Entre Elas
9 Entre Amigas.
Notas iniciais
{Duas semanas depois}
[Regina]
— Hora de acordar, Srta. Mills! Eu trouxe o café... —Emma se anuncia, irrompendo no meu quarto, carregando dois grandes copos da Starbucks nas mãos.
Preciso dizer que minha melhor amiga também é viciada nessa bebida preta, estimulante e de provável origem africana, para não fugir do clichê da maníaca-compulsiva por trabalho. Certa vez, me obrigou a tomar tanto café, para que ficássemos acordadas fazendo uma maratona de Arquivo X, que passei cerca de dois dias “ligada” com dificuldades de dormir e sentindo tremedeira nas mãos.
Mudo de posição na cama, demonstrando meu descontentamento por ter sido despertada desse jeito, mas ela não parece se incomodar e, depois de colocar os copos sobre a mesinha de cabeceira, joga-se no leito, fazendo-o balançar e me irritando ainda mais.
— Que droga, Emma! Eu queria dormir mais meia hora... —reclamo, abusada, pois sou daquelas que se não dormir religiosamente 8 horas por dia fico com ganas de matar alguém — Não sei onde eu ‘tava com a cabeça quando dei uma cópia da minha chave para você... Aliás, preciso rever essa minha decisão! — transbordo de mau humor.
Ouço o som da sua gargalhada que me chega meio abafada, já que estou com o travesseiro cobrindo a cabeça.
Depois de alguns segundos em quase total silêncio, sem que eu tenha a menor ideia do que ela está fazendo, escuto o refrão de Lovely Day, a música do meu despertador ecoando no quarto e, logo em seguida, ela diz, cheia de sarcasmo: — Veja só, sua música motivacional já está tocando, é hora de se levantar para mais “um dia amável”, Regina Mills!
Não resisto e sorrio com seu comentário debochado, imaginando que Swan deve ter adiantado o relógio do meu despertador, geralmente programado para apitar às sete da manhã, porque o reflexo do sol no tapete do quarto, me diz que ainda é pouco mais de seis.
— Devo ter sido um dos carrascos de Cristo, para merecer você como carma, Emma Swan —ironizo, mas num tom brincalhão.
— Que nada... Sou uma benção na sua vida! —revida, super convicta.
Depois dessa, não me resta outra escolha, a não ser tirar o travesseiro do rosto e me virar para encará-la com uma expressão no olhar, como se dissesse: Sério?
— O que foi? Sabe que eu tenho razão —continua com seu costumeiro sorriso sacana que começa nos lábios e se estende até os olhos — Você sem mim é como Grace sem Frankie¹! — diz, referindo-se a sua mais recente obsessão, uma série da Netflix.
Sorrio, inclinando-me em sua direção para beijar suavemente a bochecha dela, pegando-a completamente desprevenida.
— Eu te amo! — afirmo e em meus olhos sei que expresso toda ternura que sempre senti por essa mulher, a quem adoro desde que comecei a ter consciência da minha própria existência.
Por mais que hoje esteja confusa, e note um desejo até então desconhecido por ela crescendo dentro de mim, antes de qualquer coisa, Emma será sempre minha melhor amiga.
Sem esperar por uma resposta ou reação sua, levanto-me indo para o banheiro, deixando-a esparramada em cima da cama.
***
— Pare de assaltar minha geladeira! — pego-a em flagrante mexendo na cozinha, depois que saio do quarto já vestida e bebendo o café que ela me trouxe.
Vira-se, mordendo a maçã que “roubou” da gaveta de frutas e observa o que estou fazendo: — Esse café ainda está quente? — questiona, franzindo o cenho, quando me vê com o copo da Starbucks na mão.
— Para mim está ótimo... Café, diferente de sexo, não deve ser muito quente! — falo sem querer, mas, em seguida, percebo o “quê” provocativo da minha afirmação.
Noto que Emma me lança um olhar semicerrado.
— Hum... — murmura, erguendo uma das sobrancelhas.
Pigarreio com a intenção de romper o silêncio que se fez após meu inconveniente comentário e tento restabelecer o diálogo: — E aí, todos confirmaram presença? — finjo interesse nos convidados que estarão nesse final de semana, comemorando nosso aniversário na casa do lago, para onde, daqui a pouco, seguiremos viagem.
Por um momento, parece não entender sobre o que estou falando, porém, instantes depois, sua expressão muda e ela responde: — Sim... Só não Tina, porque eu não a convidei! — revela.
— Por quê? — fico curiosa.
— Sabe Glenn Close em Atração Fatal? — responde com outra pergunta e balanço a cabeça afirmativamente.
— Pois é, ela era menos assustadora!
— Que exagero, Emma!
— Não é exagero... Tenho certeza que Tina anda me seguindo e estou recebendo ligações silenciosas de um número bloqueado — faz uma pausa para dar outra mordida na fruta — ‘Tô com medo de um dia abrir meu armário e ela está lá dentro — completa, ainda mastigando.
Desato a rir do seu comentário e a loira põe cara feia, parando de comer a maçã e me lançando um olhar mortal.
