Entre Elas
10 Bizarre Love Triangle.
Notas iniciais
[Regina]
A casa do lago dos Swans sempre foi um dos meus lugares preferidos no mundo. Sua estrutura é feita de madeira, rodeada por janelas e portas de vidros. Há uma faixa de areia que separa a escadaria de pedra do pequeno ancoradouro, onde algumas embarcações ficam amarradas. A vegetação que circunda o lugar nos proporciona um espetáculo à parte, pois, em determinadas estações do ano, predomina um tom uniforme de verde; já em outras, o laranja, o lilás e o amarelo colorem a paisagem, trazendo ainda mais beleza para esse lugar tão paradisíaco.
Como estamos no final da primavera, o sol brilha forte no céu, resplandecendo com seus raios dourados as copas das árvores e aquecendo as primeiras horas desse dia 20 de maio, véspera do meu aniversário e antevéspera do da minha melhor amiga.
Emma e eu viemos juntas em sua picape. Chegamos há pouco tempo, já encontrando Mary e David na casa.
Enquanto ele tenta acender a churrasqueira, pois, como a maioria dos homens, adora exibir esses dotes que remontam aos seus ancestrais do tempo das cavernas, notei que Mary estava ao celular, provavelmente falando com a mãe, com quem deve ter deixado os filhos.
— Veja só, Mills, seu presente chegou antes de você! — Swan ironiza, olhando para a irmã que está na ligação, antes de subir na capota do veículo para pegar o cooler com as bebidas.
— Quem diria... Sua promessa de não implicar mais com essa história durou pouco mais de duas horas! Deve ser seu novo recorde — rebato no mesmo tom, segurando o cooler enquanto ela pula de cima do carro.
Depois, sorri e se aproxima mais, dando um soquinho no meu braço: — Pensei que hoje, você estaria mais relaxada, afinal, é a véspera do seu grande dia — caçoa, erguendo as sobrancelhas — Não deixe que David estrague seu divertimento com a esposa dele.
Reviro os olhos e decido responder-lhe à altura: — Imagina, querida... David jamais será um incômodo para mim. Acho que atualmente queremos coisas diferentes da mulher dele — noto que Emma fica confusa e sorrio maldosa, imaginando que ela ainda não está a par dos problemas entre o casal.
Quando a loira faz menção de abrir a boca para dizer ou perguntar algo, vejo Jefferson estacionando ao lado da picape e vou recebê-lo, aproveitando para agarrá-lo pelo pescoço e beijá-lo no rosto.
— Gina, meu amor, há quanto tempo! — ele diz, erguendo-me e me girando no ar, ao mesmo passo que me coloca de frente para a loira mal humorada, que não deve ter gostado porque a deixei no vácuo com o último comentário que fiz antes de Jeff chegar — Você nunca mais foi na firma nos visitar! — acrescenta, finalmente me soltando enquanto me encara com seus brilhantes e bonitos olhos azuis.
— Pois é, Jefferson... Mas não foi por falta de convite que ela não foi nos visitar — Emma responde no meu lugar — O problema é que Regina anda muito ocupada, com a agenda cheia de compromissos... Fazendo muitas horas extras... — prossegue e tenho dúvidas se apenas eu percebo a profunda ironia dos seus comentários.
Se ele nota, não deixa transparecer e sorri, antes de dizer: — Ah, Emma, mas isso não é nenhuma novidade... Regina sempre foi os braços e as mãos da velha Granny no restaurante.
Eu também sorrio, mas minha reação, diferente da dele, é de puro nervosismo, porque, quando volto a encarar Emma, vejo em seu rosto a mesma expressão maldosa que ela faz antes de nos presentear com algum comentário debochado e cheio de veneno.
Dedico-lhe um olhar enviesado como se ordenasse em silêncio: Não se atreva, Swan!
Ela ainda fica alguns segundos calada, mas, depois se pronuncia: — É verdade Jeff... Granny sempre monopoliza demais Regina — e percebo que olha de soslaio na direção da irmã, que se aproximou do marido para ajudá-lo a fazer o fogo.
— Engraçado ouvi-la dizer isso, Swan, porque eu sempre tive a impressão que quem queria monopolizar Regina fosse você! — nosso amigo aponta num tom zombeteiro e meu nervosismo de segundos atrás cede espaço para uma gostosa gargalhada com o comentário dele, principalmente ao observar que Emma fica desconcertada e sem reação.
Aproveito e passo o braço pela cintura de Jeff, andando ao lado do meu amigo até onde David e Mary já estão, deixando uma loira com expressão nada amistosa para trás.
