Entre Elas
14 I'm sorry - Pt. 2
Notas iniciais
[Regina]
São 19:40h e estou pronta esperando Emma chegar. Coloquei um vestido vermelho bordado, com pequeno drapeado na lateral. O decote traz um tecido da mesma cor, levemente transparente.
Sempre achei que esse detalhe confere à peça certa sensualidade, porque não permite um completo vislumbre dos seios, mais insinuando do que mostrando. Então, não foi ao acaso que o escolhi para esta noite.
O comprimento não perpassa os joelhos, estando só um pouco acima deles.
— Fico sexy com ele?
— Com certeza!
Foi a pergunta feita por mim e a resposta que o espelho devolveu, ao me ver refletida, quando terminei a maquiagem um pouco mais forte do que a habitual.
É a primeira vez que me arrumo para Emma e quero que ela me ache simplesmente deslumbrante hoje. Talvez eu a torture um pouco, só pra me vingar.
Sentada no sofá da sala, verifico no celular as comunicações dos grupos do Whatsapp e surpreendo-me quando vejo o “Granny’s Squad” parado em plena segunda-feira. Este é o dia da semana em que mais há mensagens, gifs, vídeos idiotas, além de fotos tiradas na folga, sendo enviadas pelos meus colegas.
Mas logo, vendo que o relógio do aparelho já marca 19:50h, não penso mais nisso, porque Swan havia pedido em uma mensagem mandada à tarde que a esperasse do lado de fora do prédio às 20h em ponto. Então, coloco o smartphone na bolsa de mão e deixo o apartamento.
O elevador demora um pouco mais que o normal entre o segundo e o terceiro andar. Imagino que um morador do prédio deva estar descarregando compras ou, talvez, segurando-o despretensiosamente enquanto conversa com alguém do lado de fora. Já vi isso acontecer muitas vezes.
Devido aos minutos perdidos, chego na calçada em cima da hora marcada, mas a tempo de ver uma limousine preta reluzente ainda estacionando em frente ao prédio.
— Essa extravagância só pode ser obra de Emma! – falo com meus botões, sorrindo e observando o chofer do veículo descer e colocar-se na minha frente com postura elegante, em seu uniforme branco.
— Srta. Mills? – pergunta, de forma retórica, inclinando o corpo levemente, com uma das mãos colocadas para trás e a outra retirando o quepe da mesma cor do uniforme.
Quase não consigo evitar uma gargalhada diante da cena tão exagerada, porém entro no jogo: — Sim! — e sorrio prendendo um pouco os lábios.
— A Srta. Swan solicitou que a apanhasse e conduzisse até certo local onde lhe espera – declara, já com a postura ereta.
Surpreendo-me: — Ela não está aí? – aponto a limousine.
— Não... Como disse, ela a espera em outro lugar – apesar de estar se repetindo, o tom do homem é gentil, e ele abre a porta de trás, fazendo um gesto me convidando a entrar.
Tenho a certeza de que todo esse mistério foi solicitação da loira, com a intenção que eu ficasse ainda mais ansiosa, sendo totalmente bem-sucedida. Então, desejando saber logo o que me espera, embarco rumo a um destino ainda ignorado.
(...)
Quando o chofer estaciona o imponente carro junto à calçada em frente ao Granny’s, minha expressão é de pura incredulidade.
De tudo que imaginei, dos cenários que me passaram pela cabeça, ser levada ao meu próprio local de trabalho jamais esteve entre eles.
“O que você aprontou, Emma Swan?” Indago mentalmente pela enésima vez, ainda mais intrigada.
O ritual do desembarque, segue, basicamente, o mesmo do embarque, com o motorista abrindo a porta e oferecendo a mão com cortesia.
Vejo na entrada, expectante, e com o largo sorriso que sempre usa para receber os clientes, a hostess, Giulia, uma ítalo-americana, loira, bonita e muito alta. Agora começo a entender o silêncio no grupo.
— Boa noite, Srta Mills! – cumprimenta-me como se estivesse recebendo a uma desconhecida.
— Boa noite, Giulia! Será que estou tão diferente a ponto de não me reconhecer? – brinco.
— Não, Srta. Mills... – repete o tratamento — Mas a ordem da casa hoje é que lhe chame assim. Minha atribuição é conduzi-la até onde a esperam.
