Entre Dois Mundos

14 ENTRE SEGREDOS E ESCOLHAS


O vento vindo do mar soprava mais forte naquela noite.

A pista de patins permanecia parcialmente iluminada, mas agora servia apenas de cenário distante. Alex e Isabelly estavam próximos da grade da orla, observando as luzes refletidas na água enquanto o silêncio entre eles parecia pedir coragem.

E, dessa vez, foi Isabelly quem tomou a iniciativa. Ela respirou fundo antes de falar.

— Você é diferente.

Alex virou o rosto lentamente para ela.

Isabelly sorriu sem jeito.

— Eu sei que parece uma frase simples… mas não é.

Ela desviou o olhar por um instante, tentando organizar pensamentos que guardava havia tempo demais.

— Na Publisher Stars, quase todo mundo tenta impressionar alguém o tempo inteiro. Status, aparência, influência… tudo parece uma competição silenciosa.

Os olhos verdes dela voltaram até ele.

— Você não faz isso.

Alex ficou em silêncio. Porque não sabia exatamente o que responder quando alguém o enxergava daquela forma.

— E isso foi mexendo comigo aos poucos — Isabelly continuou, mais baixa agora. — O jeito como você fala só o necessário. Como observa as coisas. Como… parece real.

Alex sustentou o olhar dela. O coração batia mais forte do que deveria.

— Isabelly…

Ela sorriu de leve, interrompendo.

— Eu pertenço a uma das famílias mais ricas de Seattle. Eu sei o que isso significa para as pessoas.

Houve um pequeno peso na voz dela agora.

— Mas eu não vou deixar isso decidir quem eu sou.

Alex percebeu que aquilo não era apenas uma frase bonita. Era quase uma defesa.

Ela então hesitou antes de continuar.

— Minha mãe sempre sonhou em me casar com… alguém importante.

Não mencionou Arnold. Nem precisou.

— Ela acredita nesse tipo de sociedade onde tudo precisa fazer sentido no papel. Status. Nome. Aparência perfeita.

Ela suspirou.

— Meu pai odeia isso.

Alex observava cada detalhe dela enquanto falava. O jeito como escondia insegurança dentro da elegância. Como parecia forte e cansada ao mesmo tempo.

Então perguntou calmo:

— O que você pensa a respeito disso tudo?

Isabelly soltou uma pequena risada sem humor.

— Eu acho que não nasci pra seguir padrões de sociedade.

O silêncio veio novamente. Mas agora era diferente. Mais íntimo. Mais honesto.

Depois de alguns segundos, Alex também decidiu baixar as próprias barreiras.

— Eu vim da Carolina do Sul.

Isabelly o olhou com atenção imediata.

— Meu pai morreu quando eu tinha dez anos.

A voz dele permaneceu firme, mas havia algo pesado ali.

— Acidente.

Ela sentiu o peito apertar.

Alex apoiou os braços na grade da orla, olhando o mar.

— Depois disso… foi só minha mãe, eu e minha irmã.

Ele sorriu de canto, pequeno.

— Lara ainda era muito nova. Então eu aprendi cedo que precisava cuidar dela.

Isabelly escutava em silêncio absoluto. Sem interromper. Sem desviar o olhar.

— Não foi uma vida fácil — Alex continuou. — Mas minha mãe fez o impossível parecer normal durante anos.

Ele soltou um pequeno riso baixo.

— Acho que foi daí que veio essa minha necessidade de resolver tudo sozinho.

Isabelly sentiu os olhos marejarem discretamente. Porque agora entendia. A solidão dele não era frieza. Era sobrevivência. E aquilo só a fazia admirá-lo mais. Muito mais.

— Você realmente é diferente… — ela murmurou novamente.

Alex virou o rosto para ela. E então o silêncio voltou. Mas dessa vez não havia dúvidas. Os olhos dela o prendiam completamente. Verdes. Profundos. Honestos. Isabelly se aproximou devagar. Alex também.

E quando os dois se beijaram novamente, não houve hesitação. O beijo foi mais intenso dessa vez. Mais carregado de tudo que tinham finalmente começado a revelar um ao outro. As mãos dela seguraram o casaco dele com delicadeza.

Alex a puxou para mais perto instintivamente. O mundo parecia desaparecer outra vez. Até que...

— Ótimo. Interrompi uma cena cinematográfica.

Os dois se afastaram rapidamente.

Maceli Jones estava parada poucos metros atrás, braços cruzados e expressão ironicamente satisfeita.

— Maceli! — Isabelly reclamou claramente envergonhada.

— Relaxa, eu bati palmas internamente antes de interromper.

Alex passou a mão discretamente pela nuca, tentando recuperar qualquer traço de postura.

Maceli apontou para Isabelly.

— Vim buscar essa criatura em segurança antes que Helena Velloci mobilize toda a guarda de Seattle atrás dela.

Alex soltou um pequeno riso involuntário.

— Obrigado.

— Não agradece ainda — Maceli respondeu imediatamente. — Porque agora vocês dois precisam agir normalmente na Publisher Stars.

Ela olhou de um para o outro dramaticamente.

— Discrição. Ou aquela empresa vai virar uma central de fofoca em menos de quarenta e oito horas.

Isabelly cobriu parte do rosto, sem graça.

— Maceli…

— Estou falando sério! Adam já percebeu coisas demais e ele é literalmente uma máquina de caos social.

Alex riu baixo dessa vez.

E Isabelly percebeu algo simples naquele instante: ela gostava do som da risada dele.

Mais tarde, na casa dos Velloci, Helena estava na sala de estar esperando pela filha. Maceli havia avisado previamente que passaria o fim do expediente fazendo compras com Isabelly e a deixaria em casa depois. Ainda assim, Helena parecia desconfiada.

— Então? — perguntou assim que Isabelly entrou. — As compras valeram a demora?

Isabelly tirou o casaco lentamente.

— Acho que sim.

— Comprou o quê?

Ela hesitou meio segundo.

— Algumas coisas… acabei gastando bastante com a Maceli.

Helena estreitou levemente os olhos. Algo parecia fora do lugar.

Mas Isabelly sustentou a calma elegante que aprendera desde criança.

— Certo… — Helena respondeu devagar.

Mesmo assim, a suspeita permaneceu. E Isabelly sabia.

Na zona leste de Seattle, Alex acabava de sair do banho. O apartamento simples parecia mais leve naquela noite. Milu dormia no sofá como sempre. E Alex, pela primeira vez em dias, sentia o peito menos pesado. Como se finalmente tivesse parado de fugir dos próprios sentimentos.

Ele sentou na cama ainda com os cabelos úmidos, encarando o celular ao lado.

Pensando nela. No beijo. Na conversa. Na forma como Isabelly o havia olhado quando ele falou sobre a família. E então outro pensamento surgiu inevitavelmente:

Como vai ser olhar pra ela na Publisher Stars agora… e fingir normalidade?

Alex passou a mão pelo rosto, soltando um pequeno riso sozinho. Porque existia outra pergunta ainda maior rondando sua cabeça. Uma pergunta simples. Perigosa. E sem resposta oficial.

Estavam juntos agora?