Entre Elas

16 Cara de anjo, coração de canalha.


Notas iniciais
Olá, pessoas! Há quanto tempo, né? O capítulo demorou, mas finalmente chegou. Boa leitura!

[Emma]

Saí da mesa apressada para atender ao telefone, que acabou tocando na hora mais apropriada possível. Em outra situação, a chamada me aborreceria muito, pois detesto quando Oberlin me liga, pela manhã, antes de eu chegar ao escritório. Lidar com ela no horário comercial já é o suficiente. Porém, como não aguentava mais a insistência chata das minhas amigas em falar sobre o que aconteceu entre Tina e eu, a ligação acabou sendo providencial.

Jamais imaginei que a situação com Bell chegaria a este ponto. Se soubesse, não teria ficado com ela naquelas noites em Las Vegas nem fodendo. Embora, esta não seja a melhor expressão a ser usada no caso, pois era exatamente isso que eu não deveria ter feito, mas fiz.

O fato é que as coisas já são suficientemente complicadas para mim sem a ameaça de uma mulher que aparenta ser mentalmente instável, com forte tendência à perseguição como ela. "Será que Tina já era assim quando namorava Jefferson?" – Faço uma nota mental para lembrar de prestar mais atenção nas namoradas dos meus amigos.

A ligação de Chanel não durou mais do que dois minutos. Ela só queria saber a hora que eu chegaria. A ida ao café fez com que me atrasasse e, segundo me informou, uma cliente já me esperava impaciente.

Pedi que segurasse as pontas. Prometi não demorar, e como, mesmo sem saber, me livrou de uma saia justa, consegui ser até simpática, mesmo ainda não tendo esquecido o que ela me aprontou, mandando escrever aquelas coisas no cartão que acompanhava as flores de Regina. Depois, haverá bastante tempo para nos acertarmos.

Escorada no balcão, encerrei a ligação, fazendo um sinal de cumprimento para Sarah Fisher, atrás dele, organizando algumas coisas.

Aproveito para ir ao banheiro dar uma olhada no espelho. Saímos de casa tão apressadas que não tive tempo nem de ver como estava. Mas presumo que a minha aparência deva estar péssima, já que quase não dormi.

A noite com Regina foi perfeita em todos os sentidos. Nunca imaginei que pudéssemos levar para a cama o encaixe que sempre tivemos na vida. No entanto, isso não pode estar certo. Eu me conheço. Sei que se as coisas continuarem assim, vou acabar fazendo uma besteira qualquer que um jantar ou uma noite romântica não possam remediar.

Vejo meu rosto no espelho. Olhos expressivos, bonitos, apesar das olheiras pela noite mal dormida. Traços delicados, suaves, definitivamente agradáveis.

Uma pessoa que não me conhecesse poderia dizer, olhando para mim, que tenho as feições de um anjo. Porém, eu, observando a imagem refletida, com as mãos apoiadas sobre a pia, só consigo enxergar o que sei que sou: alguém com uma máscara angelical, mas com o coração de uma canalha.

A canalha com a vida mais fodida que alguém pode ter. Pois, não tenho tempo nem mesmo de ficar sozinha com os meus pensamentos. Logo, o objeto de vidro reflete a figura de Tina parada atrás de mim, fazendo com que eu me sobressalte por não ter pressentido a sua aproximação. Certamente, chegou de mansinho para me surpreender.

“Porra, que mulher chata!” – penso, sem verbalizar e me viro, mesmo a contragosto.

— O que você quer? – Pergunto, com expressão de poucos amigos. Não estou com o menor humor para ser delicada.

Ela se aproxima mansamente. Como não tenho mais para onde fugir, fico parada. Porém, se o chão se abrisse agora, juro que não acharia ruim.

— Conversar. Saber por que você anda tão evasiva comigo. – Começa num tom manso.

Custo a acreditar que tenha tido a cara-de-pau de dizer isso.

— Eu sou uma pessoa muito ocupada, Tina. — Bufo ainda mais aborrecida.

— Jura? — Arqueia uma sobrancelha — Agora, por exemplo, você não está trabalhando. — Aponta com desdém.

