Notas iniciais
Olá, pessoas! Tudo bem com vocês? Prometemos a algumas leitoras que postaríamos este capítulo antes, porém, nós tivemos uma certa dificuldade em escrevê-lo. Foi o primeiro desta fic que nos pareceu um caminho bifurcado (apesar da proposta) e precisamos pensar muito antes de decidir por qual seguir, mas, enfim, chegamos ao que aqui está posto e esperamos que vocês gostem. Boa leitura! P.S.: Por favor, leiam as notas finais.

No domingo à tarde saímos para comprar algumas coisas que Mary e os meninos precisariam na estada em minha casa. Ao invés disso, ela poderia ter passado pela sua e pego o necessário, porém quis evitar o reencontro prematuro com David.

Queria ser poupada de todo o drama e a choradeira canalha. Parece que, mesmo tendo sido pego em flagrante, meu ex-cunhado não aceitou muito bem a decisão dela, protagonizando uma cena lamentável antes de sua partida.

Ainda não me acostumei com a ideia de ter sido minha irmã a sair, praticamente só com a roupa do corpo, deixando Nolan muito à vontade com a casa e todo o resto. Se depender de mim, a situação não vai ficar assim por muito tempo. Tentarei persuadi-la usando todos os argumentos necessários para impedir que abra mão dos seus direitos.

Enquanto isso, prevejo meu amado refúgio transformando-se em uma creche, com dois pirralhos correndo pelos cômodos o dia inteiro, tirando o meu sossego.

Estávamos no shopping. Eram 18h e tínhamos chegado às 13h. Cinco horas intermináveis de compras. Eu, como carregadora oficial das sacolas, porque a minha irmã ocupava-se apenas de parar em todas as lojas, vendo vestidos, blusas, sapatos, que definitivamente, não eram nossa prioridade. Como ela precisava de uma distração, tentei ser paciente e não reclamar. Só quando minhas pernas clamavam por descanso foi que propus uma parada.

— Mary, eu juro que não me incomodo de levar suas trezentas sacolas, mas podemos sentar em qualquer lugar só um pouco? – Pedi com jeito. – Se eu der mais dois passos, acho que as minhas pernas vão desfalecer. – Abri os braços exibindo as compras, talvez se visse o quanto estava sobrecarregada, tivesse pena de mim.

Ela já ia um pouco à frente, parecendo pronta para entrar na milésima loja. Parou ao ouvir seu nome e girou a cabeça em minha direção para prestar atenção ao que eu dizia.

— Desculpa, Emma. – Voltou apressada. – Vou te ajudar. – Pegou algumas das bolsas. Percebi que nem tinha notado como estava me fazendo de suporte para pendurá-las.

— Tudo bem. – Disse, passando-lhe umas três ou quatro. – Só vamos ali na praça de alimentação tomar uma água e eu prometo ficar novinha em folha de novo.

Diante do meu drama, Mary não teve como negar. Seguimos até o local, bem próximo de onde estávamos. No caminho, passamos pela entrada do cinema, onde muitas pessoas esperavam para ter acesso às salas. Ela parou em frente a um pôster enorme anunciando um filme em cartaz há mais de duas semanas.

— Não acredito que fizeram um remake de Assassinato no Expresso do Oriente. – Comentou bastante animada. – Lembra que você me deu o livro quando éramos crianças? – Tirando os olhos do cartaz, girou a cabeça para me olhar.

— Claro, como poderia esquecer? – Sorri amplamente pela lembrança. – Você lia à noite, depois tinha medo de dormir sozinha no quarto. Mamãe ficou uma fera quando descobriu que eu estava apresentando o maravilhoso mundo de Agatha Christie e do suspense à minha irmãzinha mais nova.

Mary encostou a cabeça no meu ombro. Senti uma ternura imensa recordando nossa infância, fiquei feliz por ainda sermos tão unidas como naquela época.

