Entre Elas
3 Finalmente em Vegas.
Notas iniciais
[Flashback – Em 1997]
— Regina, meu amor, Emma já está te esperando! – Cora Mills chamava, pela terceira vez, a filha, pois sua acompanhante para o baile de formatura já havia chegado há mais de meia hora. A loira trajava smoking e gravata, enquanto usava o cabelo preso em um rabo de cavalo.
Swan já estava acostumada com os atrasos de sua melhor amiga, por isso, costumava dizer que Regina só chegou antes do que ela em uma ocasião: no dia do nascimento e, mesmo assim, por míseros 7 minutos.
Cora adorava Emma, pois desde que as duas garotas nasceram, Margaret e ela também tinham se tornado inseparáveis e, muitas vezes, chegaram a fazer a festa de aniversário de Emma e Regina juntas, o que resultava em muita confusão, pois a morena, no início, não entendia que uma parte dos presentes que os convidados traziam eram da loira, fazendo birra para ficar com todos só para ela.
Emma, que geralmente faz tudo que Regina quer, deixava a morena se apropriar de alguns de seus brinquedos, porque desde pequena entendeu a natureza possessiva de sua melhor amiga.
— Emma, precisamos ter uma conversa séria! — Esse era August, entrando na sala e sentando-se ao lado da loira no sofá.
— Fiquei sabendo que você será a acompanhante da minha irmã esta noite e vou logo avisando que ela terá que voltar para casa até à meia noite, ainda intocada. E nada de mão naquilo ou aquilo na mão, viu? — disse o rapaz, parecendo sério.
A loira, olhando para ele, retrucou: – Ainda bem que você falou isso, August! Porque eu realmente estava pensando em desvirginá-la, engravidá-la e abandoná-la só para manter a tradição do baile de formatura¹. — respondeu, também parecendo séria.
Os dois continuaram se encarando, mas depois caíram na gargalhada juntos e só pararam quando ouviram a rouca voz de Regina no pé da escada: – Posso saber o motivo de tanta felicidade?— ela indagou, sorrindo.
Os dois viraram-se para a morena e ficaram boquiabertos com a beleza dela, que usava um vestido parecido com o de Baby Houseman no filme.
— Uau, Mills, você está parecendo uma boneca!— a loira comentou.
— Obrigada! Você também está linda, Emma! Jamais imaginei que ficasse tão bem de smoking. — a morena retribui o elogio, indo abraça-la.
— Vocês realmente estão ótimas! Não ficaria surpreso se, pela primeira vez na História do FTL, tivéssemos duas rainhas do baile! — August apontou, rindo, pegando a câmera de vídeo para filmar a amiga e a irmã.
Neste instante, Emma tirou a flor corsage da caixa e colocou no pulso de Regina, que lançando-lhe um olhar terno, disse:
— Ah! Mas, você não foi a única que teve esta ideia! — falou, enquanto caminhava até um móvel da sala, tirando da gaveta uma caixinha muito parecida com a que a amiga lhe trouxe, e voltando-se para a outra: – Precisamos que todos saibam que você também está acompanhada!— afirmou, enquanto colocava a flor no pulso da loira.
As duas sorriram e novamente se abraçaram.
Depois que Cora fez os últimos ajustes no penteado da filha, elas saíram juntas, ainda sendo filmadas por August.
Quando a morena, já na calçada, viu o cadillac amarelo de Leopold Swan estacionado em frente a sua casa, não acreditou nos seus olhos.
Sabia que o velho tinha devoção por aquele carro. Neste dia ela teve a certeza do quanto Emma era amada por seu avô, que a deixou guiar seu veículo, mesmo sabendo que ela ainda não tinha habilitação.
Emma abriu a porta do carro para Regina entrar e depois contornou o cadillac, sentando-se no banco do motorista para conduzi-las à festa mais importante de suas vidas até aquele dia.
Quando entraram no ginásio onde aconteceria o baile de formatura, rapidamente vários olhares se voltaram para as garotas.
Alguns alunos se mostraram surpresos ao perceber que elas tinham vindo juntas, como um casal, já que as flores corsage que ambas traziam no pulso significava que uma estava comprometida com a outra naquela noite.
Mas, é bem verdade, que outros não se surpreenderam com aquela cena, já que se acostumaram, durante todos os anos da vida escolar a verem as amigas sempre juntas: nas salas de aula, nos laboratórios, no refeitório, nas arquibancadas do ginásio ou do campo, assistindo as partidas dos times de basquete e futebol do colégio e, para esses estudantes mais atentos, era praticamente impossível dissociar Emma de Regina e vice-versa.
Depois dessa pequena “comoção” por causa da chegada delas, logo todos estavam dançando ao som de “Wake Me Up Before You Go-Go”, de Wham!