— Mas já estou atrasada. Acabei de receber uma ligação da minha secretária avisando que há clientes no escritório esperando por mim. — Balanço o celular na mão.

— Sua secretária… A moça simpática que sempre diz que você não está?

Solto um longo suspiro passando a mão livre pelo rosto.

— Sinceramente, Bell, eu não tenho tempo a perder. Se você tiver alguma coisa importante pra dizer, diga logo. Se não, por favor, não enche. — Retruco, enfiando o aparelho no bolso, já sem paciência.

Ela pisca e entreabre os lábios, parece chocada e ofendida com minha atitude ríspida.

— Ah, Emma. Por que você me trata assim? — Seus olhos estão marejados.

— Porque você não tem o direito de ficar me perseguindo, nem de fazer aquela cena na frente das nossas amigas. — Não me comovo com sua expressão magoada.

— Desculpa. Eu só precisava te ver. A gente podia sair de novo, sei lá... Foi tão bom em Vegas. Queria repetir. — Adota um olhar manhoso e um tom suplicante.

— É, foi ótimo! — Reviro os olhos. — Mas, depois, se tornou um inferno. — Passo a mão nervosamente pelos cabelos, antes de acrescentar: — Olha, Tina, de verdade, é melhor assim. Eu não sou a pessoa ideal para se ter um segundo encontro. Sou complicada, chata e, no final, você vai acabar se decepcionando. Como nós temos muitas relações em comum, é bom pra todo mundo deixar as coisas como estão.

Tina desvia os olhos e morde o lábio, parecendo avaliar o que acabei de dizer.

— Ok, talvez você tenha razão. — Volta a falar sem me encarar — Eu passei um pouco dos limites. Não sei o que me deu… — Sorri nervosamente — Fiquei perturbada com o seu desprezo. Mas agora que estamos conversando, me sinto até meio ridícula. Desculpa. — Fixa seus penosos olhos em mim.

— Tudo bem. Também não é pra tanto... – Já que admite o erro, tento contemporizar.

— Posso te pedir só mais uma coisa? — Me interrompe com ar ansioso.

Solto um suspiro. “Ai, merda!”

— Peça. — Não sei porquê, mas sinto que vou me arrepender.

— Um beijo.

Arregalo os olhos diante de seu pedido bizarro.

— Pensei que você tivesse entendido…

— Eu entendi, juro. — Corta meu raciocínio mais uma vez — É o último. — Beija os dedos cruzados, como se ratificasse seu juramento. — Só pra eu lembrar depois. Prometo que não vou mais ficar atrás de você como louca, nem vou pedir mais nada. — Reafirma num tom solene.

Reflito por um instante.

— Só um beijo? — Me certifico. Ela acena positivamente com a cabeça, mal disfarçando a euforia. — Está bem! — Concordo e Tina vence a distância que nos separava, colando o corpo no meu.

Inclino a cabeça e tomo seus lábios. Ela passa as mãos no meu cabelo, agarrando alguns fios e aprofunda o beijo.

Ofego e apoio as minhas em sua cintura, girando o corpo para encostá-la no mármore frio da pia. Tenho que admitir que essa “maluca” beija muito bem.

Aos poucos, abro as pálpebras, já decidida a quebrar o contato dos lábios, mas, antes, vejo uma silhueta refletida no espelho pendurado na parede em frente.

“Merda, merda, mil vezes merda!”, é o que penso quando identifico a pessoa parada ali.

Bruscamente, me afasto de Tina. Viro o corpo e me encontro frente a frente com minha melhor amiga. Abro e fecho os lábios sem nada dizer e Regina, por um momento, só me observa com seus profundos olhos castanhos. Depois, vejo apenas suas costas e seus cabelos escuros balançando, como se acenassem em despedida para mim, quando ela sai do toalete e me deixa, momentaneamente, sem reação.

[Regina]

Quando saí do banheiro, sentia que devia estar decepcionada com o que acabara de ver, devia estar novamente magoada com Emma, como fiquei depois da ida à casa do lago.

No entanto, o que experimentei, na verdade, foi uma sensação de vazio. Eu me senti vazia de emoções ao ver a minha melhor amiga, com quem havia dormido na noite anterior, beijando Tina.

