Entre Elas

12 O outro dia.


Notas iniciais
– Antes de mais nada, gostaríamos de pedir desculpas pela demora, mas estávamos muito envolvidas e mais inspiradas para escrever a outra fic que começamos, porém esperamos que gostem do capítulo e comentem. — Boa leitura!!!

(21 de maio, domingo: aniversário de Regina)

[Emma]

A última frase proferida por Regina, antes de ela adormecer, ainda martela na minha cabeça. O que impossibilitou que eu, assim como minha amiga, rendesse-me ao sono. E, enquanto observo-a dormir, penso sobre o que aconteceu há poucas horas dentro desse casebre.

“Não devíamos ter feito isso” foi o que ela disse... Será que realmente fomos longe demais? Sempre tive a natureza muito impulsiva e, desde que nos beijamos, quando voltávamos de Las Vegas, sinto que vivo num estado constante de fúria reprimida. E essa raiva silenciosa acabou me dominando mais cedo, quando ataquei Regina de uma forma tão agressiva e rude. Arrependo-me de ter agido assim e, agora, estou envolta no constrangimento que essa atitude me trouxe.

O fato é que não entendo, nem quero sentir, esse redemoinho de emoções violentas que tenho experimentado desde que Regina começou a se envolver sexualmente com Mary. Confesso que me assusta pensar que o relacionamento delas seja muito mais profundo do que apenas transas casuais, pois não sei lidar com a aparente recém descoberta bissexualidade da minha melhor amiga.

Eu estava acostumada em vê-la casada com um homem, imaginava que teria filhos, provavelmente eu seria madrinha de um deles, e assim nossas vidas seguiriam, sempre conectadas pelo vínculo fraternal que se estabeleceu entre nós desde o nosso nascimento. Minha amizade com Regina sempre foi o elo mais forte, verdadeiro e estável que tive ao longo dos meus quase 37 anos. E prezo muito essa ligação, porque não imagino minha vida separada da dela.

Desde o princípio, aprendi a compartilhar com ela as alegrias, as tristezas, as conquistas e as perdas da vida. Chegamos ao ponto de termos um animalzinho de estimação juntas, uma enorme Golden Retriever que batizamos de Apple, a qual encontramos perdida no jardim da casa dos Mills, quando tínhamos oito anos e que, após uma semana de muito choro, principalmente por parte de Regina, conseguimos convencer nossos pais a nos deixar ficar com ela. Nem mesmo com Mary eu dividi algo parecido.

Sorrio ao recordar dessa lembrança de quando éramos ainda tão pequenas, mas já tão unidas, e noto que os primeiros raios de sol se apresentam, entrando pelas frestas das portas e janelas e por alguns buracos no telhado do casebre.

Então, decido que é hora de voltar para a casa do lago. Imagino que, depois da afirmação dela, na noite anterior, Regina possivelmente não queira me ver aqui, assim que despertar. E preciso de um tempo para colocar meus pensamentos em ordem e poder voltar a encará-la sem me sentir tão mal pelo o que aconteceu entre nós ontem à noite.

Antes de sair, dou uma última olhada para sua expressão, neste momento, tão serena e controlo o impulso de afastar uma mecha de cabelo que cai sobre o seu bonito rosto, pois tenho medo de despertá-la. Em seguida, silenciosamente, me movo até a porta, abrindo-a e fechando-a com o maior cuidado, tentando evitar o ranger das velhas dobradiças.

Ando de cabeça baixa pela pequena trilha que leva até a casa e, quando já estou perto, alço os olhos, vendo, através das portas e janelas de vidro da cozinha, que Jefferson, Aurora, Jamie e Belle estão ali, o que me leva a dizer num tom baixo “Droga!”, pois não esperava encontrá-los já acordados. Felizmente, eles parecem envolvidos com alguma coisa, porque nenhum nota minha presença em meio a densa vegetação do bosque.

Contorno a casa, com a intenção de entrar mansamente pela porta da frente, sem ser vista e, assim, fingir que passei a noite em meu quarto, não no casebre, na companhia da minha melhor amiga. Não que essa tenha sido a primeira vez que dormi com Regina. Longe disso. Já dividíamos a mesma cama até quando éramos crianças. Porém, foi a primeira vez que fiz sexo com ela e, mesmo que eles jamais desconfiassem disso, eu ainda saberia. Minha consciência culpada saberia e, provavelmente, acabaria deixando isso transparecer, caso alguém fizesse algum comentário sobre o fato de termos passado a noite juntas no casebre.

— Bom dia! – cumprimento-os, passando a mão pelos cabelos e bocejando, fingindo que acordei há pouco e acabo de vir do meu quarto.

— Bom dia, Swan! – respondem quase ao mesmo tempo.