***
Depois que Aurora, Jamie e Belle chegam, o grupo fica completo, já que Tina não virá, pois não foi convidada por Emma, e Ruby e Zelena ainda estão em Lua de Mel no Taiti. Durante o resto da manhã, organizamos uma partida de futebol americano e nos dividimos em duas equipes.
No time amarelo ficou Mary, Emma, Aurora e Jefferson e, no vermelho, David, eu, Jamie e Belle.
Infelizmente, pouco fiz pela minha equipe, já que Swan não dava espaço para que eu realizasse as jogadas, pois ela, coincidentemente, ficou responsável por me marcar e quando a bola chegava às minhas mãos, não raro, atirava-se sobre mim, derrubando-me na areia sempre que tinha oportunidade. Porém, apesar da marcação cerrada dela, os outros jogadores de sua equipe não tiveram o mesmo êxito e meu time acabou ganhando a partida.
Logo após o término do jogo, todos entramos no lago para nos refrescarmos e limparmos os resquícios de areia dos corpos. Em meio à brincadeira de espirrarmos água uns nos outros, Jefferson me levanta nos ombros e David faz o mesmo com Mary. Então, começamos a empurrar uma à outra para ver quem cai primeiro de cima de um dos dois, enquanto o restante do grupo assiste passivamente essa “batalha”.
À medida que o tempo passa, não paramos de sorrir e nos divertir, já que nenhuma consegue derrubar sua oponente. Quando me dou conta, vejo Emma se aproximar de David, por trás. Sem maiores contemplações, ela puxa Mary de cima dele, fazendo-a cair de costas na água e afundar.
A esposa de David se ergue, cuspindo água e fico preocupada, diferente dele, que parece ter adorado a travessura da cunhada.
— Emma, você tá louca? — Mary indaga, mais recomposta — Você poderia ter me machucado! — diz e percebo que, assim como eu, está com raiva da irmã.
Nesse instante, desço dos ombros de Jeff que, como o restante do grupo, parece não ter se importado com a atitude despropositada de Swan e nada para fora do lago, seguindo Jamie, Belle e Aurora que fazem o mesmo.
— Desculpe, Mary... Mas as meninas já estavam ficando entediadas com essa brincadeira sem fim de vocês e viemos aqui para beber, comer, dançar e não para ficarmos observando duas fracotes se empurrando numa disputa que nenhuma das duas ia conseguir vencer! — resmunga, evitando olhar para mim.
David que não parece perceber a tensão entre nós três, entra na conversa: — Eu confesso que já estava ficando cansado, porque você tá um pouquinho mais pesada do que antes, meu bem!
Mary enrubesce e olha discretamente para mim. Depois, morde o lábio e fica cabisbaixa — Tudo bem, David! — diz e a tristeza que vejo em seu semblante, por causa do comentário idiota do marido, me parte o coração.
Ela não diz mais nada e mergulha, nadando rapidamente para longe de nós.
— Droga! — o imbecil resmunga, antes de sair atrás da esposa.
—Está vendo o que você fez? —reclamo com Emma, quando me vejo sozinha com ela, ainda dentro do lago.
— Ele que foi grosseiro com Mary, não eu! — rebate com expressão magoada.
— É, você foi muito delicada, puxando sua irmã daquele jeito!
— Eu precisei fazer aquilo, porque notei que vocês estavam bem distantes do mundo, como se estivessem sozinhas aqui e tive medo que trocassem um tórrido beijo na frente do David, enquanto fingiam se empurrar — fala, debochada, jogando água em mim.
Não consigo desviar da água e passo a mão no rosto, tentando enxugá-lo, ao mesmo tempo em que penso que Emma tem certa razão: em determinado momento, estava tão envolvida pelo clima descontraído entre Mary e eu que me esqueci da presença do marido dela, literalmente embaixo de nós.
Como fico um tempo em silêncio, pensando nisso, a loira se aproxima, parecendo preocupada e pergunta: — Que foi? A água irritou os seus olhos?
Sorrio, já desfrutando da minha vingança e, sem dar tempo para que ela fuja, tomo impulso, colocando as mãos sobre os ombros de Emma, empurrando-a para dentro da água.
Ato contínuo, aproveito para nadar na direção oposta e, quando já estou distante, ainda ouço-a gritar, depois de emergir: — Você me paga, Regina Mills!
***
Já se passaram muitas horas desde nossa brincadeira no lago, e não sei se é por causa da quantidade de cerveja que já ingeri, ou se é devido à música que toca na caixa acústica perto de nós, mas, no momento, sinto-me absolutamente sentimental.