— Você era minha heroína, sabia? – Disse no seu jeito meigo, permanecendo encostada a mim. – Ainda é, na verdade. A mulher que eu mais admiro no mundo, nunca esqueça disso. – Levantou os olhos para me encarar. A declaração tão espontânea e sincera aqueceu o meu coração.

— A sua heroína só queria ter metade da sua coragem. – Falei encostando a cabeça na dela. – Você nunca teve medo de pagar o preço pela vida que quis ter. Eu admiro e invejo isso. – Quando voltei a olhá-la notei que também ficara emocionada. – Só não te dou um abraço agora por culpa dessas sacolas. – Terminei com uma brincadeira para evitar a vergonha de chorar em público.

Mary gargalhou e o som da sua risada me contagiou. Percebi que valera a pena passar uma tarde inteira de domingo ali só para desfrutar de um momento tão doce com alguém a quem amo tanto.

Mas meu sorriso se desvaneceu em menos de um minuto, quando vi Regina sair da área reservada às salas de projeção conversando animadamente com um homem desconhecido para mim, mas que a tinha levado ao cinema.

Acho que fiquei observando os dois por tempo demais, pois Mary já estava em minha frente, me chamando. Pela entonação, tive a impressão de que não era a primeira vez.

— O que foi? – Perguntou, quando lhe dei atenção, mesmo sem tirá-la totalmente de Regina. Continuei a observá-la por sobre o ombro da minha irmã, vendo-a aproximar-se cada vez mais sem notar nossa presença, focada apenas no acompanhante desconhecido.

— Nada! – Respondi sem muita convicção, assistindo o homem abraçar minha amiga pela cintura, numa atitude que me fez crer não tratar-se apenas de um amigo.

— Como nada? Você ‘tá pálida... – Mary olhou rapidamente para trás tentando entender o que estava me perturbando e deu de cara com a mesma cena.

Me encarando novamente, franziu o cenho. Parecia perguntar: “o que perdemos?” – tão espantada quanto eu.

Mills já vinha muito próximo. Quase em cima de nós, foi impossível não nos ver também. Falou alguma coisa com o homem apontando para Mary e eu. Vinham nos cumprimentar e foi só então que ele a soltou.

— Que coincidência! – Minha amiga disse bem-humorada. Nem sequer lembrava a Regina que se despediu de mim no café há uma semana entrando em um táxi sem olhar para trás. – Vão ver um filme ou já viram? – Questionou com naturalidade.

— Na verdade, estamos indo até a praça de alimentação. Paramos aqui só para saber quais estavam em cartaz. – Mary respondeu meio sem jeito.

— Você está bem? – Regina perguntou diretamente à ela, ficando séria.

— Às vezes sim. Outras, mais ou menos... Acho que é normal. – Levantou as sacolas, exibindo-as. – Vim fazer compras. Dizem que ajuda.

Nesse momento, eu tive certeza que ela já sabia sobre a separação da minha irmã. A forma como sorriu mostrava total empatia e cumplicidade. Mills, melhor do que ninguém, devia entender os sentimentos atuais de Mary.

— Esse é Graham Humbert. – Apresentou-o após algum tempo. O homem sorriu sem mostrar os dentes. – Graham, estas são Emma e Mary.

— Olá! – Ele falou, apertando nossas mãos sem força.

Não sei por que Regina achou que fosse uma boa ideia perguntá-lo se gostaria de nos acompanhar até a praça de alimentação. Também não sei por qual motivo ele aceitou, mas o fato é que acabamos todos lá.

— Qual filme vocês viram? – Mary perguntou, “quebrando o gelo” assim que sentamos em uma das mesas.

Àquela hora o lugar estava lotado. Muito barulho e crianças correndo, o que me deixou um pouco irritada.

— Liga da justiça. – Eles responderam ao mesmo tempo, depois sorriram da coincidência. Mary e eu nos entreolhamos.

— E desde quando você assiste esse tipo de filme, Regina? – Todos os olhares se voltaram para mim por causa da pergunta que saiu sem querer.

Fui percebida por Regina Mills pela primeira vez no dia. Ela tomou aquilo como uma crítica e notei que não gostou nada. Mas nunca a vi falando bem sobre longas de super-heróis.

