Entre Elas
21 Tarde demais?
[Emma]
Depois de deixar a casa da minha mãe, estava completamente desnorteada. Não sabia o que fazer e sentia que precisava conversar com alguém sob pena de, caso contrário, explodir de raiva, frustração e arrependimento.
Dirigi quase que automaticamente para o Irish Café. Meu instinto me levou a um lugar conhecido, onde costumava me sentir bem. De lá, liguei para a primeira pessoa que me veio à cabeça. Talvez não fosse a melhor, dadas as circunstâncias, mas era alguém que me deixava à vontade, em quem confiava e com quem não tinha dificuldades de me abrir. Não restava dúvidas que se alguém poderia me ajudar esse alguém seria ela.
— Vim o mais rápido que pude. A que devo a honra desse convite maravilhoso? — Cora perguntou sorrindo logo depois de nos cumprimentarmos com beijos na face.
Sorri de volta antes de confessar:
— Estava com saudades… e precisando de uma amiga.
Percebi que a resposta despertou sua curiosidade, mas não me apressou. Calmamente sentamos e ambas pedimos saladas. Não estava com fome, porém o convite tinha sido para um almoço, não ia deixá-la comer sozinha. Ela escolheu vinho do porto como aperitivo e lhe acompanhei.
— Eu…
Começamos a falar ao mesmo tempo e isso foi bom para quebrar o gelo.
— Pode começar. Quem convida tem prioridade. — Disse gentilmente.
— Não, fala você. — Incentivei olhando-a por cima da taça.
Na verdade, queria ganhar mais algum tempo. Estava meio nervosa e sabia que toda a minha postura tensa me denunciava, mas Cora fingiu não perceber, falando muito naturalmente:
— Eu recebi Ruby e Zelena em minha casa ontem. As duas estão tão felizes juntas... Um amor! — Fez uma pausa para beber. — Comentaram que você e Regina tem andado um pouco afastadas do restante do grupo. Elas estão preocupadas com vocês…
Deixou a frase no ar claramente me sondando. Talvez Cora fosse muito perceptiva, ou eu muito previsível e transparente, mas ela sabia o motivo da conversa.
Suspirei pesadamente.
— Estamos com problemas.
Ela não se abalou.
— Isso eu já sabia... Regina disfarça, mas eu sei quando minha filha não está bem. E como ela não quis se abrir comigo, imaginei que o problema fosse com você... Ela ficou meio ressentida depois de saber o que aconteceu entre nós.
Uma pontada de culpa me bateu quando lembrei do dia em que falei sobre isso com Regina. Estava com tanta raiva por descobrir que ela e Mary dormiram juntas, que tentando atingi-la, não medi as consequências.
— Desculpa por ter contado um segredo que não era só meu. Sei que não tinha esse direito. — Falei constrangida.
Cora procurou minha mão sobre a mesa e a apertou com delicadeza me direcionando um olhar compreensivo.
— Quanto a isso, pode ficar tranquila, querida. Eu só não tinha contado antes por receio de abalar a amizade de vocês. Não estávamos fazendo nada errado, você sabe — disse com calma, antes de se mostrar mais ansiosa: — Não é por isso que vocês estão tendo problemas, é?
— Não! — Me apressei em afastar a ideia. — Acho que eu sou o nosso problema. — Notei seu ar de dúvida, mas ela não disse nada e eu prossegui: — Cora, eu preciso que você me ouça antes de tudo como amiga a partir de agora.
Nos minutos que se seguiram me abri sobre Regina como nunca havia feito com ninguém. Falei dos meus sentimentos confusos, do medo de perder minha melhor amiga e contei com tantos detalhes quanto possível como a nossa história tão sólida e equilibrada estava flertando com o precipício e como isso nos afetava.
Ela me ouviu praticamente sem fazer intervenções e eu ficava atenta a cada uma das suas reações para sentir se não estava indo longe demais. Uma sucessão de emoções permeou a minha narrativa por não saber o que se passava pela mente dela, que alternava olhares cheios de significado, sorrisos discretos e pequenos goles em seu aperitivo. A salada chegou ao mesmo tempo que eu chegava ao dia presente, confessando o quanto fiquei arrasada depois da conversa que tive com Regina.
— Você sabe por que está se sentindo assim, não é? — ela me perguntou como se a resposta parecesse óbvia.
— Sinceramente não… — Sorri sem jeito.
Podia ser ridiculamente fácil para quem via de fora, mas eu não me encontrava em condições de enxergar nada com clareza.
— Quantas vezes você viu Regina ficando com alguém? — Questionou me deixando em dúvida sobre onde queria chegar.
— Muitas. — “Bem mais do que gostaria”, completei em pensamento. — Ela é linda, inteligente, divertida...
— Sim, mas quantas vezes você a viu se envolvendo seriamente com alguém?
— Poucas. Uns dois ou três namorados por quem esteve apaixonada e Killian, claro... — Revirei os olhos ao lembrar dele.
— Certo. Agora me diga quantos deles você poderia dizer que além de namorados também foram seus amigos? — Enquanto ela me olhava esperando a resposta, comecei a entender a direção do seu pensamento.
— Nenhum, eu acho. Killian deveria ter sido, mas pela forma como tudo acabou, não apostaria nisso.
