Entre Elas

24 De volta ao começo - Pt. 2


Notas iniciais
Olá, pessoal! Aproveitem o penúltimo capítulo.

[Regina]

Mary e eu subimos à cobertura quando praticamente todos já estavam lá. A festa parecia animada, porém sem aqueles excessos e loucuras da despedida de solteira de Ruby, apenas amigos bebendo e se divertindo. Só então tive a exata noção do quanto nós tínhamos mudado em um intervalo de poucos meses. Zelena e Ruby cada vez mais casadas e felizes, Aurora e Jamie esperando um bebê. Até Tina parecia mais próxima de um namoro com Chanel e, algo me dizia, que Jefferson e Belle também começavam a se entender.

Em meio a esse clima de final de comédia romântica, percebi que faltava alguém ali, uma das poucas peças ainda sem encaixe e, assim, esperei por algumas horas que Emma chegasse, que aparecesse conforme prometera. Nós precisávamos conversar.

Nos últimos dias, andava sentindo muito a falta dela, não tinha jeito da necessidade de tê-la ao meu lado passar com o tempo. Várias vezes me peguei escrevendo mensagens e apagando logo em seguida. A maioria falava sobre coisas triviais, como algo engraçado que alguém dissera ou sobre a impressão que tivera a respeito de um filme bobo da TV. Buscava algo simples que pudesse nos conectar de novo, sem dramas, sem entraves. E o mais engraçado era que de verdade nada me impedia de procurar apenas a companhia dela de vez em quando, esse obstáculo nunca existiu de fato. Eu só não conseguia mais ser natural com Emma, pois estávamos naquele maldito limbo.

Ninguém nunca seria como ela era para mim. Ninguém poderia dividir comigo a cumplicidade que tivemos, por isso às vezes me sentia tão só, autoexilada que estava desse mundo nosso a partir do momento que escolhi o caminho mais fácil e, por isso mesmo, com altas chances de também não ser o certo. Era previsível, só eu não tinha conseguido enxergar.

Comecei a me preocupar seriamente com a ausência de Swan depois de umas três horas que a festa começara. Até ali, pensei que havia se enfiado no cassino do hotel, esquecendo-se da hora, o que seria bem típico, mas um atraso tão grande não fazia sentido nem mesmo em se tratando dela.

Tentando entender o que se passava, aproximei-me de Chanel, além de ser sua secretária, as duas também estavam dividindo a suíte, alguém que com certeza saberia do seu paradeiro.

— Viu a Emma? — perguntei sem rodeios.

Chanel me olhou confusa, como se eu questionasse algo que já deveria saber.

— Ela foi embora... Passou por aqui há algumas horas e se despediu de todo mundo. Falou que tinha uma viagem marcada amanhã cedo não sei pra onde, que ninguém tinha ouvido falar antes, pegou o carro e disse que ia pra casa.

Aquilo de fato era bem estranho. Que viagem mais repentina seria essa?

Terminei de falar com Oberlin e, quando me virei, dei de cara com Mary, atrás de mim, escutando tudo e me olhando inquisidoramente. Encarei-a de volta sem dizer nada, mas ela não manteve o silêncio:

— Acho que está mais do que na hora de você ir atrás dela e contar tudo, Regina.

...

Quando Emma chegou, perto das seis da manhã, carregando no rosto o cansaço da longa viagem, eu estava sentada na escada do prédio que levava ao apartamento dela. Como o porteiro me conhecia há anos e eu ainda tinha acesso livre, não encontrei dificuldade para entrar e ficar ali esperando, apesar do horário estranho.

Ela saiu do elevador e seus olhos imediatamente cravaram-se em mim, confusos e expectantes, despertando-me um misto de emoções. Naquele momento eu queria beijá-la, queria abraçá-la, queria amá-la ou apenas ficar perdida no imenso verde que me pedia respostas.

— Regina… Como… — começou a balbuciar sem esconder a surpresa.

— Eu vim de avião, por isso cheguei mais rápido — falei simplesmente. — Agora se você quiser saber por que eu vim, a gente precisa entrar.

[Emma]

Eu andava de saco cheio de tudo que a minha vida havia se tornado nos últimos meses. Sentia-me deslocada, afastada de todos, sem rumo, perdida, confusa e principalmente cansada.

Quanto mais eu tentava lutar para esconder o quanto Regina e Mary juntas, tão perto, me incomodava a ponto de me tirar completamente o prumo, mais eu me magoava, em nome de um orgulho idiota, só para que ninguém soubesse que depois de gritar aos quatro ventos que nunca me entregaria verdadeiramente a alguém, tinha acabado caindo em um dos clichês mais antigos do mundo: me apaixonar pela minha melhor amiga.