— Estamos terminando de fazer um bolo de aniversário para Regina! – Belle diz, espalhando uma cobertura de chocolate sobre a massa — Porque o idiota do seu sócio esqueceu de trazer o que havíamos encomendado e que era três vezes maior e certamente mais gostoso do que esse – explica, lançando na direção de Jefferson um olhar semicerrado.

— Desculpe, Emma! Realmente esqueci de pegar o bolo de vocês duas... E agora você e Regina vão ter que se contentar com essa porcaria que as meninas estão preparando – ele se pronuncia, sendo rapidamente vítima da mirada mortal das três.

— Obrigada, Jefferson! – Aurora exclama num tom irônico — Estamos de ressaca, tivemos que acordar às cinco da manhã para consertar um erro seu e é assim que você agradece? – a ruiva protesta, zangada.

Nosso amigo mostra um ar de vergonha, antes de dizer: Desculpe, meninas! – parece sincero Eu estava brincando... Vocês estão fazendo um ótimo trabalho – sorri para elas, que ainda parecem bravas com ele.

— Belle, me passe o chantilly! – Jamie pede, segurando em uma das mãos um cone feito de papel cortado na ponta, como se fosse um bico de confeiteiro improvisado.

Não deve ter sido muito difícil para ela pensar nisso, pois Jamie sempre foi a mais polivalente de todos nós. Já trabalhou numa confeitaria, numa floricultura e, até mesmo, numa oficina mecânica. Tudo isso para custear o curso de enfermagem que fez durante cinco anos.

— Nossa, Jamie, está ficando muito bonito! – Jefferson afirma, ainda tentando reconquistá-las, depois do comentário infeliz que fez.

Mas devo concordar com ele que, levando em conta as circunstâncias, o bolo está ficando muito bem decorado. Cheio de detalhes feitos com chantilly nas bordas e na parte superior da cobertura de chocolate.

— Não pense que vai ser tão fácil assim para você me ganhar de novo Jefferson Hatter – a morena asiática o responde com expressão zombeteira nos olhos puxados Esta semana mesmo, você vai levar nós três – diz, apontando para Belle e Aurora também ao Granny’s e, além de pagar o jantar, ainda vai pedir o prato especial da chef – garante Porque só depois de comer aquela lagosta incrível que Regina prepara é que eu posso pensar em perdoar você! – conclui, esboçando um sorriso maldoso e recebendo os olhares cúmplices das outras duas que, aparentemente, adoraram a ideia.

Meu sócio também ri, meneando a cabeça, como se estivesse concordando com ela, antes de dizer: Trato feito! Podem marcar o dia.

Permaneço o tempo todo apenas assistindo à interação entre eles e, depois da exigência de Jamie, fico imaginando que essa é uma excelente maneira de se pedir desculpas a alguém. Não exigir um jantar, mas sim convidar a pessoa que você magoou para desfrutar de um momento assim em sua companhia. Essa pode ser uma ideia que eu use em um futuro bem próximo.

Enquanto penso sobre isso, ouço a voz de Aurora e olho para ela, percebendo que a ruiva me fez uma pergunta: — O que você disse, Au? – questiono, torcendo para que eles não façam nenhum comentário sobre meu comportamento distante e pensativo.

— ‘Tava dizendo que vamos subir com o bolo para acordar Regina! – explica, sem fazer qualquer menção ao meu jeito distraído, o que me deixa aliviada.

— Acho uma boa ideia! – curvo os lábios numa expressão alegre — Gostei do detalhe do Happy 37, Jamie! – comento, notando que a morena mais uma vez improvisou, desenhando a frase e os números com o chantilly na parte de cima do bolo.

— Mas não vai ser só isso! – Belle grita, exultante, voltando da pequena dispensa na lateral, onde guardamos os suprimentos — Olha o que achei... – abre a mão, mostrando um saquinho de velas de aniversário, daquelas que precisamos ter fortes pulmões para poder apagar.

Belle, por favor, né? Não estamos fazendo cinco anos! – resmungo, contrariada.

— Deixa de ser chata, Swan! Tenho certeza que Regina vai adorar – diz, já enfiando as velas no bolo.

Reviro os olhos, mas decido não continuar insistindo, pois sei que já sou voto vencido, quando vejo Jamie e Aurora se juntar a ela e Jefferson ir pegar o isqueiro para acendê-las.

— Tudo pronto! – Aurora anuncia, soltando gritinhos de felicidade Agora vamos em busca da aniversariante do dia.

Deixo eles passarem na minha frente, indo na direção da escada que leva até o segundo piso, permitindo que acreditem que vão encontrar Regina ali e já pensando no que direi quando perceberem que ela não passou a noite no quarto.

Em silêncio, abrem a porta devagar, certamente já prontos para despertá-la com um sonoro “parabéns!”. Porém, suas expressões de euforia são gradativamente substituídas por uma de decepção ao constatarem que não tem ninguém na cama.

