Entre Eles
6 V - Dores de cabeça
Notas iniciais
Entre Eles
Capitulo V — Dores de cabeça
Era um daqueles dias que já te deixavam com pé atrás só em tentar sair da cama.
Segundas-feiras nunca tiveram uma fama muito boa para a maioria das pessoas, mas aquela era o tipo de segunda que deveria ser ignorada no calendário, aquela que ninguém queria passar. Em especial, seis pessoas. O universo parecia, só por birra, conspirar contra eles, fazendo questão que aquelas próximas 24 horas nubladas fossem um inferno na terra.
Não foi o despertador que acordou Hermione naquela manhã, a morena já estava desperta duas horas antes do som irritante do aparelho começar a soar pelo seu quarto. As coisas não iam nada bem em sua cabeça desde a última manhã de sábado. Tudo que ela mais temia, aquilo que ela lutou tanto para fugir, a assombrava toda vez que piscava os olhos e isso desencadeou uma dor de cabeça insuportável. Ela não queria se levantar da cama, não queria mesmo, mas ela tinha coisas para resolver, de preferência o mais rápido possível. Também não queria deixar a Universidade, mesmo que estivesse com raiva do seu professor de história, ela não queria ir embora, porém, infelizmente o faria para que sua paz estivesse restaurada.
Iria sumir para outro país. Estados Unidos parecia uma boa ideia, mas não tinha certeza... O que ela sabia era que as fumaças australianas não poderiam pegá-la de volta. Nunca mais.
.:x:.
– Não sei se conseguiria dar aula hoje, ela estará lá... Não consigo nem me concentrar quando estou sozinho, quem dirá com ela no mesmo ambiente que o meu. – Ron se lamentava com a cabeça nas mãos.
– Duvido muito que ela aparece na sua aula, depois de prometer pedir transferência no escândalo que você causou na sexta-feira. – Harry comentou ríspido virando mais uma página do jornal londrino.
Só havia os dois acomodados em uma das pequenas mesas redondas de madeira na sala dos professores. Era cedo demais para que qualquer funcionário, que não fosse responsável pela limpeza e manutenção, estivesse saindo da cama.
– Você não está ajudado, Potter.
– Nem pretendo. Você que fez a bagunça, agora limpe.
– Você é um péssimo amigo. – O ruivo ergueu a cabeça e olhou com descrença para o moreno.
– Muito engraçado você dizer isso, Ronald. – Harry riu sem um pingo de vontade descansando o jornal na mesa. – Mas não estou vendo mais ninguém aqui que queira continuar do seu lado depois de todas as suas merdas...
– E o que você quer que eu faça, Harry! Diga-me, porque eu não faço ideia de como caminhar!
– Pedir desculpas a ela pode ser um bom primeiro passo. – O moreno sugeriu mantendo a paz de espírito diante a exaltação do amigo.
– Diz como se fosse fácil.
– Não, não é! Mas você é um Weasley, caramba! Sei que a vida não foi nada fácil com você, mas agora já chegar. Comece a tomar as rédeas, Ron, e pare de sofrer.
O ruivo nada disso, inerte em pensamentos por bons longos minutos. Sabia que Harry estava certo, mas não era simples assim, mesmo que ele sentisse algo por Hermione, era impossível ficarem juntos. Nada veio a sua cabeça que fosse mais importante que o futuro dela e isso o assustou, porque era também a prova mais solida de que se importava realmente com a garota. De onde vinha tudo isso?
Essa era a pergunta que martelava sua cabeça.
– O que você sugere que eu faça? – Ron falava quase num sussurrou.
– Encontre-a e tenha uma reunião particular com ela. Peça desculpas por qualquer mal que lhe tenha causado e implore que ela fique, sua inteligência trará coisas boas para o seu departamento... Por fim, garanta-lhe uma relação totalmente profissional daqui em diante.
– Por que você insiste em falar como se já estivéssemos envolvidos?
– Uma relação pessoal não se baseia em toques ou em sexo, Ronald. Sabe muito bem que não é de hoje que algo muda dentro de você na presença dela.
– Entendo... Mas em que ponto estaremos chegando?
