Entre Dois Mundos

13 O PESO DO QUE NÃO FOI DITO


Na manhã seguinte, a casa dos Velloci parecia silenciosa demais.

Isabelly desceu as escadas já pronta para sair, elegante como sempre, mas claramente distraída. Mal tocou no café da manhã preparado.

Helena percebeu imediatamente.

— Você vai sair sem comer?

— Estou sem fome.

— Isabelly

— Eu estou atrasada.

A resposta veio rápida demais.

Lorenzo observou a filha pegar a bolsa e sair quase às pressas, como alguém fugindo de alguma coisa que ainda não sabia enfrentar.

E, naquele momento… ela realmente estava.

Na Publisher Stars, Alex chegou cedo. Mais cedo do que o habitual.

Mas não por trabalho.

Ele precisava organizar a própria cabeça antes que o dia começasse de verdade.

Adam o encontrou próximo à área de criação, segurando um café.

— Você parece alguém que dormiu brigando com os próprios pensamentos.

Alex apoiou os braços na bancada.

— Você sabia?

Adam franziu o cenho.

— Sabia o quê?

Alex respirou fundo.

— Sobre a Isabelly. A família dela. A vida que ela tem.

Adam ficou em silêncio por um instante.

— Não exatamente. Eu sabia que ela vinha de família rica, mas… nada que fosse além...

Alex então contou sobre a noite anterior.

A mansão. A zona sul. O ambiente. A diferença absurda entre os mundos deles. Só omitiu uma coisa: o beijo.

Adam ouviu tudo com atenção incomum.

E, pela primeira vez, pareceu conectar várias peças.

— Então é por isso… — murmurou.

— Por isso o quê?

— O jeito dela.

Alex o encarou.

Adam deu de ombros.

— Sempre tão controlada. Tão cuidadosa com tudo que fala. Como se estivesse constantemente tentando não decepcionar alguém.

Alex ficou em silêncio. Porque agora ele também entendia.

Adam então perguntou:

— E o que você vai fazer?

A resposta demorou mais do que deveria. Porque Alex não sabia. E odiava não saber.

— Eu… não sei.

Adam ergueu levemente as sobrancelhas. Aquilo era raro. Ele sempre tinha respostas. Mesmo quando não queria dá-las.

O restante do dia na Publisher Stars pareceu estranho. Alex procurou Isabelly sem admitir isso para si mesmo.

Na reunião do meio da tarde, ela não apareceu. No refeitório também não. Nem pelos corredores. Ausência. Era tudo que havia dela naquele dia. E isso incomodava mais do que ele gostaria.

Enquanto isso, Isabelly estava longe da empresa. Passara o dia inteiro com Maceli. Porque precisava da única pessoa que conseguia ouvi-la sem julgamentos ou expectativas.

No fim da tarde, as duas estavam sentadas em uma Starbucks próxima ao centro. Maceli segurava um cappuccino impecavelmente decorado enquanto observava a amiga em silêncio.

Isabelly parecia perdida nos próprios pensamentos.

— Você fugiu dele o dia inteiro — Maceli comentou calmamente.

— Eu sei.

— E funcionou?

Isabelly soltou um pequeno riso sem humor.

— Não.

Maceli apoiou o copo na mesa.

— Então talvez esteja na hora de parar de fugir.

Isabelly desviou o olhar.

— Você não entende.

— Entendo mais do que você pensa.

Houve um silêncio breve. Então Maceli completou:

— Fala com ele. Mas fala de verdade. Pessoalmente.

Isabelly ficou pensativa. Longos segundos. Então levantou devagar.

— Aonde você vai? — Maceli perguntou.

— Já volto.

Ela se afastou alguns metros, pegando o celular.

Maceli observou à distância enquanto Isabelly digitava, apagava, respirava fundo… e finalmente enviava.

Quando voltou para a mesa, havia algo diferente em seu olhar. Mais decidido.

— Decidi seguir seu conselho — disse apenas.

Maceli sorriu lentamente.

— Finalmente

Já era final da tarde quando Alex permanecia sozinho na Publisher Stars.

A maioria das luzes do andar estava apagada.

Na tela do computador, ele ajustava detalhes de um slogan para a nova campanha da empresa, tentando se distrair. Mas não estava funcionando.

O celular vibrou. Ele pegou sem pensar. E o nome dela apareceu na tela. O coração dele falhou por um segundo irritantemente óbvio.

“Eu queria te ver. Precisamos conversar. Se você ainda quiser.”

Alex ficou olhando para a mensagem em silêncio. Sem orgulho. Sem fuga dessa vez. Porque a verdade era simples: ele também precisava vê-la.

Precisava entender o que existia entre eles antes que a insegurança destruísse tudo sem nem tentar. Então respondeu.

“Na orla, mesmo local de ontem.”

Pouco tempo depois, a orla de Seattle voltava a ser cenário deles.

A pista de patins estava parcialmente vazia naquela noite. Algumas luzes permaneciam acesas, a música mais baixa agora, o vento frio vindo do mar trazendo aquela sensação familiar de silêncio entre as ondas.

Alex chegou primeiro. Mãos no bolso do casaco. Pensamentos demais. Então ele a viu.

Isabelly caminhava em direção a ele devagar, os cabelos sendo levemente levados pelo vento. O olhar ainda carregava insegurança… mas também coragem.

Dessa vez, ela parecia menos a mulher perfeita da Publisher Stars.

E mais apenas… Isabelly.

Ela parou diante dele, meio sem jeito.

— Oi.

Alex a observou por alguns segundos.

E diferente da noite anterior… ele não quis fugir daquela realidade. Não quis se afastar. Pela primeira vez desde que tudo começou, ele queria que ela estivesse ali.

— Oi — respondeu mais baixo.