“Até onde a esperam… Isso de novo? Cadê Emma? Achei que iria me buscar em casa e não foi. Achei que viesse me receber quando chegasse e me enganei também.”
Giulia fez um sinal para que a seguisse e obedeci. Foi estranho passar entre as mesas vazias. Se hoje fosse outro dia da semana, por essa hora, boa parte já estaria ocupada por pessoas que fizeram reservas, dias, às vezes até um ou dois meses antes, pois o Granny´s é um dos restaurantes mais disputados de São Francisco.
Vejo que as luzes do hall estão todas acesas, o que faz lembrar ainda mais um dia normal de funcionamento.
Continuo acompanhando a moça, calada, embora nada paciente, enquanto fazemos uma grande volta pelo amplo salão. Não vejo mais nenhum dos meus colegas pelo caminho. Mas fico imaginando quantos deles devem ter sido arregimentados por Emma.
Subimos uma escada lateral, com degraus curtos e uns dois lances, que leva à sacada, usada apenas em reservas especiais.
A hostess, chegando ao topo primeiro, espera por mim, e quando o alcanço declara: — Agora você segue sozinha, Srta. Mills. Conhece o caminho, então não preciso ensiná-la. A pessoa que lhe espera, está aqui em cima. – completa, abrindo a porta para mim.
“Finalmente”, penso.
— Obrigada! – agradeço-lhe, enquanto ainda segura a porta.
— Não há de quê, Srta. Mills... Tenha uma noite agradável! – é a última coisa que diz antes de fechá-la totalmente, deixando-me com o coração disparado de ansiedade.
A iluminação da sacada é naturalmente mais baixa que a do resto do prédio, propositalmente, para conferir ao local um ar mais intimista.
Geralmente não há muitas mesas aqui em cima, mas percebo que todas foram retiradas, a exceção de uma, que enxergo, quando deixo o pequeno espaço à frente da porta e sigo para o corredor mais largo.
A mesa é pequena, posta para duas pessoas e decorada em tons de branco e vermelho, toalha e guardanapos seguem este padrão. Rosas, nas mesmas cores, foram cuidadosamente espalhadas entre os espaços deixados por pratos, talheres e taças. Dois pequenos arranjos com velas ornamentais repousadas sobre eles completam o tom romântico.
Relanceando o olhar para o lado oposto, vejo Emma próximo à amurada de madeira rústica da sacada, displicente, com um dos cotovelos apoiados na superfície, e a outra dentro do bolso da calça que usa.
Ela está linda vestindo terno preto de corte bem feminino, ajustado ao corpo e uma camisa branca por dentro. Belos brincos de prata adornam suas orelhas.
Ficamos nos olhando à distância por um momento e noto a surpresa dela ao me ver. Era exatamente esta a expressão que desejava contemplar em seu rosto. Pode ser apenas impressão minha, mas acho que a vi reprimir um suspiro.
No entanto, caminha confiante até a mesa, ainda sem dizer nada e puxa a cadeira, convidando-me com um gesto para sentar.
Fico estarrecida com este tipo de gentileza vindo dela. Deveria estar me divertindo, justamente por ser Emma a fazer tudo isso. Mas, por conhecê-la há tanto tempo, sei que o que está tentando dizer é algo como: “Realmente estou arrependida. Você não é como as outras… Sabe que não faria nada parecido por mais ninguém”. Então, só posso ficar muito feliz com a sua atitude.
Aceito a cortesia, sentando e colocando a bolsa de mão sobre a mesa. Emma faz a volta lentamente, acomoda-se de frente a mim.
— Você está linda, Regina! – sua voz soa incrivelmente sedutora.
— Você também, Emma! – tento fazer o mesmo.
— Surpresa com o que preparei? – abre o guardanapo e o ajeita no colo.
— Acho que surpresa não define bem o que estou sentindo. Chocada é uma palavra melhor – confesso, espelhando o gesto dela.
Emma sorri amplamente.
— Sabia que ia adorar! Copiei um monte de clichês daqueles filmes água com açúcar que você ama e eu detesto – ela sempre tão delicada quanto um elefante numa loja de cristais.
— Você tem consciência que essa declaração diminui um pouco o efeito de tudo isso, né? – lanço-lhe um olhar reprovador.
— O efeito que eu esperava já ocorreu. Você está aqui, falando comigo, sem parecer que me odeia – esse comentário suaviza o anterior e esboço uma leve expressão de alegria.
