Entre Elas

1 Almoço entre amigas.


Notas iniciais
- Essa fic foi postada por Dri em outro perfil lá pelos idos do ano 2014, só que depois ela desistiu da história e passou a me ajudar com as que eu já postava neste perfil aqui. — Enfim, depois de uma trama tão delicada e mais profunda, como Transex (a propósito, obrigada pela recomendação, Milena), decidimos retornar com essa trama bem mais leve e descontraída. — E para quem já estava acostumada com nossas histórias essencialmente SQ, adiantamos que Regina também se envolverá com Mary nesta fic. — Sem mais, esperamos que vcs gostem e apreciem a leitura!

[Regina]

Emma e eu nos encontramos para almoçar num dos restaurantes do Píer 39. Um dos pontos turísticos mais frequentados de São Francisco, a cidade americana com a melhor qualidade de vida, conhecida pela sua diversidade étnica, cultural e sexual, pois desde a década de 60 passou a abrigar vários hippies, que viveram aqui o “verão do amor”.

Além disso, também foi o local escolhido como refúgio de muitos homossexuais, que contribuíram para transformar São Francisco num lugar fascinante, onde sentimos certa magia pairando no ar.

Nossos pratos já foram servidos há mais de 10 minutos, mas a minha melhor amiga está discutindo ao telefone com o seu sócio, Jefferson Hatter, que é um dos meus grandes amigos também.

Eles são parceiros na firma de advocacia Swan&Hatter, especializada em divórcios.

Emma resolveu investir nesse ramo do Direito porque desde sempre foi uma pessoa completamente descrente quando o assunto é casamento.

Ela costuma dizer que “não há nada mais pernicioso para uma relação, do que a convivência diária”, e que o número crescente de divórcios nos quais trabalha, a maioria litigiosos, só faz com que sua velha máxima seja confirmada.

Emma, será que você poderia desligar seu celular pelo menos enquanto estamos almoçando? — Imploro, chateada, pois detesto o fato dela ficar discutindo assuntos do trabalho durante os nossos encontros.

Faz um gesto para que eu espere um pouco e suspiro, resignada.

Swan é uma das pessoas mais detestáveis que alguém pode conhecer. Ela é chata, crítica, grosseira, briguenta, arrogante e não gosta de novidades. Por isso mesmo, costuma afirmar que a música e o cinema só valeram a pena até meados dos anos 90.

Rechaça tudo que é novo e não gosta de nenhuma cantora da atualidade, além de afirmar que Rainhas do Pop, para ela, só são Madonna e Cyndi Lauper, portanto, não posso nem sonhar em presenteá-la com algum CD de Beyoncé ou Adele, embora ela já tenha dito que esta última, das que surgiram recentemente, é a menos pior.

Se sua vida amorosa tivesse um título seria: 30 dias, pois esse foi o tempo máximo que Emma ficou com alguém. Uma jovem tenista chamada Ariel Fish, que era uma promessa do esporte, por ter figurado entre as três finalistas do ATP de Montreal há dois anos. No entanto, após o rompimento das duas, sua carreira esteve ameaçada, já que a moça ficou em frangalhos com o término.

Swan é assim, tem o dom de deixar suas exs na pior, mesmo que a relação só dure uma semana. Não sei o que ela faz, mas deve ser muito bom.

Já perdi as contas de quantos corações despedaçados por ela eu tive que consolar, porque suas amantes sempre me procuram para tentar compreender o motivo de Emma agir assim.

Nesse momento, você deve estar se perguntando: como eu consigo conviver com alguém tão superficial e insuportável igual a ela?

Simples: como pessoa ela pode ser desprezível. Mas como amiga é leal e companheira.

Quando enfrentei a pior decepção de todas, ela estava lá para me reerguer e me tirar de uma grave depressão.

Há cerca de dois anos, flagrei o homem que julgava ser o amor da minha vida, Killian Jones, na cama com sua secretária e, naquele dia, senti como se não houvesse mais razão para viver.

Meu coração foi partido em mil pedaços, pois não podia crer que um homem que parecia ser tão apaixonado e dedicado a mim, tinha me enganado daquela forma vil.