Caminhei de forma mecânica até a mesa. Me despedi rapidamente das meninas, dando uma desculpa para ir embora. Apesar de não estar zangada, achei estranho continuar ali para esperar as duas voltarem, o que não deveria demorar muito.

— E a Emma? – Ruby questionou.

— O que tem ela? – Perguntei, como se não a tivesse visto.

— Vocês não vieram juntas?

— Sim. Mas, daqui ela vai pro escritório. E eu, pra casa. Como já está atrasada, eu pego um táxi.

— Eu posso te deixar, se você quiser, Regina. – Mary se ofereceu prontamente e percebi um sorrisinho de canto em Lucas, confirmando em mim as suspeitas de que ela já sabe sobre Nolan e eu.

— Não precisa. Fique e aproveite um pouco mais a companhia. Eu só vou agora porque realmente preciso.

Saio para a calçada e fico olhando o movimento dos carros que passam em frente ao Irish, na esperança de avistar um táxi vazio.

Como não vejo nenhum, pego o celular no bolso da calça que Emma me emprestou, assim como a blusa e todo o resto, pois não podia encontrar nossas amigas pela manhã com a roupa de noite que estava quando cheguei na casa dela.

Mas antes que eu disque o número, uma Emma esbaforida aparece se posicionando em minha frente, com claro intuito de roubar minha atenção. Pela atitude, parece uma menina que acabou de fazer uma travessura.

— Regina, nós precisamos conversar. – Ela diz, quando desvio os olhos do aparelho para ela.

— Sobre o que, Emma? – Pergunto, dando alguns passos para trás, abandonando-me na cadeira de uma das mesas colocadas do lado de fora, totalmente desestimulada a conversar com ela agora sobre qualquer coisa que seja, mas sabendo que não poderei fugir.

— Sobre aquilo que você viu lá dentro. – Ela responde, sentando de frente para mim.

— Você acha realmente necessário?

— Acho. Eu... — Fecha os olhos e esfrega a têmpora — Tina me pediu um beijo de despedida! — Pronuncia em um fôlego, voltando a abrir as pálpebras.

Cruzo os braços e nada falo. Ela continua com sua expressão culpada e prende o lábio, olhando para mim por baixo dos cílios, aparentemente pensativa e incerta sobre o que vai dizer.

— Na verdade… – Apoia uma perna na outra e balança o pé no ar – Antes dela entrar no toalete, eu estava justamente pensando no que aconteceu entre nós, ontem à noite, e como eu sempre acabo magoando e decepcionando as pessoas com quem me envolvo.

Sorrio sem vontade. Trocando em miúdos, ela está eufemisticamente me dizendo a mesma coisa que já disse a tantas mulheres: foi ótimo foder com você, mas não espere de mim nada mais. Nunca imaginei que um dia seria eu a passar por isso.

Suas gaguejadas desculpas me soam como um consolo e vejo a verdade estampada diante dos meus olhos: Emma nunca será diferente. Ela vai ser sempre a mulher conquistadora, totalmente avessa a um compromisso que envolva momentos além da cama. E ninguém, nem mesmo eu, deve esperar outra coisa.

— Emma, você não precisa se explicar. Não me deve nenhuma desculpa. — Acho melhor me antecipar, antes que isso fique ainda mais desconfortável.

— Tudo bem pra você? — Faz uma careta.

— Claro. Nós não somos namoradas. Não temos uma relação amorosa em nenhum nível. Somos amigas. Grandes amigas que acabaram se deixando levar por um momento. Acho que não somos as primeiras e certamente não seremos as últimas. — Por mais incrível que possa parecer, estou verdadeiramente conformada.

— Não está chateada comigo? — Sonda com ar ainda preocupado.

Meneio a cabeça negativamente.

— Não se preocupe, Emma. Está tudo bem de verdade. Nada vai mudar entre nós. Agora, se você não se importar, eu preciso ir. Tenho que dormir um pouco, porque à tarde terei uns assuntos pra resolver. — Mal termino de falar, já me coloco de pé. Quero descansar, antes de ir para o Granny’s mais tarde.