A melodia nostálgica de “True” me enche de lembranças, aliás, de tristes e irônicas lembranças ao lado de Killian, fazendo-me recordar que de verdadeiro nosso envolvimento nada teve.
Mas é inevitável não pensar nele, sobretudo porque essa era a canção principal do CD que meu ex gravou e deu para mim de presente no dia que completamos um ano de namoro.
Talvez tenha sido o único presente sincero que recebi de suas mãos. Depois que nos separamos, descobri, num canto quase secreto do nosso armário, uma caixa repleta de presentes embrulhados e acompanhados de singelos cartões, todos a mim destinados, onde Killian me parabenizava pelo meu aniversário, pelo aniversário de noivado, de casamento, havia até mesmo presentes de pedido de desculpas, enfim, tudo que ele julgasse ser um motivo para me dar uma joia, lingerie ou perfume comprado às pressas e antecipadamente, sem que meu ex tivesse sequer o trabalho de pensar ou mesmo se preocupar comigo.
Antes de me deparar com essa triste verdade escondida num fundo falso da gaveta de meias dele, eu adorava o fato de saber que Killian sempre se lembrava de nossas datas especiais e me sentia abençoada, pois acreditava que havia me casado com o homem mais atencioso e romântico do mundo. Mas, onde está o romantismo na atitude de comprar com três anos de antecedência o presente que pretende dar à esposa no quinto ano de casamento? Onde está a espontaneidade e a entrega nesse gesto? Quando descobri a caixa, fiquei profundamente decepcionada e senti como se tivesse permanecido casada durante anos com uma fraude¹. Foi tão doloroso quanto saber sobre cada uma de suas traições.
Enquanto estou remoendo minhas decepções com o meu fracassado matrimônio, ouço a voz de David, que senta ao meu lado, voltando com um prato nas mãos:
— Assim, meu amor, você nunca vai voltar ao seu peso ideal! — ele diz, empurrando o prato para Mary que, aparentemente, havia pedido para o marido ir buscar comida para ela — Já cansei de ouvi-la reclamar que suas roupas estão cada vez mais apertadas! —acrescenta e noto que a esposa abaixa o olhar mais uma vez, provavelmente constrangida por ele falar dessa forma, na frente de todos nós, sobre um assunto que só diz respeito a ela.
— É mesmo David? — questiono, num tom enraivecido, colocando o copo de cerveja em cima da mesa com mais força do que o necessário — Será que é Mary que está sempre falando sobre isso? — prossigo e o idiota me olha assustado e vejo sua reação sendo espelhada pelos outros ocupantes da mesa — Ou você que não perde a oportunidade de dizer que ela precisa voltar a ter o corpo que tinha, antes de lhe dar dois filhos?
Enquanto falo, Mary se levanta e se aproxima de mim, colocando as mãos sobre meus ombros, tentando me acalmar.
— Calma, Regina... — tenta contemporizar ao notar que o marido ficou pálido com minha atitude exaltada — David não falou por mal, ele só...
— Ele só acha que tem o direito de ser grosseiro com você — interrompo-a — É a segunda vez hoje que escuto David fazendo esses comentários indelicados — digo, num tom duro, virando-me para ela.
Neste momento, o aludido se ergue da cadeira e olha de Mary para mim: — Desculpe, Mary, se eu te ofendi... Realmente não era a minha intenção — diz e sua expressão de cão arrependido ao invés de me sensibilizar, irrita-me ainda mais — Mas acho que Regina também não precisava reagir assim — reclama.
— Sério? Você acha mesmo? — faço pouco caso dele — Mas, diferente de você, não vou pedir desculpas... — afirmo, afrontosa, e imagino que os demais devem estar olhando de mim para David, como se estivessem assistindo a uma partida de tênis.
O marido de Mary fica cabisbaixo, como se buscasse um lugar onde se esconder e aproveito para dar minha punhalada final: — Porque eu estou cansada dos homens acharem que tem direito a tudo e jamais parecerem estar satisfeitos com as mulheres com quem casaram. Mulheres estas que, além de mães, esposas, donas de casa, tem que, muitas vezes, renunciarem à própria carreira para se dedicar exclusivamente aos seus maridos.
— Assim você está generalizando, Regina... — Jeff reivindica a palavra — Eu, por exemplo, sou um homem muito feminista... Emma, por favor, me defenda! — pede, olhando para a loira, de quem, momentaneamente, eu havia esquecido.
O comentário de Jefferson serve para descontrair um pouco o clima, já que todos esboçam um leve sorriso. Todos, exceto uma pessoa. Emma Swan me observa como se estivesse a ponto de me fulminar com suas íris verdes.
