Entre Elas

20 23 de Julho.


(Madrid — Abril de 2003)

Naquela manhã, quando o telefone tocou de forma insistente, com seu barulho irritante acordando a casa inteira, não fazia nem duas horas que Regina tinha ido se deitar. No dia anterior, uma de suas amigas da Espanha fizera aniversário e, como a data não podia passar batido, o resultado foi uma noite de música e bebedeira em uma das casas noturnas mais bem frequentadas da cidade, por isso tinha ido para a cama muito tarde, ou muito cedo, dependendo do ponto de vista.

A morena tentou usar o travesseiro como proteção para que o som não retumbasse em sua cabeça, latejando levemente por conta da ingestão de álcool acima do que estava acostumada, e no momento em que o aparelho finalmente parou de tocar, ela esboçou um sorriso de satisfação sem abrir os olhos, imaginando que poderia voltar ao seu sono precioso, porém logo ouviu a voz rouca de uma das suas colegas de apartamento:

— Regina, acorda! É a sua amiga maluca de São Francisco no telefone. — A moça avisou sem esconder a frustração de ter sido despertada precocemente, voltando em seguida para o seu quarto.

A amiga maluca de São Francisco ficou conhecida dessa forma pelas garotas que moravam com Regina em Madrid há cerca de três meses, porque jamais respeitava a diferença de fuso entre as duas cidades, ligando nos horários mais inconvenientes, como aquele, por exemplo. Era inútil pedir que ela fizesse as contas acrescentando seis horas àquela que o seu relógio estivesse marcando para avaliar se seria conveniente ou não efetuar uma chamada, pois ela nunca atentava para esse detalhe e simplesmente ligava na hora em que lhe dava na telha e, para Regina, era um mistério o motivo pelo qual ainda não tinha sido expulsa do apartamento pelas outras.

— Bom dia, Emma! — Saudou com voz arrastada e pouco amistosa, depois de fazer um esforço sobre-humano para conseguir se levantar.

— Aqui ainda é boa noite. — Emma corrigiu sem se incomodar com o tom da outra.

— É, eu sei… — Regina respondeu rolando os olhos. Não estava com ânimo de ter de novo a conversa dos horários com Swan. — Você não vai sair hoje? — A morena se deu conta que nos Estados Unidos devia estar perto da meia-noite de sábado. Dia e horário estranhos para a loira estar em casa.

— Não estou bem hoje. — Sua voz antes animada soou triste.

— O que você tem? Está doente?

— Não. Só não quero sair e dar de cara com as mesmas pessoas de sempre. Acho que estou um pouco entediada. — Explicou antes do seu tom assumir a mesma animação de antes: — Além disso, quero guardar as energias para o próximo final de semana. Nem acredito que você vai estar de volta!

Regina ouviu barulho vindo do outro lado da linha e Emma pediu que esperasse um instante.

— O que foi? — Questionou quando a amiga voltou a falar.

— David veio trazer Mary em casa. Eles foram ao cinema.

— Os dois ainda estão tão grudados quanto antes? — Regina puxou a cadeira junto à mesinha do telefone para sentar. Falar com Emma fizera o seu sono passar. Ainda bem que o aparelho ficava em um local distante dos quartos das meninas, assim não corria o risco de incomodá-las novamente.

— Uhum. Sempre me preocupo com a minha taxa de glicose quando estou perto deles.

Regina imaginou a cara de tédio que Emma devia estar fazendo e sorriu.

— Quando um dia você se apaixonar vai ficar igualzinha. — Provocou sem desfazer o riso.

— Não mesmo. — Afastou a ideia como sempre fazia. — Você sabe que eu sou imune a essa coisa de paixão. Mas se um dia, por acaso, eu me apaixonar por alguém não espere que fique melosa. Isso me embrulha o estômago.

— Eu os invejo. — A morena confessou. — Acho que ainda vão se casar e ser muito felizes. Talvez nem demore muito pra isso acontecer… Um dia espero viver um amor intenso assim.

— Acredito. Porque você é tão trouxa quanto Mary e David, Mills. — Emma afirmou recebendo em seguida os protestos vindos do outro lado. — É por isso que odeio quando você está namorando.

