Entre Eles
7 VI - Crises
Notas iniciais
Entre Eles
Capitulo VI — Crises
Lábios doces, macios, encantadores... Exatamente como ele imaginou que seriam nas muitas noites em que não dormiu. No fundo, tinha a plena consciência de que aquele beijo era um divisor de águas, que tendia mais a seguir o caminho errôneo que acabaria numa cachoeira sem fim, uma queda livre sem paraquedas, muito menos teria amortecedor. E apesar de saber disso, não conseguia soltá-la, não se imaginava desvencilhando seus braços de sua cintura, tão pouco poderia descolar os lábios dos dela, pois ali onde estava ele sentia algo que jamais sentiu na vida, algo que ele mal sabia que poderia.
As pernas dela tremiam a beira de falharem, seu coração pulsava forte dentro do peito e seu desejo causava descargas elétricas por todo o seu corpo. O seu coração pedia por mais a cada caricia que as línguas trocavam, com uma cumplicidade sem igual. Não negaria o prazer que estava sentindo, nem o calor que irradiava a cada vez mais no seu corpo, também não impediria que suas mãos pequenas viajassem pelos cabelos ruivos e macios que ele possuía, muito menos impediria que o beijo continuasse. Era claro que estava fora de si, mas quem se importa? Já estava ali, nada havia feito para não está, muito pelo contrário, pois ela se surpreendeu ao descobrir que tudo que ela mais queria há muito tempo era aquele beijo.
Quando se podia afirma que mais nada lhes separariam, a realidade resolveu fazer o que faz de melhor: atrapalhar.
O oxigênio lhes faltou e por mais que estivessem decididos a continuar, o extinto os afastou, causando-lhes o choque que tanto queriam evitar. Cada um deu dois passos para trás, arfando como se tivessem acabado de correr uma maratona.
Hermione mantinha a cabeça baixa tentando se recompor e Ronald mantinha seus olhos sobre ela, ainda que perturbados. Toda a paz de espírito e pensamento que os envolvia a segundos atrás ia sumindo a cada passar de tempo e a confusão, ao ver o ambiente vulnerável, decidiu dominar. Ela não sabia o que dizer ou por onde começar, queria mesmo era correr para bem longe dali e nunca mais voltar e ele tentava se situar diante dos pensamentos que corriam solto pela sua cabeça.
– Eu... Eu... Eu preciso ir. – Ela disse com a voz tremula. Fez como se fosse correr até a porta, mas ele se pôs na sua frente mais uma vez rapidamente.
– Não acho que tenhamos alguma coisa resolvida depois disso... – Ele disse sério, ainda tentando organizar sua cabeça.
– Errado. É bem simples na verdade, vamos só esquecer tudo isso. Nunca aconteceu, tudo bem?
– Não vejo em nenhum lugar essa simplicidade, principalmente no fato de não conseguir olhar pra mim. E é realmente isso o que quer, Granger? Apenas esquecer?
– Okay! – Hermione passou a encará-lo, um misto de frustração e raiva se estampava no seu olhar, isso porque implorar para deixá-la ir de nada adiantaria. – Onde o senhor pretende chegar? Sim, porque não faz nem semanas que o senhor me trata como uma acadêmica de quinta, chegou até a usar palavras de baixo calão comigo, e agora está me implorando por desculpas e causando uma grande confusão por um beijo qualquer! Desculpe-me senhor, mas estou ficando perdia por aqui. Por acaso acha que eu sou o que? Um brinquedinho interessante, daquele tipo que perde a graça quando a pilha está gasta?
Ronald calou-se, estava surpreso demais para responder. Aquela revolta só o deixou mais perdido, mais confuso, enchendo sua cabeça de perguntas, de dilemas, de certos e errados porque não era isso que ela mostrava pra ele durante o beijo, ela tinha compartilhado sentimentos muito controversos a essa raiva.
Hermione ainda demorou seu olhar por um segundo em seu rosto, esperando por uma resposta ou argumentação. Nada. Havia conseguido, afinal, distraí-lo.
