Entre Elas
7 Tudo Sobre Minha Mãe
Notas iniciais
[Regina]
Ruby e Zelena estão lendo seus votos diante da ministra e sendo assistidas por dezenas de presentes, entre amigos e parentes.
Elas estão lindas, a decoração também e o cenário não poderia ser mais romântico, uma vez que a Baker Beach é o palco para a celebração do amor das duas. Os convidados estão dispostos em duas extensas fileiras ao ar livre. Os últimos raios de sol iluminam o belíssimo fim de tarde e a vista da Golden Gate deixa tudo ainda mais belo.
Emma e eu viemos ao casamento juntas e estamos sentadas uma ao lado da outra neste momento.
Já faz duas semanas que voltamos de Vegas e, apesar de tudo ainda estar tão vivo em minha memória, às vezes tenho a impressão que aquela viagem nunca aconteceu, já que acabou virando uma espécie de assunto proibido entre nós. Desde a discussão na estrada, jamais mencionamos o fato de eu ter ficado com Mary ou de ela ter transado com a minha mãe. Claro que o nosso beijo é outra coisa sobre a qual não falamos.
Pelo visto o que acontece na cidade do pecado fica por lá mesmo.
Por um lado, fiquei aliviada, pois ainda não sei o que estou sentindo por ela e falar sobre o que aconteceu poderia piorar as coisas. Confesso que tenho medo que isso, seja lá o que for, estrague a nossa amizade. Tenho certeza de que ela pensa assim também, por isso, o silêncio.
Relanceio o olhar para o meu lado direito e noto Mary, que está acompanhada pelo marido, encarando-me. Não é a primeira vez que isso acontece hoje e, como também não nos encontramos antes, ignoro totalmente o que está passando pela cabecinha dela. Ou seja, nessa altura, tudo está bem estranho.
Viro-me novamente para o altar e enquanto a ministra faz uma longa preleção sobre a vida a de um casal, enaltecendo a importância do casamento e da criação dos filhos, lembro-me da conversa que tive com a minha mãe, Cora, dias depois de ter voltado da despedida de solteira da “lobinha”.
[Flashback]
Quando chego na casa de minha mãe, vejo-a fazendo meditação, de olhos fechados, perto da grande piscina que há no jardim. Como estou ainda muito perturbada com a revelação de Emma, já chego abordando-a.
— Mamãe, preciso falar com você! —digo e ela abre os olhos, assustada.
— Regina, quantas vezes eu já lhe avisei para você não me interromper enquanto estou meditando? — exclama em um tom severo, recompondo-se. — Por isso nunca atingi o nirvana! Quando não é você, é o seu irmão, ou então a inútil da Ashley vindo me perguntar o que servir no almoço —completa, erguendo-se.
— Mãe, o que houve entre Emma e você? —indago, sem rodeios.
— Então, você já sabe sobre isso? —responde com outra pergunta, não parecendo surpresa.
— Quer dizer que é verdade? Tinha a esperança que tudo não passasse de uma invenção da mente pervertida dela —digo, enraivecida, e me deixando cair em uma espreguiçadeira, desiludida.
— Realmente aquela menina tem uma mente bastante pervertida! —fala com um sorriso malicioso nos lábios e bufo exasperada, pensando no que ela deve estar recordando — Mas, neste caso, não foi uma imaginação da cabeça criativa dela — finaliza, cínica.
— E você me diz isso com essa desfaçatez? —rebato bastante irritada.
— E como você queria que eu dissesse, amada filha? Pedindo perdão de joelhos por alguns dos melhores orgasmos que eu já tive na vida? —enfatiza e não consigo acreditar no que acabo de ouvir.
— Não, mãe! Porém, esperava que você fosse se mostrar ao menos um pouco constrangida —digo, indignada.
—Constragida por eu ser sua mãe e ela sua melhor amiga? Ou por, na época, eu ter mais que o dobro da idade dela? —inquere parecendo ressentida — Não me diga que eu criei uma preconceituosa! —completa, sem me dar tempo de responder à sua indagação.