— Eu só não sei como vou aguentar a zoação do pessoal depois disso. Você pediu pra Giulia me chamar de Srta. Mills? – decido mudar de assunto.
— Sim. A ela e ao garçom que vai nos servir esta noite… – revela, dando de ombros.
— Por quê!?
— Pra você esquecer que está no seu local de trabalho.
— Isso é impossível, Emma! – meneio vagarosamente a cabeça, meio que fazendo pouco caso de sua boba, apesar de fofa, intenção.
— Era pra criar um clima diferente… Achei que tivesse mais imaginação – comenta num tom provocativo, bebendo um pouco de água.
— E eu pensei que você achasse fantasia uma besteira – não posso perder a chance de ser sarcástica com ela.
— Nem toda... – pisca o olho — Eu pedi ao sous-chef para preparar seu prato favorito – emenda outro assunto.
— Hum… Parece que pensou em tudo… – observo, realmente admirada.
— Mas o vinho você escolhe... Sempre foi melhor nisso do que eu.
— Desculpa por não ter agradecido as flores. Adorei o “por favor, por favor, por favor” no final do cartão – confesso, e não consigo reprimir a mesma sensação que tive ao lê-lo e acabo sorrindo de orelha a orelha.
— Do que você está falando? – franze a expressão — Ele não terminava assim – parece muito surpresa.
— Foi você quem ditou… Pra floricultura?
— Não… Eu fiz um rascunho e pedi que Chanel ditasse – fala e fica sisuda ao citar o nome da sua secretária meio louquinha.
— Ah, entendi… Acho que foi uma pequena licença poética dela, assim como o “rainha suprema em fazer merdas com as pessoas”... – logo imaginei que essas partes realmente não podiam ter saído da cabeça de Emma. Já achei um grande avanço ela ter me enviado flores com um cartão.
— Ela mandou escrever isso no cartão!? – arregala os olhos.
— Mandou… E essa parte acho que se encaixava bem no contexto. – não consigo reprimir o comentário.
— Você pretendia me evitar por muito tempo? – sua pergunta é meio infantil, o que me faz crer que ela realmente temia que eu agisse assim.
— Eu não sei, Emma! Não pensei em te evitar por um tempo determinado… Apenas estava magoada. Mas prefiro que a gente não fale mais sobre isso – expresso, realmente desmotivada a retomar a razão que nos trouxe até aqui.
(...)
Terminamos de degustar os pratos principais há algum tempo. Confesso que achei linda e delicada a atenção dela em pedir que a cozinha preparasse um prato com Kobe beef. Aprecio bastante essa carne japonesa, sobretudo da forma como foi cozinhada: marinada em xerez seco, com queijo manchego, pimenta malagueta e pistaches.
Em outra situação, acharia meio invasivo alguém escolher por mim o que comer, mesmo sendo meu prato preferido. Porém, como Emma é uma pessoa tão egocêntrica e pouco preocupada em satisfazer os outros, o fato de saber exatamente o que me agrada traz muito significado.
Agora estamos apenas bebendo o vinho que escolhi para acompanhar, um Bordeaux tinto, encorpado e de boa safra.
A bebida naturalmente me deixou mais solta e agora não há sombra daquela mulher contida que chegou aqui para encontrar sua amiga, com quem ainda estava um pouco aborrecida.
Então, não foi difícil a conversa passear por lembranças alegres do passado, como geralmente acontece quando amigos de longa data põem-se a beber juntos.
Alguém, de repente, diz: “você se lembra de…?” e, pronto, cada um tem uma história para relembrar e as horas vão passando.
— Me lembrei agora da última vez que dançamos juntas… – externa, como se fizesse um comentário casual, embora eu perceba seu olhar desviando do meu por um breve instante.
— Nossa… faz tempo mesmo! – concordo, franzindo o cenho, buscando na memória quando isso aconteceu pela última vez.
Ela percebe minha expressão pensativa e comenta: — Foi no dia do seu casamento…
Abro os olhos completamente espantada: — Faz tanto tempo assim?
Swan balança positivamente a cabeça e seu ar enigmático me faz crer que alguma coisa inesperada vai acontecer. Minha suspeita se confirma quando vejo surgir, não sei de onde, três violinistas usando trajes formais, tocando Autumn Leaves.
— Essa foi a música que dançamos… – expresso, boquiaberta.