Cadê a Regina? – Jefferson expressa verbalmente o desapontamento dos quatro e, para não levantar suspeitas, também finjo surpresa.

— Estranho... – murmuro, num falso tom de incredulidade Será que ela dormiu no casebre!? sugiro, cerrando os olhos, rezando para realmente estar sendo convincente.

E por que ela dormiria lá? – Jamie estranha minha hipótese.

Não sei... – dou de ombros Mas ontem, quando entrei na casa, a vi saindo pela porta da cozinha e seguindo pela trilha que leva até o casebre – falo, muito convicta e sem qualquer vestígio de nervosismo.

— Então, vamos ver se ela está lá mesmo! – Belle sugere e observo que nenhum deles parece desconfiar de nada, acreditando no que falei.

Saímos como se estivéssemos numa comitiva, em busca de Regina Mills, e sinto a ansiedade crescer dentro de mim com a perspectiva de, finalmente, estar diante dela de novo, temendo que toda a encenação que fiz até agora, venha a baixo quando eles a encontrarem.

Quando estamos já na trilha, lembro que deixei Regina dormindo sobre um dos catres, enrolada apenas por um cobertor que encontrei dentro de um velho armário durante a madrugada. Todavia, por baixo, ela está completamente nua e a ideia de levá-los ao encontro da morena, agora, me parece muito estúpida.

Entretanto, não tenho nem tempo de pensar no que ainda poderia fazer para remediar essa péssima escolha porque ouço Jefferson gritar:

Parabéns, meu amor! – ao levantar a cabeça, o vejo erguê-la do chão e beijá-la com ímpeto na face. Noto que os cabelos de Regina ainda estão desalinhados e lembro da forma indelicada que os puxei ontem à noite. A minha culpa e a minha vergonha crescem exponencialmente nesse momento.

— Parece que a dormida no casebre não foi muito boa! – Belle observa, possivelmente notando a aparência desgrenhada da minha melhor amiga.

Ela sorri com o comentário da ruiva, sem notar minha presença ali.

— É... Decidi relembrar minha infância... Quando a gente sempre dormia aqui. Isso deve ser coisa de quem já tá beirando os 40 – brinca, provocando o riso deles — Mas a verdade é que esses catres nunca foram muito confortáveis – acrescenta, assim como eu, optando por esconder dos nossos amigos o que aconteceu ontem à noite. O que já era de se esperar!

Depois que ela termina de falar, Belle, Jamie e Aurora se aproximam para parabenizá-la e, neste instante, os olhos castanhos se fixam em mim. Por um átimo, sinto meu coração paralisar, não sei se de medo, de ansiedade ou de culpa. Pode ter sido por todas essas razões e mais algumas que não sei definir no momento. O fato é que, talvez pela primeira vez na vida, eu não consigo ler nada em sua expressão e isso só me deixa mais insegura.

De tão envolvidos e empolgados que estão em felicitar Regina pelo o aniversário, meus amigos parecem esquecer da minha presença e nem notam que eu não me aproximei para falar com ela.

Vamos, temos uma surpresa para você na cozinha! – Belle exclama, referindo-se ao bolo que eles prepararam e que deixaram em cima do balcão, quando “sugeri” que eles encontrariam Regina no casebre.

Então, Belle, Aurora, Jamie e Jefferson se viram, passando por mim e voltando para a casa, aparentemente sem perceber o clima tenso entre a aniversariante e eu. Parece que meus pés criaram raízes, pois não consigo sair do lugar onde estou e sinto meu coração batendo descontrolado, como se estivesse prestes a sair da caixa torácica.

Só transcorreram alguns segundos, desde que eles nos deixaram “sozinhas” e ainda ouço as vozes dos nossos amigos perto de nós. Seu olhar continua enigmático, fixo no meu. Uma forte brisa se move entre a gente, balançando os ramos das árvores e aumentando a sensação de frio que sinto no momento.

Parabéns, Regina! finalmente consigo movimentar os lábios, embora permaneça petrificada do pescoço para baixo, sem ter coragem para me aproximar dela e abraça-la, como seria natural entre nós.

Seu olhar adquire um ar diferente, efêmero, porém, mais uma vez, me frustro por não conseguir identificar o que eles expressam: se é raiva, se é decepção, se é mágoa... E, para piorar tudo, ela demora segundos, que mais parecem horas, para me responder.

— Obrigada, Emma! – por fim, fala, num tom muito baixo e, ato contínuo, movimenta-se na minha direção.

Penso que vai me abraçar, porém, não o faz. Simplesmente contorna meu corpo, afastando-se e deixando-me parada e sozinha no vazio do bosque.

Notas finais
– Até o próximo!!! :)