— Não, mãe, a idade não interessa! Mas era a Emma. Eu pensei que você a visse como uma filha! —exclamo, gesticulando com as mãos.
— Vocês foram criadas praticamente juntas e durante muito tempo eu a vi assim. Mas, ela cresceu... E não foi tão difícil as coisas mudarem e nos tornarmos amantes —rebate, dando de ombros.
— Amantes!? —pergunto, levantando-me de um salto, com olhos arregalados — Vocês chegaram a esse ponto? —continuo, estupefata com a informação.
— Sim! Pensei que ela já tivesse lhe contado tudo! Tivemos um tórrido relacionamento de dois meses e vou logo lhe dizendo que só acabou porque ela quis —arremata, deixando-me aturdida, pois me dou conta que foi com a minha mãe que Emma teve a relação mais longa de sua vida.
— Mamãe, eu estou chocada! —exclamo, por não conseguir externar de forma mais eloquente todas as sensações que sua revelação me trouxe.
Ela vem até onde estou, faz com que me sente novamente e ergue meu queixo com a mão direita, mirando-me nos olhos.
— Meu anjo, sua mãe é da geração que foi a Woodstock¹, da liberação sexual, do uso indiscriminado de drogas. Eu queimei sutiãs em protestos feministas, vivi numa comunidade hippie e Emma nem foi a única mulher com quem transei! Na faculdade tive algumas namoradas e, inclusive, no início do meu namoro com seu pai, ainda estava enrolada com uma delas —conclui, alisando meu cabelo e eu estou de boca aberta, ainda sem ter o que dizer.
Quando consigo articular algo, falo: — E eu sempre te vi como uma mulher tão certinha! Até um pouco conservadora... —e ela cai na gargalhada por causa do meu comentário.
— Essa não é exatamente quem eu sou! Depois que me casei com seu pai, e seu irmão nasceu, tive que assumir uma postura diferente, pois achava que deveria lhes dar o melhor exemplo. Criei a imagem de uma mãe convencional, que na realidade fui e sou. Mas agora você está me conhecendo como mulher, querida! —realça, sorrindo.
— Por que ela quis terminar com você? —não me contenho de curiosidade para saber o motivo do rompimento das duas.
— Porque ela é Emma! E você sabe que ser Emma significa não acreditar em relacionamentos longos. Além disso, tinha o fator Regina. A culpa começou a consumi-la, porque, sendo muito jovem e inexperiente, ela achava que, de alguma forma, estava traindo a amizade de vocês! —esclarece, acariciando minha bochecha.
— E, de fato, estava! —afirmo, contudente.
— Filha, não seja tola! Ambas éramos solteiras e não havia nada de errado no nosso envolvimento. Sinceramente, não consigo entender porque isso lhe afetaria de alguma forma! —diz, segurando-me pelo queixo e balançando a minha cabeça.
— Então, se vocês achavam que estavam tão certas ou, pelo menos, você achava, por que isso não aconteceu antes da minha partida ou depois que voltei da Espanha? —indago, franzindo o cenho.
— Por um motivo óbvio, meu bem! Enquanto estava aqui, ela só tinha olhos para você, só se dedicava a você! —responde — Muito me admira que nunca tenha percebido que o fato de Emma não se apegar de verdade a alguém tem tudo a ver com isso. E mesmo você que já teve relacionamentos mais profundos, não poderia negar que nunca houve ninguém mais importante do que ela na sua vida, nem mesmo o seu marido —completa séria.
Neste momento, Ashley aproxima-se de nós trazendo algumas questões domésticas para serem solucionadas por minha mãe, que se levanta, bradando, e a segue, deixando-me só com os meus pensamentos. Seu último comentário martela na minha cabeça como uma verdade inconveniente.
