Entre Dois Mundos
17 ENTÃO... O PEDIDO
O fim de tarde na casa de campo de Margot parecia cena de filme antigo.
As luzes douradas começavam a iluminar o jardim enquanto a primeira banda da noite tocava músicas animadas para receber os convidados. Risadas ecoavam entre mesas sofisticadas, garçons atravessavam o salão carregando bandejas refinadas e carros luxuosos continuavam chegando pela longa entrada principal.
Vizinhos influentes da região. Amigos antigos de Margot. Parentes da família Vaz. Todos sendo recebidos com entusiasmo exagerado pela anfitriã.
Margot adorava aquilo. Adorava atenção. Adorava festas. E principalmente… adorava sentir que ainda pertencia ao centro daquele mundo.
Helena conversava com algumas mulheres próximas da entrada quando um enorme carro preto estacionou lentamente diante da propriedade.
O motorista desceu primeiro. Abriu a porta traseira. E Helena imediatamente arregalou os olhos. Arnold havia chegado.
Elegante, postura impecável, terno perfeitamente alinhado. Arnold Stroheim caminhava com naturalidade entre aquele ambiente como alguém que já pertencia à elite de Seattle desde sempre.
Ele cumprimentou Helena com educação. Depois Lorenzo.
Mas os olhos procuravam outra pessoa.
— Ela está aqui? — perguntou tentando soar casual.
Helena abriu um sorriso satisfeito demais.
— Isabelly já vai aparecer.
Mesmo dizendo aquilo com confiança… nem ela mesma sabia se a filha pisaria naquela festa de bom humor.
Do andar superior, Isabelly observava tudo à distância pela janela do quarto de hóspedes.
Ela já estava pronta. E aquilo a incomodava ainda mais.
O vestido escolhido por Margot era elegante demais. Sofisticado demais.
A cor destacava seus olhos verdes de forma quase injusta, enquanto o corte realçava suas pernas torneadas com delicadeza e sensualidade na medida certa.
Isabelly se sentia linda. E odiava admitir isso naquele momento. Porque sabia exatamente o tipo de atenção que aquele vestido atrairia.
Ela respirou fundo olhando o próprio reflexo.
— É só uma festa… — murmurou para si mesma.
Mas nem ela acreditava na própria frase.
Horas depois, em Seattle… Adam saía do estádio completamente indignado.
— ISSO FOI UM CRIME CONTRA O FUTEBOL!
A torcida do Seattle Sounders deixava as arquibancadas frustrada após a virada inesperada no final da partida.
O título escapara nos últimos minutos.
Adam parecia pessoalmente ofendido.
— Como um time consegue tomar dois gols daquele jeito?!
Alex caminhava ao lado dele segurando o riso.
— Você está vivendo esse momento como um divórcio.
— Porque foi pior!
Alex finalmente riu.
E, pela primeira vez naquele dia, o peso da ausência de Isabelly pareceu diminuir por alguns instantes.
Na festa, Isabelly finalmente decidiu descer. Assim que apareceu na escadaria principal… o ambiente mudou discretamente.
Olhares surgiram de todos os lados.
Homens mais jovens. Homens mais velhos. Todos observando a filha dos Velloci atravessar o salão com elegância natural. Mas Isabelly ignorava completamente aquilo. Foi direto até Margot.
— O vestido realmente ficou perfeito em você — a tia comentou orgulhosa.
Isabelly sorriu educadamente.
— Obrigada, tia.
Então aconteceu. Ela viu Arnold. E Arnold a viu. Por alguns segundos, ele simplesmente ficou sem palavras. Porque a menina que corria pelo jardim na infância agora parecia completamente inalcançável.
Bonita. Elegante. Impressionante.
— Isabelly… — ele murmurou quase sem reação.
Ela aproximou-se educadamente.
— Arnold. Faz muito tempo.
Formal. Controlada. Distante.
Mas Arnold parecia incapaz de esconder o entusiasmo. Começou a falar imediatamente.
Perguntas. Comentários. Memórias da infância.
Enquanto Isabelly respondia com educação impecável… sem realmente dar abertura. Quanto mais ele tentava criar intimidade, mais ela percebia o quanto aquele reencontro parecia artificial.
Planejado. A noite avançou. Vieram os discursos.
Os parabéns. Os fogos de artifício iluminando o céu escuro da propriedade. Margot emocionada recebendo aplausos exagerados.
E o primeiro pedaço de bolo entregue à irmã, Helena Velloci, que recebeu a homenagem com satisfação visível.
Tudo parecia perfeito demais. Organizado demais.
Arnold continuava ao lado de Isabelly praticamente o tempo inteiro.
— Você lembra quando a gente destruiu aquele jardim tentando jogar futebol? — perguntou rindo.
Isabelly sorriu sem muita energia.
— Eu me lembro da bronca depois.
— Você sempre fugia da culpa e deixava tudo pra mim.
— Porque normalmente a ideia era sua.
Arnold riu alto. Mas Isabelly já começava a perder a paciência.
Ela queria sair dali. Queria respirar. Queria voltar para Seattle.
Queria Alex.
E foi exatamente quando pensou em se retirar discretamente que tudo desmoronou. Arnold levantou-se de repente. Pegou o microfone.
O salão silenciou aos poucos. Helena arregalou os olhos em expectativa.
Lorenzo imediatamente pareceu preocupado.
E Isabelly sentiu o coração afundar.
— Desde criança… — Arnold começou olhando diretamente para ela — existe alguém que sempre foi especial pra mim.
O silêncio aumentou.
Isabelly já estava completamente tensa.
— E depois de todos esses anos, eu percebi que nunca consegui esquecer essa pessoa.
Helena praticamente prendia a respiração.
— Isabelly Velloci…
Arnold desceu do pequeno palco improvisado.
E então ajoelhou diante dela. O salão inteiro explodiu em murmúrios.
— Você aceita se casar comigo?
O mundo pareceu parar.
Isabelly ficou imóvel por puro choque.
Depois veio a raiva. Uma raiva quente, sufocante, humilhante.
Ela lentamente ergueu os olhos para Helena.
E perguntou diante de todos:
— Era isso que você queria?
Helena perdeu completamente a postura por um instante.
Sem resposta. Sem controle. Sem reação.
O silêncio constrangedor tomou conta do ambiente.
Arnold ainda ajoelhado, completamente sem entender o que estava acontecendo.
E Isabelly, com lágrimas se acumulando nos olhos, finalmente respondeu:
— Me desculpe Arnold...
A palavra saiu firme. Dolorida. Definitiva.
Ela deu um passo para trás.
— Eu não posso aceitar o seu pedido.
O salão inteiro parecia em choque.
Margot sem reação. Helena humilhada diante dos convidados.
Lorenzo observando a filha com tristeza e preocupação.
E Isabelly… apenas queria desaparecer.
Ela virou-se rapidamente e saiu em direção a casa, segurando o choro até alcançar o quarto de hóspedes.
Assim que fechou a porta… as lágrimas finalmente vieram.
Pesadas.
Misturadas à sensação horrível de ter sido exposta como peça de negociação diante de todos. Ela sentou na cama tentando respirar.
Mas só conseguia pensar em uma coisa:
Alex jamais faria aquilo com ela.
Enquanto isso, em Seattle uma chuva fina caía sobre a cidade.
Alex estava no sofá com Milu deitado ao seu lado enquanto algum filme antigo passava na televisão sem realmente prender sua atenção.
O apartamento estava silencioso. A cidade também.
E mesmo tentando ocupar a mente… ele ainda sentia a falta dela em cada detalhe daquela noite.
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