Entre Elas
6 Discutindo a Relação.
Notas iniciais
[Emma]
Estou sentada em uma mesa repleta de comida, no restaurante do hotel. No entanto, ainda não consegui comer nada, porque a cena que presenciei há cerca de uma hora e meia, não sai da minha cabeça.
Meu estômago está revirando, enquanto imagino que elas já devem ter acordado e talvez estejam se dedicando ao sexo matinal.
Coloco as mãos no rosto, balançando a cabeça, na tentativa de afastar a imagem da minha irmã e da minha melhor amiga, nuas, na cama, com os corpos suados, esfregando-se uma na outra.
Para afastar esses pensamentos sórdidos, tento comer uma rosquinha, porém, quando estou levando-a à boca, lembro-me da conotação sexual que este alimento pode ter.
Solto-a rapidamente e sinto a bile subindo pela minha garganta, fazendo com que eu recorde da quantidade de álcool que ingeri enquanto estava no cassino, antes de subir ao quarto de Tina. Além disso, o gosto do cigarro que está impregnado na minha boca e o cheiro nas roupas ajudam a me deixar ainda mais nauseada.
Para aumentar meu desagrado, nesse momento, vejo-as entrando no restaurante sorrindo como um casal apaixonado que passou a noite toda fazendo amor.
Elas, notando a minha presença, decidem se aproximar da mesa que ocupo e praguejo internamente por isso.
— Bom dia, Swan! Você está com uma cara péssima! —Regina comenta, zombando, olhando para Mary e ambas sorriem, fazendo pouco caso da minha aparência.
As encaro com um sorriso sarcástico nos lábios e penso: “se eu pudesse ter usado o banheiro da minha suíte, para fazer minha higiene matinal, estaria tão limpinha e cheirosa quanto vocês”.
— Além do seu aspecto, Emma, o seu cheiro está muito ruim também! Você voltou a fumar? —Mary prossegue com os insultos à minha precária situação, antes que eu tenha tempo de responder à outra.
Resolvo, então, fazer o que faço melhor: ser cínica e maldosa.
— Vocês, pelo contrário, estão com uma cara excelente e, pelo cheiro idêntico, diria até que tomaram banho juntas! —Digo, arqueando a sobrancelha e destacando a última palavra.
Noto que elas ruborizam um pouco, porém, Regina pensa rápido e nega a minha insinuação.
— É claro que estamos com o mesmo cheiro, Emma! Lembre-se que você expulsou a sua irmã do quarto dela, obrigando-a a pedir abrigo na nossa suíte. Da forma como ela saiu, não teve tempo de pegar nada e precisou usar o meu sabonete, o meu perfume... —faz uma pequena pausa: — Quando for expulsar as pessoas de seus dormitórios, para fazer safadeza, deixe pelo menos elas pegarem seus itens de primeira necessidade —Conclui, tomando um pouco de suco de laranja na sequência e censurando-me com o olhar.
— Você está me saindo uma excelente defensora dos fracos e desamparados, Mills! —respondo, ironicamente — Porém, pelo semblante de Mary, tão relaxado, poderia jurar que ela achou melhor dormir na minha cama do que na dela —alfineto venenosa.
Minha irmã que, neste instante, ia levando o primeiro pedaço de torrada à boca, interrompe o movimento e me encara, assustada.
Franzo o sobrolho e questiono: — Estou errada, Mary? Desculpa, mas achei que você acordou mais radiante hoje do que nas vezes que passo na sua casa pela manhã para tomarmos café juntas — concluo, sorrindo de canto.
Mary abre a boca, com a intenção de responder algo, entretanto Regina é mais rápida e dispara ácida: — Swan, esse seu aparente mau-humor foi mesmo provocado por não ter tomado banho ou a cama de Tina não era tão boa quanto você imaginava? —arremata e tenho a impressão que cama traz outra conotação na sua fala.
Nesta hora, a raiva que tento controlar, desde o momento que as vi no quarto, explode: — Já que você tocou neste assunto, tenho uma pergunta para minha maninha: Mary, a cama de Regina era confortável?
Ante a minha indagação elas se entreolham apreensivas, certamente se perguntando como eu descobri seu pequeno segredo.