— Eu tenho um gosto muito eclético para cinema, Emma. Não costumo rejeitar um filme pelo gênero. – Respondeu aborrecida.

— Desculpa. Foi apenas uma observação. – Dei de ombros, bebendo o último gole de água na garrafa que comprara antes de sentarmos.

Fazia uma semana desde a última vez que Regina e eu havíamos nos falado e depois da situação embaraçosa com Tina, seria esperado que certa tensão estivesse no ar em nosso reencontro, porém não imaginava um comentário tão banal desencadeando essa reação. Os outros dois ocupantes da mesa ficaram claramente desconfortáveis. Mas, passado o leve mal-estar, estabeleceu-se uma conversa entre Mills, Graham e Mary, na qual permaneci de espectadora. Não estava em uma dia de falar muito.

Ouvindo alguns trechos da conversa dos três, acabei descobrindo que o tal homem não caíra de pára-quedas na vida da minha amiga. Ele tem uma empresa fornecendo ao Granny's e há tempos tentava sair com ela. Já tinha ouvido essa história antes, mas pensei que se tratasse de alguém mais velho.

Ele era bonito e se vestia bem, parecendo ser alguém que tinha muito cuidado com a própria aparência. A barba bem feita, o cabelo castanho, os olhos claros, somados aos traços que remetiam a origens irlandesas me lembraram Killian. Então devia estar dentro dos padrões de Regina. Não pude deixar de notar que ela passou tempo demais olhando para o homem enquanto ele falava. Devia estar encantada e sabia onde isso costumava dar.

— Não é, Emma? – Depois de um bom tempo, Mary me incluiu na conversa. Só que eu não fazia a menor ideia do que falavam.

— Desculpa. Estava pensando em outra coisa. – Tive que confessar.

— Graham comentou que gosta bastante de tênis. E eu disse que você também, que sempre jogou muito bem. – Minha irmã esclareceu, parecendo mais à vontade com a situação.

Os três pediram lanches que acabavam de chegar. Eu não quis nada, pois estava sem fome nenhuma.

— É verdade. – Cruzei os braços sobre a mesa.

— É difícil encontrar alguém que jogue bem para formar uma dupla. Poderíamos marcar qualquer dia desses. – Graham propôs sorrindo.

— Desculpa. Eu não costumo jogar em dupla.

Sempre detestei ser usada para forçar aproximação com outra pessoa. E claramente se tratava disso o convite feito sem nenhum outro propósito aparente. Ficou claro que Regina já lhe contara da nossa amizade próxima. Mesmo assim, não mentira. Realmente só jogo partidas de simples, porque sou individualista demais para praticar esportes coletivos, por isso jogo tênis, não futebol ou basquete. Mills sabia disso, no entanto, me encarou de novo como se seu olhar tivesse o poder de me aniquilar.

Minha vontade foi de levantar e dizer a Mary para irmos, mas quis evitar uma cena. Estava sobrando e me recusei a continuar ali servindo de plateia para o romancezinho da minha amiga, medindo as minhas palavras a fim de poupar os sentimentos do príncipe encantado dela.

Deixei a mesa com a desculpa de ir ao banheiro e a intenção não foi de voltar. Andaria pelo shopping até Mary dar-se conta da minha ausência prolongada, vindo me procurar. Enquanto isso, poderia muito bem sentar em um banco ou olhar algumas vitrines que me interessassem. Lembrei que havia uma livraria nova no andar de cima. Minha biblioteca estava mesmo desfalcada de alguns títulos recentes.

Avistei o elevador vazio e apressei o passo para conseguir alcançá-lo antes de voltar a se movimentar, pois algumas pessoas desciam e não havia ninguém para pegá-lo a partir daquele pavimento. Consegui chegar a tempo de estender o braço, impedindo seu fechamento. Assim que apertei o botão, dei de cara com Regina fazendo a mesma coisa.

