Entre Elas

2 Rumo a Las Vegas.


Notas iniciais
– Esquecemos de dizer no capítulo anterior que, nesta fic, Tinker será chamada de Tina, e Mulan será chamada de Jamie. — Boa leitura!!!

[Flashback – Em 1997]

Regina estava sentada na arquibancada do pequeno campo de Futebol Americano do FTL High School, colégio onde ela e Emma sempre estudaram.

A morena estava sozinha, no campo vazio, chorando por ter sofrido uma das maiores decepções de sua vida até então.

O garoto de quem era a fim há algum tempo, Robert “Robin” de Locksley, tinha acabado de lhe dar um fora. O rapaz disse a ela que pretendia ir com Marian, sua namorada oficial, para o baile de formatura do colégio e esperava que Regina entendesse a sua escolha, já que ele namorava a outra garota havia mais de três anos e com a morena tinha apenas trocado alguns beijos em uma festa dada por Emma, no último final de semana.

A conversa entre eles aconteceu no intervalo, mas, de tão triste, a moça não teve ânimo para voltar à aula de literatura, mesmo sendo a sua disciplina favorita. Por saber disso, Emma achou estranha a ausência da amiga e, após a aula, pôs-se a procurá-la por toda a escola e, não lhe encontrando nos locais que a morena mais gostava de ficar, veio achá-la onde menos esperava.

— Mills, finalmente encontrei você! – A loira se aproximou da amiga e ao notar que Regina estava chorando, ficou preocupada. – Por que você está aqui sozinha, meu bem? O que houve?— Perguntou, colocando uma das mãos no queixo da morena, erguendo-o, fazendo com que o par de olhos castanhos encarasse as duas esmeraldas que a fitavam.

— Nada de mais, é só uma bobagem, Swan!— Disse, por não querer entrar no assunto, já que realmente considerava uma tolice chorar por um cara com quem tinha ficado apenas uma vez.

O problema é que a morena, como uma adolescente apaixonada, tinha alimentado a ilusão que essa única vez havia sido especial para Robin, tanto quanto foi para ela, porém estava redondamente enganada.

— Regina, você raramente chora! Por isso, tenho certeza que não estaria aqui isolada, em prantos, se fosse uma besteira. – Argumentou, a loira.

Ao perceber que não existia a menor possibilidade de enganar Emma, falou, enfim:

— É por causa do Robin...

A resposta da outra é um suspiro aborrecido. Ela era consciente que sua melhor amiga estava muito apaixonada pelo quarterback do time de futebol americano do colégio, um dos garotos mais populares do FTL, embora a loira não entendesse porque a maioria das garotas se sentiam atraídas por um acéfalo com horrível sotaque britânico.

— O que aquele idiota fez com você? – Indagou, irritada.

— Não fez nada! Apenas deixou claro que o que rolou entre a gente, na festa, não foi importante pra ele. – Esclareceu, soluçando.

Emma sentou ao lado da amiga e ajeitou, atrás da orelha dela, uns fios negros que caiam sobre o rosto da morena.

— Mills, não fique assim! Você sabe que merece uma pessoa melhor, não é? Alguém que saiba valorizar a garota fenomenal e maravilhosa que você é... Uma garota que além de inteligente e educada, é também divertida, linda e faz a melhor lasanha que eu já comi. – Disse, sorrindo.

Diante de tantos elogios, Regina olhou para a loira e começou a rir também.

Swan, apesar de suas indelicadezas quase constantes, sempre teve o dom de dizer as coisas certas para a morena. Era praticamente impossível ficar triste perto da loira, pois seu senso de humor, apesar de ferino na maioria das vezes, sempre tinha um efeito benéfico em Regina.

Mas, de repente, como se lembrasse de algo, Mills ficou triste novamente.

— O que foi agora? — Emma, falou, mostrando que a mudança no semblante da amiga não passou despercebida.

— Eu realmente gosto dele... Mas o que me deixa mais triste é que agora não tenho um par para o baile. E só faltam duas semanas.

Emma ficou pensativa, olhando para o horizonte e, na sequência, encarou a amiga, parecendo ter uma epifania – Por que não vamos juntas?— Sugeriu.

Regina abriu bem os olhos, assustada com a proposta: – Nós duas!? — Indagou, apontando para a amiga e em seguida para si mesma. – Mas e o Neal? – Perguntou, ao lembrar que Emma já havia combinado de ir ao baile com seu namorado da semana.

— Você acha que eu vou deixar de acompanhar minha melhor amiga, a pessoa com quem eu compartilhei todas as minhas experiências estudantis, desde a pré-escola, para ir com um idiota com quem dei uns pegas no último final de semana? — Inquiriu, arrancando um lindo sorriso de Regina – E, além do mais, acho muito difícil que ainda esteja querendo olhar para cara dele amanhã... Que dirá daqui a duas semanas!

A morena sorriu: – É incrível como a sua fila anda rápido, Swan! Mas, enfim, você acha que vamos chocar os outros, quando eles nos virem entrando juntas no ginásio? — Questionou, com olhos brilhantes de expectativa, imaginando esse momento.