Conheço Emma desde sempre, porém, parece que agora, o universo conspira para que eu fique cada vez mais confusa sobre a minha relação com ela: primeiro, Killian insinuou que estávamos tendo um caso. Na sequência, Mary me perguntou se meu envolvimento com sua irmã já tinha ultrapassado a barreira da amizade. Agora, mamãe praticamente disse que vivemos em função uma da outra.
Será que as coisas sempre foram mal resolvidas entre nós e eu nunca percebi antes?
Decido que já estou cansada de pensar sobre isso e não chegar a nenhuma conclusão.
Levanto-me da espreguiçadeira e sigo em direção à porta de saída da casa de Cora.
[Fim do Flashback]
Quando volto a mim, a cerimônia já está terminando. As noivas andam por entre as fileiras de convidados, sendo alvo de uma chuva de arroz, como manda a tradição.
Como era de se esperar, elas estão muito felizes e recebem os cumprimentos e as felicitações antes de serem conduzidas até o carro que as levará à recepção.
Emma e eu também seguimos para o salão de eventos onde a festa acontecerá. Provavelmente, minha mãe já deve estar lá. Ela não pode comparecer à celebração, em virtude de um compromisso que tinha na mesma hora, mas, garantiu a Ruby que faria de tudo para estar na recepção.
A loba adora a minha mãe e costuma dizer que Cora é totalmente diferente das outras sessentonas que ela conhece. Fico me perguntando se, assim como Emma, ela já conheceu minha genitora intimamente. Confesso que a essa altura do campeonato nada mais vai me surpreender.
Absorvida por esses devaneios, sinto a freada do cadillac que para em frente ao salão de eventos. Descemos e vamos em busca da mesa que foi destinada para nós, já encontrando minha mãe comodamente sentada, bebericando uma taça de champanhe.
Ela nos saúda, dizendo que estamos muito bonitas e elegantes. Fico taciturna ao ver ela e Emma próximas, pois essa é a primeira vez que isso acontece desde que tudo me foi revelado.
Elas conversam animadamente, enquanto um garçom passa pela mesa, servindo mais duas taças, uma para mim e outra para Emma. Apenas observo a interação delas, com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos entrelaçadas sobre a boca.
Por mais que eu saiba que minha mãe não tinha motivos para mentir sobre o seu envolvimento com a loira, ainda não consigo assimilar a ideia delas como amantes no passado, porque isso me parece muito surreal.
Distraída por esses pensamentos, não percebo quando a minha amiga se levanta da mesa e só volto a mim quando ouço a voz de Cora: — Regina, por que você está parecendo tão deslocada? Não acredito que ainda está chateada por ter descoberto o meu affair com Emma! —diz jocosa.
— Não consigo acreditar que isso aconteceu realmente! —afirmo.
— É pena que eu não tenha nenhum registro que comprove, já que é tão difícil para você conceber isso! —fala, debochada, bebendo um pouco de champanhe.
Enquanto o famoso bolero Sabor a Mí ecoa no salão, onde casais dançam de rostos colados, fico imaginando uma resposta para sua última afirmação. Todavia, antes que eu possa articular algo, ela sorri: — Adoro esta música! Por uma boa coincidência, lembra-me esses momentos sobre os quais falávamos! —diz, nostálgica — Perdi as contas de quantas vezes Emma e eu nos amamos ao som de boleros como este. —completa, maliciosa.
Neste instante, engasgo-me com o champanhe que tinha acabado de tomar.
— Mamãe, por favor! Poupe-me dos detalhes sórdidos! —peço, ainda me recuperando — Passaria melhor sem saber a trilha sonora dos momentos íntimos de vocês —finalizo, usando o guardanapo para absorver o líquido que molhou um pouco o meu vestido azul.
Embora preferisse que essa informação não chegasse ao meu conhecimento, reflito que faz sentido, pois sempre achei estranho o fato de Emma, uma pessoa que gosta basicamente de rock, ter vinis e cds de cantores como Luís Miguel. Fico me perguntando se ainda não vou descobrir que minha amiga é grande fã dos filmes de Almódovar² por causa da minha mãe.