[Regina]
Desde que chegamos à mesa, fiquei questionando-me o porquê de Emma estar tendo um comportamento agressivo e irônico além do seu normal. Mas, a sua última pergunta deixou as coisas muito claras: ela me viu dormindo com Mary.
Óbvio, ela estava com a outra chave, porque Nolan não a trouxe consigo. Eu abri a porta para ela.
Não consigo pensar em nada que justificasse o fato de estarmos juntas no mesmo leito, ainda por cima nuas. Isso seria bem normal se fosse Emma no lugar de Mary, como na noite anterior. Mas, para o que ela viu não há outra justificativa além da verdade, por isso, permaneço calada.
Diante do nosso silêncio, Swan sentencia: — Vejo que deixei vocês sem palavras! Então, vou aproveitar essa pausa, para ir tomar o banho que deveria ter tomado há quase duas horas.
Levanta-se, com expressão rabugenta e, antes que se afaste muito, anuncia: — Sim, Mary Nolan, eu tomei a liberdade de comprar a sua passagem e a de Tina pela internet, antes de vir para cá. Vocês voltarão com as outras, de avião, hoje à tarde.
Sai, antes que possamos questionar sua decisão, mas a julgar pela sua cara de poucos amigos, algo me diz que foi melhor não termos feito isso.
***
Emma e eu estamos em frente ao hotel nos despedindo das outras que só irão embora mais tarde. Saímos ainda pela manhã já que a viagem de carro é bem longa e queremos percorrer todo o trecho com a luz do dia.
Se alguma delas estranhou o fato de Mary e Tina voltarem de avião, não comentou.
A única que está com a expressão contrariada, além de Emma, é Tina que, certamente, não ficou nada satisfeita com a mudança de planos, presumindo que já levou um pé-na-bunda e é mais uma entrando para as estatísticas de Swan.
Enquanto abraço as meninas, desejando-lhes uma boa viagem, escuto o barulho das minhas malas sendo jogadas dentro do cadillac.
— Emma, se eu soubesse que você iria colocar a minha bagagem no carro com tanto “zelo”, a teria despachado para São Francisco via FedEx. Com certeza eles teriam mais cuidado no manuseio. — reclamo, para divertimento geral e fúria de Swan, que bate o porta-malas com violência, encaminhando-se para o banco do motorista, apressando a minha despedida.
Para provocá-la ainda mais, entro no carro, distribuindo beijinhos para as garotas.
Então, Ruby diz: — Mills, deixe Swan voltar sozinha! Seria ótimo fechar a minha despedida de solteira transando com você no banheiro do avião! — afirma brincalhona.
Todas desatam a rir, menos a minha emburrada melhor amiga, que pisa fundo no acelerador e deixa o Treasure Island cantando pneus.
***
[Mary]
Após a intempestiva partida de Regina e Emma, ficamos por um momento no saguão do hotel conversando.
O assunto, claro, são as loucuras que fizemos nesse final de semana que, com certeza, será inesquecível para todas nós.
De repente, me vem um súbito de desejo de revelar a coisa mais louca que já fiz em toda a minha vida.
A culpa de ter traído o meu marido, mesmo que sem intenção, também começa a me corroer e preciso ouvir a opinião das minhas amigas sobre o que devo fazer, porque jamais estive em situação nem sequer parecida.
— Gente, vou dizer uma coisa e preciso saber a opinião de vocês a respeito... — falo de supetão para não perder a coragem.
Elas me olham interessadas e prossigo: — Ontem eu transei com Regina! — confesso o que aconteceu e, em seguida, coloco as mãos sobre a boca, como se tivesse revelado um grande pecado.
As reações delas são muito distintas.
A primeira a falar é Ruby: — Mary, eu pensei que você era bobinha... Aí nos conta que ficou com a gostosa da Regina! Mudei totalmente a ideia que fazia de você —diz, admirada.
— Nossa, eu não imaginava que vocês fossem bissexuais! —Aurora afirma incrédula.
— Não somos... Ou não erámos! Na realidade, foi a primeira vez que ficamos sexualmente com outra mulher. Mas, ainda é muito confuso para mim. Acho que pra ela também. —digo, externando a minha incerteza.