— Sei lá! E a mim pouco interessa! – A loira respondeu, dando de ombros. – Esse é um dos momentos mais importantes na vida de qualquer estudante e acho que devemos compartilhá-lo com quem realmente nos importa. – Fez uma pausa. – E, vamos ser sinceras... Você é a principal responsável por eu estar me formando, pois sabe melhor do que ninguém o quanto sou desleixada com os estudos. Se não fosse por sua boa influência, provavelmente ainda estaria na 9th grade¹— Finalizou, fazendo com que a morena a olhasse com expressão terna.

— Emma, isso foi uma das coisas mais lindas que alguém já me disse! — Afirmou, emocionada.

Swan sorriu para ela, limpando alguns resquícios de lágrimas que ainda caíam no rosto da amiga.

— Qual será a sua fantasia?— Perguntou, ao lembrar que o baile seria temático e que os trajes deveriam remeter aos filmes dos anos 80 – Se quiser, eu vou de Johnny Castle e você pode ir de Baby Houseman. – Sugere, animada. – O que acha?

Regina riu, imaginando Emma vestida como o personagem de Patrick Swayze em Dirty Dancing, seu filme favorito. – Só se dançarmos “The Time Of My Life” do mesmo jeito que eles fazem na cena final do filme. – Falou, divertida.

— Trato feito! – A loira concordou, entrando na brincadeira e estendendo a mão para a amiga que a apertou com força, enquanto ambas caíam na gargalhada.

Levantaram-se, e Emma colocou o braço esquerdo por sobre os ombros da morena, atraindo-a mais para si. Então, elas deixaram o campo juntas, sorrindo, falando sobre como esperavam se divertir no baile.

[Fim do Flashback]

[Regina]

Fon Fon!!!

— JÁ ESTOU INDO, SWAN!

Pela quarta vez, vou até a janela do meu apartamento, que fica em um prédio da Mifflin Street, para gritar com Emma, que a cada 2 minutos, aperta a buzina do carro querendo me apressar.

Ela adora o veículo que está dirigindo, um Cadillac Eldorado conversível de 1954, o qual herdou do seu avô, Leopold Swan, um fascinado por modelos clássicos. Além do cadillac, ele também chegou a possuir um Ford Modelo A 1929, mas vendeu antes de morrer.

Quando saio, arrastando minhas malas, vejo-a encostada no carro, usando apenas uma regata preta e jeans skinny, além de botas na mesma cor da regata. Seus braços estão cruzados sobre o peito e ela está visivelmente chateada com a minha demora.

— Finalmente, Jackie Kennedy! — diz, abusada, encarando meu vestido cinza e as sandálias Jimmy Choo que calço.

— Querida, se você acha que eu me irrito com esse apelido, está redondamente enganada! É melhor ser comparada a um ícone da moda, do que parecer com Sylvester Stallone em Rambo. — Falo, provocando uma risada nela, enquanto aponto seus trajes.

— Mills, você acabou de ofender a minha feminilidade, me comparando a um brutamonte do cinema! — Rebate, irônica, colocando a mão sobre o peito num gesto afetado.

Nesse momento, nota minhas duas grandes malas, para de sorrir e fala com um tom chocado: — Regina, por que você vai levar tanta bagagem, se só vamos passar dois dias em Las Vegas? — Levanta as sobrancelhas, sarcasticamente e com as mãos colocadas na cintura.

— Emma, eu gosto de ter opções! Numa mala estão meus vestidos, saias, calças, blusas, blazers e na outra, perfumes, toalhas, pijamas, calçados, maquiagem, enfim, tudo que estou levando é extremamente necessário. — Respondo, gesticulando com as mãos.

Ela solta um suspiro resignado e pega minha bagagem.

— Muito bem, aja como uma cavalheira e acomode minhas malas. Será um bom exercício para fortalecer ainda mais seus tenros braços! — Provoco-a, enquanto ela me lança um olhar fulminante, jogando minha bagagem dentro do veículo, sem nenhum cuidado, uma vez que Emma Swan e delicadeza não podem coexistir na mesma frase ou ação.

— Ainda bem que não estamos indo de avião, porque essas malas pesam uns 300kg cada uma! A taxa de excesso que você pagaria daria pra comprar um cassino! — comenta ao terminar de colocá-las e minha resposta é uma careta.

Sento ao seu lado, no banco do copiloto e ela liga o veículo, guiando até a casa de sua irmã, Mary Swan Nolan, que também irá conosco para a despedida de solteira de Ruby.

Mary é apenas um ano mais nova que Emma e é casada com David há bastante tempo. Eles tem dois filhos: Henry, de dez anos e Leopold “Leo”, de dois.

Nunca tive com ela a mesma conexão que estabeleci com sua irmã, mas nos damos muito bem.

Todas as vezes que olho para ela, tenho a impressão que uma das duas foi trocada na maternidade, porque jamais conheci duas pessoas tão diferentes. Não só fisicamente, mas principalmente quanto à personalidade.

Enquanto Emma é grosseira, arrogante e não consegue manter um relacionamento por mais de um mês; Mary é doce, gentil e o seu único namorado foi o homem com quem veio a se casar.