Aproveitando o silêncio momentâneo que se fez, após o comentário do nosso amigo, Belle se ergue e, com sua amabilidade costumeira, pede: — Gente, por favor, vamos deixar essa disputa de gênero de lado? Que tal voltarmos a comemorar o aniversário de Emma e Regina como estávamos fazendo até pouco tempo? Num clima bem descontraído, de paz, amor e fraternidade? — acrescenta, sorrindo amplamente e desanuviando mais o ar tão pesado.
Depois da sua fala, David sorri para mim e volta a se sentar, sendo seguido por Mary que também se acomoda ao meu lado, dedicando-me uma mirada terna, talvez grata por eu ter intercedido por ela, mesmo isso tendo causado um mal-estar momentâneo.
Minutos depois, todos já estão conversando como se nada tivesse acontecido e sou acometida por um súbito incômodo, fruto talvez da quantidade de cerveja que já bebi, mesclada com a raiva que ainda estou sentindo de David.
Então, dou uma desculpa qualquer e me levanto, saindo de perto deles e andando meio trôpega na direção da casa.
Quando estou na cozinha bebendo água, ouço a porta de vidro deslizar e, mesmo antes de me virar, já sei quem veio em meu encalço.
— O que foi aquilo lá fora? Você não acha que deu bandeira demais, não? — sua voz denota muita raiva e fecho os olhos, suspirando, tentando controlar a minha própria.
— Você deveria estar do meu lado — replico, sem encará-la — David estava sendo um canalha com a sua irmã.
— Concordo, mas, mesmo assim sua atitude foi exagerada! — afirma, como se estivesse me passando um sermão e odeio quando ela age assim, porque não quero admitir que estou errada — Duvido muito que se você e Mary não estivessem envolvidas, como sabemos que estão, sua reação teria sido tão agressiva! — faz uma pausa — Olha, eu já presenciei várias atitudes ridículas do David com relação a Mary e, em algumas ocasiões, tive vontade de partir a cara dele, porque meu cunhado é um sem noção que não sabe o peso que certos comentários podem ter na autoestima de uma mulher, principalmente uma tão meiga e doce como minha irmã. Porém, prometi a mim mesma, quando tentei interferir na decisão que Mary tomou de abandonar a profissão para se dedicar exclusivamente à família, que não faria isso novamente... Até porque, a vida é dela, o marido é dela e as decisões devem ser dela também.
Finalmente me viro e a encaro, mas, diferente de antes, agora vejo em seu olhar certo brilho de compressão.
— Você tem razão... Mas a minha reação tão explosiva não foi só pelo que David disse... sinto um nó na garganta e não consigo concluir o que ia falar.
De repente, sua expressão já compreensiva também adquire um ar afetuoso e ela vem até onde estou, abraça-me e me afaga os cabelos, antes de comentar: — É por tudo que Killian te fez também, não é? Por todas as decepções que ele lhe trouxe... — continua e, sem querer, algumas lágrimas umedecem meus olhos — Você projetou em David as mágoas e as dores acumuladas por outro homem — afasta-se um pouco e beija-me a testa de uma forma tão delicada que, nesse momento, sinto que nada precisa ser dito, pois Emma me compreende tão perfeitamente que necessito apenas tê-la aqui, perto de mim, sendo meu porto seguro, sendo a força que sempre me levanta quando a vida e as lembranças mais dolorosas que trago em minhas memórias insistem em me derrubar.
***
Quando Emma voltou para junto dos convidados, uma vez que não convinha as duas homenageadas estarem por tanto tempo longe da festa, eu aproveitei para esfriar a cabeça e afastar os pensamentos negativos tomando uma boa e relaxante ducha em uma das suítes da casa.
Após o banho, saio do box, envolvo-me em uma toalha e, antes que volte para o quarto, ouço passos que se aproximam mansamente, mas não o suficiente para não serem notados. Imagino que é a minha amiga, talvez ainda preocupada com o meu estado ébrio, vindo verificar se sofri algum acidente no chão molhado.
Entrando no dormitório, espanto-me ao ver Mary encostada na porta. Como todos ainda estão lá fora, ela sabia que a luz acesa do cômodo era a indicação de que eu estava aqui. Portanto, seu olhar espantado não poderia denotar surpresa em me encontrar.
Por algum tempo ela não fala nada e algo na forma como me observa também furta as minhas palavras.
— Acho que você é a mulher mais linda que eu já vi em toda a minha vida! — confessa após um longo silêncio, enquanto afasta-se da porta e se aproxima de mim.