Quando ela me perguntou na piscina do hotel se havia algo que eu quisesse dizer, deveria ter admitido que não suportava mais vê-las juntas, que precisava de um tempo longe, que precisava fazer algo por mim, para tentar voltar a ser uma pessoa minimamente equilibrada, deixar de ser esse desastre ambulante que me tornara, mas não disse. Porém, uma coragem inédita me invadiu assim que fiquei sozinha no quarto, então resolvi aproveitá-la. Joguei de volta na mala as poucas coisas que levara, subi à cobertura para me despedir de todos e aproveitei para me desculpar com Ruby, afinal tinha sido desnecessariamente grosseira com ela mais cedo. Agradeci por não encontrar minha irmã ou Regina por ali, o que tornou tudo mais fácil, e peguei a estrada de volta para São Francisco.

Eu ainda não sabia onde ia nem quanto tempo ficaria fora. Um período sabático na América do Sul ou uma viagem à Europa, onde poderia me dedicar a algum curso, talvez. Decidiria os detalhes assim que chegasse em casa, mas quando cheguei, Regina me esperava ali, surpreendendo qualquer expectativa que eu pudesse ter sobre aquele momento.

Entramos no apartamento e enquanto eu largava a mala em algum lugar, ela se sentou no sofá da sala.

— Emma, Mary e eu terminamos — jogou de cara, sem preâmbulos. — Esperei você na festa para contar, mas descobri que havia partido. — Esclareceu.

Fiquei por um momento em silêncio, sem saber o que dizer. De verdade, não esperava que isso fosse acontecer, pelo menos não assim.

— Por que vocês terminaram? — foi o que consegui verbalizar.

Regina passou a língua sobre os lábios, umedecendo-os, e então respondeu:

— Antes da viagem para Vegas, nós conversamos. Mary foi percebendo aos poucos que havia algo mal resolvido entre mim e você. — Contou, parecendo meio envergonhada. — Acho que estava muito na cara o tempo todo e aquele dia na casa da sua mãe foi definitivo. Dias depois, ela me perguntou o que havia acontecido e eu preferi não mentir.

Tentei imaginar como fora a reação de Mary e o que poderia estar pensando a meu respeito agora. Desejei profundamente que embora tivesse ajudado a magoá-la de maneira involuntária, ela soubesse que jamais o faria conscientemente.

— Lamento — eu falei.

Regina suspirou pesado, provavelmente convivendo com a culpa de que assumira o risco de fazer outra pessoa sofrer. A conhecia o suficiente para saber que não tinha usado deliberadamente a minha irmã. Ela não seria capaz. Em algum momento se sentiu dividida e fez uma escolha, devia doer não ter dado certo. Não seria eu a julgá-la por isso.

— Eu também — disse com sinceridade.

— Como ela ficou depois que vocês terminaram?

— Bem... No início foi um pouco triste, claro, mas não exatamente um choque. Era algo recente e esse tempo juntas acabou servindo pra gente descobrir que funciona muito bem como amigas. Foi ela que insistiu para que eu viesse falar com você e contasse logo tudo — revelou sem me surpreender. Realmente parecia algo que Mary faria.

— Por que não me contou antes? — provavelmente não teria muita diferença, mas quis saber.

— Não consegui encontrar o momento certo, mas tentei me mostrar disponível, esperando que você também pudesse ter coisas a me dizer.

E como eu tinha… Mas não era nada fácil, pensei.

— Eu não podia dizer muita coisa imaginando que estaria traindo a minha irmã — defendi meu ponto.

— Seria mais fácil fugir — ela concordou, sem julgar.

— Sempre é mais fácil encontrar um atalho seguro. Por isso seguimos tantas vezes por ele — comentei, lembrando de todas as oportunidades que perdemos naquele tempo e que podiam ter feito tudo ser muito diferente.

— É… — ela foi lacônica, provavelmente pensando o mesmo que eu. — Pra onde você vai? — perguntou por fim.

— Eu ainda não sei — abaixei os olhos mirando o chão.

Quando voltei a fitá-la, tive a impressão que seus olhos começavam a marejar, o que partiu meu coração. Durante todos aqueles anos que a conhecia, que era literalmente desde sempre, jamais consegui vê-la chorar sem que desejasse dar o mundo a ela para que isso não acontecesse.

— Bem, acho que já disse o que precisava — falou resistindo bravamente em segurar as lágrimas. — Queria que soubesse antes de partir. — Seus olhos contradiziam o que a boca falava, claramente denunciando que ainda havia uma lacuna, no entanto ela arrematou: — Agora vou deixá-la sozinha, deve ter muita coisa para organizar antes da viagem.

Assenti, sem tirar os olhos dela, quando se levantou para procurar a porta de saída.