— Saia daí, Emma. Quero falar com você. – Estava tão raivosa quanto na mesa.

— É meio autoritário mandar eu sair, porque quer falar comigo. Acho mais justo você entrar. A distância é a mesma. – Respondi, cruzando os braços e me escorando na parte espelhada do elevador.

— Não seja infantil. Nós precisamos conversar sobre o que aconteceu há pouco. – Colocou uma das mãos na cintura. A outra permanecia impedindo o fechamento da porta.

— Torno a dizer: Você precisa conversar. – Não movi um músculo sequer além dos necessários para pronunciar a afirmação.

Ela ia continuar tentando me tirar dali, mas um dos seguranças, que antes observava a ação um pouco distante, se aproximou, colocando a mão sobre o ombro dela. Regina girou a cabeça um pouco assustada.

— Senhora, há pessoas precisando do elevador nos outros pavimentos. Se não for entrar, peço que o deixe ir, por favor. – A voz do homem estava calma, mas a reprimenda foi bem clara.

— Desculpe. – Ela respondeu em tom baixo, constrangida, e, ato contínuo, olhou para mim novamente com a mesma cara de poucos amigos, como querendo dizer: você me paga!

Meneei a cabeça e ainda de braços cruzados a fitei com ar provocativo.

— Você ouviu o homem, Regina. É melhor entrar! – Usei meu melhor tom debochado.

Ela bufou. Não estava nada feliz em ter perdido a “batalha”. Olhando para o segurança novamente, deu um sorrisinho sem graça e recebeu outro gentil de volta. Subiu posicionando-se ao meu lado e enquanto a porta finalmente fechava assistimos o homem retornando ao seu posto. Quando já não era mais possível ver o lado de fora, Regina se virou para mim bruscamente.

— Por que toda aquela cena na praça de alimentação?

Ela me conhecia bem o suficiente para saber que a minha saída não foi por qualquer motivo.

— Do que está falando? – A olhava apenas de soslaio, na mesma posição de antes.

— Não se faça de desentendida, Emma. Por que foi tão hostil com Graham?

Me preparava para responder quando o elevador sofreu forte solavanco acompanhado de um grande estrondo. As luzes piscaram, pensei que fossem se apagar, mas rapidamente restabeleceram, porém estancou antes de alcançar o andar de cima.

— O que foi isso? – Perguntou com os olhos bem abertos.

— Essa droga quebrou. – Devolvi apertando o botão de emergência seguidamente.

— Ah, não!

— Isso deve ser consequência da sua ideia idiota de ficar segurando essa porcaria lá embaixo por tanto tempo. – Passei as mãos pelo rosto e cabelos com vigor.

— Então quer dizer que agora a culpa é minha?

— Minha é que não é. – Procurei o celular nos meus bolsos. – Caralho, não acredito! – Resmunguei, percebendo que não estava lá.

— O que foi? – Regina questionou mesmo permanecendo indignada com a acusação.

— Deixei a porra do celular na bolsa da Mary. – Fiz contato visual com ela pela primeira vez desde que entrou no elevador. – Será que você poderia fazer a gentileza de ligar pedindo ajuda?

Era possível ouvir algum burburinho de vozes alteradas vindo de cima. Provavelmente as pessoas já começavam a se dar conta de que o equipamento sofrera uma pane.

— Não peguei a minha bolsa. Ela ficou em cima da mesa.

— Claro! – Revirei os olhos.

— Não tenho bola de cristal, Emma. Como eu poderia adivinhar que precisaríamos tanto dele?

— 'Tá bom! – Respondi exasperada, caminhando até a porta, experimentando-a para ver se seria possível abrí-la.

Senti um aperto forte em meu ombro.

— Você está louca? Tentar abrí-la é a coisa mais errada a fazer nesses casos.

Girei a cabeça rapidamente na direção dela.

— E o que a madame sugere que façamos?

Respirou pesadamente por alguns segundos e fiquei esperando uma reação.

— SOCORRO! ESTAMOS PRESAS NO ELEVADOR! – Gritou com todas as forças.