— Como foi!? Você gostou? Vocês... Belle, eufórica, interrompe a pergunta, com um sorriso malicioso nos lábios, porém, imagino o que viria a seguir.
— Sim, nós gozamos... e foi incrível! —respondo, excitada, abafando minha boca com as mãos.
— Só que a questão não é essa! —falo, recompondo-me — Amo o David e não sei o que fazer agora: se conto ou não para ele quando voltar —finalizo.
Neste instante, o ambiente onde estamos ganha ares de loja de departamento em dias de liquidação, pois elas querem dar suas opiniões ao mesmo tempo, chamando a atenção dos outros hóspedes que também estão no saguão.
— Garotas, controlem-se! Desse jeito, Mary vai ficar ainda mais confusa! —Jamie, de forma sensata, tenta acalmar os ânimos.
Quando as outras finalmente se calam, ela dá a sua opinião: — Acho que você deveria contar sim, pois não deve arriscar um casamento de tantos anos por causa de uma aventura. E, sendo sincera com o seu marido, é mais fácil que ele entenda e perdoe, do que se vier a descobrir de outra forma—termina, sendo apoiada por Aurora e Belle, que compartilham da mesma opinião.
— Eu acho que você não deveria contar, justamente para não colocar o seu casamento em risco. É muito difícil um homem aceitar que foi traído, ainda mais com uma mulher — Tina decreta e prossegue: — E, afinal, estamos em Vegas! O que acontece aqui fica aqui.
— Também acho que não deve contar. Mas o importante mesmo é você continuar transando com Regina Mills! Ai que inveja... Ruby dá a sua opinião “ajuizada”, descontraindo o ambiente.
Neste clima, vamos para o cassino, sem que eu tenha decidido nada. Mas, espero encontrar a resposta antes de chegar em casa e encarar David.
***
[Regina]
Estamos na estrada já há algumas horas e a única coisa que Emma fez, desde que deixamos Vegas, foi responder monossilabicamente às poucas interações que tentei estabelecer com ela.
Quando o som do carro começa a tocar Proud Mary, fico cantarolando para passar o tempo e amenizar um pouco o incômodo silêncio que paira entre nós.
Todavia, Swan, ao perceber que estou me distraindo, decide trocar a faixa, certamente para me irritar.
Neste instante, não tolerando mais seu comportamento infantil, explodo: — Emma, se você quer me dizer alguma coisa, fale de uma vez! Porque eu não mereço passar as próximas horas que restam desta viagem aguentando seu mau-humor —digo, irritada.
— O que você acha que eu quero te dizer, Regina? Que eu fiquei muito feliz em saber que você está fodendo a minha irmã? —rebate, enraivecida, metendo o pé no acelerador.
— Quem lhe garante que fui eu que fodi ela e não o contrário? —resolvo provocá-la, porque tenho a impressão que Emma ficou incomodada demais com tudo isso, parecendo até que está com ciúmes.
— Mary não tem a menor cara de comedora! —responde-me com olhar mortal.
— E eu tenho? —questiono, irônica.
— Segundo seu ex, você era bem sacaninha na cama! —fala, acelerando ainda mais o carro.
— Swan, você pretende nos matar porque eu dormi com a sua irmã? —indago, assustada, sentindo o vento bater fortemente no meu rosto, já que a capota está levantada.
Fica calada, no entanto, não diminui a velocidade. Tenho uma visão do futuro: prevejo nossos corpos estraçalhados em meio às ferragens e resolvo tomar uma atitude.
— Emma, na próxima cidade, você vai me deixar em um ponto de ônibus, porque eu pretendo chegar inteira em São Francisco! Não quero que minha mãe tenha que ir ao necrotério reconhecer pedaços do meu corpo —falo e percebo que sua expressão adquire um ar cruel.
— Eu entendo porque você transou com Mary. Afinal, transar com a irmã da melhor amiga é um fetiche só superado pelo de transar com a mãe da melhor amiga! —diz e começa a reduzir a velocidade, parando no acostamento empoeirado.
Custo a entender seu último comentário, enquanto vejo um sorriso sardônico desenhado no rosto dela.