— Eu não sou trouxa, Emma. Só acho que seria bom cruzar com alguém que me fizesse acreditar em amor verdadeiro, almas gêmeas, predestinação… Se você tem a sorte de encontrar alguém com quem consegue estabelecer esse tipo de conexão, a sua existência e a dela ganham um novo sentido, único e especial, porque ninguém mais no mundo pode fazer parte disso.

— Blá, Blá, Blá… — Emma provocou fazendo uma voz ridícula.

— Pode zombar, não me importo!

Emma sorriu com gosto. Uma das coisas que mais apreciava era deixar Regina com raiva só para ver suas adoráveis reações. Pena que estivesse tão longe dela naquele momento.

— Já pensou onde quer ir primeiro quando voltar? — Depois de se divertir o suficiente, a loira mudou de assunto.

A felicidade na voz da amiga fez Regina engolir em seco. Há dias precisava contar que os planos tinham mudado e que não voltaria para casa em tão pouco tempo como fora combinado. Ficaria mais três meses em Madrid, até julho, para ser mais precisa. O curso estava perto do fim, porém surgira a chance de um estágio rápido em um dos melhores restaurantes da cidade. Uma oportunidade que não poderia ser desperdiçada.

Regina tomou coragem e tentou explicar da melhor maneira possível. Só que não seria fácil a ansiosa loira concordar com o atraso sem protestar.

— Você prometeu que só ficaria três meses longe…

— Não seja infantil, Emma! Esse estágio vai ser muito importante para mim.

— Eu sei, mas...

— Sem mas, Emma Swan! — Regina colocou um ponto final na objeção. — Sinto muito a sua falta, porém não há outro jeito. Pense que se você estivesse no meu lugar eu seria a primeira a apoiá-la.

Emma sabia que o que ela dizia era verdade. Um pouco antes da viagem, Regina a tinha ajudado a escolher uma sala comercial que alugara no centro para montar seu primeiro escritório. Foram dias visitando lugares que ou eram caros demais ou em prédios antigos demais, até encontrarem o perfeito poucos números a frente de onde Ruby Lucas estava montando o seu. Não podia agora se interpor entre a amiga e suas aspirações profissionais sem parecer no mínimo egoísta.

— Está bem, você tem razão!

Regina sorriu aliviada. Mesmo segura do que queria, a aceitação de Emma era muito importante.

— Isso não é novidade nenhuma! Eu sempre tenho razão.

Depois pediu com voz manhosa: — Agora, por favor, me deixa dormir, Swan!

— Tá, só mais uma coisa...

A morena revirou os olhos impaciente imaginando até quando a amiga pretendia mantê-la acordada.

— Eu te amo! — Emma se despediu e desligou sem esperar resposta.

Regina voltou para a cama sorrindo como sempre depois de falar com Emma ao telefone. Seu coração batia no peito aquecido pela intensidade daquela amizade. Antes de dormir, fechou os olhos e fez uma prece para que ambas tivessem um sono tranquilo.

***

[Emma]

Como de costume, cheguei mais cedo do que a minha secretária no escritório. Respirei fundo e contei até dez para não perder a paciência quando entrou na sala inventando uma desculpa sobre o trânsito ou algo que nem prestei atenção, afinal ela tinha um repertório infinito de mentiras para justificar o fato de que dormia mais do que o seu despertador.

Eu havia levado o pequeno Leo comigo para o trabalho. Era o primeiro dia de Mary em um novo emprego e eu estava muito feliz por minha irmã finalmente ter voltado a lecionar. Sabia o quanto ela amava sua profissão e como esse retorno lhe seria benéfico. O único problema é que não tínhamos conseguido uma babá com boas referências a tempo.

Henry estudava pela manhã. À tarde poderia ficar com a nossa mãe, que só estava livre durante a semana após o meio-dia, quando deixava o seu turno de voluntária em uma ONG, algo a que se dedicou depois da aposentadoria.

Como Leo ainda não ia à escola, criou-se um pequeno problema. Mary esboçou a cara de incredulidade mais perfeita que já vi na vida quando disse que poderia cuidar disso por alguns dias, ficando com ele na parte da manhã.

