, a voz suave misturando-se ao burburinho do parque.
Pouco depois, os dois se sentaram em um banco de madeira ligeiramente afastado da área mais movimentada. Não era um ponto isolado, mas sim estratégico — um hábito profissional que Loid dificilmente conseguiria abandonar. Dali, seus olhos azuis observavam o fluxo constante de civis, os movimentos na periferia de sua visão e os reflexos distantes nas vitrines das lojas que cercavam a praça.
Foi um aviso quase imperceptível, um arrepio familiar na nuca. O peso de um olhar que não se justificava pelo ambiente.
Loid não virou o rosto de imediato. Em vez disso, mudou a postura em um ajuste milimétrico, apenas tensionando os músculos das costas. Ao seu lado, Yor percebeu a sutil alteração no mesmo instante. Seus próprios instintos de assassina também já haviam captado a anomalia no cenário.
O homem estava posicionado do outro lado do caminho principal. Sentado em um banco oposto, fingia ler um jornal dobrado, mas sua postura era imóvel e calculada demais para alguém que apenas aproveitava o fim de semana.
Era Adrian Keller.
Loid inclinou-se levemente na direção de Yor, reduzindo a distância entre eles como se fosse apenas fazer um comentário casual de marido.
— Estamos sendo observados — murmurou, movendo os lábios o mínimo necessário para que o som não viajasse.
Yor respirou fundo, sustentando o sorriso sereno no rosto e mantendo os olhos fixos em Anya, que tentava fazer Bond se sentar.
— Eu percebi — respondeu ela, no mesmo tom baixo.
O silêncio que se instalou entre os dois durou apenas um segundo, mas foi um segundo carregado de eletricidade.
— Precisamos parecer… normais — continuou Loid, a voz quase sumindo no vento. — Mais do que o costume.
Yor assentiu. Foi então que Loid fez algo que raramente tomava a iniciativa de fazer em público. Ele estendeu a mão aberta sobre o banco, entre os dois.
Yor piscou, genuinamente surpresa. O gesto era simples, o ápice do cotidiano de qualquer casal comum, mas nunca fora algo natural entre eles diante de testemunhas sem que houvesse uma justificativa clara no roteiro da missão. Ela hesitou por um microssegundo, os olhos fixos nos dedos dele, antes de estender a própria mão e entrelaçar os dedos nos dele.
O toque foi quente. Real até demais.
Loid sentiu o próprio pulso acelerar sob o relógio de pulso. Não era o disparo de adrenalina causado pelo perigo, mas sim uma reação muito mais incômoda, íntima e difícil de catalogar logicamente. Ele encurtou ainda mais o espaço entre eles, permitindo que seus ombros se tocassem.
— É apenas para a nossa proteção — justificou ele em um sussurro, inclinando a cabeça para perto do rosto dela.
Yor assentiu devagar, mas o rubor típico já começava a subir por seu pescoço, tingindo a pele clara. Loid aproximou-se um pouco mais, e quando voltou a falar, sua voz perdeu o tom puramente analítico, assumindo uma suavidade que parecia ecoar um costume muito mais antigo do que a própria Operação Strix:
— E porque também ajuda.
Antes que ela pudesse processar o peso daquelas palavras, Loid depositou um beijo rápido e suave na curva do pescoço dela. Não foi nada espalhafatoso ou teatral; foi um gesto íntimo, sutil, perfeitamente integrado à imagem de um marido apaixonado.
Para Yor, no entanto, o parque inteiro pareceu encolher até sumir.
Ela sustentou a compostura com um esforço heróico, sentindo o coração golpear o peito em um ritmo frenético. Mesmo com o rosto ardendo em um vermelho vivo, ela não recuou. Pelo contrário, permitiu-se relaxar o peso do corpo e apoiou-se de leve contra o ombro dele, devolvendo o aperto de mãos.
Anya voltou correndo em direção ao banco naquele exato momento, arrastando os pés na terra e soltando a coleira de Bond.
— Vocês estão flertando? — perguntou a menina, com os olhos verdes arregalados e uma curiosidade imensa.
— Não estamos… — Yor começou a responder de forma automática, a voz falhando um pouco pelo nervosismo.
— Mas eu e sua mãe sempre fazemos isso, Anya — Loid interveio antes que o disfarce balançasse, usando um tom calmo e paternal que parecia estruturado após anos de prática.