Soltei um risinho irônico.

— Ah sim! Ótima ideia! Um grito histérico é sempre a coisa mais certa a fazer.

De alguma forma acabou dando certo. O berro dela chamou a atenção de um funcionário que aparentemente já cuidava da situação e passou a nos tranquilizar.

— Senhora, fique calma. Chamamos a ajuda técnica. Em pouco tempo eles chegarão e tudo será resolvido. Quantas pessoas estão aí? – A voz masculina no andar de cima tentava manter as coisas sob controle.

— Duas. – Respondi olhando para o alto, como se pudesse vê-lo.

— As entradas existentes no equipamento são mais que suficientes para manter o ar circulando. Não precisam se preocupar. Só fiquem tranquilas até conseguirmos tirar vocês daí.

— Ok. – Regina respondeu.

Admitindo nossa impotência diante da situação, sentei no piso com as pernas dobradas.

— O que você está fazendo? – Minha amiga perguntou franzindo o cenho.

— Esperando. Não foi isso que disseram para fazermos?

Ela permaneceu de pé. Andando no pequeno espaço. Estava nervosa, mas não saberia dizer se apenas pela situação ou também por estarmos sozinhas em um espaço mínimo.

— Regina, você poderia sentar ou ao menos ficar parada, porque essa sua movimentação já está me dando vertigem. – Pedi após certo tempo assistindo àquela impaciência.

Mesmo a contragosto, ela parou. Escorou-se na parede e cruzou os braços, começando a bater o pé no piso repetidas vezes numa atitude ainda mais irritante.

— Regina.

— Oi. – Ela olhou para mim.

— Se você quer me dizer alguma coisa, diga logo. – A estava fitando de baixo. – Mas pare com isso! – Quase gritei.

— Senhoras? Está tudo bem aí? – O funcionário chamou novamente.

Ela direcionou um olhar que me acusava por aquilo, depois respondeu: – Sim. Ainda demora muito?

— Vinte minutos, trinta no máximo.

— Droga! – Sentou ao meu lado. Eu estava com os cotovelos apoiados no joelho e a cabeça entre as mãos.

— O que o seu namorado deve estar pensando?

— Ele não é meu namorado. E não me importo com o que esteja pensando. Não devo satisfações a ninguém. – Enfatizou a última palavra com um sentido bem claro.

Levantei rapidamente a cabeça apenas para encarar um par de olhos castanhos me desafiando a dizer o contrário. Suspirei pesadamente e apoiei a cabeça na estrutura de metal. Fixei a atenção em um ponto vermelho piscando acima da câmera de monitoramento. Por mais estranho que pudesse parecer, e por mais que estivesse com raiva por tê-la encontrado com esse homem no shopping, não queria discutir com Regina hoje. Não depois de passar sete dias sem ao menos vê-la. Sintia falta da minha melhor amiga.

Percebi que ela continuava impaciente. Mesmo sentada não parava de bater o pé. Imaginei que devia estar começando a ficar mais nervosa por causa do espaço reduzido. Não que seja propriamente claustrofóbica, mas nunca gostou de lugares fechados desde que, aos doze, ficamos presas no banheiro do ginásio do colégio. Naquela ocasião, a maçaneta da porta quebrou. Só fomos encontradas duas horas depois, porque o zelador ouviu nossos pedidos de ajuda.

Sorri, ao lembrar do que tínhamos ido fazer lá. Não era dia de educação física, nem estava acontecendo nenhum jogo. Queríamos apenas um lugar reservado, onde pudéssemos treinar como beijaríamos os meninos. Na época, ainda não tinha consciência, ou não tinha coragem de admitir que minha motivação para beijá-la era outra.

Seu jeito agitado me tirou dessas divagações e arrastei minha mão devagar até tocar a sua.

— Ei, calma… Estou aqui! – Disse num tom suave. Os castanhos rapidamente se voltaram para mim, encarando-me profundamente. Ela respirou de uma forma mais condensada e a sombra de um sorriso pintou seus lábios – Vem cá! – Pedi, esticando o braço e passando sobre o seu ombro, trazendo-a até mim.