Ela balançou a cabeça:
— Você não acha. Você sabe que a resposta é essa: nenhum! — Foi categórica. — Por isso ninguém nunca ameaçou seu espaço na vida dela. Regina podia estar com quem quisesse, mas você sabia que sempre precisaria da melhor amiga ali por perto. Era tão confortável, tão certo... Mas agora vocês estão estremecidas, com questões mal resolvidas e Mary Margaret acontece na vida dela como um livro cheio de páginas em branco... Regina se afasta de você tanto quanto se aproxima dessa criatura cativante que é a sua irmã. Mary não tem medo de se comprometer e Regina espera por isso... Então você se pergunta: E se ela não precisar mais de você? Ninguém nunca bastou, mas e se Mary bastar?
Pensei um pouco e precisei admitir que o que acabara de ouvir era a mais pura verdade, mesmo sem entender como ela conseguiu pôr ordem na minha confusão tão racionalmente sem jamais termos tocado nesse assunto antes.
— É, você está certa.
Cora esboçou o sorrisinho condescendente que eu merecia.
— E o que você vai fazer a respeito?
— Não sei, nunca estive tão perdida… Esperava que você pudesse me ajudar.
— Posso ser uma velha sábia, mas não me confunda com um oráculo, garota.
Eu ri com vontade pela primeira vez desde que chegamos e ela me acompanhou, antes de continuar:
— Sabe que estou brincando… Bem, se eu fosse você me abriria com Regina da mesma forma como fez comigo agora. Emma, vocês se conhecem desde sempre e não são mais duas adolescentes. Podem lidar perfeitamente com isso dando certo ou não. De minha parte, posso garantir que se a minha filha ao menos pensar em se afastar de você se não der certo, estarei pronta para usar a minha autoridade de mãe. Sugiro que tome uma atitude antes que seja tarde demais, porque não será nada bom se descobrir apaixonada pela namorada da sua irmã.
Ela tinha razão, e ouvir tudo assim sem rodeios me fez um bem maior do que eu imaginava. O que eu levei anos para compreender, de repente parecia muito claro. Não seria tão complicado tentar, afinal passamos por tantas coisas juntas que o fim de um relacionamento seria algo possível de contornar. Nossa amizade não precisaria terminar por causa disso.
Regina me conhecia melhor do que ninguém, assim como eu a conhecia. Ela me amava e poderia lidar com a minha inaptidão para a convivência desde que eu me comprometesse a ser leal e verdadeira. Sabia que não era a mesma de antes e talvez essa nova Emma não encontrasse tanta dificuldade em fazer as coisas funcionarem.
Sim, eu estava bastante confiante quando enfim terminamos nosso almoço e tive que me despedir de Cora para voltar ao escritório.
— Tem certeza que não quer que eu a deixe em casa? Já estou atrasada de qualquer forma…
— Não, tenho uns assuntos para resolver por aqui ainda — disse com olhar significativo mirando algum ponto acima do meu ombro.
Tive que me virar para saber o que havia de tão interessante e vi Sarah Fisher atrás do balcão recebendo alguns clientes que acabavam de chegar. Me voltei para Cora novamente com um sorriso malicioso nos lábios:
— Depois vou querer saber disso direitinho…
***
A tarde no trabalho foi bem cheia e acabei entrando pela noite, contrariando minha vontade de sair mais cedo e procurar Regina para conversamos antes do jantar com Mary. Só depois das oito horas atendi a última cliente e logo depois Chanel entrou na minha sala querendo saber se poderia ir embora.
— Sim, está dispensada. Também vou indo — olhei o relógio e falei mais pra mim mesma que pra ela: — Tinha algo importante a fazer, mas agora já é tarde. Terá que ficar pra amanhã. — Concluí vestindo meu blazer e pegando a chave do carro. — Quer uma carona?
Chanel olhou com espanto.
— Você está me oferecendo uma carona? — e se aproximou de mim colocando a mão na minha testa.
— O que tá fazendo?
— Verificando se não está com febre. De manhã trouxe o sobrinho para o trabalho, agora tá me oferecendo carona... Você não pode tá bem.
Bufei contrariada me arrependendo do convite.
— Quer a carona ou não, Oberlin?
Ela espalmou as mãos.
— Calma! Agora você tá realmente parecendo com a Emma que eu conheço. Vou só pegar minhas coisas e já vamos.
Depois de deixar minha insuportável secretária na fraternidade em que morava, cheguei em casa e tomei um banho rápido. Como não sentia fome, sentei no sofá e abri um livro para passar o tempo.
O apartamento estava calmo e quieto como antes. Os meninos ficaram na casa da minha mãe e Mary estava onde eu bem sabia.
O silêncio acabou me embalando e dormi com o livro aberto em cima de mim. Acordei com Mary tocando meu braço suavemente.
— Que horas são? — perguntei atordoada.
Ela respondeu com doçura: — Já passa da meia-noite. Desculpa ter te acordado, mas você não conseguiria ter uma boa noite ficando nesse lugar desconfortável.
— Não, você fez bem… O que menos preciso é acordar amanhã com dor nas costas. O Leo precisa de mim. — Falei enquanto sentava no sofá.
Mary se sentou ao meu lado. Quando finalmente consegui me colocar completamente desperta, percebi que me olhava com um sorriso de orelha a orelha, parecendo uma criança que acabou de receber o presente de natal que mais desejava.
— O que foi? — não consegui conter a curiosidade.
— Regina e eu estamos namorando. — Disse simplesmente e não sei se a felicidade que transbordava deixou que ela ouvisse meu coração se partindo.
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