Então, a loira pegou na mão da amiga, puxando-a para o meio da pista de dança, ficando exatamente embaixo do globo dourado que girava incessantemente. Elas sorriam felizes, ao mesmo tempo em que estalavam os dedos, jogando as pernas para frente e movendo a cabeça, seguindo o ritmo da melodia pop, assim como se fazia na época.
Curtiram mais algumas músicas até que Emma, fazendo mistério, deixou a amiga sozinha por um tempo e foi até o palco pedir que a banda tocasse “The Time Of My Life”, para que pudesse cumprir a promessa de dançar com Regina como na cena final do filme.
Quando a morena ouviu os primeiros acordes da canção, sentiu Emma abraçando-a e levantando-a, fazendo-a girar pelo salão. Ela, alegre, beijou a face da loira e sussurrou um:“Obrigada!”, ao pé do ouvido da amiga, enchendo-a de beijos no rosto.
Elas dançavam numa sincronia perfeita, copiando, dentro do possível, os passos de Patrick Swayze e Jennifer Grey.
Ao fim da música, com a festa já bastante adiantada, o diretor do colégio pegou o microfone para anunciar o “Rei e a Rainha do Baile”, pedindo a atenção de todos os estudantes presentes no ginásio.
Neste instante, Emma sussurrou junto ao ouvido da morena:- Tenho mais uma surpresa para você!- recebendo de volta um olhar curioso.
Mas, Regina não teve tempo de perguntar nada, já que o diretor, imediatamente, anunciou os nomes de Robin e Marian como o “casal majestoso” da noite.
Emma, então, piscou para ela, pegando em sua mão e andando para longe do centro do ginásio, assim como os outros casais, que davam espaço para que o “Rei e a Rainha” ocupassem aquela parte do salão sozinhos.
Porém, em menos de um minuto, toda a magia do momento, assim como a felicidade do casal foram interrompidas, e, todos ficaram surpresos quando viram Robin e Marian sendo lambuzados por um líquido vermelho e espesso que caiu sobre ambos.
Regina não conseguiu acreditar na cena que acabou de presenciar, e, virando-se para a amiga, disse: – Emma Swan... Você está por trás disso?
A loira riu maliciosamente, enquanto as pessoas olhavam para o teto sem entender direito o que aconteceu.
— O que é que você acha, Mills!? — perguntou, gargalhando.
Regina olhou para Emma com um falso ar de censura, mas também acabou caindo na risada:- De qualquer forma, sou muito grata à "pessoa" que idealizou essa vingança. Confesso que eu não teria feito melhor! — exclamou, olhando para o casal real, que blasfemava pela humilhação que passaram.
Depois de algum tempo, Emma se afastou da amiga novamente, mas não antes delas se divirtirem bastante com a traquinagem da loira.
Na realidade, sem que a amiga desconfiasse, Swan saiu furtivamente para “dar uns pegas” numa garota que ela paquerava já há algum tempo, chamada Grace. Essa foi a primeira experiência dela com meninas, o que acabou dando início a sua descoberta como lésbica.
Enquanto isso, Regina permaneceu na pista e dançou com um rapaz chamado Daniel, com quem perderia a virgindade, alguns meses depois.
Ao voltar para perto de sua amiga, a loira estava visivelmente encabulada e um pouco descabelada, levantando suspeitas de que havia “aprontado”.
— O que aconteceu, Swan?! — perguntou a morena, curiosa, depois que terminou a dança com Daniel.
— Nada!- respondeu, sem jeito.
— Emma, eu sei quando você está mentindo! — disse, encarando a amiga.
Depois de um tempo em silêncio, a loira resolve abrir o jogo: – Tá bom! Eu fiquei com uma “pessoa” no banheiro. — confessou, por fim.
— Uma pessoa!? E ele tem nome? — indagou, intrometida.
— Tem... Mas... não é “ele”! — respondeu, meio titubeante, frisando o pronome, preocupada com a reação da amiga.
— Emma... Você beijou uma menina!?— questionou, colocando a mão sobre a boca, fingindo espanto.
A loira fez uma careta e replicou, ainda meio sem jeito: – Sim!
A morena olhou para Swan com um ar brincalhão, afirmando: – Eu sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde! — e completou: – Deixe-me adivinhar... ela é ruiva?
Emma demonstrou espanto e respondeu: – Como você sabe!?
Mills caiu na gargalhada e falou: – Acho que a sua obsessão por Dana Scully² e aquele pôster enorme dela que você tem no teto do seu quarto, deram-me uma pequena dica.— concluiu, zombeteira.
A amiga sorriu de volta e questionou, num tom preocupado: – Mas... isso não vai abalar a nossa amizade, não é?
— Claro que não! — respondeu, sem pestanejar. – Só que, a partir de agora, não troco mais de roupa na sua frente! — acrescentou, divertida.
A loira abraçou Regina, feliz por ela ter recebido bem a novidade e sentenciou: – Tudo bem! Mas, não precisa se preocupar, você não faz meu tipo!