– Foi o que pensei! – ela rosnou por fim, decidida a contorná-lo e sair daquela sala.
Caminhou a passos largos e firmes até a porta, quando sua mão estava na maçaneta, a voz atrás de si a fez parar.
– Não sei lhe responder o que de errado tem comigo, não sei nem responder a mim mesmo essa pergunta... – Ele começou sem se virar, encarava os próprios pés com seriedade. – Mas isso não foi só um beijo qualquer, senhorita Granger. Eu estava com medo de me arrepender assim que me afastasse de você, eu não queria me arrepender de está fazendo o que fiz porque algo voltou a funcionar de novo em algum lugar e para minha surpresa eu não me arrependi. – Houve uma pausa, Ronald se virou e encarou as costas da morena, ela ainda mantinha os olhos na maçaneta como se sua vida dependesse disso. – Não acho você uma acadêmica de quinta, peço mais uma vez desculpas por qualquer ofensa. Você é a aluna mais brilhante desse departamento e caso você vá mesmo embora, a universidade perderá uma de suas melhores alunas. Mas eu sei, que em qualquer lugar que você decida terminar seu curso, você continuará sendo a melhor.
O silêncio reinou. Ela não se moveu nem nada disse, só continuava a encarar a maçaneta engolindo em seco, era a segunda vez que recebia um elogio dele em menos de duas horas e ali várias coisas se passaram em sua cabeça. Eles dois eram algo tão distante e inacessível, que mesmo tendo acabado de compartilhar a cumplicidade de um beijo, era tão impossível quanto viver sem oxigênio. Os dois tinha bagagens pesadas trazidas consigo de muito tempo e ela mal podia superar a sua.
Ronald foi maltratado pela vida de uma forma cruel, que lhe deixou magoa, culpa e solidão, porém, olhando para aquela mulher, tudo isso parecia distante, como se nunca tivessem existido. Ela era como uma luz no meio do breu, o guiando para saída, para um mundo colorido que há tempos ele não conseguia ver. Mesmo que não acreditasse mais no que estava acontecendo, mesmo que não achasse que merecia e mesmo que tivesse vários leões em seu caminho, ele estava disposto a tentar, e essa revelação o fazia respirar fundo e sorrir.
– Foi um prazer poder estudar nessa universidade, senhor. Até qualquer dia.
A porta se abriu, logo tornou a fechar e então só havia ele na sala de aula. A luz se apagou e nada mais podia ser visto no breu.
.:x:.
– Espero não está atrapalhando nada! – O tom de voz de Cho era tão cínico que fez Gina enjoar.
– Você não respondeu minha pergunta, Chang! – Harry rosnou.
– Estou precisando falar com você e me informaram na recepção que estaria em reunião com a senhorita Weasley. – Ela lhe respondeu de má vontade.
– E você não pensou em respeitar o que a palavra reunião significa? – Gina deixou a pergunta escapar.
– Bom dia para você também, Ginevra. – Cho saudou entrando de vez na sala e fechando a porta atrás de si. – O assunto que tenho com Harry é de uma certa urgência.
– Não há nada mais a ser dito, Cho. – O moreno foi duro.
– Aliás, como vai o noivado, futura senhora Thomas? – Cho olhava para Gina com um sorriso cheio de veneno, ignorando de propósito o ex-marido. – Espero que aquele escândalo cheio de maus entendidos não tenha provocado um rompimento, vocês formam um casal tão lindo!
Harry virou-se para ruiva, em busca de achar alguma coisa em sua expressão. Mas só a encontrou encarando sua ex-mulher como se não a visse, era quase palpável a magoa que se estampava nos seus olhos.
– Harry... – Gina murmurou por fim abaixando a cabeça. – Terminamos por aqui, está liberado.
– Gina...
– Só saia, okay? Vejo que tem muito a resolver com sua mulher e a minha sala, definitivamente, não é o lugar.
Ele nada mais disse, mas a sua vontade era de jogar Cho pela janela mais alta daquele campus. Terminou por sair da sala arrastando-a atrás de si, a asiática possuía a vitória nos olhos.
