Entre Elas
17 Felizes para sempre?
Notas iniciais
[Mary Margaret]
Fazia alguns dias que praticamente não saia de casa. Henry esteve doente. Ele tem uma certa tendência a ficar com as amígdalas inflamadas e, desta vez, a recuperação durou mais de uma semana.
Como David passa a maior parte do tempo viajando, tive que me desdobrar entre a assistência que meu filho mais velho precisava e a atenção que Leopold sempre exige, por estar em uma fase de total dependência.
Mas, assim que Henry ficou curado, mamãe levou os dois para passar o final de semana na casa do lago e pude ter algum tempo para mim.
Margaret Swan adora “corujar” os netos. Ela sempre reclama com Emma por também não ter lhe dado ao menos um. É um clichê que faça uma longa preleção sobre a necessidade de ter uma esposa e um lar, principalmente depois que passou dos trinta.
Jamais houve problema em nossa casa por ela ser lésbica, apenas por não conseguir se fixar em uma relação. Quanto a isso, há muita cobrança por parte da nossa mãe e, em menor grau, por papai também.
Eu, nunca me posicionei. Acho que ela tem todo o direito de viver a vida como bem entender. Não a julgo. A amo e quero que seja feliz. Quem e quantas mulheres Emma leva para a cama definitivamente não é problema meu.
Para aproveitar o sábado livre, já que David precisou ir ontem para Sacramento e só volta na segunda, convidei Regina para almoçar comigo em um dos restaurantes do Píer 39, um dos melhores lugares para se degustar frutos-do-mar em São Francisco.
Fiquei muito feliz por ela ter podido sair comigo. A maior parte das minhas amigas hoje em dia são mães e donas de casa como eu, por isso, quando saímos, nossas conversas, invariavelmente, giram em torno de maridos e filhos. É bom de vez em quando ter a oportunidade de desfrutar da companhia de alguém para quem esses assuntos sejam estranhos. Foi por sentir falta disso que me reaproximei do grupo nos últimos tempos. Além do mais, não posso negar que estava com saudades.
Mas, desde que chegamos, tive a leve impressão de que Regina está um pouco distante. Cumprimentou-me de uma forma diferente, pouco falou, parecendo meio dispersa, claramente desconfortável.
— Você está tão calada. Não gostou da escolha do restaurante? – Decidi sondar.
A minha voz pareceu arrancá-la de seu devaneio e ela sorriu para mim de uma forma encantadora, mas não respondeu de imediato.
— Eu gostei sim. – Fez uma pausa. – Estava lembrando da última vez que estive aqui. Emma quase fez um escândalo por ter encontrado um cabelo no prato dela. – Revelou, mas pela forma sem jeito com que falou de uma coisa tão banal, deixou-me a sensação de ter usado a lembrança para não revelar o que pensava realmente.
— Isso é bem Emma. – Também sorri. – Por falar nela, você sabe o que minha irmã anda aprontando? Não apareceu lá em casa esta semana.
— Não. – Respondeu, tomando um pouco do vinho que pedimos para acompanhar a refeição. – Também não a vi nos últimos dias.
Fiquei espantada com essa informação. Não é nada comum Emma e Regina passarem tanto tempo sem se ver.
— Algum problema? – Questionei, curiosa, porém tentando não soar invasiva.
Estranho o suspiro resignado antes da resposta.
— Nenhum. Tivemos um pequeno desentendimento. Desses que logo passa. – Deu de ombros. – Em breve, estará tudo bem.
Na sequência, muda de assunto: – O que quer fazer depois daqui? Reservei a tarde toda para você.
— Nossa... Como eu estou importante. – Brinquei, mas, feliz em saber que estarei em sua companhia por mais tempo. – O dia está tão bonito. Podíamos fazer um passeio de barco aqui no píer mesmo. O que acha?
Ponderou rapidamente.
— Acho uma ótima ideia. Há anos não ando de barco.
Ao terminarmos o almoço saímos do shopping para pegarmos dicas sobre o horário de saída das embarcações que fazem a volta pela baía, passando sob a Golden Gate.
Um senhor bastante gentil, que estava por ali soltando um pequeno iate onde se lia no casco “Queen of the sea”, em letras vermelhas, nos informou que não demoraria muito para zarpar uma balsa que faria justamente o percurso que desejávamos, só precisaríamos esperar cerca de meia hora.
Sentamos para aguardar a saída em um banco em frente ao píer. Para nossa felicidade, apesar do bom tempo, o sol não estava muito forte, nem fazia calor, mesmo sendo 14h.