Yor captou o rumo da encenação imediatamente. Ela forçou um sorriso cúmplice e assentiu, olhando para a filha.
— Às vezes, os adultos demonstram carinho assim, querida.
Anya franziu o cenho, avaliando os pensamentos dos dois, que naquele momento eram uma mistura confusa de alerta tático e batimentos cardíacos acelerados.
— Estranho… — murmurou a garota, balançando a cabeça. — Mas tudo bem.
Durante o restante do passeio, o casal permaneceu em estado de vigilância absoluta, mesmo enquanto Anya corria e Bond farejava as árvores. Cada risada compartilhada era perfeitamente medida; cada toque físico, calculado para transparecer a mais pura espontaneidade.
Quando finalmente decidiram que era hora de ir embora, Loid captou a aproximação antes mesmo de focar os olhos no alvo. Adrian Keller surgiu vindo da direção da saída principal, caminhando com as mãos nos bolsos como se tivesse acabado de chegar para um passeio descompromissado. Um encontro casual demais para ser verdadeiro.
— Mas que coincidência — disse Adrian ao notar a presença deles, abrindo aquele sorriso polido que morria nos lábios. — Senhor Forger, não é?
Loid deu um passo imperceptível à frente, posicionando seu corpo de forma a blindar sutilmente a linha de visão de Yor e Anya.
— Sim — respondeu, mantendo a voz firme e a expressão amigável de um bom cidadão.
— Adrian Keller. Nos cruzamos na mudança, moramos no mesmo andar — relembrou o homem, estendendo a mão.
— Eu me lembro.
O sorriso de Adrian se alargou de forma sutil, e seus olhos analíticos desviaram-se por um segundo para Yor, avaliando-a com uma atenção demorada e cuidadosa demais para os padrões de um desconhecido.
— Sua família é… realmente encantadora — comentou ele.
Em seguida, o homem inclinou o corpo e estendeu a mão na direção de Anya, gesticulando para tocar o topo da cabeça da menina. No mesmo instante, Anya recuou um passo abrupto, encolhendo-se atrás das pernas de Loid.
— Não toque na minha filha — a voz de Loid cortou o ar. Não houve elevação de tom ou grito, apenas uma frieza cortante, absoluta, que fez a atmosfera ao redor deles despencar alguns graus.
Por um breve milisegundo, uma faísca perigosa e afiada cruzou as pupilas de Adrian, desfazendo a fachada de bom vizinho.
— Peço desculpas — disse ele, recuando o braço com calma e erguendo as duas mãos em um gesto de rendição pacífica. — Foi apenas um gesto espontâneo. Não tive a intenção de ser invasivo.
— Prefiro que mantenha a distância — Loid replicou, os olhos fixos nos dele, sustentando a pressão psicológica sem vacilar.
Atrás dele, Yor permaneceu imóvel e serena, com a mão esquerda ainda firme junto à de Loid. Por dentro, no entanto, sua mente trabalhava como uma máquina de combate: ela calculava a distância exata até o pomo de Adão daquele homem, o peso de seu corpo e a rapidez com que precisaria agir se ele fizesse qualquer movimento hostil contra a menina. A doçura de mãe de família continuava ali, mas a lâmina da Thorn Princess estava pronta para ser sacada.
— Somos apenas uma família comum aproveitando o sábado — interveio Yor, sua voz suave quebrando o impasse com uma polidez impecável. — Nada de especial.
Adrian sustentou o olhar dela por um instante, o sorriso voltando a moldar suas feições de forma artificial.
— Entendo — disse ele por fim, ajustando o casaco. — Mas, às vezes, as aparências mais comuns são as que mais enganam. Tenham um bom dia.
Ele se despediu com um aceno formal e seguiu o caminho inverso, misturando-se gradualmente à multidão que entrava no parque. Loid e Yor mantiveram as posturas firmes, e os ombros de Loid só relaxaram de verdade quando a silhueta do homem desapareceu completamente de seu campo de visão periférica.
— Ele está tentando descobrir quem somos nós — murmurou Yor, os olhos fixos na direção por onde o vizinho sumira.
— E nós vamos garantir que ele continue apenas tentando — respondeu Loid, o tom de voz retornando à sua firmeza habitual.
Ajeitando a postura e retomando o papel de cidadãos exemplares, os dois voltaram a caminhar em direção à saída. Dessa vez, nenhum dos dois soltou a mão do outro até cruzarem o portão de ferro do parque.
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