Entre Elas
18 Entre irmãs.
Notas iniciais
[Emma]
A notícia da separação de Mary me pegou totalmente de surpresa. Já fazia um tempo que eu sentia que o casamento de contos de fadas deles não era mais o mesmo. Acho que desde a chegada de Leo, ou talvez até um pouco antes disso, eu passei a perceber que a minha irmã não era feliz como no início. Mas, jamais imaginei que tivesse coragem de abandonar David.
Eu não preciso ser casada para saber que um casamento não é algo nada fácil. Dormir e acordar diariamente ao lado da mesma pessoa e saber que todos os seus outros dias, ad eternum¹, serão repetições sucessivas de deitar e levantar com alguém que nem sempre vai ser quem você queria ao seu lado, para mim, é uma ideia pavorosa. Entretanto, as pessoas escolhem isso, abrem mão de coisas importantes por isso.
Jamais fui contra a união deles e, de verdade, torcia para que fossem felizes, porque amo muito a minha irmã para desejar à ela qualquer coisa diferente. Mas, no fundo, eu sabia que essa relação não podia acabar bem.
Não costumo confiar em homens que exigem de suas esposas que elas vivam apenas para a casa e os filhos. Sempre tenho a impressão que tipos assim tem uma grande vocação para carcereiros, construindo sólidas prisões ao invés de harmoniosos lares.
Por essa razão, não apoiei a decisão dela de sucumbir aos desejos do marido, abandonando sua profissão. Na época, tentei mostrar a o quanto essa situação a deixaria vulnerável, e que com o tempo, pareceria desinteressante para David. Sim, porque eles exigem que as mulheres abandonem tudo, porém depois as acusam de terem se tornado enfadonhas justamente por isso.
E uma coisa é você ser tão somente dona de casa e mãe, por ter escolhido essa vida, outra bem diferente é alguém decidir no seu lugar. Quando é dessa forma, não considero sequer justo.
Agora vejo que a minha teoria foi confirmada neste caso. Embora, não fique nem um pouco feliz em estar certa. Preferia muito mais que fosse eu, no final, a quebrar a cara.
— E como você soube disso? – Perguntei, enquanto entregava um copo com água.
Mary havia começado a contar a forma que descobrira a traição de David, mas assim que chegou ao ponto crucial, o choro a tomou novamente, como parecia já ter acontecido pouco antes de chegar aqui, segundo seus olhos denunciavam.
— Eu estava passando de carro e o vi em um café ou restaurante, talvez um bar, não tenho certeza... – Suas ideias, desconexas. – O fato é que ele permaneceu em São Francisco, com outra mulher, bem mais jovem... – Falava com a voz embargando. – Quando deveria ter ido a Sacramento e… – Voltou a chorar.
Eu já estava começando a ficar angustiada. Sabia que não poderia fazer muita coisa. Só ficava cada vez mais aflita em vê-la naquele estado.
— Calma, querida! – Sentei ao lado dela no sofá. – Beba um pouco da água.
Ela obedeceu. Suas mãos tremiam no início. Tive que ajudá-la. Então, tomou o líquido devagar e, depois, parecia mais recomposta.
— Desculpa! – Disse, assim que me voltei, tendo colocado o copo sobre a mesinha.
Olhou para mim tão desamparada, tão desolada que partiu meu coração.
— Pelo quê? – Pousei a mão sobre seu ombro, apoiando-a. – Você tem todo o direito de chorar. Deixe as lágrimas levarem um pouco da dor embora.
Mary me mirou espantada, parecendo bastante surpresa com o que falei.
— Que coisa bonita! Jamais pensei ouvir isso de você. – Imediatamente, sua expressão se suavizou.
— As pessoas não costumam me procurar muito em momentos assim, se procurassem, descobririam que sou uma boa ouvinte e não é porque a minha vida é meio caótica que eu não possa ser uma boa conselheira também . – Fiz uma brincadeira, na tentativa de animá-la e, mesmo fracamente, ela sorriu. – Se sente um pouco melhor agora?
— Sim. – Enxugou levemente os olhos. – Desabei aqui pois tentei ser forte na frente dele. Não quis que tivesse o prazer de me ver chorar mais uma vez. Só quando estava no carro… – Ia continuar, no entanto, a interrompi.