Enquanto esperávamos, Regina pareceu mais animada. Qualquer coisa que a estivesse aborrecendo antes, devia ter abandonado o seu pensamento. Para passar o tempo, contei-lhe a história hilária que aconteceu com Ruby e Zelena em Bora-Bora, que nem ela nem Emma ouviram, por chegarem atrasadas no dia que fomos ao Irish Café.
A vi chorar de tanto rir. Pela primeira vez, me dei conta do quanto vê-la feliz pode me fazer bem. Mesmo sem querer, lembro que costumava me sentir assim sobre David no início.
— Eu daria meu braço direito para estar lá e ver isso. – Disse, enxugando os olhos.
Sorrio também, embora de uma forma mais contida, afinal a história não era nova para mim.
— Eu também. Embora desse muito mais para viver assim como elas. Sinto falta de uma loucura na minha vida de vez em quando. – Comentei, bastante sincera.
O sorriso dela se desfez instantaneamente. Seus olhos pousaram sobre mim, interessados. Com uma expressão muito séria, indagou: – Posso te fazer uma pergunta?
— Claro. – Respondi sem pensar.
— David ainda consegue fazê-la feliz de alguma forma?
O questionamento direto e inesperado, me pega de surpresa. Não sei se estou pronta para responder isso da melhor forma, mas faço um esforço, afinal não tenho mais ninguém com quem falar sobre os problemas do meu casamento.
Desvio meu olhar para o mar, abarrotado de grande e pequenas embarcações, pondo-me a divagar, percebendo a atenção dela toda voltada para mim.
— Há alguns meses eu teria uma resposta pronta. Mas agora eu não sei mais. – Passo a mão pelo cabelo. – Abri mão de tanta coisa por esse relacionamento. E, até bem pouco tempo, eu via isso como uma grande prova de amor. Só que agora, me pego questionando tanta coisa… – Senti a mão dela passando lentamente pelas minhas costas, porém me deixa continuar: – Mas a culpa não é só dele, sabe? – Voltei a encará-la – Não quero dizer que sou infeliz por causa de David ou do que ele fez. Seria injusto. Na verdade, eu acho que não sou feliz porque fiz muito pouco por mim mesma nos últimos dez anos.
Durante um bom tempo ficamos em silêncio, fitando uma à outra. Por um momento, apesar do fluxo constante de pessoas passando por ali em direção ao píer e ao shopping, senti como se estivéssemos sozinhas, envolvidas pela cumplicidade que compartilhavámos.
— Moças, a balsa que vocês querem pegar está chegando. – O senhor simpático que nos ajudou, ainda no mesmo lugar, grita, nos trazendo de volta à realidade.
(...)
O passeio foi ótimo. Melhor do que eu poderia imaginar. Apesar da balsa estar lotada, principalmente de turistas, como é comum aos sábados, conseguimos aproveitá-lo com tranquilidade, apreciando o belo cartão postal que a baía e a ponte formam.
— Fiquei com medo de enjoar. – Regina falou assim que descemos do barco.
— Quando estava grávida de Henry, fomos a Illinois visitar uns amigos e fizemos um passeio pelo Rio Chicago. Passei muito mal. Achei que fosse morrer.
Voltávamos para o píer, ainda movimentadíssimo.
— Para onde vamos agora? – Ela perguntou bem disposta.
— Agora é você quem escolhe.
Estávamos andando lentamente, na direção do carro dela, parado a poucos metros dali. Eu tinha chegado ao shopping de táxi, então qualquer que fosse a escolha, era nele que iríamos.
— Nós poderíamos apenas rodar por aí. Se avistarmos um lugar legal, paramos e ficamos. – Sugeriu assim que o alcançamos.
Fizemos desta forma. Saímos do Píer 39 e seguimos pelas largas ruas de São Francisco. O som do carro ligado, uma música animada. Começava a achar que depois de um bom tempo, teria um dia absolutamente perfeito.
Pensando nisso, olhei para Regina, bastante concentrada no trânsito e sorri. Depois, virei o rosto rapidamente para o outro lado, olhando através da janela. E foi aí que meu mundo, já não muito estável, terminou de ruir.
Vi David, meu marido, o homem que devia estar agora em Sacramento a trabalho tranquilamente sentado do lado de fora de um café, acompanhado por uma mulher jovem, loira e muito bonita.
— Pare o carro! – Falei, de repente, obedecendo a um impulso.