– No ponto em que você a deixa em paz e não faz merda com a carreira de nenhum dos dois.
O silêncio retornou para o ambiente, mas sua estádia não demorou muito. Logo o restante da classe educadora se acomodou com seus próprios problemas, sem nem se importar quem já estava ali ou não. A maioria era composta por senhores ou senhoras de meia idade, com milhares de trabalhos e pesquisas acadêmicas publicadas para o mundo todo, Harry e Ron eram um dos poucos que tinha menos de dez anos de trabalho na universidade, eles e Gina.
– Não estrague tudo, Weasley. – Harry continuava o assunto, falando um pouco mais baixo dessa vez. – E se passar pela sua cabeça a tentativa de ficar com ela, não lhe julgarei, apenas tome cuidado. – E se levantou com seu jornal para se retirar. – E, por Deus, não estrague tudo.
.:x:.
Xingou o relógio quando viu o seu gigantesco atraso. Não era incomum isso acontecer, mas em parcelas menores de tempo, atrasar-se por mais de hora, mesmo que sua cabeça gostasse de viajar pela lua, era inconcebível. Haveria uma prova para fazer logo no primeiro horário e já era certo que ela teria que solicitar uma segunda chamada, mas voltar correndo com um ritmo mais pesado foi inevitável. Subiu batendo o pé todo o percurso do elevador até o seu andar e ao passar pela porta do seu apartamento, já estava quase nua, se livrando da lingerie já dentro do chuveiro. Uma água rápida era necessária para tirar o suor da corrida matinal que lhe tinha tomado mais tempo que o previsto.
Ao descer, cinco minutos depois, até sua garagem, com sapatilhas verdes, cabelos molhados, uma blusa do Nirvana quatro vezes o seu tamanho e uma calça jeans bem frouxa, Luna entrou no seu carro e arrancou para a universidade, amaldiçoando o transito por está tão devagar.
Assim que conseguiu acessar sua vaga no campus, de onde era possível ver toda a extensão do refeitório, ela congelou com as mãos no volante, o motor morreu assim que as rodas dianteiras pararam no meio fio. A cena que visualizava algumas mesas a frente não devia ter mexido tanto com ela, mas foi como se toda a felicidade que sentia desde sábado a noite tivesse se partido em milhões e milhões de pedacinhos bem pequeninos. Era por aquilo que ela tinha se atrasado, estava tão distraída pensando nas piadas, nos sorrisos e nas gentilezas que perdera uma prova muito importante naquela manhã porque simplesmente não conseguia parar de pensar nele e agora, vendo o que via, tudo parecia não ter importância alguma.
Uma coisa que ela quase nunca sentiu na vida, ou talvez nunca mesmo, tomou conta dela. Pulou do carro com o rosto muito vermelho contornado por seus cachos loiros e bagunçados, fechou a porta do motorista com tanta força que talvez ela caísse, mas nem o estrondo do impacto mudou aquilo que ela não conseguia parar de olhar. Andou na velocidade de um raio naquela direção e esbarrou de propósito no casal de loiros que quase se engoliam como café da manhã, e não se deixando abalar pelo impacto que causara, Luna seguiu seu caminho.
– Luna?... – Ela ouviu a voz dele soar surpresa e ofegante atrás de si, aquilo lhe fez sentir uma pontada no peito, mas logo esquecida pelo calor da raiva que incendiava seu corpo.
Ela não ousou parar de andar e ele continuava estático encarando as suas costas, completamente perdido e sem fôlego algum.
Nada poderia ficar pior, ele pensou suspirando por fim e baixando a cabeça.
– Ah, benzinho... – A garota ao seu lado, que há pouco tempo compartilhava saliva com ele, cantarolou afagando seu ombro. Ela parecia ter lido seus pensamentos quando falou em seguida: – Isso é só o começo dessa história e tudo... Tudo sempre pode piorar.
– O que diabos você fez, Parkinson?! – Draco questionou, enojado pela a melodia azeda da voz de Pansy.
– Faz parte do plano, amorzinho.
– Escute aqui, garota! Primeiro: eu não sou a porra do seu amorzinho! Segundo: Estou farto desse circo que você e Rafael armarão pra cima da pobre garota ali! Que mal ela pode ter feito?!