— Espere aí... Mais uma vez? – Perguntei confusa.
Percebi que minha irmã engoliu em seco. Porém, não demorou muito para voltar a falar: – Não foi a primeira. – Olhou para as próprias mãos entrelaçadas. – Ele teve um caso com a secretária no ano passado.
Mal as palavras saíram de sua boca, levantei, em uma explosão de ira.
— Cretino, filho da puta, miserável! – Esbravejei, passando as mãos pelos cabelos nervosamente, permanecendo por algum tempo de costas para Mary.
Naquela hora, fiquei feliz por David estar a muitos metros de distância de mim, pois se estivesse aqui, ninguém me impediria de arrebentar a cara dele agora.
— Por que eu não soube? – Voltei-me bruscamente. Estava tremendo de raiva.
— Porque eu temia pela sua reação. E estava certa. – Ela, já mais calma, contrastava com o meu estado de espírito alterado. – Porém, isso não tem mais importância. Então, controle-se e volte aqui. – Apontou o lugar que eu ocupava antes.
Mesmo a contragosto, atendi o pedido. Sentei novamente e continuou: – Você deve lembrar que David não agiu certo comigo, mas que também não fui totalmente leal com ele. Você melhor do que ninguém sabe disso. O fato de ter acontecido depois, não me faz menos culpada. Nós dois erramos e essa foi a razão de ter acabado.
Processei o significado daquelas palavras. O que ela e Regina tiveram também foi uma espécie de caso. Minha amiga esteve no meio do triângulo, ou seja lá que forma geométrica bizarra essa história possa ter formado.
— Mas… Você não ficou com Regina por vingança, não é? – Franzi o sobrolho, perguntando a primeira coisa que me veio à mente.
Mary pareceu enojada com a possibilidade e, vendo a sua expressão chateada, rapidamente me arrependi de ter tocado no assunto.
— Claro que não, Emma. Eu seria incapaz de uma atitude tão vil. Ela foi uma das poucas coisas boas que aconteceu na minha vida recentemente. – Disse muito convicta.
Aquilo não era exatamente o que eu queria ouvir ou ver. Seus olhos verdes brilharam ao falar em Regina e confesso que fiquei incomodada.
Estiquei o braço, alcançando o copo que deixara sobre a mesinha e bebi o resto do conteúdo praticamente de um só gole.
— Onde estão os meninos? – Questionei, mudando de assunto.
Lembrei que diante de tantas emoções e revelações me esquecera de perguntar por eles.
— Felizmente, estão com mamãe na casa do lago. Lamentaria que tivessem presenciado uma cena tão triste, como aconteceu conosco quando nossos pais se separaram. – Suspirou.
— Por falar em mamãe, estava pensando como ela receberá a notícia de que terá tantos hóspedes em casa, enquanto resolvemos a questão da partilha dos bens. – Comentei.
Mary pigarreou e, não sei por que, meu pressentimento foi negativo.
— Emma, queria mesmo falar com você sobre isso. – Minha impressão começou a se confirmar. – Se não se importar, eu gostaria de ficar aqui. Adoro a nossa mãe, mas ela é muito controladora e cheia de regras. Acho que não conseguiria morar em sua companhia de novo nem mesmo por pouco tempo. – Fez uma pausa para tomar fôlego, pois falava quase sem espaço para a respiração. – Será só enquanto procuro um lugar adequado para ficar com os meninos. Não sei se quero brigar pela casa com David. Afinal, foi ele quem a comprou.
Eu poderia ter dito que aquilo era um absurdo, que ela teria direito a metade da casa e de tudo mais, inclusive moralmente, por ter contribuído, mesmo de forma indireta, para a construção do patrimônio do casal. Coisas que digo costumeiramente às clientes nessa situação. Porém, não consegui articular nada.
Minha irmã estava pedindo para ficar aqui em casa com seus filhos, por sei lá quanto tempo, e a minha amada solidão doméstica seria abalada. Jamais pensaria em lhe dizer não, no entanto, precisaria processar bastante a ideia antes de me acostumar.
Então, apenas balancei lentamente a cabeça em resposta, enquanto a minha mente fazia vários loopings de 360 graus imaginando como será nossa vida a partir de agora.
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