A declaração dela, assim de repente, me deixa atordoada e mudo de assunto para não fazer o que estou pensando agora: beijá-la em uma casa onde seu marido pode nos flagrar a qualquer momento.
— Acho que te devo desculpas, Mary, pela forma como agi lá na mesa! — afirmo, notando que se acerca ainda mais.
Quando estamos cara-a-cara, ela me olha com evidente desejo e responde: — Não quero falar sobre o David!
Pela primeira vez, percebo que Mary também está um pouco bêbada, o que justifica a sua atitude impulsiva de fazer aquilo que eu não tive coragem, já que me agarra pela nuca, beijando-me como se não nos víssemos há muito tempo, como se eu fosse o seu soldado voltando de uma guerra.
Depois que nos separamos, sorrio com o seu rompante: — Tá louca, mulher? — digo, me divertindo.
— Acho que sim, porque eu quero mais! Mas, por outro lado, acho que não tanto, porque sei que não pode ser aqui! — ela também sorri e prossegue: — Vista-se e me siga!
***
Saímos juntas pela porta que fica na parte de trás da casa para evitar passar onde o resto do grupo está, ainda bebendo e comendo. Agora, já ouço as vozes dos meus amigos em uníssono cantando em coro a música que sai da caixa acústica. Pelo visto, a festa está no seu ápice e noto o sol num ponto mais baixo do céu, dando adeus a outro dia.
—Já posso saber para onde vamos? — pergunto, curiosa, ao mesmo tempo em que ela me leva por uma trilha rodeada de vegetação.
— Você não se lembra da cabana onde a gente brincava quando éramos crianças e vínhamos passar o final de semana aqui com os nossos pais?
—Sra. Nolan, não acredito que você está pensando em profanar um lugar cheio de recordações infantis — brinco e sorrio, relembrando que não fazia esse caminho há muitos anos.
Ao chegarmos num lugar mais descampado, logo vislumbro o antigo casebre de madeira e imagens dos momentos que passei aqui, com ela, com Emma e outras amigas da nossa infância me tomam de assalto. Recordo, principalmente, das nossas festas do pijama, quando, além de contarmos histórias de terror, também nos dedicávamos a arte de aprender a beijar. Sorrio, pensando como pude reprimir durante tantos anos a lembrança de já ter beijado Mary e Emma, muitos anos antes disso voltar a se repetir em Las Vegas.
Quando entramos, observo a velha mesinha ainda rodeada por quatro cadeiras e os antigos catres, onde dormíamos, alinhados na parede lateral, porém, antes que eu possa fazer qualquer comentário, já que acredito que Mary também reprimiu essa memória, sinto-a se jogando nos meus braços, empurrando-me contra a parede e selando os lábios contra os meus.
Suas mãos impacientes tateiam as minhas costas, lutando para encontrar o zíper do vestido, mas, antes que ela consiga ter êxito em sua empreitada, a porta da cabana é aberta e a silhueta imponente de Emma invade a rústica construção, sobressaltando a irmã que se afasta de mim com um pulo.
—Em... Emma! —gagueja e, mesmo que a cabana já esteja mergulhando na escuridão da noite, é impossível não notar o olhar carrancudo da loira.
— Que bom que sou eu, não é Mary? — contesta, e, estranhamente, sua voz soa serena —Porque depois da forma apaixonada como Regina te defendeu, seria meio difícil vocês explicarem o que estava acontecendo aqui para o David, se ele tivesse visto as duas saindo furtivamente da casa e se embrenhado no mato, como eu vi!
—Emma, eu...
— Mary, você não precisa me explicar nada — Swan não deixa a irmã falar. Quanto a mim, opto pelo silêncio, pois não me ocorre dizer ou fazer qualquer coisa que venha a remediar essa situação — Poupe suas energias para cuidar do seu marido, que está passando mal e, inclusive, vomitou há pouco tempo em cima de Aurora — essa informação nos pega de surpresa.
Mary e eu nos entreolhamos e percebo um “quê” de culpa em sua expressão. Sem que precisemos falar nada, faço um sinal com a cabeça, dizendo-lhe silenciosamente que ela precisa ir ficar junto do marido.
A irmã de Emma anda devagar na direção da porta, todavia, antes de sair, troca um último olhar com a loira. Depois, vejo apenas sua pequena figura se perdendo na trilha por onde viemos.
Faço menção de sair também, no entanto, Swan se coloca no meu caminho e empurra a porta, fechando-a devagar, provocando o ranger das velhas dobradiças.
— Agora, Regina Mills, será entre nós! — decreta e algo no seu tom e no sinistro sossego da cabana, faz meu coração parar por alguns milésimos de segundos.
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