A situação, com o passar dos dias, só piorou, quando ele me confidenciou que Milah não era seu primeiro caso. Muito pelo contrário, ele me traía desde o início do nosso relacionamento, pois sempre foi viciado em sexo e eu não era o bastante para satisfazê-lo.

Nosso casamento durou cinco anos e, felizmente, não tivemos filhos, o que teria tornado a separação ainda pior.

Ah, já ia esquecendo... Em defesa da alma da minha amiga, devo dizer que a tenista já está totalmente recuperada e com a promessa de um novo patrocinador que deve dar uma alavancada na sua carreira. Mas ainda sente calafrios quando alguém pronuncia o nome da loira.

Nesse instante, Emma, finalmente, desliga o telefone e me olha, com sua expressão cínica, uma vez que estou encarando-a furiosa, enquanto pego um dos mariscos do meu prato com o garfo.

­-Desculpe, meu bem, mas eu precisava discutir uns pontos com Jefferson sobre um caso de divórcio que vai render uma bolada para a firma.­ — Esclarece, animada, tentando ganhar meu perdão com seu lindo sorriso.

­-Emma, eu juro que se você fizer ou atender mais uma ligação para discutir assuntos chatos de trabalho, enquanto almoçamos, eu atiro seu precioso iPhone na baía de São Francisco.­ - Falo, ameaçadora.

Calma, Mills, prometo que essa foi a última!- Diz, guardando o aparelho na bolsa. — Hei, tem um cabelo preto na minha comida! — fala, com cara de nojo. — Foi você quem colocou aqui por vingança, não foi? — Pergunta, zangada, mexendo no seu prato.

— Swan, se eu tivesse feito isso, você teria percebido, não? Porque estivemos o tempo todo sentadas uma de frente para a outra. — Menciono o óbvio.

Se não é seu, então vou chamar o garçom para reclamar! — Resmunga, já fazendo um gesto para o funcionário do restaurante.

Emma, por favor, não vá fazer um escândalo, como naquele outro dia no bar! Eu nunca mais tive coragem de voltar. — Suplico, recordando do constrangimento que passei, certa vez, quando ela reclamou por desconfiar que estivessem reutilizando os limões nas caipirinhas.

Contrariando a minha vontade, ela continua a fazer sinal para o garçom, que então se aproxima da nossa mesa.

Pois não, senhora? – ele fala, dirigindo-se a ela.

Querido, gostaria de saber se esse cabelo no meu prato é brinde!?— Questiona com sua costumeira grosseria e tenho vontade de desaparecer.

O rapaz arregala os olhos e olha do prato para Emma, ao mesmo tempo em que faço um gesto negativo com a cabeça.

Desculpe senhora, eu vou substituir o seu pedido!- Avisa, claramente envergonhado, retirando o prato e levando-o consigo.

Quando o rapaz se retira, digo censurando-a: — Tomara que ele cuspa na sua comida!

Ela sorri ironicamente, certamente divertindo-se com a minha ira e indaga: — Se tivesse no seu prato, você comeria sem reclamar?

Claro que não! Mas também não trataria o garçom da maneira estúpida como você tratou. Aliás, não sei nem por que ainda me choco, já que rudeza deveria ser seu sobrenome.­ — Falo, indignada.

Pois é, Regina Mills! Você já deveria estar acostumada com meu jeito de ser, pois já me conhece há 36 anos e, segundo nossas mães, a primeira coisa que fiz quando fiquei perto de você, foi puxar seus cabelos. — Diz, brincalhona.

Mesmo chateada, não consigo evitar o sorriso ao recordar esta velha história.

Nossas mães, Cora Mills e Margaret Swan, costumam dizer que não sabem como Emma e eu nos tornamos tão amigas, porque, quando pequenas, estávamos sempre brigando.

Enquanto a loira gostava de puxar meus fios negros, eu não perdia a oportunidade de mordê-la, o que sempre resultava em muito choro.

Mas, à medida que fomos crescendo, nos tornamos praticamente a mesma pessoa. Ficamos tão apegadas uma a outra que chorávamos para sermos matriculadas no mesmo colégio e estarmos na mesma turma.

