Entre Elas
13 I'm sorry! - Pt. 1
Notas iniciais
(22 de maio, segunda-feira: aniversário de Emma)
[Emma]
Estou no meu escritório andando para lá e para cá há cerca de vinte minutos. Olho para baixo, e não sei se é impressão minha, mas parece que o carpete começa a ficar mais desgastado no pequeno caminho que já percorri repetidas vezes.
O motivo da minha inquietação, claro, é Regina Mills e a sua total indiferença por mim. Ela me evitou de uma forma bastante eficiente no resto do dia anterior e preferiu voltar para a cidade com Jefferson, dispensando-me de uma forma tão fria que faria uma pedra de gelo ter inveja. Mas, eu sei que a culpa é toda minha por ser uma idiota que não soube controlar seus impulsos.
Agora estou pensando no que fazer para limpar a minha barra e sempre faço isso melhor enquanto caminho.
Não posso aceitar passivamente a atitude dela pois tenho medo que haja um afastamento irremediável entre nós. Também, nunca fui uma pessoa que consegue esperar que o tempo resolva as coisas, principalmente porque a solução dele pode não ser a melhor para mim.
Dou uma última passada e, de repente, estanco, tendo uma ideia. Lembrar de Jefferson, me fez recordar também da discussão boba que ele e as meninas tiveram, quando Jamie exigiu que o moreno precisaria leva-las para jantar como forma de se redimir da besteira dita.
Um jantar qualquer não seria suficiente, nem era novidade para nós, no entanto se usasse a criatividade poderia servir.
Faço o caminho de volta para a minha cadeira de encosto alto mais animada. Sento, fecho um processo que estava analisando antes de ficar ansiosa a ponto de não conseguir mais me concentrar e, apertando o botão do telefone que chama o ramal da minha secretária, digo: — Oberlin, venha até aqui, por favor.
Ela assente, porém, como de costume, demora cerca de quinze minutos para aparecer, mesmo a antessala, onde trabalha, não ficando distante daqui nem três metros.
Como sei que pressão não funciona nem um pouco com ela, fico olhando minhas últimas mensagens e e-mails no celular, enquanto espero sua boa vontade.
A moça loira, de olhos esverdeados, entra na sala esbaforida com alguns papéis na mão e antes que eu possa reclamar pelo seu atraso, comenta, fechando a porta atrás de si: — Emma, você não sabe o que estão dizendo... Aquela moça ruiva da contabilidade, que é casada, está tendo um caso com o motorista de Jefferson. Você sabe... Aquele bonitão, alto.
Só então tiro meus olhos do aparelho e fito-a com certo ar de censura, enquanto ela, colocando os papéis sobre a mesa, quase senta no móvel, um pouco virada para mim, numa atitude tão comum, quanto inapropriada.
— Eu sei de quem você está falando, Chanel. O que eu não sei é o que você tem a ver com tudo isso. – reclamo, tentando, inutilmente, parecer severa.
— Nossa, como está mal-humorada, chefinha... – retruca, descendo da mesa e sentando-se na cadeira, de frente para mim. — Dormiu sozinha? – pergunta, aumentando ainda mais meu aborrecimento com ela.
Faço uma cara de pouquíssimos amigos, de maneira a responder sua pergunta sem emitir palavras.
— Já vi que sim... Enfim... Do que precisa?
— Que bom que perguntou, srta. Oberlin... – respondo de forma sarcástica e a secretária revira os olhos, antes que eu complete: — Eu preciso que faça duas coisas: primeiro, compre flores. Você sabe quais são as melhores para um pedido de desculpas? Ouvi dizer que tem umas adequadas para isso. Depois, localize Eugenia Lucas, no Granny’s, em casa, ou onde quer que ela esteja e passe a ligação para mim. – finalizo, só então deixando espaço para que a outra fale.
— Ufa! Nem faço ideia de que flores são essas para pedir desculpas. Sou secretária, não florista. Porém, isso não é difícil de descobrir... Localizar Granny a essa hora do dia, talvez seja mais difícil, mas eu dou um jeito... O que eu queria saber é o que andou aprontando, Emma Swan?