Após o casamento, ela deixou sua carreira de professora para se dedicar exclusivamente à família, sendo bastante criticada por Emma, que como uma mulher viciada em trabalho, não entendeu, e ainda não entende, a opção da irmã.

Mas, apesar de todas as diferenças, poucas vezes vi uma relação fraternal tão tranquila. Jamais presenciei uma briga entre elas, nem mesmo quando eram crianças.

Emma buzina duas vezes na frente da casa de Mary, antes que ela saia. Percebo que se despede do marido com um beijo rápido, não parecendo que ficará dois dias longe dele. Alguma coisa na forma como eles se olham me dá a impressão de que as coisas não vão bem. Isso me faz lembrar o quanto achei estranho o fato dela nos acompanhar nesta viagem, que, definitivamente, não faz seu estilo.

Depois que a pegamos, partimos em direção à casa da última passageira, Tina Bell, a mais recente integrante do nosso grupo de amigos.

Tina já namorou Jefferson e, mesmo depois do término do relacionamento deles, ela continuou fazendo parte da turma, sempre estando presente nas festas que passamos juntos, principalmente os feriados de 4 de Julho e de Ação de Graças, quando costumamos nos reunir na Casa do Lago que os pais de Mary e Emma possuem nos arredores da cidade.

Depois de uns 30 minutos que lhe pegamos, nos quais ela e Mary, sentadas nos bancos de trás, não se calaram um minuto, Tina coloca a mão no ombro de Emma e pergunta: — Querida, a gente vai a viagem toda escutando essas músicas velhas? — Ela questiona o gosto musical da outra e não consigo controlar o riso.

A nossa motorista escolheu como trilha sonora da viagem, “The Very Best Of Power Ballads”, e, neste instante, estamos ouvindo “The Final Countdown” de Europe.

— E o que você sugere que a gente ouça, querida? — sublinha a última palavra — Alguma coisa da Rihanna? — Indaga, sarcasticamente.

— Seria uma boa! E não faria mal nenhum você se atualizar um pouco, Swan! — Rebate, mas sei que ela não conseguirá nada com isso.

— Não perca seu tempo Tina! — Essa sou eu, aconselhando – Nem Shakira toca aqui... E olha que ela já era bem famosa nos anos 90.

— Meninas, entendam que enquanto eu estiver respirando, nada que for “modinha” entra na minha playlist. — Alfineta, Emma, disseminando toda a sua chatice.

Tina estira a língua para ela e Swan faz a mesma coisa, olhando-se no espelho retrovisor do carro.

— Gente, esta discussão não vai levar a lugar nenhum! – Mary se pronuncia, tentando ser a voz da razão.

Há uma coisa muito interessante sobre ela: Mary ainda preserva certa autoridade professoral, apesar de ter abandonado o magistério há muitos anos. Ela tem o dom de nos constranger quando passamos dos limites ou somos muito infantis.

E não é diferente nesse momento. Depois da sua censura, ficamos em silêncio por alguns minutos, no entanto ela mesma o interrompe:

— É verdade que Aurora acabou o noivado com Phillip, porque se apaixonou por Jamie? – Fala num tom que parece curioso, mas sem denotar fofoca.

— Sério? Não estou sabendo disso! — Tina vira-se para sua companheira de assento, totalmente interessada na conversa. – Sabe, eu tenho muita curiosidade de ficar com uma mulher! Queria saber se o sexo é bom ou só tem roça-roça como a gente vê nos filmes. – Acrescenta, pensativa.

— Bell, por favor, me diga que você está brincando! — Swan entra na conversa das outras duas, enquanto amarro um lenço no meu cabelo para impedir que a ventania o embarace, colocando também um óculos de sol.

— Não, Emma! Eu realmente estou por fora da dinâmica do sexo lésbico, porque eu não tenho sua larga experiência no assunto.

— É provável que até meninas de 12 anos de idade saibam que sexo entre duas mulheres envolve muito mais do que simples roça-roça, ou você ainda não descobriu a internet? — Emma ironiza a outra loira.

— Acontece que eu não gosto de pornografia. — Tina rebate.

— Mas você deve ter imaginação, não é? — Emma prossegue com seu ataque. — E, levando em conta que já tem quase 30 anos, deveria evitar fazer comentários tão inocentes, que nem adolescentes fazem mais. — Finaliza e noto que a outra está extremamente irritada com ela.

— Hei, vamos parar com esse assunto e aumentar o som porque agora começou uma música boa! — Digo, tentando desfazer o “climinha” que se estabeleceu no carro, sendo apoiada por Mary que começa a cantar “Hungry Eyes" junto comigo.

De repente, o clima volta a ficar agradável, pois todas já estamos cantando juntas.

Fico satisfeita com a mudança de ares, pois ainda enfrentaremos cerca de 9 horas de viagem até chegar ao nosso destino final, Las Vegas, localizada no árido estado de Nevada, e, não há nada mais insuportável do que viajar com gente emburrada e calada.

Notas finais
¹ 9th grade equivale a 1ª série do Ensino Médio nos Estados Unidos.