– Está reclamando cedo demais, queridinho. Por acaso está apaixonado, Malfoy? – A voz da loira era cheia de veneno. Ela não esperou que ele respondesse. – Você não precisa saber o que ela nos fez, você só precisa seguir com o plano, porque caso contrário seu pai não vai gostar nada do que anda fazendo por aqui... E eleve seu tom de voz comigo de novo, que eu faço a vida daquela sem noção da Lovegood um inferno até o juízo final!
.:x:.
Não era o plano está ali, sentada de cabeça baixa o ouvindo falar. O plano era esta resolvendo sua transferência no setor burocrático, mas quando o viu entrando na sala com todo aquele ar arrogante impregnado no sobretudo bege que usava, seus pés simplesmente a guiaram até a última cadeira da fila do meio. Ele a acompanhou discretamente com os olhos enquanto preparava o material de slides e iniciou sua aula quando já estava tudo pronto e ela sentada de cabeça baixa. Precisou de uma inspiração profunda para se concentrar e dar inicio ao falatório sobre detalhes da política egípcia.
Um pouco mais de meia hora depois, punhos pequenos bateram a sua porta e uma cabeça surgiu quando ela foi aberta.
– Hm... Desculpe, Sr. Weasley – Luna forçou um sorriso. – Mas será que eu podia terminar de ver sua aula?
– Achei que você estaria em uma prova importante do outro curso, Srta. Lovegood. – Ele comentou do outro lado da sala com o rosto inexpressivo iluminado pela luz do Data Show.
– Já terminei. – Mentiu ela ensaiando um sorriso melhor.
O professor Weasley, em qualquer outra ocasião a deixaria entrar, afinal, Luna era uma das melhores e ele escondia uma certa admiração pela garota que fazia duas graduações quase ao mesmo tempo se saindo muito bem em ambas. Mas deixar Luna entrar significaria companhia a Hermione ao final da aula e ele precisava de uma conversa em particular com ela, sem dar a sua turma mais motivos de fofocas.
– Sinto muito, Srta. Lovegood. – Ele lhe ofereceu a melhor carranca.
– Não sente não, senhor.– Luna murmurou se retirando e fechando a porta com um tanto mais de força que o comum, batendo os pés ao seguir o corredor.
A aula chegou ao seu fim minutos depois e um a um os alunos foram se retirando enquanto o ruivo organizava suas coisas. Lá no fundo, a garota morena de cabelos rebeldes escapando para todos os lados da liga que os prendia cochilava tranquilamente com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a carteira. Ao inicio do falatório do seu professor, a voz dele fez com que sua dor de cabeça sumisse, ela não percebeu porque e muito menos quis questionar, mas assim que se viu longe da agonia, teve que se entregar ao sono.
Rony não estava com raiva, seu nervosismo não o deixaram sentir isso. Ela ter ou não prestado o respeito em pelo menos fingir atenção para com a sua aula já não importava mais. Mas ele não podia se aproximar dela para despertá-la, não sabia ao certo se seria capaz de manter o controle diante daquele cheiro inebriante que ela possuía. Por fim, ele suspendeu um de seus livros no ar, depois o soltou deixando-o cair sobre sua mesa, o barulho fez Hermione pular na cadeira.
– Oh, céus! Droga... Onde está todo mundo? – Ela questionou perdida.
– A aula acabou há exatos sete minutos. – O professor Weasley respondeu checando o relógio, seguindo para a porta da classe e a trancando.
– O que está fazendo? – Hermione franziu as sobrancelhas, ajeitando a postura na cadeira.
– Você não parece ter dormindo bem. Há algo errado? – A preocupação era real, Ron estava incomodado com aquelas manchas rochas debaixo dos olhos.
– Você não respondeu minha pergunta. – A morena era firme, não se deixando abalar por aquele tom de azul preocupado nos olhos do ruivo.
Ele voltou para sua mesa e se encostou, cruzando os braços e a encarando frente a frente. As luzes brancas deixavam bem nítidas as faces de um para o outro.
– Nós precisamos conversar, Srta. Granger.