— Confesse que você não esperava que eu ainda fosse capaz de surpreendê-la essa noite! – observa, levantando-se e abrindo o único botão do blazer, em seguida oferecendo-me a mão: — Vamos dançar? – pede-me em seu tom mais charmoso.
Aceito o convite e aperto-lhe os dedos, permitindo que Emma passe o outro braço em volta da minha cintura, enquanto nossas mãos permanecem unidas repousando em cima do seu peito.
— Sabe, nunca falei sobre isso antes, mas, naquele dia, Killian e eu tivemos nossa primeira discussão depois de casados por sua causa – revelo, com o rosto encostado no dela.
Ouço o som baixo de sua risada, antes de ouvi-la perguntar: — Por quê?
Movo a cabeça para debruça-la no seu ombro: — Ciúmes… Ele ficou irritado porque dancei a última valsa da noite com você!
— Que idiota! Já devia saber que esse sempre foi um privilégio da melhor amiga da noiva – brinca e sinto que enterra o nariz no meu cabelo para cheirá-lo.
Seu comentário, apesar de divertido, me faz pensar, uma vez mais, na natureza “estranha” do nosso relacionamento. Afinal, quantas mulheres terminam a festa de seus casamentos dançando com as melhores amigas e não com os noivos?
— Mas, de certa forma, todos os meus namorados sempre tiveram ciúmes de você! – não sei se é o vinho, não sei se é a melodia romântica que ressoa dos violinos, só sei que sinto uma forte necessidade de continuar com o mesmo tema.
— Na verdade, eles sabiam que não podiam competir comigo! – afirma, nada modesta — Eu sempre fui o amor da sua vida, Regina Mills! – continua no seu tom brincalhão, enquanto seguimos os passos lentos da dança, deslizando suavemente pelo piso de madeira.
Um pouco distante, observo a Golden Gate, iluminada por lâmpadas altas e baixas que acentuam a beleza Art Déco desse monumento da era moderna, transformando a paisagem de São Francisco num verdadeiro cartão-postal.
Subitamente, lembro que em virtude de ter passado o dia de ontem e o de hoje magoada com ela, ainda não a parabenizei.
Sentindo-me muito culpada por esse lapso, afasto o rosto do seu ombro e a encaro: — A propósito, feliz aniversário! – esboço um sorriso um tanto constrangido, mas ela parece ficar satisfeita com a minha, mesmo que tardia, lembrança, pois seus olhos e lábios se curvam numa reação genuinamente feliz.
Por um momento, ficamos apenas nos entreolhando. Devagar, Emma solta a mão da minha. Ato contínuo, toca o meu queixo, erguendo-o um pouco mais. Sentindo-me prisioneira do seu olhar magnético, percebo que ela inclina a cabeça e, sem que eu resista, sela nossas bocas.
O beijo começa lento. Os lábios dela apenas se esfregam calmamente nos meus. A mão que antes tocava-me o queixo, sem demora se fecha sobre a minha nuca. Ergo os braços e a envolvo pelo pescoço, trazendo-a para mais perto.
De olhos fechados, sinto a língua macia me invadir a boca, esfregando-se, girando e se enroscando com a minha, numa sensual exploração. Suspiro, extasiada, quando a outra mão de Emma desce até o meu quadril e se espalma, apertando-me a nádega e unindo mais os corpos.
Só percebo que a música parou de tocar quando o beijo é interrompido. Ainda meio tonta e ofegante, olho ao redor, verificando que estamos sozinhas: — Onde estão os músicos? – questiono, confusa.
— Sumiram com um passe de mágica! – responde, divertida.
Passo o dedo no contorno dos seus lábios bem desenhados para limpar os resquícios de batom borrado, imaginando que os violinistas devem ter saído discretamente quando começamos a nos beijar.
Nossos olhos se encontram novamente, mas, antes que eu possa fazer qualquer comentário, Emma profere: — Quer ir para outro lugar?
Noto um mal disfarçado desejo em seu timbre rouco e no brilho de suas íris verdes.
Antes de responder, saio do seu abraço, vou até a mesa e pego minha bolsa. Emma permanece parada no mesmo local e, quando volto para perto dela, identifico um quê de ansiedade em seu semblante.
Sem mais hesitar, pronuncio um “sim”. Ela sorri amplamente, une nossas mãos e me leva embora do Granny’s para um novo destino ignorado. Penso que, uma noite repleta de surpresas como esta, não poderia terminar de outra forma.
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