— Emma, a oferta de ajuda me deixa feliz, mas você não tem tanta experiência com crianças... Acha que consegue lidar com isso? — A ideia a deixou receosa.

— Eu não sei, mas posso tentar. Se você concordar que eu o leve ao trabalho, é claro. Sei que não é o ideal, mas deve servir para ganharmos tempo. Quando estiver muito ocupada, Oberlin pode dar uma olhada nele. Ela é uma péssima secretária, mas talvez seja uma boa babá. — Sorri sem muita convicção no que dizia.

Mary também não pareceu bem certa da funcionalidade do plano, porém sem alternativa se viu obrigada a aceitar minha ajuda. Valia também como um voto de confiança na “nova Emma”.

Apesar do choque inicial, não demorou muito para que eu me sentisse confortável com a presença dos meninos em casa. Descobri que Henry era um garoto muito esperto para a sua idade e um ótimo parceiro de jogos. Jogava videogame com ele toda as noites.

Mary ficou bastante surpresa quando percebeu que eu não fazia por obrigação, como ela mesma teve que fazer algumas vezes. Realmente estava me divertindo com coisas simples e não sentia a menor falta da vida agitada de antes.

— Você encontrou um amigo com a sua idade mental, Emma. — Minha irmã provocava, mas em seu semblante conseguia enxergar o quanto estava feliz por finalmente eu ter me tornado uma tia presente e participativa.

No fim, Regina tinha razão. Ela sempre tinha razão. Agora me via incomodada com a ideia de que em pouco tempo Mary seguiria sua vida. Uma vez que estava muito mais segura e confiante sobre as decisões que tomara, em breve seria natural que quisesse construir seu novo lar. Por antecipação, já começava a sentir a falta deles no meu dia a dia.

Leo abriu o berreiro assim que deixou meu colo indo para os braços de Oberlin. A secretária não tinha muito jeito em segurá-lo, parecia eu mesma na primeira vez em que tive que fazer isso. O garoto esperneava e não parava quieto fazendo-a se contorcer para não deixá-lo cair.

— Essa tarefa não está na descrição do meu cargo! — Protestou balançando a criança na tentativa de acalentá-la, enquanto eu abaixava para apanhar os brinquedos espalhados pelo chão que haviam servido para distraí-lo antes dela chegar.

Parei instantaneamente sem acreditar que usava aquela desculpa para me negar ajuda.

— Você negligencia tudo que está na descrição do seu cargo. Tenho certeza que não há problema em fazer algo diferente dessa vez, não é? — Sugeri com acento irônico e a sobrancelha arqueada.

Terminei de recolher todos os brinquedos e os coloquei de volta na bolsa com as coisas dele, porém Leo não parava de chorar. Oberlin até tentou cantar uma musiquinha infantil para acalmá-lo, mas não houve acordo entre os dois.

— Me dá ele aqui! — Peguei-o de volta ao ver suas pequenas mãozinhas balançando no ar em minha direção quando me aproximei.

A secretária olhou de mim para ele confusa, ao passo que eu segurava a criança junto ao meu peito, passando as mãos em seus ralos fios loiros percebendo que os soluços ficavam cada vez mais espaçados.

— Mas, Emma... Já tem uma cliente lá fora esperando para entrar.

Quando o garoto estava bem mais tranquilo, fui com ele até a mesa e sentei colocando-o gentilmente em meu colo sob os olhares curiosos e admirados de Chanel.

— Faça a cliente entrar. — Pedi afastando alguns papéis para que as mãos ágeis do pequeno não os alcançassem. — A maioria delas são mães separadas e com filhos. Espero que ela possa entender essa emergência aqui.

Chanel tratou de sumir da minha frente o mais rápido possível, provavelmente satisfeita em ter se livrado da incumbência.

A cliente entrou e o rapazinho se comportou perfeitamente, com sua atenção toda voltada para uma peça de Lego que apanhei dos seus brinquedos. O único problema é que a mulher não conseguia se concentrar direito em meio a tantos “ah´s” e “oh´s” a cada movimento que ele fazia, mas fora isso tudo correu muito bem.