— Será que ainda vão demorar muito? – Murmurou. Apesar da pergunta, pareceu menos agitada.

Como se repetisse uma coreografia a qual já conhecia de cor, beijei o topo de sua cabeça, aspirando o cheiro gostoso dela, enquanto se aconchegava mais no meu peito.

— Acho que não! – Deslizei a mão por suas costas num afago carinhoso. – Deixe eu te contar uma coisa que vai fazer esses minutos passarem mais rápido. – Queria distraí-la.

Regina moveu a cabeça e seus olhos se prenderam aos meus. Senti sua respiração morna sobre o meu rosto e, por um breve instante, apenas me permiti admirar os traços do rosto familiar que tanto amo.

— O quê? – O tom curioso interrompeu minha contemplação. Sempre poderia contar com sua grande curiosidade.

— Mary vai morar uns tempos comigo. – Deixei escapar um suspiro pesado.

— Com Henry e Leo? – Seus olhos se abriram mais.

Respondi sem palavras, lançando-lhe um olhar resignado.

Percebi pela forma como seus lábios tremiam um pouco e as íris brilhavam, que ela estava se segurando para não se desmanchar em uma risada divertida.

— Não posso nem imaginar você ajudando a cuidar de duas crianças. – Meneou a cabeça, incrédula – Dois garotinhos correndo pelo seu apartamento… Espalhando brinquedos no seu santuário de solteira… Mexendo em seus raros vinis, em seus preciosos livros… Pulando em seu sofá de couro importado...

— Pare de me torturar, Mills! – Protestei, fechando os olhos e suspirando, imaginando toda aquela bagunça que descrevia.

Senti seu toque suave afagando meu rosto antes dela voltar a falar:

— Não sei por qual razão, mas tenho a impressão de que você irá se surpreender. Seus sobrinhos são adoráveis e quando deixarem sua casa, estará tão acostumada com a convivência infantil que talvez pense em ter seus próprios filhos. – Argumentou, dedicando-me uma mirada compassiva.

Me estranhei por não ter o impulso de negar com veemência. De repente, a ideia não me pareceu tão impossível.

— Você ainda gostaria de ter filhos? – Fitei-a com curiosidade.

— Eu? – Pareceu se assustar com a pergunta. Por um momento ficou com ar contemplativo. – Não sei… – Mordeu o lábio. – Enquanto estive casada, tentamos duas ou três vezes, mas depois desistimos. Também não sentia que Killian realmente desejasse, parecia ser mais uma coisa que ele faria só para me agradar. – Seus olhos ficaram tristes.

— Killian sempre foi um babaca. – Resmunguei. Sentia-me impotente nessas horas. Embora, às vezes, eu mesma a machucasse, sempre foi muito difícil para mim vê-la sofrer. – Quem não adoraria ter um filho com você? Não tenho dúvidas que seria a melhor mãe de todas. – Levantei a outra mão e acariciei ternamente o seu rosto. – Você consegue tomar conta até de mim e eu não sou nada fácil. – Brinquei e como recompensa ouvi uma das melodias que mais amo: o som da sua felicidade, sua risada mais gostosa.

Fechou os olhos e encostou a testa nos meus lábios. Beijei-a com delicadeza. Ficamos por alguns minutos assim, em silêncio, apenas experimentando a velha sensação reconfortante de estarmos uma ao lado da outra. Sempre me senti especial protegendo-a, amparando-a… E, quando sou eu que a faço sofrer, não conseguindo ser esse porto seguro, é como se algo partisse dentro de mim, estragasse, fazendo com que eu perca o rumo. Por isso, a possibilidade de levar o nosso relacionamento para outro nível me apavora tanto, pois quando nos envolvemos com alguém romanticamente nos tornamos mais suscetíveis a magoar, a ferir o alvo dessa forma de afeto. A amizade é um elo mais difícil de quebrantar.