— Mudando de assunto... —ouço a voz dela novamente —Você poderia me explicar por que Mary Nolan não para de olhar para cá? —indaga com um tom esquisito.
Fico visivelmente desconcertada com a pergunta e digo a primeira coisa que me ocorre: — Não sei, mãe! Ela deve estar procurando a irmã!
Encara-me, desconfiada, e comenta: — Estranho, tive a impressão que ela estava olhando para você! —faz uma pequena pausa: — Mas devo estar enganada! —acrescenta, lançando-me um sorriso cínico.
Desvio o foco do assunto, falando sobre a cerimônia que ela perdeu, enquanto, de soslaio, vejo Emma se esquivando de Tina que, aparentemente, parece ainda manter a esperança de ter um algo a mais com minha melhor amiga.
Depois de um tempo, a loira volta a sentar conosco e é a minha vez de pedir licença e ir até o toalete, a fim de retocar a maquiagem.
Já no banheiro, vejo pelo oponente espelho que há no recinto quando um rosto muito familiar aparece atrás de mim, sendo refletido pelo objeto de vidro: — Olá, Regina! Que coincidência você estar aqui também! —Mary diz, meio tímida.
Percebo, pelo rubor que se espalha na sua face, que talvez esse encontro não tenha sido exatamente por acaso.
Sorrio e olho para ela, marota: — Realmente, é uma grande coincidência, Sra. Nolan! —e ambas sorrimos discretamente.
— Tá bom, eu sou uma péssima mentirosa! Há alguns dias queria te ver e esperei uma oportunidade de ficarmos a sós! —explica, esbanjando meiguice. — Não paro de pensar... no que aconteceu entre nós... em Vegas —acrescenta, insegura, como se estivesse escolhendo as palavras.
Sei que não deveria continuar esse jogo perigoso com ela, porém, confesso, que mesmo nutrindo sentimentos mal definidos por Emma, também sinto-me atraída por sua irmã, embora jamais tenha pensado nela nestes termos, até a noite em que ficamos juntas.
A timidez e a meiguice de Mary despertam os meus desejos mais lascivos, já que com ela eu sou a dominadora.
Ela ainda me encara, esperando uma resposta. Se eu dissesse que, desde que voltamos, também pensei nela e no que aconteceu entre nós, algumas vezes, não estaria mentindo. Mas a minha resposta vem sem palavras.
Agarro-a pela cintura e, sem maiores rodeios, junto nossos lábios em um beijo molhado, empurrando-a de encontro à parede que fica perto do espelho.
Mary enfia os dedos nos meus fios negros, puxando-me ainda mais em sua direção.
Nossas respirações se alteram, enquanto as bocas deslizam e as línguas se roçam, numa intensa troca de salivas.
Interrompo o beijo, tomando fôlego, olhando fixamente para ela, que ainda está nos meus braços: — Temos que tomar cuidado, porque aqui pode entrar alguém a qualquer momento! —falo, sussurrante — Porém, nós podemos continuar isso depois, onde e quando você quiser! —sugiro, maliciosa.
Ela sorri para mim: — Poderíamos nos encontrar num motel? —pergunta, em dúvida.
Olho para ela de forma sensual e afirmo: — Claro! Conheço um em Mission District que é muito discreto e, por se localizar em um bairro afastado, é ideal. —finalizo, sorridente.
Após passar rapidamente as coordenadas do motel e depois que ela me informa o melhor dia e hora para o nosso encontro, saímos do toalete e vamos em sentidos opostos.
Dirijo-me de volta à mesa, pensando no quanto duas irmãs podem ser tão diferentes: enquanto Mary exala feminilidade, doçura e fragilidade; Emma é o seu contraponto, pois, além de ter uma energia masculina, é rude e forte. Ambas, de formas distintas, me atraem.
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