— E eu queria que você fosse uma secretária menos bisbilhoteira, no entanto, estou aqui tendo que lidar com a sua curiosidade. Então, aceite! Não se pode ter tudo na vida.
Ela faz uma cara de insatisfação, mas levanta, resignada, dizendo: — Ok, já entendi! Vou providenciar o que pediu. Para quem mando as flores?
— Regina Mills – digo de forma displicente, abrindo novamente o processo que terei que voltar a estudar
Só que não demoro muito tempo a fita-la novamente, quando a ouço exclamar: — Regina? O que você fez com ela?
— Ela me fez muitas perguntas desnecessárias, tirou a minha paciência e eu dei umas palmadas nela. Agora vou lhe dar flores e leva-la para jantar como compensação. Mas nem todo mundo tem essa sorte... Vou redigir uma mensagem que você deverá passar à floricultura para que eles providenciem um cartão que acompanhe as flores. Venha pegar daqui a pouco.
Percebendo a ironia e a ameaça implícita, ela não diz mais nada e vai em busca da porta tencionando sair. Só que para a ação de girar a maçaneta, voltando a cabeça na minha direção novamente.
— Ah, já ia esquecendo... Tina Bell ligou umas três vezes hoje de novo. Eu disse que não está, que não tem hora para voltar, como pediu, só que ela continua insistindo...
— É assim mesmo... Eu não estou e jamais estarei para a Srta. Bell. Tenho muitas coisas para cuidar. Não posso perder tempo com ela.
A jovem parece espantada e pergunta: — Jura que não tem pena?
— Não! – nego, segura. — E se esse comentário quer dizer que você tem, convide ela para sair e a console. – finalizo e, para minha surpresa, tenho a impressão que a secretária está ponderando.
— Sabe que essa talvez não seja uma má ideia... – a loira, enfim sai, fechando a porta.
Quando deixa a sala, fico me perguntando por que aceitei o pedido do meu amigo Joe Oberlin, para empregar sua filha desregrada, com intuito que ela aprendesse a ter responsabilidade. Não sei até onde isso foi bom para mim. Às vezes sinto falta daquele tipo de secretária padrão, certinha, organizada, com postura marcial, que sempre me chamaria de Srta. Swan e não ficaria querendo se meter na minha vida.
Apesar de ser inteligente e até mesmo competente, dependendo do ponto de vista, a estudante de direito é dispersa, dada a fofocas, intrometida e indisciplinada demais.
Creio que o fato de ter pedido algumas vezes que ela me ajudasse a conseguir encontros com as clientes não contribuiu muito para que me respeitasse como sua superior.
Acho que essa é mais uma culpa que tenho e com a qual terei que lidar ainda por muito tempo.
(...)
— Granny, como vai?
Depois de uma hora, Chanel colocou-me em contato com a velha senhora, mas não sem antes valorizar a dificuldade que teve em localiza-la, como imaginava.
— Bem, Emma! Há quanto tempo... Sua secretária, uma moça muito simpática, por sinal... –reviro os olhos sem querer e fico feliz que Eugenia não possa me ver nesse momento — disse que você precisava falar comigo. Isso é tão atípico que até estranhei.
— Espero que não esteja muito ocupada... Prometo que será rápido! – realmente não quero tomar muito o tempo dela e vou direto ao assunto: — Gostaria de saber qual a possibilidade de você abrir o Granny’s hoje especialmente para mim. É o meu aniversário.
Ela emite um som baixinho que me dá a impressão que o pedido a pega de surpresa.
— Bem... Você sabe que segunda nós fechamos e os funcionários ficam de folga...
— Eu sei! Por isso mesmo estou pedindo. Não será preciso cancelar reservas e tudo o mais... Ofereça o que quiser para alguns deles trabalharem, por minha conta. Nem precisam ser muitos, porque não será exatamente uma festa. Veja esse como o pedido de uma grande amiga sua e da sua neta. – friso para que ela realmente leve a nossa longa amizade em consideração.