Quando se viu sozinha, a ruiva abriu a tela do seu notebook e passou a dedilhar ferozmente no teclado.
Aquela era sua terapia; escrever a fazia bem. Toda sua raiva, frustração e humilhação eram descarregadas em uma história interminável. Julgou-se capaz de ser feliz com um homem que lhe fazia juras de amor sempre que podia, o carinho que ele nutria por ela, assim como a admiração era tudo que ela sempre sonhou em ter. Porém, apôs o noivado, realizado numa cerimônia simples e particular na casa de seus pais, o tão sonhado príncipe ia virando sapo e toda sua farsa foi descoberta quando ela lhe flagrou com outra na mesma cama em que dormia com ele desde o noivado. O amor que jurou ter sentido sumiu, dando espaço para o ódio e a decepção. Ela tinha apenas 24 anos e corria para o seu apartamento na espera de comemorar com o noivo a sua promoção a chefe de departamento do curso de Literatura, nunca lhe passou pela cabeça que poderia o encontrar daquele jeito.
Era verdade que Dino Thomas nunca teve de fato o coração de Gina em suas mãos, pois este pertencia a outro, outro que nunca a notou como ela o notava, outro que se casara com a mulher errada e agora sofria as consequências e por mais que ela estivesse decidida a não assumir, a dor dele também lhe fazia mal. Ela não o queria magoado ou machucado como ela mesmo estava, ela o amava demais para lhe desejar qualquer mal apesar de toda a rejeição, mas tinha cansado de se fazer presente e tinha medo de que se tivessem mais que a amizade as coisas não funcionassem. O coração enganado por um e rejeitado por outro a fez uma pessoa dura e focada, o que ajudava a manter todas as suas relações no devido lugar, mas jamais a ajudaria a se recuperar.
.:x:.
A última cena ainda era viva em seus olhos, em sua pele, em sua boca... Por que as coisas tinham que ter se tornado mais complicadas? Aquele beijo nunca mais iria sair da sua cabeça e lhe doía em pensar que ele sofreria pelo mesmo motivo.
Seu telefone não parava de vibrar em sua bolsa, zangando-se por está sendo ignorado. Ela não queria atender, não podia atender, nada poderia impedi-la de caminhar mais rápido para a secretária. A dor de cabeça havia voltado, latejando a cada movimento, a preocupação e a ansiedade a incomodavam, talvez faltasse pouco para a respiração lhe faltar. Estava chegando ao extremo.
– Você precisa manter a calma, Hermione. – Dizia para si mesma baixinho, enquanto caminhava pelos corredores movimentados do prédio de história, principalmente no intervalo.
Porém, manter a calma não faria o celular silenciar. A morena entrou no primeiro banheiro feminino que viu e deu graças a Deus por estar vazio, se enfiou no último box e largou a bolsa no vaso sanitário fechado. Com muita pressa e até derrubando alguns objetos, ela achou o aparelho no fundo da bolsa. “Número Confidencial” era o que dizia enquanto ele vibrava, fazendo-a tremer da cabeça aos pés.
Atendeu.
– Coelhinha! Mas que má criação! – Era quase palpável o prazer de a voz do outro lado do telefone expelia. – Para o seu próprio bem, você deveria atender esse celular no primeiro toque...
Argh! Aquela voz! Nojenta e cheia de presunção e sarcasmo, formando uma mistura estranha e ameaçadora a cada sílaba. Hermione tentava se concentrar mais uma vez com o ouvido encostado no seu celular, sua coluna gelava a cada lembrança que fugia do fundo da sua mente e se espalhava por todo o lugar. Lembranças repulsivas, das quais ela tinha pavor.
– Então, coelhinha... – A voz se mantinha divertidamente assustadora com a respiração ofegante e acuada da morena. – Agora só me falta descobrir em que parte de London você se escondeu, mas nada que um rastreamento não resolva...
– Por que insiste nisso, seu desgraçado?! – Ela interrompeu, rangia os dentes, lágrimas começavam a escapar de seus olhos.