— Não gosto quando passamos tanto tempo sem nos vermos. – Expressou com melancolia, roubando minha atenção – Ultimamente, isso vem ocorrendo com certa frequência… E sempre que acontece, me sinto incompleta, como se me partissem ao meio. – Seu rosto permaneceu o tempo todo enterrado na curva do meu pescoço e não pude visualizar sua expressão, enquanto ela falava, mas tive certeza que refletia minhas próprias emoções ao ouvi-la: angústia, remorso, vulnerabilidade…

Antes que eu pudesse dizer finalmente o que o meu coração sentia, o forte barulho do elevador voltando a se movimentar nos assustou.

— Não acredito que essa aflição vai terminar! – Exclamou, afastando a cabeça do meu ombro, evitando me encarar.

— Parece que sim! – Apenas murmurei, perdendo a coragem e o momento. A oportunidade de confessar que a distância entre nós também me arrasava, que eu também sentia como se tivesse sido arrancada da minha alma gêmea, havia passado.

Levantamos, e um silêncio profundo pairou entre nós nos poucos segundos que restavam para a porta se abrir. Ela cruzou os braços e eu enterrei as mãos nos bolsos da calça. Voltamos a nos distanciar.

Quando as duas partes da estrutura de metal se separaram, vi Mary e Graham parados com expressões aflitas bem à frente. O homem até parecia um cabide, cheio de sacolas. Minha irmã havia me substituído naquela função.

— Vocês estão bem? – Eles se expressaram em uníssono e se entreolharam rapidamente, percebendo o que tinham feito. Notei que as bochechas de Mary se ruborizaram um pouco.

— Sim! – Regina e eu também respondemos ao mesmo tempo, nos fitando de soslaio, incomodas com a situação. Parecia até que, durante o tempo em que ficamos no equipamento, havíamos feito alguma coisa embaraçosa.

Então, nos movemos, saindo do elevador, quando algumas pessoas começaram a entrar, com intenção de usá-lo, sendo orientadas pelo funcionário que havia nos acalmado durante os minutos de ansiedade.

— Acho que essas sacolas são suas. – Graham foi o primeiro a romper o estranho silêncio, fitando minha irmã.

— Obrigada por tê-las trazido! – Mary respondeu, sorrindo com amabilidade para o rapaz, que lhe passava as sacolas, e ela as repassava para mim, me atribuindo novamente a função de carregadora oficial.

— Não por isso! – Ele respondeu com simpatia.

— Que horas são? – Regina pigarreou, ainda evitando o meu olhar.

Graham verificou seu relógio de pulso, antes de dizer: – 19h15.

— Precisamos ir… – Ela tocou no braço dele e o rapaz a encarou – Tenho que estar no Granny’s daqui a pouco – Justificou-se.

Na sequência, nós quatro nos despedimos com rápidos acenos de cabeça e de mãos. Toda a situação era tão, tão desconfortável, além de muito estranha. E eu tinha certeza que nenhum de nós sabia ao certo o motivo disso. Parecia haver alguma coisa muita errada, como peças de um quebra-cabeças que tentamos encaixar mas que não combinam.

Depois das despedidas curtas, Regina e Graham foram para o lado direito. Mary e eu avançamos pelo caminho contrário. Minha irmã estava com ar sério, meditativo, assim como eu.

Aproveitando a introspecção dela, girei a cabeça lentamente para trás, olhando na direção onde minha melhor amiga seguia com o seu acompanhante. A consequência dessa decisão foi meu coração falhar uma batida ao constatar que as orbes castanhas também me espiavam, enquanto andávamos em sentidos opostos.

Notas finais
A partir daqui, finalmente caminharemos para responder a pergunta no título da fic. Lembrando que apesar do que possa parecer, Regina Mills não é um troféu e não haverá uma vencedora ou perdedora aqui. Queríamos apenas chamar atenção para o fato de que até perto do final as possibilidade ficariam todas em aberto. Se possível, gostaríamos de saber o que vocês esperam do final dessa fic para as três personagens principais. Até o próximo!