Quando a cliente deixou a sala, Oberlin trouxe o recado de que Regina precisava falar comigo. Já tinha ligado duas vezes por não conseguir contato no celular.

Enquanto tentava tirar a minha caneta de ouro das mãos de Leo, passei os olhos de relance e vi um enorme círculo vermelho marcando o dia 23 de Julho no calendário sobre a mesa. Era o nosso famoso dia. O dia em que o retorno dela da Espanha completava aniversário e sempre saímos para comemorar só nós duas. Não havíamos falhado um ano sequer desde então.

Sorri ao me dar conta de que Regina só podia estar ligando para me convidar. Nossa relação andava tão estremecida nos últimos tempos que por um momento pensei que pela primeira vez não estaríamos juntas naquela data, o que seria bem estranho para mim.

Corri a alcançar o telefone que permanecia dentro da bolsa, deixando Leo sentado na minha cadeira de espaldar alto estilo presidente. Depois desse estágio, não me espantaria se o garoto acabasse se tornando um advogado também. Balancei a cabeça negativamente com a minha ideia boba no momento em que voltava para apanhá-lo, segurando o telefone contra o ouvido, esperando que Regina atendesse.

— Oi, Emma! Pensei que não fosse retornar tão cedo. Chanel me avisou que estava muito ocupada — Ela comentou antes que pudesse cumprimentá-la de volta.

Sempre era bom ouvir sua voz animada e, mesmo que não fosse a nossa melhor fase, Regina devia saber que eu nunca estava muito ocupada quando se tratava dela.

Um barulho vindo do outro lado da linha me chamou a atenção. Parecia que mexia em panelas enquanto falava comigo.

— O que está fazendo? — Perguntei interessada.

— Adiantando o jantar.

O convite seria para o apartamento dela. Fazia anos que Regina não cozinhava nesse dia e fiquei curiosa em saber o que estaria planejando. Mas, de repente, Leo tentou tirar o celular da minha mão balbuciando “tia Emma” em sua linguagem infantil, o que não passou despercebido a Regina.

— O que foi isso? — Perguntou intrigada.

— Leo está aqui. — Respondi depois de vencer a “batalha” pelo celular. — Vou colocar no viva-voz. Fala oi pra tia Regina, garoto!

Ele falou, arrancando dela uma risada gostosa e espontânea que me fez rir junto.

— Só você, Emma Swan! Só você mesma para levar uma criança tão pequena ao trabalho.

— É que ainda não conseguimos uma babá e hoje é o primeiro dia de Mary no emprego novo. — Me expliquei depressa.

Quando voltou a falar, percebi que não sorria mais. Foi nesse momento que uma luzinha acendeu na minha cabeça. Eu não ia gostar do que viria a seguir.

— Eu sei… E, bem, era exatamente sobre isso que queria lhe falar. — Disse séria, parecendo escolher as palavras. — Eu prometi fazer um jantar especial para Mary. Um pouco para comemorar, mas muito porque acho importante que ela saiba que a apoiamos incondicionalmente nesse grande passo que está dando agora. — Enquanto escutava meu sorriso ia se desvanecendo. — Espero que você entenda que só por esse motivo não vamos sair hoje, mas estarei livre qualquer outro dia da semana para...

Não deixei que terminasse a fala, pois nada que dissesse faria diferença frente ao fato de que eu estava sendo preterida. A verdade era tão cristalina quanto a água. Eu não tinha mais a mesma importância na vida de Regina, não era mais a sua prioridade. Meus erros me levaram a perdê-la como a tinha antes e precisava começar a lidar com isso.

— Tudo bem, Regina. — Tomei a palavra tentando não parecer tão magoada, mas falhando miseravelmente. — Mary precisa mais de você agora. Depois de tanto tempo essa tradição nem faz mais tanto sentido. — Continuei lutando contra um nó que se formava em minha garganta. — Desculpa, mas preciso sair agora e aproveitar a hora do almoço para levar Leo até a casa da minha mãe.

Desliguei depois de receber uma resposta mecânica com a sensação de que acabara de levar um soco bem no meio do estômago. E como doeu.