Regina olhou para mim espantada, claramente sem entender nada, mas, obedeceu, reduzindo a velocidade e parando próximo ao meio-fio.
— O que foi? – Questionou, apreensiva.
Não respondi. Ao invés disso, as lágrimas começaram a rolar. Não só por saber que ele estava mentindo para mim novamente. Isso era o de menos agora. O que me doeu de verdade foi finalmente constatar o que tínhamos nos tornado: dois traidores. Imediatamente pensei em Henry e em Leo e no lar saudável que definitivamente não temos mais condições de oferecer a eles.
— Por favor, só me leve para casa. – Pedi, fitando-a com olhos turvos.
(...)
— Mary? – Ouvi a chave girando na porta e, na sequência, a voz de David me chamando, ao entrar na sala, vendo tudo escuro. – Que breu é esse? – Ele questionou mais para si.
Eu estava sentada no sofá. Arrumei as malas e fiquei esperando ali, remoendo meus pensamentos.
Se eu não o conhecia o suficiente para perceber que estava me traindo antes que confessasse, conheci o bastante para prever que voltaria para casa ainda hoje, fingindo que chegou antes para me fazer um surpresa. Quantas vezes ele fez isso antes que soubesse a verdade? Quantas vezes eu acreditei nessa mentira?
Eram 20h30 quando entrou na sala. Eu acendi a luz e o vi sobressaltar-se.
— Amor, o que você está fazendo aí no escuro? – Ele perguntou, aproximando-se. Mas vendo as malas, estancou.
— Não perca tempo dizendo que voltou mais cedo, David. Sei que você não esteve em Sacramento. Eu vi. – Falei calmamente.
Foi dessa forma lamentável e melancólica que começou a conversa que poria um ponto final no meu casamento de dez anos.
[Emma]
Sábados são dias em que sempre saio de casa ou, pelo menos, não fico sozinha, principalmente à noite. Mas, neste, eu não estava com muito ânimo para ir a lugar nenhum nem de estar com ninguém.
Depois do meu momento “bola fora” no Irish café, Regina e eu não nos vimos, apenas falamos rapidamente por mensagens. Pela primeira vez na vida, acho que estou sentindo o peso moral de uma besteira que fiz e isso resultou em uma semana de reclusão, na qual fui vista apenas no trabalho, voltando logo depois para casa e não saindo mais.
Me virei com comida congelada, já que cozinhar não é mesmo o meu forte. Comecei um livro, cuja leitura estava adiando há um bom tempo. Maratonei Friends e Seinfeld, paralelamente, apesar de já ter assistido às duas séries completas mais de uma vez.
Às 22h, estava vendo o famoso episódio do “Soup Nazi”¹ quando meu celular tocou: Roxanne fazendo o que faz todos os sábados, desde que nos conhecemos. Queria me convidar para sair. Pensei em colocar no silencioso e deixar chamar até cair, porém sabia que ela insistiria, o que, provavelmente, faria com que me aborrecesse ainda mais. Então, resolvi atender, tratando de mostrar que não estava nem um pouco no clima de socializar.
Chamou-me para ir em uma boate nova, super badalada, que estava inaugurando neste fim de semana. Mas não sairia hoje daqui para uma boate nem que disso dependesse a minha própria vida, muito menos na companhia dela. Dei várias desculpas vãs, embora parecesse realmente determinada a me vencer pelo cansaço.
Quando o meu estoque de desculpas e minha paciência alcançaram o fim ao mesmo tempo, estava quase mandando-a ir à um lugar, que não sei se gostaria muito de “visitar”. Porém, antes de fazê-lo, a campainha tocou ruidosamente.
Aproveitando o ensejo, disse sem demora:
— Chegou alguém aqui. Depois nos falamos. Tchau. – Desliguei sem esperar qualquer resposta do outro lado, levantando do sofá, onde estava muito bem acomodada, para ver quem chamava.
Só que aí comecei a pensar que não deveria ter ficado feliz com alguém chegando na minha casa, de repente, sem avisar. Corria o risco de ser alguém ainda mais chata e impertinente que Roxanne.
Foi nessa vibe que abri a porta, e qual não foi minha surpresa ao ver Mary, parada, com duas malas no chão, uma de cada lado, os olhos vermelhos, como se tivesse chorado muito.
Fiquei totalmente sem ação, paralisada mesmo.
— Meu casamento acabou. – Ela falou, da soleira, com o seu jeito manso de dizer quase tudo.
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