A mais velha fica em silêncio por alguns minutos, parecendo avaliar a proposta, respondendo em seguida: — Ok, Emma! Não posso recusar nada a você, principalmente no dia do seu aniversário.
Faço uma expressão de pura felicidade e soco o ar com o punho fechado emitindo um “yes” mudo.
— Obrigada, querida! Se estivesse aqui agora daria um beijo na sua boca, juro!
Granny dá uma risada expansiva.
— Você não tem jeito, Emma Swan!
— Só mais uma coisa... Deixe a cozinha por conta do sous-chef¹ e não diga nada a Regina. Ela será minha convidada especial. – declaro.
(...)
[Regina]
Acordei já há algum tempo, apesar de hoje ser meu dia de folga e poder dormir até mais tarde. Mas, na verdade, quero organizar umas coisas em casa, porque passei todo o final de semana fora e, se não começar a fazer isso cedo, acabo ficando com muita preguiça ao longo do dia.
Quando são quase 10h da manhã, o interfone toca e o porteiro avisa que há um rapaz usando um uniforme de floricultura trazendo uma encomenda para mim em nome de Emma Swan.
É algo surpreendente. Emma me mandando flores? Não posso acreditar, mas o autorizo a subir para constatar que a minha amiga, de fato, enviou-me um lindo e enorme buquê de tulipas brancas.
— Hum, Swan... Então, você tem consciência que fez algo errado... Isso é interessante! – falo comigo mesma, enquanto procuro um possível cartão que as acompanhe, depois que o rapaz vai embora.
Ao encontra-lo, passo a lê-lo em voz alta, porque quero me convencer que isso está mesmo acontecendo.
Regina,
Nos conhecemos desde sempre e não é segredo para você que eu sou a rainha suprema quando se trata em fazer merdas com as pessoas. E eu, na verdade, estou me lixando para a maioria delas. Você sabe também! Mas quando eu te magoo é diferente, porque você é quem mais importa para mim e não posso conviver bem com o fato da minha melhor amiga ficar tão brava comigo. Você deve estar rindo agora do fato de tê-la mandado flores, junto com esse cartão ridículo. Eu sei que disse que jamais faria isso por ninguém, nunca, mas foi a forma que encontrei para que possa ver o quanto estou arrependida, até o ponto de fazer uma pieguice dessas. O meu pedido de desculpas começa aqui e termina às 19 horas, quando eu irei busca-la para algo especial que estou preparando. Por favor, diga que aceita! Por favor, por favor, por favor... Beijos.
Emma.
Respiro fundo e não posso crer que ela teve a coragem de ditar essa mensagem para um funcionário da floricultura, o que torna sua atitude além de imprevisível, ainda mais fofa, afinal estamos falando de Emma “não perco tempo com gentilezas” Swan. Então, vamos dizer que minha raiva por ela diminuiu um pouco agora.
Na verdade, eu não sei se Emma compreende exatamente o que mais me machucou em tudo isso. Não foi o fato de ter feito sexo comigo de forma pouco carinhosa, de ter me subjugado tanto, nem mesmo por ter me chamado de puta na cama.
Não sou uma puritana. E devo admitir que tudo isso me excitou muito, mesmo diante da dúvida sobre o que aconteceria com a nossa relação a partir dali e sabendo que as coisas iam ficar mais confusas. Eu também desejei aquilo.
O que me deixou decepcionada foi o fato de ter me abandonado naquele casebre, em cima daquele catre, enquanto eu dormia. Ela agiu comigo da mesma forma que agiria com qualquer uma que tivesse transado com ela, evitando estar ali quando eu despertasse. E posso ter sido tola, mas achei que comigo seria diferente.
Enfim, o cartão pede uma resposta, e embora esteja muito curiosa e disposta para ver o que Emma está preparando, não ligarei para ela.
Ao invés disso, mando uma mensagem seca para o seu celular: Ok. Recebi as flores. Estarei esperando na hora mencionada.
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