– Acredito que não temos nada para falar, Sr. Weasley.
– Sim, temos sim... Eu quero lhe pedir desculpas, pela minha impertinência na noite de sexta-feira.
– Por favor, Sr. Weasley. – Ela pegava sua bolsa para se levantar, aquela conversa não daria em lugar nenhum ou em algum lugar que ela não queria ir. – Acredite em mim quando digo que está tudo bem, o senhor estava alterado, já é passado.
– Continue sentada, não vou tomar muito seu tempo, prometo. – Ele lhe pediu, mas soou mais como uma ordem. – E se não passasse de um passado, não estaria pensando em pedir transferência.
– Não é mais esse o motivo da minha saída. – Hermione soltou sem perceber, baixando os olhos para os próprios pés.
– Mas já o foi, então por favor me perdoe. – A voz de Rony era suplicante agora.
– Tudo bem, está perdoado. Agora posso ir?
– Não posso deixar que saia da universidade, você é uma das melhores que temos.
Certo. Aquilo pegou Hermione de surpresa, já não era normal Ronald Weasley agir como um ser humano, muito menos quando este que tanto lhe cobrava estava agora lhe elogiando. Este mesmo que não era visto há muitos anos oferecendo nem um sorriso se quer a ninguém.
– Estou numa situação que não me permite ficar... – Hermione conseguiu dizer.
– Estou curioso.
– Com todo respeito, senhor, nada tem a ver com isso.
– Não quis ser mais impertinente, mas se me permite, por favor reconsidere. Não jogue sua carreira para o auto porque um idiota como eu lhe faltou o respeito.
– Já lhe dei o perdão que queria, Sr. Weasley. Volto a repetir que o senhor não tem nada a ver com o que faço ou deixo de fazer. Agora, por favor, me dê licença. – Ela se levantou e atravessou a sala em direção a porta.
Mas, como um tufão, Ronald a interceptou no meio do caminho, já não tinha mais ideias e aquilo estava mais do que mal resolvido. A proximidade dos dois assustou a ambos e sem pensar em mais nada, no meio de respirações misturadas, ele colo os lábios nos dela.
.:x:.
– E então? – Gina estava ansiosa, atrás de sua mesa.
Harry havia acabado de entrar na sua sala e estendido um copo de café para ela, que aceitou de bom grado. O moreno se acomodou em uma das duas cadeiras a frente da ruiva e deu um gole antes de falar.
– O estimulei para conversar com ela, em particular e profissionalmente. O foco agora é mate-la na faculdade e não prejudicá-la, caso contrário ele só vai piorar e se sentir ainda mais culpado. – Ele informava com serenidade.
– Então agora quero queremos priorizar as carreiras... Sinceramente, estou confusa, Harry!
– Sei que está, mas veja bem, se ela sair será quase impossível fazer com que eles fiquem juntos, não acha? E bom, sabemos que no departamento de história ela é uma das melhores, aquele tipo de aluna que nos trará bons resultados até depois de se formar.
– Ainda acho que não é uma boa ideia... – A ruiva se levantou e passou a andar de um lado para o outro.
– Por favor, Gina... Se ninguém os ajudar, nunca vão sair do lugar.
– O que o faz pensar que ela realmente gosta dele?
– Ela estava com raiva quando ele a ofendeu no pub, mas havia algo mais nos olhos dela. Tinha decepção e magoa também.
– Andou olhando muito para os olhos dela, não acha, Potter? – Gina parou no canto em que estava e virou para encarar o moreno.
– Está com ciúmes, ruiva? – Ele ergueu a sobrancelha.
Ela não respondeu e queria muito desviar o olhar quando ele se mostrou forte a mantê-lo. Ali, entre o mar revolto e a floresta em paz, houve uma comunicação nítida, mas as informações por ela transportada eram um tanto confusas. Harry estava abrindo a boca para dizer alguma provocação e deixar Gina mais vermelha do que estava, mas a porta da sala da ruiva se abriu de uma vez.
– Ah, graças a Deus! Imaginei mesmo que estivesse aqui... Espero não ter atrapalhado nada.
– Cho! – Harry pulou da cadeira, incrédulo. – O que faz aqui?
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