— Eu te deixo em casa! — Apressa-se em dizer, levantando-se também.

— Não, obrigada. Eu prefiro pegar um táxi. Nos falamos depois, ok? — Sorrio e me aproximo dela. Faço uma carícia suave em sua bochecha antes de beijá-la.

Quero que Emma entenda que realmente está tudo bem entre nós e que não pretendo tratá-la friamente como fiz da outra vez.

Ela esboça um fraco sorriso e responde “Ok!”, com um fio de voz.

Despeco-me e ando até onde estava, antes dela aparecer, sem olhar para trás. Felizmente, dessa vez, vejo uma condução sem passageiros se aproximar. Faço sinal, o veículo para e eu embarco.

Antes que o motorista arranque, de soslaio, observo que Emma voltou a sentar no mesmo lugar.

(Naquele mesmo dia, à noite…)

[Regina]

O movimento do Granny’s hoje estava infernal. Não parei um momento sequer. Por um lado, foi bom porque não sobrou tempo para pensar em mais nada a não ser trabalho. E realmente estava precisando tirar férias da minha mente. Mas, por outro, meu corpo está exausto, moído. Portanto, o que mais desejo agora é a maciez do meu colchão e a companhia dos meus travesseiros. Não vejo a hora de chegar em casa e me entregar a eles inteiramente.

Já sem o uniforme, despeço-me do sous-chef e dos meus ajudantes, que ainda estão tratando dos últimos detalhes na cozinha antes de também irem para casa.

No salão, passo por Giulia, que conversava despreocupadamente com alguns garçons, os mesmos que haviam cuidado há pouco do fechamento. Entre eles, aquele que serviu a mim e a Emma na noite anterior.

Felizmente, ao contrário do que esperava, ninguém fez qualquer menção ao meu jantar com a loira. É como se nada tivesse acontecido, o que me deixou muito aliviada. Não estou com ânimo de lidar com piadinhas ou brincadeiras. Principalmente sobre ontem.

Quando deixo o restaurante, sinto um vento leve passar por mim, enquanto atravesso a rua. É quase meia noite e a temperatura já caiu um pouco. Fecho o meu casaco. Dando uma pequena corrida até o carro estacionado do outro lado, destravo o alarme.

Entro, coloco a minha bolsa no banco do passageiro e dou partida. Presto rápida atenção no movimento de entrada de uma casa noturna que fica praticamente ao lado do Granny's, mas que ao contrário dele, acabou de começar suas atividades por hoje.

A fila está imensa, como sempre, mesmo sendo uma terça-feira. E me pergunto onde essas pessoas conseguem tanta disposição para disputar espaço em um ambiente tão cheio, com música, muitas vezes, ruim.

Faço o retorno e passo em frente à boate devagar, com o carro ganhando velocidade. O farol ilumina rapidamente algumas das pessoas na fila. Imediatamente, reconheço um rosto entre elas: David Nolan está abraçado e aos beijos com uma jovem que se não muito me engano, teria idade para ser filha dele.

Sigo meu caminho impressionada com a cena que vi. Não sei bem o que pensar. Mary dissera que quando o marido confessou o caso que teve com a secretária, também jurara que tudo tinha acabado. "Ele mentiu ou tem outra amante?"

De repente, o celular toca e vibra dentro do bolso do casaco, me despertando desse pensamento. Pego-o, fazendo um pequeno “malabarismo” tentando não soltar a outra mão do volante.

— Oi! — Apoio o celular entre o ombro e a orelha, depois de atendê-lo rapidamente, antes mesmo de ler o nome que aparece na tela. Segurar um volante, ao mesmo tempo que desliza dedos sobre um touchscreen não é uma das tarefas mais simples.

— Oi!- A doce e familiar voz do outro lado me surpreende.

Com a surpresa, breco o carro e o manobro até o acostamento da pista.

— Mary?- Mal consigo disfarçar o espanto na voz. É muito estranho falar com ela, instantes depois de flagrar seu marido a traindo.

Notas finais
Tenso, não? :O O que acharam? Comentem e até o próximo!