— Desculpa, Emma, mas tem coisas que só acontece com você!
— Espero que você ainda esteja sorrindo no dia em que for dar depoimento naqueles programas do ID² sobre como eu me tornei uma vítima fatal de uma louca obsessiva.
Prendo o lábio inferior, ainda fazendo pouco caso dela e rebato: — Não sei como você consegue falar tanta besteira!
Em resposta, ela atira o resto da maçã em mim e arqueio o corpo, esquivando-me do que sobrou da fruta.
— Ei, pare de sujar minha casa! — reclamo e me inclino para recolher os restos do chão, colocando-os na lixeira da pia.
Emma já está, uma vez mais, abrindo a geladeira, porém, agora, pega uma garrafa de água e começa a bebê-la no gargalo. Faço uma careta de desgosto e tiro um copo do armário, entregando-o a ela.
— Estou de ressaca! — comenta, como se estivesse se desculpando pelos seus maus modos. — Bebi além da conta ontem.
Faço um ar sarcástico e rebato: — E quando você bebe moderadamente?
— Você diz isso, porque não conhece a mulher com quem saí ontem.
Encaro-a, mais interessada na conversa.
— Por quê? O que tinha essa mulher?
— No mínimo, três fígados! — sua resposta bem-humorada me contagia e começo a rir — É sério... Roxanne está se separando do marido e ele tem umas cinco vinícolas... Tenho a impressão que ela vai querer a parte dela no divórcio em vinhos.
— Que tipo de mulher se chama Roxanne?! — exponho uma careta debochada.
— Um tipo alta, ruiva, com longas pernas e sedenta por sexo! — responde num tom safado.
Reviro os olhos e solto um longo suspiro: — Deixa eu ver se entendi... — faço uma pausa para controlar a raiva — Você está transando com sua cliente? — custo a acreditar que ela possa ir tão longe assim. Mas, a quem quero enganar? Estamos falando sobre Emma Swan!
— Você sabe como é... — começa com expressão cínica, dando de ombros — Na minha profissão, às vezes, preciso dar um apoio moral a essas pobres mulheres que ficam desoladas por causa do divórcio.
Fico alguns segundos encarando-a fixamente sem nada dizer, porém, após o espanto inicial com a sua atitude tão canalha, alfineto: — Não acredito que essa mulher que está na minha frente agora é a mesma que, há poucos dias, estava me julgando por eu ter dormido com a irmã casada dela.
Noto que Emma reage com surpresa ao meu comentário. Percebo isso pela expressão que vejo em seu rosto.
— Mas isso é diferente... — começa e faço um gesto com a mão, interpelando-a.
— Como assim, é diferente? Por favor, Emma Swan, não me venha com discurso machista a essa hora da manhã.
Ela bufa, provavelmente porque interrompi sua linha de pensamento ou, talvez, por causa do comentário que fiz na sequência.
— É diferente, Regina Mills, não porque Mary seja casada, mas sim, porque você está transando com a minha irmã — destaca o tempo presente, como se quisesse frisar o quanto está a par sobre meus encontros escondidos com Mary.
— Então se, hipoteticamente, Mary decidisse se separar de David e começássemos a namorar sério... Você iria cortar relações comigo? — não me contenho e fico, atentamente, esperando pela sua resposta.
Emma arregala os olhos, parecendo mortalmente assustada com a minha suposição.
— Vocês andam falando sobre isso? — questiona-me.
— Não, Emma — resolvo abrandar seu medo — Mas quero saber até onde vai sua intolerância quanto a esse assunto!
— Engraçado, quem vê você falando assim, nem imagina a sua reação quando eu revelei que havia transado com a sua mãe... Mas, se bem lembro, você também não me pareceu muito tolerante quanto a isso — rebate, cáustica.
Levanto as mãos espalmadas numa atitude defensiva e movendo a cabeça em negativa: — Não vamos falar sobre a minha mãe! — exijo — Porque você só saberia que não é a mesma coisa, se, a partir de agora, eu começasse a transar com Margaret!
— Argh! — exibe um ar repulsivo, talvez formando em sua mente a imagem de Margaret e eu juntas na cama — Você quer que eu vomite a maçã que acabei de comer?
Faço uma expressão como se dissesse: “Tá vendo? Era disso que eu estava falando!”
— ‘Tá bom! Se você prometer que nunca vai transar com a minha mãe, nem nunca mais vai sequer pensar, muito menos falar sobre isso, eu prometo que vou me esforçar para achar normal esse seu rolo com a Mary! Mesmo que não entenda muito bem o que vocês pensam que estão fazendo — declara em tom solene.
Como de costume, ela me faz sorrir e a vejo espelhar minha reação. Sem mais nada a ser dito, me aproximo de Emma e a abraço calorosamente, sentindo seus braços se cruzando em minhas costas.
Sempre achei muito reconfortante abraçá-la e, desta vez, não é diferente. No entanto, algo em meu íntimo, está me alertando que Emma não cumprirá essa promessa.
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