Depois, olhou a morena de cima a baixo e acrescentou, brincalhona: – Quer dizer... Você teria uma chance se pintasse o cabelo de vermelho!
Mills fez uma careta, fingindo tristeza com o “desprezo” da amiga pelo seu biótipo. Mas, logo disse: – Vai sonhando, Swan!- e as duas riram francamente, mais uma vez.
Naquela mesma noite, Emma revelou para Regina, que Jefferson e Mary, que também estudavam no FTL, ajudaram-lhe a tramar a “vingança” contra Robin.
[Fim do Flashback]
[Regina]
Emma parou num posto de gasolina em Victorville para abastecer o carro e aproveitamos para comprar algumas comidas supérfluas, além de água, enquanto Mary e Tina foram ao banheiro.
Ainda faltam cerca de 3 horas para, finalmente, chegarmos a Vegas. Mas, apesar da viagem ser um pouco demorada, confesso que estou adorando. Sinto-me como uma personagem de um Road Movie, como “Thelma e Louise”.
Quando entramos na loja de conveniência, vários olhares nos encaram, e escuto a risada de Emma por trás de mim: — Aonde Jackie Kennedy chega, chama a atenção! — comenta, irônica.
— Eu acho que eles estão olhando para nós duas, querida! — rebato, sorrindo de canto para ela.
— Claro! Porque eles não estão acostumados a ver uma mulher vestindo calça jeans e regata... Esses trajes, realmente, devem ser tão raros aqui, em pleno calor californiano, quanto os seus, que mais parecem saídos do figurino de algum clássico filme dos anos 50, protagonizado por Audrey Hepburn. — diz com zombaria.
— Emma, até quando você vai ter inveja do meu senso de moda? — indago, divertida, pegando algumas coisas das prateleiras, enquanto ela segura a cestinha. – Já lhe disse que, quanto mais me comparar com esses ícones da moda, mais me sentirei lisonjeada. — acrescento.
Ela sorri e fala: – Você sabe que eu amo implicar com você, não é? — faço que sim com a cabeça. – E não tenho inveja de você! Pelo contrário, sempre te achei a mulher mais elegante do mundo! — admite e olho para ela admirada, procurando um indício de deboche, mas não encontro nenhum.
— Você me elogiando sem eu pedir para que o faça!? — questiono, estarrecida. – Agora posso até acreditar que há vida inteligente em outros planetas! — digo, brincando com ela.
— Não seja injusta comigo, Mills! Eu sempre te elogio. E, além do mais, realmente há vida inteligente em outros planetas. Lembre-se do que aprendemos com Arquivo-X! — fala, divertida, citando uma de nossas séries preferidas.
— Emma, você só assistia Arquivo-X por causa da Dana Scully! Não acredito que tenha aprendido muita coisa com a série, apesar do enredo intricado. — respondo, brincando com ela.
— Confesso que Scully era uma atração a mais para mim... Por causa dela, comecei a perceber que sentia atração por mulheres. Mas Arquivo-X sempre será uma série icônica para nossa geração. — comenta, séria.
Falo que continuo preferindo F.R.I.E.N.D.S e ainda estamos discutindo isso quando chegamos ao caixa.
Enquanto Emma volta para pegar água no freezer, digo à atendente que a loira bonita pagará a conta.
Quando vou saindo com as sacolas, escuto minha amiga dizer num tom abismado: – Mills, você me dá mais despesas do que todas as minhas namoradas juntas! — diz alto, para que eu escute, e saio rindo da cara dela, enquanto a vejo digitando a senha do cartão de débito.
Ao retornarmos para o carro, Tina e Mary já estão nos esperando. Emma pula para dentro do cadillac e entrega uma garrafa de água a cada uma de nós, ligando, na sequencia, o veículo.
Depois das 3 horas estimadas, chegamos em Vegas, a cidade onde o inimaginável pode acontecer.
Ao estacionarmos em frente ao Treasure Island, logo vemos Ruby, Belle, Aurora e Jamie, que também acabaram de chegar.
A morena de mechas vermelhas corre para nos abraçar e Emma grita: – Vegas, baby, VEGAS!!! — toda eufórica.
Quando saímos do abraço, olho para a porta de entrada e o improvável já começa a acontecer: deparo-me com Killian, todo sorridente, saindo de dentro do hotel abraçado a uma morena.
Noto que ele também me viu, quando interrompe a caminhada a poucos metros de distância de onde estamos.
Fico pálida. Emma percebendo o meu estado, pergunta se estou bem. Por não dar nenhuma resposta, ela olha na mesma direção que eu, e, percebendo a presença do meu ex, envolve-me num forte abraço, dizendo: – Ei, esse reencontro um dia ia acontecer e não podia ter sido em um momento melhor, porque estou aqui para te apoiar! — lembra e sorrio, meio sem jeito, ainda me sentindo abalada por revê-lo justamente onde menos esperava, mas admito que ela está absolutamente certa e que já é hora de confrontar o meu passado.
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