Nossas mães se conheceram no UCSF Medical Center no dia que foram dar à luz a nós duas e, desde então, ficaram bastante íntimas. Portanto, realmente, posso dizer que conheço Emma desde sempre.

Para ter uma ideia, eu nasci às 23h56min do dia 21 de maio de 1980, e ela, nasceu às 00h03min do dia 22 de maio, ou seja, estive no mundo sem Emma por apenas 7 minutos.

De repente, ela me tira dessas lembranças, quando volta a falar:

A despedida de solteira da Ruby é neste final de semana, não é?­ Pergunta.

— Sim! – Confirmo, antes de levar o garfo à boca mais uma vez.

Ruby Lucas é nossa amiga já há alguns anos. Ela cursou Direito juntamente com Emma na USF, faculdade onde eu também estudei, só que Gastronomia.

A morena irá se casar daqui a 15 dias com Zelena Green, uma policial que ela conheceu por intermédio de Emma. A loira também namorou a moça por alguns dias, e, quando cansou dela, resolveu apresentá-la a nossa amiga. No que eu acabei ficando duplamente feliz, porque elas se curtiram quase que instantaneamente, sendo uma a menos para eu consolar.

Nós vamos mesmo para Las Vegas? — Indaga, novamente.

— Sim, Emma! Por quê? Pelo seu tom, acho que tem alguma objeção... — Questiono, encarando-a.

Impressão sua! — Fala, dando de ombros. — Só acho clichê, e também desnecessário, ficar gastando dinheiro nessas comemorações. Porque, conforme as estatísticas, é provável que elas não resistam a crise dos 7 anos — Alfineta, sarcástica.

Swan, felizmente, nem todo mundo é tão cínico quanto você! Muitas pessoas ainda acreditam em amor verdadeiro, em almas gêmeas... E, a maioria, quando se compromete, realmente espera que viverá com a pessoa escolhida até morrer, e alguns creem que permanecerão juntos até depois da morte. — Digo, rebatendo o veneno dela.

Ela faz um meneio com a cabeça. Sei que não leva a sério o que eu disse e muda de assunto: — Ainda vamos no meu cadillac conversível, não é? — Pergunta, animada.

Claro! Você, eu, Tina e Mary, embarcaremos numa viagem louca, regada a muita bebida e drogas. — respondo, brincalhona.

E as outras? — Questiona.

— Ruby disse que ela, Belle, Jamie e Aurora vão de avião. Mas vamos ficar todas no Treasure Island. O pessoal da firma onde trabalha, resolveu patrocinar a despedida de solteira dela. Então, prepare-se para muito divertimento!- Falo, sorrindo.

Não vejo a hora de ganhar bastante dinheiro nos cassinos. — Diz, com olhos brilhantes.

Até parece! — debocho dela.

— Mills, eu sou expert no Blackjack¹! Vou ganhar tanta grana que é provável que o dono do cassino peça “educadamente” para que eu me retire da mesa. — Fala, convencida.

— Tá bom, Rain Man²! — Faço piada da sua suposta habilidade no mencionado jogo.

Depois que o garçom retorna, trazendo o prato de frutos do mar dela, espero-a terminar o almoço e, ao final, nos despedimos em frente à estátua de caranguejo que fica próxima ao Hard Rock Café no Píer 39.

Emma provavelmente irá pegar um Cable Car para voltar para a firma que fica relativamente perto daqui.

Por minha vez, ando até o meu Mercedes e conduzo em direção ao Granny’s, um dos mais famosos restaurantes da cidade, que pertence à avó de Ruby, Eugenia Lucas, onde trabalho há quase 10 anos, sendo a respeitada chef do local, uma das poucas mulheres que ocupa essa função em toda a cidade.

Notas finais
¹Blackjack é um jogo de azar praticado com cartas em casinos e que pode ser jogado com 1 a 8 baralhos de 52 cartas, em que o objetivo é ter mais pontos do que o adversário, mas sem ultrapassar os 21 (caso em que se perde) (Fonte Wikipédia). ²Rain Man, filme com Tom Cruise e Dustin Hoffman, onde esse último interpreta um homem com autismo capaz de contar com velocidade e precisão as cartas do baralho e deduzir quais ainda restam no monte. — Até o próximo!!!