Quando a ficha cai, arregalo os olhos, espantada, e questiono: — Você transou com a minha mãe?!
Ela continua sorrindo cinicamente e diz: — Não se preocupe! Cora já tinha se divorciado do seu pai.
Faço uma careta, enojada, tentando controlar a ânsia de vômito ao imaginá-la na cama com a minha mãe.
Ao sair do carro, coloco as mãos sobre os joelhos porque estou hiperventilando. Percebo que ela saiu também e está parada ao meu lado.
Quando me recomponho, ergo-me, olhando-a furiosa e inquiro: — Quando isso aconteceu?
— Lembra o verão, há 15 anos, quando você foi para a Espanha fazer aquela especialização? Bem... Cora e eu ficamos mais próximas, pois ambas sentíamos muito a sua falta —responde, cinicamente.
— E transar foi a forma que vocês encontraram para me manter presente em suas memórias? —indago, furiosa e cáustica. — Por que você nunca me contou isso? —pergunto, com vontade de esganá-la.
— Por que você não me contou que estava tendo um caso com Mary? —questiona, semicerrando os olhos.
Aproximo-me dela com o dedo em riste e digo: — Não me responda uma pergunta com outra, sua “comedora de mães”!
— E você não coloque o dedo na minha cara, sua “destruidora de lares”! —diz, segurando meu dedo, torcendo-o e colocando meu braço por trás das minhas costas.
Reajo, empurrando-a com a mão livre e ela enlaça minha cintura, tentando me dominar.
Meus esforços para me livrar do seu abraço são inúteis, porque ela sempre foi mais forte do que eu.
Porém, motivada pela ira e pelo orgulho, não quero me render, sem antes travar uma batalha no acostamento de uma rodovia californiana.
Ela me arrasta até o veículo e me encosta no capô do cadillac, inclinando-se sobre mim e segurando meus pulsos acima da minha cabeça.
— Pare de tentar se soltar, porque se não vai acabar se machucando —avisa, ameaçadora.
Como sei que fisicamente já estou vencida, decido provocá-la verbalmente: — Quer saber? Eu não estava tendo um caso com a sua irmã. Foi a primeira vez que transamos, mas fodê-la foi tão gostoso que, se ela quiser, nós trepar...
Antes que eu finalize a frase, ela me beija com raiva, introduzindo a língua entre meus lábios, separando-os com violência.
Tento me afastar, porém Swan solta um dos meus pulsos, segurando-me pela nuca e obrigando-me a permanecer parada.
Quanto mais me mexo, mais meu vestido sobe e sinto uma de suas pernas pressionando o vértice das minhas coxas, enquanto, com a mão livre, arranho seu pescoço, provocando-lhe dor, e ela morde meus lábios, revidando a agressão.
Solta o meu outro pulso, agarrando-me pela cintura, erguendo-me e enfio minhas mãos nos seus cabelos, puxando-os, rendendo-me a sua força e dominada pelo desejo imperioso de continuar sendo subjugada por ela.
Num dado momento, Emma geme, despregando os lábios dos meus, e é a minha vez de puxá-la de volta, pois quero que continue deixando seu gosto na minha saliva.
Cruzo minhas pernas na sua bunda, sentindo o tecido grosso de seu jeans em contato com minha calcinha úmida, e ela puxa-me pelas coxas, também encurtando a distância entre nossos corpos, ao mesmo tempo em que uma luta de dentes, salivas e línguas é travada por nós.
Estamos no meio da estrada, mas tudo se torna tão intenso que não nos importamos em sermos vistas, nem em nossa volúpia beirar um atentado ao pudor.
Quando falta oxigênio aos nossos pulmões, interrompemos o beijo e ficamos respirando com dificuldade, de testas coladas e olhos fechados.
Lentamente, abrimos os olhos e Emma se afasta de mim, entrando no veículo, sem dizer nada. Faço o mesmo, depois de ajeitar meu vestido e cabelo, sentando ao seu lado.
Vejo-a dando partida no carro, sem olhar para mim, e passo os dedos pelos meus lábios ainda sentindo o gosto do beijo dela.
Continuamos a viagem e agora tenho a certeza de que tudo ficará ainda mais confuso do que antes.
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