– Isso são modos de falar comigo, coelhinha?!
– Coelhinha é o caralho! Deixe-me em paz!
– Ah... Eu não posso querida, tenho que cuida de você lembra? Tenho que manter você na linha, cuidar de você!
– Não! Você não tem que fazer nada! Qual é, seu filho da puta?! Deixe-me viver a minha vida! Deixe-me em paz! Nada devo a você e a ninguém!
– Eles sentiram sua falta sabia? – Então a voz do outro lado ficou séria, grave, fria. Hermione arregalou os olhos, o medo lhe consumiu por completo. Era aquele tom de voz, aquele timbre que significava que ele não mais brincava, significava que a paciência já lhe faltara... Significava perigo para ela. – Você deixou todos nós aqui, matou-os os de desgosto! Você nos roubou assim que assumiu a maioridade... Não sabe como fez mal a eles a sua ação! A princesinha virou uma vádia!
– CALA A BOCA! – O grito ecoou pelo banheiro vazio. – CALA A PORRA DESSA SUA BOCA!
– Eu vou achar você, coelhinha. Vou achar você e trazê-la de volta comigo... E você vai se arrepender do dia que tirou os pés daqui!
.:x:.
A biblioteca era o melhor lugar de toda aquela universidade sem sombra de dúvidas, especialmente para Luna e seus novos demônios. Qualquer coisa que lhe tirasse a paz a levava para o meio daquelas estantes lotadas de livros de todas as idades, conteúdos, gêneros e espessuras. Era onde podia esquecer de exatamente tudo, esquecer da própria vida e da própria história para se afogar em tantas outras. Seu coração desacelerava toda vez que aquele cheiro aconchegante invadia seus pulmões. Não queria mais gritar com ninguém e nem quebrar nada, e aquilo era um grande alívio, pois os sentimentos que sentiu naquela manhã a assustaram um pouco já que nunca havia os abrigado.
A Literatura Clássica Estrangeira estava lhe chamando muita atenção esse último semestre e foi nessa ala que ela se sentou, em meio as estantes com algumas pequenas pilhas de livros ao seu lado. Logo se concentrou na sua leitura, não podendo se demorar muito mais tempo já que quem mais ela queria evitar se pôs sentado ao seu lado.
– Demorei um pouco para te encontrar, mas te achei! – Draco sorriu ofegante e sem graça. Luna não lhe deu atenção. – O que está lendo?
Silêncio.
– Vamos lá! Você não vai mais falar comigo?
Luna mantinha seus olhos no livro, mesmo que já não estivesse entendendo o sentido de nenhuma frase.
– Oh, Luna! Aquilo não foi nada, okay? Nada! Um beijo que não devia ter acontecido, é isso... Okay! Nós só saímos uma vez, garota! Não temos nada sério, não tem que ficar com raiva de mim porque beijei outra garota!
– Então porque está aqui? – A pergunta saiu como qualquer outra, sem nada para denunciar qualquer coisa que Luna sentisse.
– Não entendi... – Draco franziu a sobrancelha.
O livro fechou-se e foi largado de lado, Luna ergueu a cabeça e olhou para o loiro ao seu lado.
– Eu perguntei: por que está aqui? – ela repetiu. – Sim, porque como você mesmo disse, nada tem a me explicar e muito menos eu pedi... Então, por que está aqui?
Draco tentou dizer alguma coisa, gaguejou olhando pros lados com os braços apoiados nos joelhos tentando achar uma resposta em algum lugar.
– Foi o que pensei. – A loira se pôs de pé e caminhou pra fora do corredor de livros, parando antes de virar a esquina. – Escuta, eu sei como são os relacionamentos de hoje em dia, loucos e abertos... Mas eu não sou esse tipo de garota. Quando eu entro em algo é pra valer. Então não me chame pra sair de novo se você quiser nada mais que algo de uma noite só, porque isso pode estar na moda hoje em dia, mas como você pode ver pelas minhas próprias roupas que eu nunca gostei da moda.
E saiu.
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